14 abr, 2025 - 14:45 • Inês Braga Sampaio
Vítor Pereira terminou a noite de domingo a celebrar num "pub" com os adeptos do Wolverhampton Wanderers, depois de uma inédita quarta vitória consecutiva na Premier League, que praticamente garantiu a manutenção.
"Primeiro os pontos, depois as cervejas", ou "first the points, then the pints", como dissera o treinador português, antes do jogo. E assim foi: o Wolves derrotou o Tottenham, por 4-2, e no fim, Vítor Pereira foi festejar com os adeptos. Cumprimentou fãs, tirou "selfies" e até cantou.
Mas como foi o caminho do técnico até aqui?
Foi no FC Porto, como adjunto de André Villas-Boas, que uma carreira, até então, sem grande expressão ganhou nova rampa. Após a conquista do campeonato, da Taça de Portugal e da Liga Europa, o agora presidente dos dragões saiu para o Chelsea, para Inglaterra, e Vítor Pereira herdou o comando da equipa portista. Em duas temporadas, o técnico natural de Espinho sofreu apenas uma derrota na Liga e foi bicampeão. Um dos momentos mais icónicos do reinado de Vítor Pereira foi o golo de Kelvin ao Benfica, no Dragão, aos 90+2, que fez ajoelhar Jorge Jesus.
Vítor Pereira era um mal amado no Dragão, contudo, porque o seu estilo de jogo, de controlo absoluto das operações, não entusiasmava os adeptos. E lá acabou por sair para a Arábia Saudita, para orientar o Al-Ahli, ainda que a experiência não tinha corrido bem.
Era uma espécie de "reset" da carreira de Vítor Pereira, sobre quem pairava ainda o fantasma de Villas-Boas e uma questão: seria ele capaz de levar uma equipa à glória sem o trabalho prévio de outro treinador?
O trabalho no Olympiacos, em que conquistou campeonato e Taça da Grécia e chegou aos oitavos de final da Liga Europa, não ajudou a responder a essa pergunta, devido à hegemonia interna da equipa do Pireu, antes e depois da passagem de Vítor Pereira. Isto apesar do português ter substituído o espanhol Míchel, que deixara a equipa no segundo lugar da Liga grega.
Seguiu-se um ano e meio no Fenerbahçe, com que não conseguiu ser campeão turco, e uma experiência sem sucesso nos alemães do TSV 1860, que com Vítor Pereira desceram à terceira divisão.
Rumou, então, à China, onde fez história pelo Shanghai SIPG, que com o técnico português se sagrou campeão pela primeira vez na sua história, acabando com a hegemonia do Guangzhou Evergrande. Algo que o seu antecessor, nada mais, nada menos que André Villas-Boas, não conseguira. Nem, anteriormente, o histórico treinador sueco Sven-Goran Eriksson.
Vítor Pereira regressou, em 2021/22, ao Fenerbahçe, mas não foi feliz e saiu ainda antes do final da época.
Em 2022, surgiu um dos trabalhos mais mediáticos até então: mudou-se para o Brasil, para orientar o Corinthians, e apesar de não ter ganhado títulos tornou-se um ídolo para os adeptos. Até que alegou motivos familiares para não renovar com o Timão e, dias depois, foi apresentado como novo treinador do Flamengo, um dos principais rivais, algo que para a direção do Corinthians constituiu uma "traição".
Polémica que de pouco valeu a Vítor Pereira, que só durou 17 jogos no Flamengo.
Pereira regressou à Arábia Saudita em 2023/24, para orientar o Al-Shabab, onde ficou dez meses - até surgir, já esta temporada, o convite do Wolverhampton, um clube à deriva na Premier League, a tentar escapar à subida enquanto trocava de treinador como quem troca de camisa. Já lá iam cinco desde 2022/23.
A não ser que Vítor Pereira saia pelo próprio pé, o Wolves tem treinador garantido, pelo menos, para a próxima época, porque o trabalho do português está a superar as expectativas.
Em 16 jogos na Premier League, até agora, o Wolves venceu metade. O fantasma da descida, que fazia tremer as pernas dos jogadores quando o treinador chegou, já é um pontinho no horizonte do espelho retrovisor. No domingo, o Molineux vibrou com a vitória sobre o Tottenham, por 4-2, a quarta consecutiva, feito inédito na Premier League, depois de Southampton (2-1), West Ham (1-0) e Ipswich Town (2-1).
O sucesso é tal que o Wolverhampton não só já abriu um abismo de 14 pontos para o Ipswich, primeira equipa abaixo da linha de água, a seis jornadas do final, como também ultrapassou o West Ham e, neste momento, está sentado, relativamente tranquilo, no 16.º posto.
Como termo de comparação, Vítor Pereira tem maior percentagem de vitórias (50%) com o Wolverhampton, na Premier League, que Rúben Amorim pelo Manchester United (seis em 21 jogos, o que dá 28,57%). Também tem mais pontos (26) somados que Amorim (23) em menos partidas: 21 para o ex-Sporting e 16 para o ex-FC Porto.
O lema de Vítor Pereira no Wolverhampton é "first the points, then the pints". Até agora, tem funcionado. E os adeptos agradecem, porque podem beber umas cervejas (ou finos ou imperiais) com o novo ídolo.