25.11.2020
Quando um mal-entendido irritou tanto Maradona que ele fez quatro golos a quem (supostamente) lhe chamou “gordo”
25 nov, 2024 - 16:00 • Hugo Tavares da Silva
No quarto aniversário da morte de Diego Maradona, recordamos a história dos quatro golos do canhoto genial ao Boca Juniors, em 1980. E tudo por causa de um equívoco...
Nove dias antes de um Argentinos Juniors-Boca Juniors, numa tarde de novembro de 1980, Hugo Gatti, o mítico guarda-redes dos ‘xeneize’, deu uma entrevista ao “El Litoral”. Por lá disse muitas coisas, mas o que não disse é que ficou para a história.
O que é certo é que alguém relatou uma parte distorcida daquela entrevista a Diego Armando Maradona, um ameaçador pibe de 20 anos, que se estreara quatro anos antes na 1.ª Divisão e que até já tinha sido quatro vezes melhor marcador dos torneios que jogou. Disseram-lhe que Gatti, um homem com uma tremenda gadelha e uma fita a apertar-lhe a cabeça, lhe chamou “gordo”.
E, claro, Diego armou-se em Maradona. “Propus-me a fazer-lhe dois golos, mas, depois do que disse, vou fazer-lhe quatro”, confessou a Jorge Cyterszpiler, o empresário, segundo um artigo posterior do jornalista Pedro Uzquiza, no “Clarin”. “Prometo que lhe vou fazer quatro. E de qualquer forma.”
E assim foi.
Gatti até lhe pediu desculpa antes do encontro e esclareceu o equívoco, pois apenas tinha dito que o preocupava que o virtuoso canhoto tivesse tendência para engordar, algo que se viria a confirmar. “Humanamente estava tudo solucionado, mas o amor próprio [de Diego] levou a melhor”, contava o tal artigo de Uzquiza.
A magia desatou-se então da canhota. Primeiro, de penálti. Esta alma genial tentou, de letra, fazer uma chapelada a Gatti já dentro da área, bendito seja. Depois, Diego marcou de livre direto, a fazer lembrar o que Ronaldinho fez a Seaman em 2002.
O hat-trick meteu-o depois de endireitar a rota da bola com o peito e tocar com a parte exterior da bota esquerdina, num gesto superior. “O quarto foi um livre direto… que era penálti”, disse o mago quando relatou e recordou os golos (vídeo em baixo). A colocação daquela bola é filha da relação entre a barbaridade e a perfeição.
Argentinos 5-3 Boca, foi este o resultado final. “Espero que se tenham divertido, tanto as pessoas do Argentinos, como do Boca”, declarou o artista que vestiria pouco depois a camisola "azul e ouro". Seria o deus da Bombonera. Ainda é.
O duelo Gatti-Maradona é uma das histórias mais badaladas do futebolista mais admirado pelo mundo fora e, por meter o número quatro, a Renascença conta-a no dia do quarto aniversário da morte de Diego.
“O Gatti nunca disse que o Maradona era um gordito”, comentou Oscar Bergesio, o autor da entrevista, em 0utubro de 2020, à página Play & Rec Sports. “Disse exatamente o que eu publiquei no artigo e que depois desvirtuaram. ‘El Loco’ [Gatti] não era um idiota para dizer tal coisa.”
Rezam os relatos que naquela tarde, no campo do Vélez, até os adeptos do Boca Juniors gritaram por Diego Maradona.
“Maradona… Maradona… Quarenta e cinco mil almas em uníssono”, contava Uzquiza na crónica, no dia seguinte, aqui recordada neste artigo do mesmo jornal, o “Clarín”.
“O que é notável é que mais de metade desses gritos provêm da tribuna popular, onde está a maior parte dos adeptos do Boca”, continua a crónica de Uzquiza.
“Talvez este tenha sido o maior testemunho que o brilhante jogador recebeu desde a sua estreia na primeira divisão. Porque é difícil imaginar os adeptos do Boca a cantarem e a aplaudirem fervorosamente o nome de um adversário que lhes meteu quatro golos. Foi assim que Diego Armando Maradona deixou o campo…”









