Fórmula 1

McLaren vs Ferrari. 16 anos depois, históricas da F1 voltam a disputar um título

08 dez, 2024 - 12:30 • João Pedro Quesado

Barack Obama ainda estava a dois dias de ser eleito para a Casa Branca da última vez que Ferrari e McLaren lutaram entre si por títulos. McLaren pode interromper série de 26 anos sem ser campeã de equipas, Ferrari quer acabar com o jejum de 16 anos.

A+ / A-

A temporada de 2024 da Fórmula 1 tem sido uma das mais competitivas dos últimos anos - mesmo que Max Verstappen tenha sido declarado campeão na antepenúltima corrida. Quatro equipas e sete pilotos diferentes venceram corridas, e todos têm mais que uma vitória. A performance dos carros tem flutuado conforme as exigências de cada pista, a altura do ano, as temperaturas, a direção do vento, de cair chuva ou estar sol – e inspirações momentâneas dos pilotos e das equipas.

O resultado, graças à fraqueza do segundo piloto da Red Bull e às inconsistências da Mercedes, foi chegar à última corrida do ano com Ferrari e McLaren a lutar pelo título de construtores pela primeira vez em mais de década e meia. Na partida para o Grande Prémio de Abu Dhabi deste domingo, a McLaren arranca com os dois carros na frente e 21 pontos de vantagem na tabela. Mas com um máximo de 44 pontos para marcar e 20 pilotos a querer acabar a temporada em alta, as coisas podem complicar-se rapidamente.

A rivalidade entre Ferrari e McLaren é uma das mais históricas da Fórmula 1, mas está adormecida há tanto tempo que já nada é igual – nem na F1, nem no mundo.

Da última vez que as duas equipas lutaram entre si por títulos, ainda faltavam dois dias para Barack Obama ser eleito para a Casa Branca pela primeira vez. Taylor Swift ainda só tinha lançado dois álbuns de estúdio, e pouco tinha saído do estilo country. A trilogia dos filmes Batman realizados por Christopher Nolan ainda ia apenas no segundo filme, e os cinemas eram dominados por “Quem Quer Ser Milionário?”, “O Panda do Kung Fu”, “O Estranho Caso de Benjamim Button” e “Gran Torino”. Mad Men ganhou o Emmy de melhor série dramática, os “Gato Fedorento” estavam de regresso à “SIC”, via-se a sexta temporada de “Morangos com Açúcar” e ainda não se tinha visto a terceira temporada de “Conta-me Como Foi”.

No Grande Prémio do Brasil de 2008, a McLaren ainda se vestia de cinzento cromado, representante da Mercedes na F1. Lewis Hamilton, que vai vestir as cores da Ferrari em 2025, estava apenas no segundo ano na Fórmula 1, e conquistou o título de pilotos na última curva da última volta, aproveitando uma aposta falhada da Toyota para recompensar o brilhantismo de vitórias como a de Silverstone. O colega de Hamilton era Heikki Kovalainen, o simpático finlandês que cumpria a função de não abanar demasiado o barco de Woking.

Nesse ano, os cinco títulos consecutivos de Michael Schumacher na Ferrari ainda eram uma memória recente. Kimi Räikkönen tinha vencido o campeonato de 2007 de vermelho depois de sair da McLaren, e foi o brasileiro Felipe Massa que procurou – e não conseguiu – reter o título de pilotos em Maranello. Foi a rapidez dos dois pilotos que deu à Ferrari o título de construtores, compensando os motores que dinamitaram vitórias.

Em 16 anos, não só a F1 mudou radicalmente, como as equipas são completamente diferentes. Se a McLaren teve seis diretores diferentes, a Ferrari teve cinco; 11 pilotos passaram pela equipa de Woking, que ganhou 26 corridas, e nove passaram pela Scuderia, que teve 39 vitórias. Em três temporadas, nem Ferrari nem McLaren ganharam nada.

O carrossel McLaren: entre o topo e o risco de falência

Entre as duas, foi definitivamente a McLaren que passou as passas do Algarve. A equipa esteve sem vencer entre o fim de 2012 e meados de 2021.

Depois da luta até ao fim de 2008, as novas regras de 2009 complicaram as corridas à McLaren. Porém, no ano seguinte, o serviço habitual foi retomado, e Lewis Hamilton foi um de quatro pilotos a chegar à última corrida com hipóteses matemáticas de ser campeão - o que não conseguiu.

No final de 2012, o MP4-27 era provavelmente o melhor carro, mas o título já estava fora de alcance depois de uma temporada de erros e falta de fiabilidade. A decisão, tomada em meados desse ano, de mudar completamente a filosofia mecânica e aerodinâmica para o carro de 2013, seria o início de uma dolorosa espiral descendente.

O carro começou muito bem os testes, mas a equipa cedo percebeu que havia um erro – tinha montado uma peça da suspensão ao contrário. A temporada não correu bem e Pérez não foi um substituto à altura. A mudança de regras de 2014 não ajudou, nem a mudança de 2015 para motores da Honda – com menos potência e fiabilidade que todos os outros.

A nova parceria com a Honda nunca teve os resultados desejados. Depois de progressos em 2016, 2017 foi um enorme passo atrás. Fernando Alonso, que tinha regressado à McLaren, tinha cada vez menos paciência para as dificuldades da Honda, e a parceria, descrita como um “completo desastre” pelo então diretor de equipa, acabou ao fim do terceiro ano.

A mudança para motores da Renault, também usados pela Red Bull, destapou deficiências da McLaren que os maus motores da Honda tinham disfarçado. Zak Brown assumiu a liderança do departamento de competição da McLaren em 2018 e começou a fazer mudanças. O carro praticamente despido de patrocinadores era apenas sintoma da doença que assaltado a equipa.

Essa doença ameaçou a existência da McLaren numa altura em que, já com Lando Norris e Carlos Sainz Jr. como pilotos, o ambiente era de recuperação. Em 2020, a McLaren sofreu financeiramente e sentiu a falência a chegar perto. Para a evitar, vendeu não só uma quota minoritária na equipa como, no ano seguinte, alienou a sede do grupo (e alugou-a de volta) para injetar mais dinheiro.

Foi em 2021 que a seca de vitórias parou, pelas mãos de Daniel Ricciardo, em Monza. A seca voltou nos dois anos seguintes, mas, em 2024, reestruturada e com o investimento de um novo túnel de vento, a equipa soma até agora cinco vitórias. Tirando a cor, e a ausência das obsessões clínicas de Ron Dennis, é quase como se nada tivesse mudado desde 2012.

Os cinco títulos perdidos da Ferrari

A equipa do Cavalinho Rampante não passou por uma espiral aparentemente interminável, mas usou algumas vezes a famosa palavra “reestruturação” para responder a crises, e até viu tragédias pessoais mudar os destinos da equipa.

Tal como a McLaren, 2009 começou complicado, com um carro que seria apenas o quinto mais rápido. Quando as vitórias pareciam estar ao alcance, Felipe Massa ficou perto de perder a vida, graças a uma mola de suspensão de outro carro, um Brawn GP, se soltar e bater-lhe diretamente no capacete, por cima do olho direito. Regressar em 2010 foi a única opção para o brasileiro.

2010 foi diferente. O campeonato foi de atrito e renhido até ao fim mas, em Abu Dhabi, a equipa focou a estratégia de Fernando Alonso em derrotar apenas e só um Red Bull, o de Mark Webber, acabando os dois por ficar presos atrás de um Renault - enquanto o outro Red Bull, de Sebastian Vettel, fugiu com o título.

Depois de apenas uma vitória em 2011, 2012 começou mal, com um carro tão instável que apenas os cofres fundos da Ferrari seriam capazes de pagar o investimento necessário para corrigir os problemas. Mas o que valeu mesmo foi o “kit de unhas” de Alonso, que fez então a que é reconhecida como a melhor temporada da sua carreira e arrastou o F2012 para pódios e vitórias que não merecia. Vítima de dois acidentes em arranques, o espanhol foi superado de novo por Vettel na última corrida, agora no Brasil.

O bom início de 2013 esfumou-se com uma mudança de pneus pela Pirelli. Em 2014, ano de mudança nas regras dos motores, apenas Alonso conseguiu arrastar o Ferrari para alguns pódios, de tão má que era a situação.

2015 foi o ano de chegada de Vettel, e de três vitórias antes do sacrifício de 2016 – feito conscientemente para aproveitar a mudança de regras em 2017. Entretanto, a equipa perdeu o diretor técnico, James Allison (atualmente na Mercedes), que tinha contratado em 2013, devido à morte da esposa do engenheiro, que forçou o britânico a voltar a Inglaterra para se focar na educação da filha.

2017 e 2018 começaram bem, mas puseram a nu as dores de crescimento da equipa – num ano, por o salto na mecânica ser feito à custa da fiabilidade, no outro por a equipa cometer erros de estratégia e escolher um caminho errado para desenvolver o carro.

O carismático diretor executivo de então, Sergio Marchionne, morreu repentinamente após uma operação a um ombro, abrindo espaço para uma guerra interna entre o então diretor da equipa, Maurizio Arrivabene, e o futuro diretor, Mattia Binotto, pela liderança.

Binotto acabou por ser vítima de uma série de temporadas aquém das sempre pesadas expectativas para a Ferrari. 2019 interrompeu o crescimento dos dois anos anteriores, mesmo com um novo piloto (Charles Leclerc) na equipa; 2020 foi a pior temporada da equipa desde 1980, depois de um acordo secreto com a federação sobre os motores usados em 2019; e 2021 foi a recuperação possível quando as alterações permitidas aos carros eram muito poucas.

Em 2022, a equipa começou o ano outra vez com um carro capaz de vencer. Mas perdeu-se de novo no desenvolvimento e provou não ter rumo no departamento de estratégia, o que fez Binotto demitir-se antes que pudesse ser despedido.

2024 marcou o regresso a vitórias regulares, que a Scuderia e os seus adeptos querem que seja um passo firme em direção à conquista dos títulos de 2025.

O ano de 2024 é um ano de superação para as duas equipas. Se a McLaren começou o ano em dificuldades, as atualizações que colocou no carro para o Grande Prémio de Miami transformaram o MCL38, possivelmente, no melhor carro do ano - não por ser o mais rápido em todo o lado, mas por ser o mais consistente e com maior margem de manobra. Os pódios e vitórias rapidamente surgiram e, enquanto a Red Bull parecia surpreendentemente perdida, a McLaren mostrava ter aprendido as lições de uma década a atravessar um deserto.

Já a Ferrari, que começou 2024 a morder os calcanhares à Red Bull, teve que recuperar de um retrocesso causado por um novo fundo, introduzido no GP de Espanha, que lhe devolveu as dores de cabeça de um carro saltitante (e, por isso, instável em curvas de média e alta velocidade, e na travagem no fim das retas). Pode-se dizer que a Ferrari de há quatro ou três anos teria entrado em pânico; a Ferrari de 2024 mostrou método, percebeu a raiz do problema, e eliminou-o com novas mudanças no carro.

Juntas, Ferrari e McLaren acumulam 436 vitórias nas mais de 1.100 corridas da história da F1. Apesar da seca de títulos, continuam a ser as equipas mais vitoriosas do desporto, com destaque para a Scuderia – a única equipa a participar na F1 desde o início, com a McLaren a surgir 16 anos depois, em 1966. 2024 é o ano em que um destes nomes históricos, rivais desde Emerson Fittipaldi e Clay Rigazzoni em 1974, volta a ser declarado campeão.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque