Especial Bola Branca
Afinal quanto custam os cromos do Mundial? Panini diz que "não é nenhuma fortuna". Quem faz, discorda
08 mai, 2026 - 08:00 • André Maia
A Renascença fez as contas: em 20 anos, o preço das saquetas de cromos do Mundial aumentou 275%. Matemáticos apontam para custos entre 500 e 1.500 euros. A Panini desvaloriza e explica aumento de preços à Bola Branca: "Não é nenhuma fortuna."
— Tens para a troca?
— Tenho.
— Falta-me o Águas, tens?
— Tenho dois, mas não sei se troco, que é dos mais difíceis.
— Meu amigo, dou-te um Coluna!
— Um Coluna?! Está bem!
A conversa aconteceu no pequeno ecrã. Foi assim que o público português conheceu Carlitos, o protagonista de uma das mais aclamadas séries da história da ficção portuguesa, "Conta-Me Como Foi", da RTP, de 2007, que retratava os tempos do pré-Revolução.
Aos dez minutos do primeiro episódio, Carlos fala pela primeira vez, num diálogo com os dois inseparáveis amigos da série, Luís e Marinho. O canal público tinha uma lista infinita de temas para dar voz à primeira aparição do grupo, mas escolheu um: os cromos da bola.
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Em 1968 como em 2026, a febre dos cromos nunca desapareceu – até está na moda. Mas também está mais cara e atinge valores recorde – no termómetro e na carteira. Valores que nem Carlitos nem os amigos alguma vez imaginariam.
Em altura de Mundial, a tradicional caderneta de cromos do Campeonato do Mundo, da Panini, já está nas bancas e é a maior, mais cara e mais difícil coleção de futebol de sempre: as saquetas custam pela primeira vez mais de um euro, os pais e colecionadores queixam-se dos preços e há uma procura por cromos “pirata” como nunca se viu.
A Renascença viajou no tempo, pegou na calculadora e tentou responder à pergunta que todos fazem: afinal, quanto custa a coleção do Mundial 2026? E por que é que está mais cara?
Inflação? Preço das saquetas em Portugal subiu 275% em vez de 40%
A primeira caderneta de cromos oficial de um Campeonato do Mundo foi para as bancas no Mundial 1970, no México. Foi o pontapé de saída para um casamento longo entre a Panini e a FIFA, que continua até hoje – porém, vai haver divórcio em 2031. Desde aí, em 56 anos, a gigante italiana já produziu 15 coleções de cromos de Mundiais, mas nem todas chegaram a Portugal.
A primeira a dar à costa deste cantinho à beira-mar plantado foi a do Campeonato do Mundo de 1982, o de Espanha, bem aqui ao lado. Na altura, a Panini não tinha ainda distribuidora própria em Portugal e, por isso, passou essa missão à Agência Portuguesa de Revistas. A caderneta custava 25 escudos, o equivalente a qualquer coisa como 12 cêntimos na moeda atual.
É um preço tão longínquo quanto esse tempo. Quarenta e quatro anos depois, a caderneta custa 40 vezes mais e já não é vendida em separado: agora, na coleção do Mundial 2026, vende-se por cinco euros e traz consigo quatro saquetas “gratuitas”. É um valor recorde na história do colecionismo de cromos de futebol em Portugal.
O mesmo se pode dizer quanto às saquetas. A subir continuamente de preço em Portugal nos últimos três Mundiais (desde 2018), o valor ultrapassa pela primeira vez um euro por pacote, fixando-se nos 1,50 euros. É um aumento de 50 cêntimos por saqueta, o maior de sempre.
Comparando com o Mundial 2006, há 20 anos, as saquetas vendiam-se por 40 cêntimos, numa subida de 1,10 euros. Viajando 15 anos, face ao Mundial 2010, o alívio não é menor: as saquetas são 90 cêntimos mais caras do que os 0,50 euros que custavam na altura.
Mesmo a inflação é atropelada pelas contas: o preço por saqueta de cromos do Mundial 2026 está 275% mais caro do que o preço praticado no Mundial 2006, há 20 anos. A inflação acumulada desde aí, em Portugal, ronda os 40%-50%. Ou seja, se o preço por saqueta acompanhasse apenas o aumento da inflação, hoje seriam vendidas por 56 cêntimos. Utilizando a calculadora da Pordata, que utiliza o deflator de preços do Índice de Preços no Consumidor, chegamos a um aumento real maior: 150%. Ou seja, as saquetas vendidas a 0,40€ da altura seriam vendidas agora a 1€.
E o número de cromos que cada saqueta contém não conta? A Panini tem apostado nessa bandeira: nunca uma saqueta de cromos de um Mundial trouxe tantos cromos. São sete, ao contrário dos cinco que vinham já desde o Mundial de 2006.
A matemática acaba por ser mais simpática por causa disso mesmo. Com sete cromos por cada saqueta de 1,50 euros, cada cromo passa a custar 21 cêntimos, apenas mais um cêntimo do que na edição da coleção do Qatar 2022.
Neste cálculo, percebe-se que o “estrago” maior foi mesmo feito pela coleção do Mundial 2018, na Rússia: foi nesse ano que foi dado o maior salto do preço por cromo de sempre. De 12 cêntimos, passou a pagar-se 18. Certo é que, desde a entrada do Euro, ano do Mundial 2002, o preço por cromo saltou dos oito cêntimos para os atuais 21.
Há mais cromos por saqueta, mas também há um “senão”: há mais cromos para completar a coleção. No total, são 980 autocolantes, outro recorde – e excluímos aqui os cromos especiais de patrocinadores. A coleção está à beira dos 1.000 adesivos, quando há 20 anos, no Mundial 2006, tinha “apenas” 597.
O aumento do número de equipas no Campeonato do Mundo, de 32 para 48, potenciou também o aumento do número de cromos. Nem mesmo na última alteração de formato – de 24 seleções para 32, em 1998 – se assistiu a subida tão elevada. Aí, a Panini aumentou a coleção em 117 figuras. Este ano, aumentou em 310.
É esse número estratosférico de cromos que muito contribui para o rombo no orçamento de quem quer fazer a coleção. Mas façamos as contas de uma vez: quanto custa fazer a caderneta de cromos do Mundial 2026?
210 euros só num cenário utópico. Especialistas apontam para 500 a 1.580
Num cenário ideal – mas também completamente utópico –, em que todos os cromos saíam à primeira e sem qualquer repetido, a coleção ficaria completa comprando “apenas” 140 saquetas e gastando 210 euros.
Mesmo assim, o choque é fácil de observar: há 20 anos, colocando o mesmo cenário idílico, um colecionador podia acabar a caderneta do Mundial 2006 gastando 48 euros, o equivalente a 120 pacotinhos. Ou seja, vai sempre, pelo menos, gastar mais 162 euros.
Comparando com o Mundial passado, também se nota a diferença. Com 134 saquetas e 134 euros, a coleção ficaria completa. São garantidamente mais 76 euros este ano. Mas isso é num cenário perfeito. Os repetidos são uma constante em qualquer coleção e a certa altura são eles que dominam. A Panini não revela quais as probabilidades de sair cada cromo e, por isso, resta efabular pela matemática.
Os números são astronómicos: o Instituto de Matemática Pura e Aplicada do Brasil, através do investigador Milton Jara, fez os cálculos para a CNN. Contas feitas pelo matemático, sem trocas de cromos, seriam necessários cerca de 6.750 cromos para completar a coleção. Ou seja, aproximadamente 964 saquetas, a custar 1.446 euros.
Previsão mais dura faz o professor da Escola de Matemática da Universidade de Cardiff Paul Harper. O matemático somou todas as probabilidades de se conseguir um cromo novo e projetou a seguinte fórmula: n (ln (n) + γ), em que “n” é o número de cromos que tem a caderneta, “ln” o logaritmo natural desse número de cromos e “γ” a constante de Euler, com valor de 0,557. Resultado: prevê que sejam necessários 7.316 cromos e 1.569 euros para terminar a coleção sem trocas.
Trocando, a carteira alivia. O mesmo professor Paul Harper calcula que trocas entre duas pessoas reduz o valor em 30% – passando assim para 1.098 euros; trocas entre cinco pessoas baixa a despesa em 57% – ou seja, ficando em 674 euros; e entre dez pessoas baixa em 68% – ficando a coleção em cerca de 502 euros.
Resumindo e baralhando: com infinitas variáveis, e recordando que o colecionismo é também um grande jogo de sorte, completar a coleção do Mundial 2026 pode custar – realisticamente e de acordo com matemáticos – entre os 500 e 1570 euros. Os 210 euros mínimos só mesmo numa utopia. Mas porquê estes preços? A Panini responde à Renascença.
"Preços não são nenhuma fortuna”. "Fortuna" é pagar a FIFA e seleções, diz Panini
Lluis Torrent é diretor-geral da Panini Espanha, que acaba por ser quase uma Panini ibérica. A subsidiária portuguesa da empresa tem pouca independência e os destinos da gestão acabam muito por ser decididos no país de "nuestros hermanos".
Em entrevista à Renascença, responde ao porquê de os preços terem aumentado tanto neste Mundial 2026. A culpa, sugere, é da FIFA: "Os direitos que tivemos de pagar a cada uma das federações e à FIFA comportam um aumento enorme do mínimo garantido. Por isso, logicamente que temos de o cobrir, para que não haja nenhum problema nesse aspeto. Não tivemos outro remédio que não fosse subir o preço.”
Afinal, quanto pagou a Panini para assegurar os direitos de imagem e propriedade da FIFA World Cup?
“Evidentemente que não podemos revelar dados do nosso código empresarial, mas pagámos uma fortuna. Uma fortuna”, diz a Bola Branca.
Só se sabe que o acordo foi fechado em 2023, tem validade até 2030 e não vai ser renovado depois disso, com a coleção a passar para as mãos da Topps. Pouco mais é conhecido.
No entanto, há um valor (mais ou menos) conhecido: quanto custa completar a caderneta. Lluis Torrent alinha apenas pelo tal valor mínimo – e utópico – de 210 euros. Mas mesmo esse número não assusta o líder da Panini em Espanha.
“É uma quantia significativa, mas não é uma fortuna, de todo. Primeiro, porque estes 210 euros não são pagos de uma só vez. São gastos gradualmente, pouco a pouco, para que o colecionador os possa comprar ao longo do tempo. Depois, porque geralmente a coleção começa com crianças, mas, como é o Mundial, torna-se um assunto de família, um negócio de casa. Provavelmente, o pai, o avô ou o irmão mais velho vão participar. Estes 200 euros são assim distribuídos ao longo de dois meses e divididos entre duas ou três pessoas. Não são propriamente uma fortuna”, considera Torrent.
Menor fortuna será se não houver repetidos, palavra que o responsável quase parece desconhecer. Lluis Torrent deixa a garantia aos ouvintes e leitores da Renascença: “Não há muitos repetidos. São tantos cromos, 980, que só vêm alguns nas caixas. Mas ter cromos repetidos faz com que possas trocá-los com os seus colegas de trabalho ou da escola, por isso não é nada mau, até é uma coisa boa.”
Em entrevista a Bola Branca, o diretor-geral da Panini Espanha desvaloriza, ainda, o aumento dos preços e explica com a matemática.
“Não se trata de um aumento significativo. No último Mundial, uma saqueta custava 1 euro e tinha cinco cromos, o que equivale a 20 cêntimos por cromo. Ora este ano temos 1,50 euros a dividir por sete cromos, dá 21 cêntimos. Em quatro anos que passaram, e com o aumento do custo de vida, acho que foi bastante correto, sinceramente”, afirma.
Quem faz habitualmente as coleções não parece concordar.
"200€? Esquece isso!". Quem coleciona torce o nariz ao preço e à qualidade da caderneta
Hugo Silva ri-se quando ouve a previsão do líder da Panini. É uma autêntica enciclopédia ambulante da história dos cromos de futebol em Portugal: tem mais de 500 cadernetas meticulosamente arquivadas, todas elas documentadas e digitalizadas. São praticamente todas as que já existiram nas bancas portuguesas. Com todo esse espólio, já escreveu dois livros sobre o tema, "Por Falar em Cromos… e a Cromopédia do Futebol Português", uma autêntica "bíblia" do colecionismo de cromos em Portugal.
É na base dessa experiência que não tem dúvidas: "Duzentos euros para acabar a coleção? Impossível, é um valor irrealista. Apontaria mais para a casa dos 300 ou trezentos e tal. E isto é para completar a coleção base, porque se eu quiser ter a coleção toda, com os cromos extra, nem 500 euros chegam."
Antigamente talvez, mas as coisas estão muito diferentes. Hugo, de 49 anos, professor de educação física, lembra com carinho tempos diferentes para colecionar.
"Estas coleções agora são cada vez mais difíceis de completar e perde-se um bocadinho aquele espírito do colecionismo que havia antes, parece-me. É mais um negócio. Há 20 anos, não me lembro de haver negociantes de cromos, sem ser aquelas pessoas que estavam ao pé das estações de comboios, naquelas banquinhas. Agora há dezenas e dezenas deles, de pessoas que não são colecionadores. Estão no mundo do colecionismo, mas apenas como revendedores de cromos", conta a Bola Branca.
Não foi só o espírito que ficou lá atrás. Para Hugo, também a qualidade das cadernetas acabou por cair.
"A gramagem do papel tem vindo a piorar. As páginas são páginas que se a gente folhear com um bocadinho mais de força, se calhar já rasgam. Até os cromos são impressos num papel muito mais fininho do que antigamente", descreve o autor da "Cromopédia do Futebol Português".
Gil Ferreira concorda. Tem cerca de 300 cadernetas de cromos de futebol na sua estante branca, junto à janela do escritório, onde recebeu a Renascença. Uma divisão que também serve de estúdio de gravação para o seu alter ego: é o "Canal Cromo". Em 2016, há 10 anos, criou no YouTube um canal com esse mesmo nome, para partilhar a paixão pelas coleções de cromos de futebol.
Numa década, construiu uma comunidade com quase 70 mil subscritores em várias plataformas. O YouTube é onde tem maior palco, com mais de oito milhões de visualizações nos vídeos. Uma prova de que a febre dos cromos está a rebentar com os termómetros. Mesmo sendo a coleção mais cara de sempre e mesmo perdendo qualidade.
“A qualidade dos cromos do Mundial é mais fraca que, por exemplo, a qualidade dos cromos da nossa Liga. E isso não é de agora. E a Panini sabe muito bem que é uma coleção que se vende a toda a gente, que toda a gente vai comprar e sabe que, por causa disso, pode baixar a qualidade”, aponta.
Apesar de tudo isso, Gil não tem dúvidas: "Vai ser um sucesso de vendas, de certeza. Acho que a do Mundial 2022 foi a coleção mais vendida de Mundiais aqui em Portugal e até então era a coleção mais cara de todas. E pelo que vejo nas redes sociais, há imensos influencers que nunca falam sobre cromos a fazê-lo. Claro que isso influencia gerações mais jovens a comprar também. Tenho a certeza de que a coleção vai ser um sucesso.”
Ainda assim, o criador de conteúdos partilha as preocupações de Hugo e de outros colecionadores relativamente aos novos preços. Principalmente a pensar no futuro: “Eu acho que corremos o risco de afastar as crianças e as famílias mais frágeis da coleção. Aliás, acho que atualmente o público-alvo da Panini para certas coleções já deixou de ser as crianças e passou a ser mais os adultos. Eu não sei a quanto é que está a semanada das crianças atualmente, mas 1,50 euros por saqueta é muito caro."
Ainda assim, há boas notícias. Gil não é tão pessimista como os matemáticos quanto ao custo global da coleção. E dá algumas sugestões para mitigar o investimento.
“Existem estratégias para tentar poupar algum dinheiro e até para rentabilizar a coleção. A primeira passa pelos 'cromos extra’ [cromos raros que mostram o jogador em ação]. Podes aproveitar para vender esses cromos ou trocar por vários. Já vi em grupos de trocas no Facebook um ‘cromo extra’ a ser trocado por 40 cromos normais. É uma estratégia perfeitamente válida”, assinala.
“Com trocas e muita paciência, uma pessoa chega lá. Existem eventos de trocas, por exemplo na loja Colecionar em Alfragide, num centro comercial; há também sites de trocas, como o 'LastSticker.com'. São ferramentas que podem ajudar a pessoa a poupar algum dinheiro, em vez de comprar saquetas para saírem só repetidos”, sugere o criador do "Canal Cromo".
Há quem vá ainda mais longe: com o aumento dos preços, surgem também focos de pirataria.
Sim, as coleções de cromos também têm um mercado paralelo, cromos falsificados ou imprimidos em casa por quem quiser completar a coleção quase sem sair de casa e abrir a carteira. Basta uma pequena caminhada pela rede social X ou pelo Reddit para encontrar exemplos. Num dos casos, um utilizador partilha o link de um ficheiro em formato PDF, com todos os cromos digitalizados e com instruções de como imprimir. O "tweet" foi visto por mais de 300 mil pessoas, com os ficheiros repartilhados infinitamente.
Hugo Silva não fica surpreendido: "Se existem cromos falsificados? Existem, existem, eu já vi toneladas deles. A quantidade que já me passou pelas mãos... é super comum, não é de agora. O que é de agora é que as coisas estão muito mais desenvolvidas: as fotocopiadoras são melhores, as reprografias são melhores, as máquinas que podemos ter em casa são melhores, a inteligência artificial... tudo isso faz com que eu consiga reproduzir algo de uma forma muito mais próxima daquilo que existe na verdade."
Sobre isso, a Panini está atenta.
"Estamos sempre muito vigilantes em relação à falsificação e tomamos medidas legais imediatas. Por outras palavras, qualquer pessoa que se envolva em falsificação, para que fique bem claro, corre o risco de enfrentar graves problemas legais e financeiros. Não o podemos impedir completamente, mas estamos muito atentos e agimos prontamente", avisa Lluis Torrent a Bola Branca.
Por enquanto, seja lícita ou ilicitamente, a febre dos cromos está na rua e os colecionadores fazem o que podem para preencher as páginas. Não há ainda números quanto a vendas em Portugal da coleção do Mundial 2026, mas uma coisa é certa: no site da Panini Portugal, as caixas maiores – e mais caras –, de 50 e 143 saquetas, estão esgotadas.















