Fórmula 1
Senna “queria ir para a Ferrari em 1994”. Antigo chefe da Scuderia recorda negociações com lenda da F1
17 abr, 2026 - 10:15 • João Pedro Quesado
É um dos maiores ‘e ses’ dos 76 anos de Fórmula 1. E se Ayrton Senna tivesse ido para a Ferrari? Como teria sido a rivalidade com Michael Schumacher? Teria sido dentro ou fora da Scuderia? As palavras de Jean Todt relembram uma negociação do brasileiro com a Ferrari, mas houve pelo menos outra oportunidade na década de 1990, bloqueada por Alain Prost.
Ayrton Senna queria competir pela Ferrari em 1994 na Fórmula 1, revelou o antigo diretor da Scuderia, Jean Todt. É uma nova peça na história dos últimos anos de vida e carreira da lenda brasileira da F1.
“O primeiro piloto de sonho que debati foi o Ayrton Senna. Foi durante o Grande Prémio em Monza em 1993”, conta o francês no podcast “High Performance”. “Lembro-me que ele veio ao meu quarto em Villa D’Este, estávamos no mesmo hotel, e passámos parte da noite juntos para falar sobre ele juntar-se à Ferrari, e ele queria vir”.
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“Mas ele queria vir em 1994, e em 1994 já tínhamos um contrato com o Gerhard Berger e o Jean Alesi, e disse-lhe que em 1994 não era possível”, explica Jean Todt. “Primeiro, nós ainda não vamos estar prontos” — a Ferrari não vencia títulos de pilotos desde 1979 —, “e depois temos um contrato, e ele respondeu-me ‘na Fórmula 1, os contratos não são importantes’. Eu disse 'para mim, um contrato é importante'”.
Jean Todt queria que Ayrton Senna se juntasse à Ferrari em 1995, esclarece depois o francês. “Comigo como líder da equipa de Fórmula 1, houve a discussão em setembro de 1993 para ele vir em 1995 e ele queria vir em 1994. Por isso é que ele foi para a Williams”.
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A mudança para a Williams fazia sentido, à superfície. A equipa tinha dominado as temporadas de 1992 e 1993, com Nigel Mansell e Alain Prost como campeões. Mas os instrumentos que ajudaram a esse domínio foram retirados por mudanças no regulamento para 1994, criando dificuldades à Williams e a Senna. Uma história que acabou com a morte de Ayrton Senna a 1 de maio desse ano, no trágico GP de San Marino — onde Roland Ratzenberger já tinha morrido no dia anterior.
“Em 1994 tínhamos os mesmos pilotos, mas estávamos a reconstruir a equipa”, recorda Jean Todt sobre a Ferrari. “Em 1995, ainda a reconstruir a equipa, e depois sabíamos que 1996 era o ano para tentar ter... Muitas vezes, entre engenheiros, os do chassis diziam ‘não temos um bom motor’, os do motor diziam ‘não temos um bom chassis’, e depois acima de tudo não temos bons pilotos. Então disse, ‘ok, vamos assegurar-nos que ninguém pode dizer isso’”.
É assim que Todt chega à contratação de Michael Schumacher. “Como ele era o melhor piloto, tínhamos de o convencer. Discutimos, no início de 1995, e depois passámos um dia em Monte Carlo com o nosso advogado, Henry Peter, e eu, com o Michael e o Willi Weber [agente de Schumacher], e depois de um dia assinámos o contrato”.
Começou assim a ser montada a ‘equipa de sonho’ que levou a Ferrari novamente aos títulos no novo milénio — depois de falhar em 1997, 1998 e 1999, sempre na última corrida. Tal como Schumacher, Ross Brawn e Rory Byrne foram recrutados na Benetton, separadamente, para a direção técnica e a liderança do design. E chegaram depois os títulos consecutivos, entre 2000 e 2004, de pilotos e construtores.
A outra negociação de Senna com a Ferrari
“Eu ouvi dizer que houve contactos antes de mim, mas não posso falar disso, não sei”, diz também Jean Todt. A história contada pelo francês não é totalmente nova — mas é uma oportunidade de recordar a outra aproximação de Senna à Ferrari, em 1990, anterior à era de Todt.
"Ele era o melhor, e eu queria trazê-lo para Maranello”, disse Cesare Fiorio, diretor da equipa entre 1989 e 1991, ao "Corriere della Sera" em 2020. “Ele era demasiado famoso para reunir nos fins de semana de corrida, por isso organizei uma viagem ao Brasil, para a casa dele em São Paulo, para falarmos longe de olhares indiscretos".
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"Depois encontramo-nos novamente em Monte Carlo para finalizar o contrato, mas não foi uma negociação difícil, porque o Ayrton queria mesmo ir para a Ferrari". Esse contrato seria de 30 milhões de dólares — equivalentes a mais de 66 milhões de dólares hoje, ou 56 milhões de euros. O que era simples, contudo, rapidamente se complicou.
“O Fusaro opôs-se”, alegou Fiorio, referindo-se ao então presidente da Ferrari, Piero Fusaro, sucessor de Enzo Ferrari. “Talvez para evitar antagonizar o Prost, talvez para me fazer perceber que ele é que mandava”. Na mesma edição do Corriere della Sera, Fusaro contou o seu lado da história, que começa quando Fiorio apresentou o contrato pronto à liderança da Ferrari e do grupo Fiat. Prost e Mansell eram os pilotos da Ferrari.
“O contrato estava nas minhas mãos, mas o Alain Prost, ignorando a hierarquia, pediu uma reunião privada com Gianni Agnelli. À saída, disse oficialmente que foi reconduzido na Ferrari para a temporada de 1991. Nesse momento, fui apanhado de surpresa”, confessou Fusaro, consultando então o presidente da Fiat sobre a assinatura do contrato — “porque a confirmação de Alain Prost excluía automaticamente a presença do campeão brasileiro”.
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Fusaro afirma que continuou a tentar convencer a direção da Fiat (então dona da Ferrari) “durante um bom tempo”, mas a resposta final foi negativa. “Não havia forma de questionar uma escolha que, certa ou errada, era agora oficialmente atribuída a Gianni Agnelli”.
A aposta de Agnelli — e, por arrasto, da Ferrari — em Prost duraria muito pouco. A temporada de 1991 foi bem mais difícil, com os carros vermelhos longe da luta pelo título. Depois de comparar o carro a um “camião”, Prost foi despedido com efeito imediato uma corrida antes do fim da temporada.
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Terá havido outros momentos onde a Ferrari ponderou contratar Ayrton Senna. O mesmo "Corriere della Sera" refere 1984 — após o GP do Mónaco que quase venceu — e 1986, altura em que terá havido contactos. A última foi já depois da negociação com Jean Todt.
Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari após Piero Fusaro, revelou em 2014 que Senna o abordou dias antes do GP de San Marino de 1994. O piloto foi a casa do líder da Ferrari “a 27 de abril”.
“Falamos durante muito tempo e ele tornou claro que queria terminar a carreira dele na Ferrari, tendo estado perto de se juntar a nós uns anos antes. Concordamos em encontrarmo-nos novamente em breve, para ver como poderíamos ultrapassar as obrigações contratuais dele na altura” — código para perceber como rasgar o contrato com a Williams. A morte de Senna atirou esse futuro por terra.
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Enquanto nenhuma destas histórias é uma total novidade, elas permitem imaginar o quão diferente seria a história da F1. Senna ter-se-ia mudado para a Ferrari ainda em 1994, ou em 1995? Teria a mesma equipa à disposição para construir uma dinastia na F1? Teriam Senna e Schumacher sido colegas na Ferrari? Teria Senna conseguido ser campeão em 1997, 1998 e 1999 pela Ferrari? Como teria sido a rivalidade ao longo dos anos? Quantas colisões, ou encontros imediatos, teria havido em pista? O que seria de Jacques Villeneuve e Mika Hakkinen, campeões no final da década de 1990?
São apenas algumas perguntas a partir de uma mudança em 1994 ou 1995. Uma ida de Senna para a Ferrari em 1991 abre muitas outras hipóteses. Que sejam tantas sublinha apenas o quanto se perdeu na curva Tamburello, no circuito de Imola, a 1 de maio de 1994.














