Entrevista Bola Branca
Petit tem uma preocupação para a estreia de Portugal no Mundial 2026: "Ainda não encontrámos a dupla de centrais"
17 jun, 2026 - 09:45 • Luís Aresta (entrevista) , João Malheiro e Beatriz Veloso (vídeo)
Antigo médio internacional português, agora treinador, analisa o papel de Cristiano Ronaldo na seleção nacional e fala dos dissabores do Euro 2004 e do Mundial 2006, na primeira parte de uma entrevista exclusiva à Renascença.
Petit acredita que Portugal tem qualidade para chegar à final do Mundial 2026, no entanto, há um setor que o preocupa: o centro da defesa.
"Acho que ainda não encontrámos a dupla de centrais", confessa o antigo médio internacional português, numa entrevista exclusiva a Bola Branca.
Já segue a Bola Branca no WhatsApp? É só clicar aqui
Nesta entrevista, que Renascença publica em duas partes, a primeira esta quarta-feira, Petit também fala de Cristiano Ronaldo, das gerações do Euro 2004 e do Mundial 2006, e das hipóteses de Portugal no Mundial 2026.
Vamos àqueles anos de 2002-2006, em que o Petit jogou na Ásia e depois na Alemanha. Quão diferente foi passar por esses dois Mundiais?
Foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha carreira, porque acho que todos os jogadores gostam de apresentar o seu país, ouvir o seu hino e estar no Mundial. Eu tive a felicidade de estar em dois Mundiais, em dois Europeus, numa geração de ouro, que foi a de 2002, com muita qualidade, mas com que as coisas não correram como nós queríamos.
Houve um sentimento de desilusão da sua parte e da equipa portuguesa, nessa altura?
Nós todos também somos portugueses e a responsabilidade que tínhamos e a missão que levávamos para esse Mundial era de chegar o mais longe possível. O mais longe possível era andar ali à volta dos quartos de final, meias-finais. Portugal ainda não estava metido ao barulho para ganhar títulos como está agora, mas, pela qualidade que tínhamos de plantel, pela qualidade dos jogadores individualmente, acho que poderíamos ter feito algo diferente.
Assim não aconteceu, abriu olhos à Federação, àquilo que era o futebol português, e em 2006 acabámos por fazer um Mundial totalmente diferente. Tivemos a infelicidade de perder nas meias,finais, num penálti contra a França, mas acreditámos muito que poderíamos chegar à final. Houve ali um pormenor, um detalhe, que faz a diferença nestas competições, mas acredito muito que Portugal agora está muito mais bem preparado que em 2002.
Nesse Mundial de 2006, naquele Portugal-Países Baixos, que ficou conhecido pela "Batalha de Nuremberga", o Costinha tinha sido expulso ali em cima do intervalo, o Petit entra para a segunda parte e ao fim de cinco minutos já estava com um cartão amarelo. Como é que foi lidar com essa situação na altura?
Foi. Vendo outros Europeus, outros Mundiais, sabíamos que os Países Baixos não eram uma equipa tão agressiva, tão intensa como apareceu naquele jogo. Lembro-me bem que a primeira bola que o Ronaldo recebeu, penso que foi o lateral que fez uma entrada que poderia ter acabado com a carreira do Cristiano. Começámos a ver que a Holanda queria meter essas entradas e essas provocações, para que pudesse tirar alguma expulsão. Aconteceu com o Costinha.
Foi um jogo difícil, mas aí viu-se o verdadeiro sangue português. Toda a gente foi solidária, os que jogaram, os que entraram, os que estavam no banco, e acaba por ser um jogo que fica na história dos Mundiais. A "Batalha de Nuremberga", em que houve vermelhos, houve muito amarelos e acabámos por segurar o resultado. Acabámos de ser felizes, mas aí foi uma verdadeira nação, tudo a apoiar, e esse jogo fica marcado.
O Petit, antes desse Mundial, esteve também no Euro 2004. Foram duas campanhas que não terminaram bem para a seleção portuguesa. Que sentimento ficou?
Nós às vezes estamos juntos, a malta que esteve nesse Europeu. Ainda não há uma explicação de como nós perdemos o primeiro jogo com a Grécia e o último jogo. Não sei se foi excesso de confiança, se foi muito relaxamento. Nós acreditávamos que poderíamos ser campeões. Não começámos bem, mas depois começámos a ganhar confiança.
Jogo a jogo, a equipa foi evoluindo, o povo português foi atrás. Aí, o [Luiz Felipe] Scolari teve o mérito de envolver o povo português, com as bandeiras nas janelas, com a multidão que estava nas ruas, com o apoio constante que nós sentíamos e o carinho que nos davam, e depois é a desilusão. A desilusão de perder um Europeu em nossa casa, onde poderíamos ficar na história, mas acho que também demos passos firmes para que as gerações seguintes que vinham, pudessem conquistar esses títulos, como conquistámos o da França.
E depois viria o Mundial 2006, em que Portugal fez de facto uma excelente prestação. Uma seleção que tinha grande qualidade; a atual também tem. Consegue eleger qual das duas é melhor?
Nós apanhámos ali um misto, aquela geração de ouro de 2002, que termina a carreira, penso, o falecido Jorge Costa, o Paulo Bento, o Pedro Barbosa... E aparece uma geração diferente, onde apanhámos também os jogadores do Porto, que tinha sido campeão europeu: Deco, Maniche, Costinha, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho. Apanhámos ali um misto dessa geração de ouro de 2002 com a de 2006.
Éramos uma seleção com muita qualidade, com jogadores a ganhar a Liga dos Campeões, a jogar em grandes clubes, e acho que fizemos um grande Mundial. Foi ali um detalhe, um pormenor naquela meia-final com a França, onde acabámos por perder por 1-0, mas foi uma desilusão. Tanto a de 2004 como a de 2006, acho que poderíamos ter conquistado algo.
E a atual seleção está acima dessa geração?
Os contextos são diferentes, o futebol está muito mais intenso, muito mais inteligente. Agora há ferramentas para tudo, se calhar em 2002 não havia. Não havia muito análise das equipas adversárias com quem íamos jogar e tivemos essa dificuldade com os Estados Unidos, porque era uma seleção desconhecida e em 20 minutos estávamos a perder 3-0. Hoje as seleções têm essas ferramentas que conhecem os jogadores todos ao pormenor.
Nós temos uma seleção forte, também. Não vou estar aqui a ver quem era a melhor, se era de 2006 ou se é esta. São jogadores diferentes, hoje o futebol também está diferente. Acredito muito que esta seleção pode vir a ganhar o título, porque temos jogadores como o Vitinha, como o João Neves, como o Nuno Mendes, o Gonçalo Ramos... São quatro jogadores que jogam no Paris Saint-Germain, que venceu os últimos dois títulos da Liga dos Campeões. Temos o Bruno Fernandes, que foi o melhor jogador no campeonato inglês. Acho que temos uma boa seleção, temos jogadores individuais, temos um coletiva forte, temos várias escolhas... São gerações diferentes.
É na defesa que está o calcanhar de Aquiles desta seleção?
Eu acho que nós ainda não encontramos a dupla de centrais. Temos bons laterais, mas, a nível de centrais, se é [Gonçalo] Inácio com o [Rúben] Dias, se é o [Tomás] Araújo, o Renato Veiga, não sei. Acho que temos ali alguma dificuldade, ainda não encontrámos a dupla que possa dar ali algum sustento.
Tínhamos o Pepe, que terminou, que estava com o Rúben Dias. Temos o Rúben Dias, que ainda está com algumas limitações na véspera da nossa estreia, mas acredito que Portugal possa conquistar ali uma dupla de centrais que possa também dar algum equilíbrio. Temos muita gente para a frente com qualidade e que sabemos que nestes jogos, ao mínimo erro nas transições, nos contra-ataques, as equipas muitas vezes se fecham e podem jogar no erro do Portugal e pode surgir ali algum sabor. Mas acredito muito que o selecionador possa estar a trabalhar na sua melhor dupla de centrais.
E Cristiano Ronaldo, com quem o Petit também partilhou balneário na seleção?
Acredito que Ronaldo possa dar-nos algo diferente. É um jogador experiente, com ambição, com muita vontade. Se calhar, com a idade que tem, tem a mesma vontade de quando chegou à nossa beira em 2004. Acrescenta qualidade, acrescenta experiência, sabe os momentos e os timings muitas vezes...
E o treinador Petit colocaria Cristiano Ronaldo no onze inicial, frente à República Democrática do Congo, por exemplo?
Acho que sim. Não vamos pedir ao Ronaldo para andar a pressionar a defesa do Congo. Agora, sabemos que o Ronaldo, se tiver uma ou duas situações dentro da área, vai fazê-las, porque é um jogador com muita experiência.
O registo dele de golos... E muitas vezes com a idade nós vamos perdendo algumas coisas, mas vamos ganhando outras, e o Ronaldo sabe gerir os tempos, sabe gerir os momentos de jogo, sabe aparecer nas zonas de finalização. Acredito muito que a equipa vai jogar muito para aquilo que, no último terço, o Ronaldo possa dar.
Este primeiro jogo com o Congo tem sempre aquela característica especial de ser o jogo de estreia, de haver ali alguma pressão. Já houve surpresas neste Campeonato do Mundo. Como é que Portugal vai lidar com essa situação?
Acho que é fundamental entrar bem. Nos últimos Mundiais, muitas vezes, não é aquelas seleções que entram logo a ganhar e que depois conseguem chegar aos objetivos, que é a final ou as meias-finais. Há seleções muitas vezes que começam mal, mas depois vão crescendo com a competição e vão-se tornando mais fortes, vão mudando uma peça ou outra, porque a competição assim o permite.
Mas Portugal tem de entrar forte, tem de ser inteligente. Sabemos que vão jogar atrás da linha da bola, vão ter muita gente a defender e tentar sempre as transições, mas acredito que Portugal, com os jogadores que tem, que conseguem sair destas caixinhas, de sair de dois, três jogadores, possa conseguir ter oportunidades para fazer o golo. Fazendo um golo, a seleção do Congo abre-se e Portugal pode tentar fazer mais um ou outro golo.
Todos os jogos são difíceis, ainda agora vimos Cabo Verde, que defendeu muito bem. Outras seleções que têm tirado já alguns pontos a seleções teoricamente também favoritas, mas acredito que este jogo será fundamental para entrarmos bem na competição, conseguir ganhar e estar prontos já para sair desta fase de grupos, para passar para a próxima.
Olhando para o grupo, acredita que Portugal pode fechar na primeira posição? Os outros adversários são Uzbequistão e Colômbia.
Teoricamente, a Colômbia é a seleção que pode fazer frente a Portugal, mas acredito muito. Se nós ambicionamos chegar a uma final, temos de ficar primeiro no grupo. Mas às vezes o importante é passar esta fase de grupos e depois, como dizia o Scolari, é o "mata-mata". Aí, [contam] a experiência, inteligência e essa capacidade de ir eliminando estas seleções e poder chegar onde nós queremos e onde ambicionamos. Por isso, acredito muito que Portugal possa estar presente na final.
Há aqui um conjunto de outras seleções que, tal como Portugal, estão no lote de candidatas. Vê alguma seleção, para além de Portugal, que se destaque e que possa ser encarada como mais favorita do que as outras a ser campeã do mundo?
Acho que a principal tem de ser a Argentina, porque é a tentadora do último Mundial. Depois, temos a Espanha, temos a França, temos uma Noruega — pelos jogadores, os clubes onde eles jogam, por aquilo que tem demonstrado, e tem um selecionador que foi meu treinador na Alemanha, um selecionador ambicioso — que também poderá ser uma surpresa. Porque aparece sempre uma seleção que consegue criar dificuldades, vai ganhando confiança, vai ganhando moral e consegue surpreender muitas seleções.
Acredito que Portugal entre nesse lote da Argentina, da Alemanha, da Espanha, da França.
Como é que olha para este país, para este Portugal em que estamos, em 2026?
Eu estive quatro meses agora no Brasil, mas também estive na Alemanha, e acho que temos um país fabuloso. Um país com segurança, um país com qualidade, onde sabemos receber bem, onde o turismo cada vez mais está a chegar, por aquilo que nos dá, por aquilo que oferece. Muitas vezes, nós portugueses também somos negativos contra nós próprios, contra os nossos governos, assim o dizemos, mas acredito muito que Portugal é um país onde toda a gente gosta de viver.
O Petit também é um homem do mundo, como é que olha para este fenómeno da imigração aqui em Portugal, hoje em dia?
Se não for também a imigração, um pouco, nós não temos gente a trabalhar. Eu costumo dizer que às vezes o português não gosta de trabalhar ao fim de semana [risos].
Se não tivermos essa imigração, para que o país continue a ter economia e andar para a frente, torna-se mais difícil. Nós somos um povo que gosta de receber toda a gente. Agora, com as leis certas, com as pessoas a querer vir trabalhar, acredito que Portugal continue a ter esta qualidade de vida, esta paisagem, desde o norte ao sul, pelo interior, pelo Alentejo. Eu sou um apaixonado por Portugal, gosto de andar a visitar vários sítios, por isso sou apaixonado pelo nosso país.








