Desporto Motorizado
Max Verstappen tem um novo desafio: 24 horas no “Inferno Verde” com 160 carros e mais de 600 pilotos
15 mai, 2026 - 10:10 • João Pedro Quesado
O Nürburgring Nordschleife é a prova da frase “as corridas são perigosas”: são mais de 20 quilómetros de curvas entre montanhas do oeste da Alemanha, onde a morte mais recente aconteceu em abril. Deixadas para trás pelos campeonatos mundiais, as 24 Horas de Nürburgring — festival onde se comem 80 mil salsichas — tornaram-se no baluarte das “corridas puras”, onde o piloto de F1 mais bem-sucedido é português: Pedro Lamy.
Como é que um piloto descansa da F1? Se for Lando Norris, vem a Portugal passar uns dias. Se for Charles Leclerc, inaugura o seu novo iate. Se for Max Verstappen, mete-se num carro totalmente diferente da Fórmula 1, num circuito que o Mundial abandonou em 1976 por ser demasiado perigoso.
Verstappen vai competir pela primeira vez nas 24 Horas de Nürburgring, uma das principais corridas de resistência do desporto automóvel — mesmo não contando para nenhum campeonato mundial. Porque não é uma corrida qualquer, nem acontece numa pista comum, mas sim num resquício do passado com mais de 25 quilómetros de extensão e voltas com oito minutos de duração.
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Seja pelo desencanto com a F1, seja porque gosta de tudo o que tem quatro rodas e anda rápido, Max Verstappen vai partilhar um Mercedes com mais três pilotos este fim de semana. Não bastou ser tetracampeão mundial de F1 para participar: foi preciso obter uma licença especial. O entusiasmo é tal que os bilhetes esgotaram, e a organização recomendou que Verstappen não aparecesse no desfile de abertura do fim de semana nem na sessão de autógrafos, devido a receios de segurança.
Que corrida é esta, afinal, onde um português de 21 anos compete em 2026?
O que são as 24 Horas de Nürburgring?
Se a Fórmula 1 for a pop do desporto motorizado, o MotoGP é hard rock e as corridas de resistência são o equivalente à música indie. As 24 Horas de Nürburgring vão mais longe: ou são punk, ou são metal. O melhor é perguntar às mais de 200 mil pessoas que vão à zona oeste da Alemanha para este festival — 280 mil em 2025. Este ano a multidão será provavelmente maior, já que os bilhetes de vários dias esgotaram esta semana.
Como o nome indica, esta é uma corrida de 24 horas. O início é às 14h (hora portuguesa) de sábado e o final é às 14h de domingo. Apenas o nevoeiro da região das montanhas Eifel tem tido o poder de interromper a corrida com uma bandeira vermelha — e, mesmo assim, o relógio não pára.
A corrida existe desde 1970. A competição combina o atual circuito de Nürburgring — que recebeu a F1 pela última vez em 2020 — com grande parte do antigo, conhecido como Nordschleife (anel do Norte).
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Que carros competem nestas 24 Horas? Como é tradição nas corridas de resistência, há várias categorias de carros a participar ao mesmo tempo. Não há os protótipos das 24 Horas de Le Mans — a classe principal é composta por carros GT3 (as versões de corrida dos carros mais potentes que vemos na estrada). Há ainda os GT4 (uma versão mais lenta dos GT3) e os TCR, carros mais parecidos com os mais comuns das estradas.
Mas cabem todos os carros possíveis, desde que cumpram os requisitos de segurança. A casa destes é a classe SP3: já houve um Opel Manta (modelo da década de 1970), há agora um Dacia Logan e, este ano, esperava-se um Renault Twingo. A equipa e o carro foram aprovados, mas não fazem parte da lista de concorrentes — infelizmente para o folclore desta corrida e para os adeptos do nicho que é o desporto automóvel.
Porquê “Inferno Verde”?
O Nürburgring Nordschleife leva os carros a percorrer 25 quilómetros e 378 metros por volta. É o circuito permanente mais longo do mundo — e provavelmente também o mais sinuoso, com 73 curvas e muitas subidas e descidas.
Apesar de impressionante, não foi isso que levou Jackie Stewart — campeão de F1 por três vezes, em 1969, 1971 e 1973 — a apelidar o circuito de “Inferno Verde”. Foi a letalidade desta pista.
51 pilotos perderam a vida em corridas de vários campeonatos (desde Grandes Prémios a motas) no Nordschleife entre 1928 e 1976. Em corridas de F1, desde 1950, contam-se quatro mortes. Muitos outros estiveram perto desse destino — precisamente em 1976, Niki Lauda quase perdeu a vida no meio das chamas após bater com o seu Ferrari na colina. Desde aí, a lista cresceu até às 70 mortes.
A pista estava livre de mortes em corrida desde 2013. Até que, a 18 de abril deste ano, Juha Miettinen, de 66 anos, morreu numa corrida de qualificação para as 24 Horas, a única vítima mortal numa colisão entre sete carros.
O Nordschleife é o circuito que prova a frase habitualmente impressa nos bilhetes comprados pelos adeptos: “as corridas são perigosas”. Em 2015, um espetador morreu após ser atingido por um Nissan GTR Nismo que levantou voo e ultrapassou os limites da pista numa das zonas mais rápidas, após a subida rápida “Flugplatz” (a palavra alemã para aeroporto). O carro catapultou-se por cima da vedação e aterrou com o tejadilho numa zona com adeptos, ferindo outras cinco pessoas.
O apelido “Inferno Verde” foi dado por Stewart após vencer o GP da Alemanha de 1968, afetado por chuva e nevoeiro intensos. Muitas alterações foram aplicadas ao circuito desde aí, mas era impossível que este continuasse a ser utilizado pela F1 sem ser totalmente descaracterizado. Ficou, assim, como um resquício da origem do desporto automóvel — para a F1 construiu-se uma pista moderna a sul do Nordschleife.
Que interesse tem uma corrida tão longa?
Há muitas atrações nestas corridas de resistência, e parte do encanto está mesmo em ir e viver tudo na pele. As enchentes são ajudadas pelos preços — um bilhete de vários dias para as 24 Horas de Nürburgring fica abaixo de 70 euros, cerca de metade do bilhete mais barato para qualquer Grande Prémio europeu de Fórmula 1.
O desafio apresentado pela pista é enorme: um circuito de montanha, apertado, com bem mais de uma centena de carros de ritmos bem diferentes, obrigando os candidatos à vitória a guinar por entre outros carros enquanto se perseguem curva após curva. A letalidade enfrentada pelos pilotos faz parte do desafio — mas, com barreiras metálicas sempre perto, todos os acidentes são de dispensar.
No meio disto tudo, e de uma corrida longa, seria de esperar que as lutas em pista fossem conservadoras, com margem de segurança. Contudo, estamos a falar de pilotos: não só há ultrapassagens pela relva como, em 2025, durante uma luta entre primeiro e segundo, o carro líder tocou num carro de outra classe, fazendo-o capotar. A penalização consequente assegurou que esse carro (conhecido como “Grello” entre os adeptos) ficaria sem a vitória apesar de cruzar a meta no primeiro lugar.
Se a ideia de perseguir um carro a alta velocidade enquanto se passa por outros que parecem parados soar demasiado abstrata, nada como ver esta luta de 2024 — que começa após passar por um acidente, e quase resulta noutro logo no primeiro minuto, e noutro um pouco mais tarde.
A acessibilidade de tudo isto não se fica pelo preço dos bilhetes. A maioria dos campeonatos que não são mundiais percebeu, há vários anos, que fechar as transmissões em canais pagos não iria ter bom resultado. Assim, as corridas no Nürburgring são transmitidas em direto no YouTube, por vários canais e meios de comunicação que utilizam as imagens oficiais. A organização já tem as transmissões das várias sessões e corrida agendadas na plataforma de vídeo.
Duas licenças para Verstappen competir
Carros sem algoritmos para controlar motores elétricos, sem demasiada aerodinâmica, batalhas que não deixam dúvida sobre a sua veracidade, um circuito à antiga e centenas de pilotos a participar não pela hipotética glória de vencer, mas pelo prazer de competir em pista. Não é difícil perceber o interesse de Max Verstappen nas 24 Horas de Nürburgring.
Mas Verstappen não teve nada garantido por ser piloto de F1, nem sequer por ser tetracampeão. Apesar de ter uma superlicença (exigida para competir na Fórmula 1), teve de seguir todos os passos até obter as licenças necessárias para competir no Nordschleife.
Para isso, fez um teste no ano passado, identificando-se com o pseudónimo “Franz Hermann”. Pouco depois, recebeu a licença Platina, a categoria mais elevada da FIA (automática para pilotos de F1), e necessária para competir nos níveis máximos das corridas de resistência. Ainda em 2025, participou numa corrida com um carro GT4, para completar os passos exigidos pelo Nürburgring.
Este ano, já detentor da licença de nível A para o circuito, venceu a segunda corrida do campeonato de resistência do Nürburgring por quase um minuto (antes de o carro ser desqualificado). Tradução: sim, Verstappen deve lutar pela vitória, tendo como companheiros de carro os experientes Daniel Juncadella, Lucas Auer e Jules Gounon.
Quatro pilotos num carro?
Não é erro: nas 24 Horas de Nürburgring, tal como nas outras corridas de resistência, os carros são obrigados a ter entre dois e quatro pilotos, que não podem conduzir mais de três horas seguidas. O trabalho de equipa torna-se, assim, essencial.
Há mais diferenças para a F1, além dos carros e da pista. O circuito é tão longo que os acidentes são geridos localmente, com limitações de velocidade na zona do acidente — ver um Safety Car é raro.
E as trocas de pneus não são questões de segundos. Há tempos mínimos para cumprir, que excedem os quatro minutos, permitindo reabastecer, reparar danos mais ligeiros e trocar de piloto com tranquilidade.
Recorde 33% português
Num circuito de estatuto mítico, quem detém os recordes entra na história do desporto. E entre os três pilotos que partilham o recorde de vitórias — cada um tem cinco — está um português: Pedro Lamy.
Depois de três anos na órbita da F1, Lamy mudou-se para as corridas de resistência e lá encontrou sucesso, destacando-se as cinco vitórias nas 24 Horas de Nürburgring em 2001, 2002, 2004, 2005 e 2010. Lamy partilha o recorde com dois alemães, Marcel Tiemann e Timo Bernhard (duas vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans).
Isto também faz de Lamy o piloto de F1 com o melhor registo no Nürburgring, entre os 34 que competiram nas duas modalidades. O piloto de F1 com mais experiência no Nordschleife é Hans-Joachim Stuck, com 19 participações. Além de Verstappen, quatro outros campeões de F1 participaram nas 24 Horas: Jack Brabham, Niki Lauda, Nelson Piquet e Keke Rosberg. Max é, de longe, o mais bem-sucedido a fazê-lo.
As duas equipas com mais vitórias (sete) são a Phoenix e a Manthey. Entre as marcas, a BMW tem 21 vitórias, contra 13 da Porsche e sete da Audi.
O recorde de distância na corrida é de 2023, quando os vencedores percorreram quase 4.086 quilómetros (162 voltas) nas 24 horas. A volta mais rápida em corrida, de 8:08.006, é do mesmo ano. Já o recorde de corrida mais curta é do ano seguinte: o nevoeiro intenso parou os carros cedo em 2024, resultando em apenas 50 voltas feitas.
Há outro recorde que vale a pena mencionar, apesar de não ser das 24 Horas, mas do Nürburgring Nordschleife. Em 2018, Timo Bernhard quebrou o velho recorde da volta mais rápida à pista, concluindo-a em 5:19.546 com o Porsche 919 Evo — uma versão do 919 Hybrid (que a marca tinha utilizado em Le Mans até 2017) à qual foram retirados os limites de fluxo de combustível, recuperação de energia, potência elétrica e aerodinâmica.
O recorde anterior era de 1983: uma volta de 6:11.130 segundos por Stefan Bellof no Porsche 956.
Há portugueses a competir?
Há um: Guilherme Oliveira, de 21 anos, vai competir com o carro número 176, um Mercedes-AMG GT4 na classe SP-10.
Nascido em Vila Nova de Gaia, Oliveira, que venceu a primeira corrida deste ano do campeonato GT World Challenge Europe, partilha o carro com Yannik Himmels, Lluc Ibañez e Jörg Viebahn.
80 mil salsichas e 613 pilotos
Um evento num circuito enorme e com quase 300 mil espetadores tem, naturalmente, números que chamam a atenção. Além dos 161 carros e 613 pilotos — 130 carros com quatro pilotos e 31 carros com três —, há muito mais que faz das 24 Horas de Nürburgring um evento colossal.
Há cerca de 2.500 pessoas envolvidas diretamente no funcionamento, dentro e fora da pista. 1.360 são comissários de pista — os voluntários vestidos de laranja e espalhados por toda a pista, colocados diretamente atrás das barreiras. Estas pessoas são a primeira resposta a qualquer tipo de acidente, e os olhos da direção de corrida nos momentos seguintes, avaliando o estado do piloto, do carro e da pista. 1.200 estão em toda a pista, 90 estão apenas na via das boxes, 50 são necessários para a partida e 20 para o parque fechado após a corrida.
A estes voluntários somam-se 54 pessoas na equipa oficial de segurança, divididas por turnos (tal como os comissários de pista) e por 11 veículos. A equipa de intervenção rápida, que se desloca aos acidentes em SUVs rápidos, é composta por 30 pessoas, com mais 30 numa segunda equipa de segurança, cujos carros estão equipados com mais extintores e material absorvente de óleos. Há ainda cinco carros médicos para levar aos acidentes médicos de emergência, e dois veículos para extração de pilotos com lesões graves.
Há 100 médicos, com 30 paramédicos espalhados pela pista e uma equipa que inclui cirurgiões no centro médico. Há também 90 bombeiros disponíveis.
A direção de corrida envolve 30 pessoas. Com o diretor do evento, organizador-chefe, chefe de segurança, chefe médico e a secretaria do evento, é este o centro nevrálgico das decisões sobre a corrida.
Há mais 96 pessoas na organização central das 24 Horas. São os comissários de corrida — que decidem penalizações —, escrutinadores técnicos, funcionários de apoio, de cronometragem, de parque fechado (onde os carros ficam longe do alcance das equipas antes das verificações técnicas), e da organização do programa fora da pista e dos parques de campismo. Há também 30 funcionários a garantir a segurança na operação do paddock, e outros 30 a conduzir as carrinhas de transporte entre vários pontos.
Por falar nos parques de campismo: há 1,5 milhões de metros quadrados de espaço para acampar. Casas de banho portáteis? São 690. Chuveiros? São 170. Sanitas com autoclismo? Há 160. São consumidas 80 mil salsichas e entre sete e oito toneladas de batatas fritas, dizem os números oficiais da organização. Tudo pelas corridas.

























