Mundial 2026
As explicações e os desabafos de Martínez: "Vamos começar a lutar contra a história"
19 mai, 2026 - 14:44 • Hugo Tavares da Silva
O selecionador nacional, Roberto Martínez, anunciou esta tarde a lista de 27 futebolistas que vão viajar para as Américas, para a nona participação de Portugal em Campeonatos do Mundo, numa história que começou em 1966.
Pouco depois de se sentar na cadeira lambida pelos holofotes da sala de imprensa da Cidade do Futebol, em Oeiras, onde ia definir os ventos e as disposições de um país inteiro com o Mundial no horizonte, Roberto Martínez foi direto ao assunto. Explicou logo que estariam na convocatória quatro guarda-redes, um motivo de esbugalhamento de olhos. Daí os 27 convocados quando eram esperados apenas 26 (nota: o guarda-redes extra não roubou o lugar a qualquer jogador de campo).
A seguir a anunciar os futebolistas (que cumprem o sonho de menino), naquela sua cadência já tão habitual e como quem veste um alvo invisível para fins de desamor nacional, vieram as perguntas. E normalmente pergunta-se por quem não está. Não estão na lista João Palhinha, Ricardo Horta, que levou a uma reação de António Salvador qual Lucky Luke nas redes sociais, Rodrigo Mora, António Silva, Mateus Fernandes, Pedro Gonçalves e Paulinho, a certa altura um jogador que parecia consensual para as convocatórias, uma espécie de ‘polémica Romário’ dos pobres (para quem não tem lembrança, pesquisar: Scolari, Romário, 2002).
Acha que sabe tudo sobre o treinador do FC Porto? Ouça o podcast O Código Farioli
Mundial 2026
🏆 A lista de Martínez: Guedes, Samu Costa e quatro guarda-redes; Paulinho, Horta e Palhinha de fora
Roberto Martinez anunciou a lista de 27 jogadores (...)
“É um dia triste porque precisamos de deixar jogadores de fora que queríamos muito levar, mas só podemos levar 27”, começou por dizer o selecionador, dizendo o óbvio. As obviedades também fazem parte do jogo.
“Por outro lado, é um dia entusiasmante, é o início, vamos começar a lutar contra a história. Vamos tentar estar juntos, utilizar os nossos valores e, parafraseando o Pedro Abrunhosa, fazer o que nunca foi feito”, acrescentou, naquele seu jeito otimista, talvez lembrando que o melhor que Portugal fez foram duas semifinais em 1966 e 2006, com demasiadas saídas precoces no torneio dos torneios. Muito bem, Roberto Martínez a citar o artista para não ter os problemas que o Bloco de Esquerda teve…
“Os jogadores foram escolhidos depois de um processo profissional, honesto, com muito trabalho”, garantiu o homem que já viveu dois Mundiais pela Bélgica, com desfechos opostos, em 2018 e 2022.
O espanhol que tem em Cruijff a maior inspiração torceu o nariz sempre que lhe falaram em gente de fora. Afinal, para ele, contam os que estão dentro. São 27. Ah!, a história do guarda-redes: Ricardo Velho, do Gençlerbirliği, juntou-se a Diogo Costa, Rui Silva e José Sá.
Já segue a Bola Branca no WhatsApp? É só clicar aqui
A explicação foi simples: o regulamento indica que é essa a única posição que permite substituição, em caso de lesão, durante o torneio. Por isso, Velho assim habitua-se à pedalada dos treinos e suaviza a vida aos outros três, pois trabalha-se “muita finalização” e exercícios no último terço, já que haverá mais tempo do que habitual entre jogos. Sabendo que não pode ir para o banco no próximo Campeonato do Mundo, Velho “demorou dois minutos” a aceitar ajudar a equipa. “É esse o espírito que precisamos”, celebrou.
Quanto aos centrais e à escolha de Tomás Araújo em detrimento de António Silva, Martínez lembrou que trabalhou com todos e que a escolha acaba por respeitar a compatibilidade deles. E também o encaixe com os rivais, afinal, os jogos contra a RD Congo, Colômbia e Uzbequistão terão desafios diferentes. “Se houver uma lesão, é o primeiro central a entrar”, esclareceu o treinador.
A conferência de imprensa estendeu-se por muito tempo, parecia interminável, havia muitos jornalistas e alguns testaram o bis e hat-trick de perguntas no início. Finalmente, chegou a questão do avançado. Gonçalo Guedes foi chamado para se juntar a Cristiano Ronaldo e Gonçalo Guedes. Porquê?
“Para o terceiro avançado, procurámos o jogador com características mais próximas ao nosso Diogo [Jota], já fizemos isso durante o Europeu e Liga das Nações”, explicou. Temos dois jogadores de referência, pontas de lança, 9, Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos. O Gonçalo Guedes é um jogador com mais flexibilidade, pode jogar por fora e por dentro, abrir os espaços, contra-ataques, movimentos diferentes de um ponta de lança.”
E repetiu o que dissera antes, quando não convocou Paulinho e depois convocou Paulinho para a digressão no México e Estados Unidos: tem o perfil de Cristiano e Ramos.
Este homem que fala com um espírito como se estivesse sempre sol promete orgulho, não promete golos. “O nosso grupo mostra que sabe vestir a nossa camisola. Esforço, união, vontade de sonhar”, assim resumiu o que prometeu. “Depois, saber porque é que não ganhámos o Mundial durante a história, o adversário é muito bom mas também há pormenores importantes. O adepto pode esperar um grupo comprometido, preparado para lutar e dar tudo com muito orgulho.”
Às tantas, para justificar presenças e ausências, mencionou a “complexidade do torneio”, assim como a “exigência da temperatura”, o “fuso horário” e o que aprenderam com o tal estágio de março pelas Américas. “Acho que há posições em que precisamos de ter mais do que dois jogadores por posição”, assumiu.
Assim justificava a presença de cinco laterais – Nélson Semedo, Matheus Nunes, Diogo Dalot, João Cancelo e Nuno Mendes –, sendo que alguns deles são tão polivalentes que podem jogar no meio, notou.
A zona dos magos estará entregue a João Félix, Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Francisco Trincão. “Aqui não entram outros jogadores que também fizeram épocas espectaculares, nomeadamente o Ricardo Horta, o Pedro Gonçalves e o Rodrigo Mora.”
A melancolia também ocupou o rosto de Roberto Martínez durante dois breves minutos quando lhe perguntaram sobre o “mais um” que sempre anuncia a Federação Portuguesa de Futebol, numa alusão ao desaparecimento de Diogo Jota.
“É a nossa força, a nossa alegria. Perder o Diogo Jota foi um momento inesquecível e muito difícil, mas o dia seguinte foi uma responsabilidade para todos nós, para lutarmos pelo sonho do Diogo e pelo exemplo que ele sempre foi na nossa seleção. O espírito, a força e o exemplo do Diogo Jota é o ‘mais um’ e vai ser sempre o ‘mais um’”, desabafou.
Caminhando para o fim da conferência de imprensa, o selecionador foi questionado sobre a gestão de Cristiano Ronaldo, um futebolista que vai estar no sexto Mundial da carreira aos 41 anos (Portugal participou em nove desde 1966). Mas, hábil, Martínez fintou a temperatura, o fuso horário e tal exigência e complexidade do torneio que poderia afetar um jogador mais experimentado, puxando a cartada do coletivo.
“Todos eles estão focados e preparados para a exigência. Temos de gerir bem o dia a dia, é só isso”, simplificou. Afinal, “já temos 40 jogos juntos, gerir um grupo de jogadores durante um Mundial é natural. Acreditamos muito no compromisso e no talento dos jogadores”.
Samuel Costa, uma das surpresas da lista, se é que se pode dizer isso, foi elogiado pela “energia” e “garra” que demonstrou em março, explicou Martínez. É que a “frescura é muito importante para este torneio”, ainda por cima num médio mais defensivo.
Já sobre Rúben Dias, com alguns problemas físicos nos últimos tempos, o selecionador tranquilizou o povo. O central do Manchester City está bem. “Está há três jogos preparado.”
Outra informação relevante é a chegada ao estágio apenas dia 6 por parte dos jogadores do PSG, que têm a final da Liga dos Campeões para jogar contra o Arsenal. Também nos Estados Unidos os jogadores terão sete dias para arejar e arrumar ideias e desconectar. Antes disso, Portugal vai defrontar Chile e Nigéria, no Jamor e Leiria, nos dias 6 e 10. A partida para o outro lado do charco é dia 12, com destino a Palm Beach, Miami.
Uma história que abanou as redes sociais por cá, nesta terça-feira, foi o cenário de Eli Junior Kroupi, do Bournemouth, ser chamado para o Mundial. Martinez admitiu contactos e a tentativa já em março, mas o jogador, de 19 anos, recusou porque queria representar a França. "Fico contente porque o nosso departamento da federação ficou à frente das notícias", regozijou-se.
E o futuro, mister, e o futuro? Numa altura em que a pressão que lhe caía em cima com a presença por cá de José Mourinho está a esfumar-se, ainda que Jorge Jesus se tenha despedido do Al Nassr, Martínez apostou na tática antiga. “O futuro do selecionador pode esperar, não é importante. Vamos fazer tudo o que o nosso balneário precisa para dar o melhor. A minha posição não é importante. O foco é o Mundial, vamos trabalhar todos juntos.”











