23 jan, 2026 - 07:50 • João Pedro Quesado
A Ferrari, eterna candidata ao título na Fórmula 1 — mesmo que não o seja na realidade —, apresenta esta sexta-feira o monolugar vermelho para a temporada de 2026, o SF-26. O nervosismo será palpável em Maranello: falhar o alvo significa não só prolongar a seca de títulos, como a provável queda da atual equipa — a começar pelo seu príncipe, Charles Leclerc, cansado de não conseguir ser rei.
Dois mil e sete foi a última vez que um piloto foi campeão mundial pela Ferrari — quando a temporada de 2026 começar, já terão passado 18 anos, quatro meses e 16 dias. O título de construtores mais recente foi em 2008, há mais de 17 anos.
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“É agora ou nunca”, avisou Charles Leclerc. A frase vale para a paciência do monegasco, mas também para as hipóteses de Lewis Hamilton e para a equipa que Frédéric Vasseur montou em Maranello.
Charles Leclerc chegou à academia de jovens pilotos da Ferrari em 2016. É piloto da Ferrari na Fórmula 1 desde 2019. Desde aí, só não foi o piloto da equipa com mais vitórias em 2023 — quando Carlos Sainz foi o único piloto extra-Red Bull a vencer em toda a temporada.
A estatística não se aplica aos anos de 2020, 2021 e 2025. A Ferrari não venceu nenhuma corrida nessas três temporadas, e Leclerc ficou a ver outro piloto da sua geração a acumular vitórias: Max Verstappen.
O título mundial de Lando Norris em 2025, em disputa com Oscar Piastri, esfrega sal na ferida — principalmente porque os dois, mais novos, ultrapassaram Leclerc no total de vitórias na carreira na F1. Se a hipótese de uma vantagem da Mercedes em 2026 se confirmar, o monegasco pode ainda ver George Russell e Kimi Antonelli fazer o mesmo.
“É agora ou nunca, portanto espero mesmo que comecemos esta nova era com o pé direito, porque é importante para os quatro anos seguintes”, avisou Charles Leclerc em dezembro. “A equipa toda está enormemente motivada para o próximo ano, porque é uma mudança grande, uma oportunidade enorme para mostrar do que a Ferrari é capaz”.
A Ferrari começou bem os últimos dois ciclos de novas regras, em 2017 e 2022. Não começou bem a última vez em que uma mudança de regras implicou criar novos motores — em 2014 não venceu, e ficou com uma desvantagem mecânica que criou muitas dores nos anos seguintes, como em 2017 e 2022.
“Pela sexta ou sétima corrida, acho que vamos ter uma boa ideia de quem são as equipas que vão dominar nos quatro anos seguintes”, disse Leclerc. Se entre essas não estiver a Ferrari, o que pode acontecer?
O atual contrato de Leclerc com a Scuderia dura até 2029, e vale 30 milhões anuais aos quais se somam bónus de performance — que valem de pouco sem carro para vencer. Mas Leclerc terá, como outros pilotos, cláusulas de performance que pode ativar, como estar fora dos primeiros três lugares do campeonato a meio da temporada, ou numa data específica.
Três equipas terão vontade de contratar os serviços de Charles Leclerc. Não há dúvidas que uma delas é a Aston Martin, que já terá contactado o agente de Leclerc para apalpar terreno, de olhos postos em 2027. Se é Fernando Alonso ou Lance Stroll — filho do dono da equipa — a abrir caminho para Leclerc, o tempo dirá. Mas para isso é preciso a nova super-equipa de Adrian Newey começar bem, em conjunto com o novo motor da Honda.
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O golpe que uma saída de Charles Leclerc significará para a Ferrari não pode ser subestimado. O monegasco é há muito apelidado de “predestinado” pelos tifosi. Piloto de ‘criação’ própria da Scuderia, tem mantido a fé na equipa ao longo de várias adversidades: anos fracassados, carros que pioram com novas peças e corridas estragadas por más decisões.
Decidir deixar a Scuderia, e procurar o sucesso fora da equipa à qual ainda vai dedicar um oitavo ano, será a confirmação que não é possível ter mais fé na Ferrari moderna, incapaz de se organizar mesmo com lideranças diferentes. Levará ao afiar de facas na implacável imprensa italiana. E terá, certamente, consequências em Maranello.
A chegada de Lewis Hamilton, heptacampeão, injetou uma onda de entusiasmo como há muito não se via na Ferrari. Essa onda demorou pouco a desfazer-se nas rochas da temporada de 2025.
Leclerc conseguiu ir ao pódio sete vezes; Hamilton nunca foi. Leclerc conseguiu uma pole position, Hamilton não. Leclerc somou 242 pontos, Hamilton ficou-se por 156.
As frases desconsoladas do britânico não ajudaram. A honestidade de Hamilton não é desconhecida, mas ouvir um piloto a dizer “a equipa provavelmente precisa de mudar de piloto”, que está a viver “um pesadelo” e é “simplesmente inútil” não deixa de ser chocante.
A mudança de equipa após 12 anos na Mercedes seria sempre grande. Mas foi, ainda assim, subestimada pela Ferrari e por Hamilton, admitiu Frédéric Vasseur, diretor da equipa, ao longo de 2025. E a adaptação ao engenheiro de corrida também não foi a melhor — tanto que Riccardo Adami se mudou para novas funções dentro da Scuderia no início de janeiro. A identidade do novo engenheiro a liderar o lado da garagem de Hamilton ainda não é conhecida.
Com a adaptação de Lewis Hamilton à equipa provavelmente concluída — e da equipa a Hamilton, provada pelas alterações ao desenho do volante testadas no final de 2025 — a questão passa a ser que Lewis Hamilton vai aparecer em pista em 2026.
É conhecido que o estilo de condução do britânico é de travagem tardia e forte, utilizando a inclinação mais extrema produzida por essa redução mais brusca de velocidade para colocar mais carga nos pneus dianteiros e começar a curva mais cedo. De seguida, ao largar progressivamente os travões, a traseira do carro começa a deslizar devido à aderência mais elevada na frente — assim que a maioria da travagem está feita. A sensibilidade de Hamilton permite controlar a rotação da traseira e evitar que se torne numa derrapagem, e ser mais rápido em curva.
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Também é conhecido que a geração de carros entre 2022 e 2025 neutralizava esta técnica de Hamilton, e os potenciais benefícios. Isto porque, dependentes do efeito solo para gerar carga aerodinâmica, os carros têm de estar mais próximos do solo, e não têm variações de inclinação tão grandes como as que Hamilton se habituou toda a sua carreira nos monolugares — desde 2001.
Vão os novos carros servir melhor o instinto de Hamilton? Em teoria, é possível. A perda de 30 quilos deve tornar os monolugares mais ágeis. Mas há que considerar a aerodinâmica ativa, assim como os motores com 50% da potência gerada por energia elétrica, cujos efeitos são desconhecidos.
Se Hamilton se aproximar de Leclerc, as perspetivas podem melhorar. A resistência às mudanças que o britânico está a tentar fazer na Scuderia — tal como Fernando Alonso e Sebastian Vettel — pode reduzir-se. A equipa pode passar a ouvir o heptacampeão, que sabe como uma equipa precisa de funcionar para vencer não só ocasionalmente, mas de forma repetida e esmagadora. E talvez a trajetória da Ferrari mude.
Se Hamilton tiver um segundo ano parecido com o de Vettel em 2020 — longe de Charles Leclerc e apagado em pista —, então será o fim. A Ferrari não ativará a opção do contrato para 2027, e uma grande carreira terminará de forma inglória.
Há vários níveis de risco para a Ferrari em 2026. Uma situação como a de 2017, em que as hipóteses de título de Sebastian Vettel foram extintas por problemas de motor em duas corridas consecutivas perto do final da temporada, não será boa — representa mais um ano sem campeonatos, e uma aproximação do recorde de 21 anos sem títulos. Mas não será terrível: representaria uma grande melhoria.
Uma situação como a de 2022 será mais difícil de justificar. O ataque aos títulos desse ano foi-se esfumando lentamente, entre mais motores a rebentar e vários erros de estratégia — que, para piorar, a equipa liderada por Mattia Binotto (agora na Audi) insistia em defender. Além disso, o carro perdeu performance ao longo do ano, dando maus sinais sobre o departamento técnico.
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A equipa começou bem os dois últimos ciclos de novas regras — precisamente em 2017 e 2022 —, mas tem o padrão de o fazer após o ano anterior ser atirado ao lixo, quer de forma estratégica, quer de forma acidental.
Um dos responsáveis pelo mau carro de 2025 já saiu da equipa: o ex-diretor técnico para o chassis, Enrico Cardile, atualmente na Aston Martin. O novo responsável é Loïc Serra, francês captado por Frédéric Vasseur à Mercedes.
O carro de 2026 será, assim, o primeiro carro verdadeiramente criado pela equipa de Vasseur, que chegou a Maranello em 2023. A performance será um referendo a esta fase da Ferrari: falhar pode significar o fim da paciência de John Elkann e da restante direção da Ferrari para a atual gestão da equipa — um departamento oficialmente chamado de “Gestione Sportiva”.
E a falta de paciência já parece existir. No final do ano, após a conquista dos títulos no Mundial de Resistência, o presidente John Elkann atirou publicamente aos pilotos, afirmando que devem “concentrar-se em conduzir e falar menos”. Ao mesmo tempo, fez afirmações incorretas sobre supostas melhorias no carro em 2025.
Vai a Ferrari desmoronar-se novamente sob o seu próprio peso? Ou vai conseguir escapar aos velhos maus hábitos por mais uma temporada, reconhecendo que é preciso tempo para montar um projeto vencedor (e que a equipa não pode sofrer interferências permanentes da gestão da empresa)?