Liga dos Campeões

Acerbi derrotou o alcoolismo, dois tumores e salvou o Inter com o primeiro golo na Champions aos 37 anos

07 mai, 2025 - 12:40 • Inês Braga Sampaio

Um pai demasiado exigente fê-lo perder a paixão pelo futebol. Após a morte do pai, Acerbi aparecia nos treinos alcoolizado e desperdiçou oportunidades. Até que lhe foi diagnosticado um cancro testicular, depois outro, e tudo mudou. Frente ao Barcelona, marcou o golo que forçou o prolongamento na meial-final da Liga dos Campeões.

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Uma das razões por que o futebol é especial é a capacidade de resgatar jovens a contextos inclementes e dar-lhes uma vida melhor. Com Francesco Acerbi, foi o oposto: a tragédia da vida é que lhe resgatou a carreira ao esquecimento.

O defesa-central, de 37 anos, salvou o Inter de Milão da eliminação da Liga dos Campeões, na terça-feira, com um golo sobre a buzina. Os italianos tinham chegado ao 2-0 na primeira parte, mas após o intervalo o Barcelona operara a reviravolta. Aos 93 minutos, contudo, apareceu Acerbi, à ponta de lança, a encostar para o 3-3 no jogo e 6-6 na eliminatória, um golo que fez abanar o San Siro.

Foi o primeiro golo de Acerbi na Liga dos Campeões, quase aos 40. O momento de glória de uma carreira que, dez anos antes, parecia condenada à mediania.

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"Eu jogava pelo meu pai. Ele preocupava-se muito, talvez demasiado. Gostava mais que eu. Por vezes, talvez estivesse tão focado em que eu estivesse bem que me magoava. E fez-me perder a paixão pelo futebol. Por isso, quando ele morreu, deixei de ter por quem jogar. Por mim, certamente que não seria", admitiu o internacional italiano, em 2020, em entrevista à revista desportiva "L'Ultimo Uomo".

Formado no Pavia, foi durante um empréstimo ao Chievo que Acerbi chamou à atenção do AC Milan. O pai de Francesco morreu em fevereiro de 2012, pouco antes de o defesa se mudar para Milão. Deixou um "vazio" no jovem, de 24 anos, e "o futebol deixou de fazer sentido". Sem o pai a controlar, Acerbi perdeu-se. "Não tinha uma mentalidade profissional. E não me respeitava a mim, ao meu trabalho e a quem me pagava. Chegava muitas vezes bêbedo aos treinos, ou de ressaca pela noite de copos do dia anterior. Cometia muitos exageros", contou.

Acerbi não teve sucesso no Milan. Fez apenas dez jogos e, ao fim de seis meses, foi despachado para o Génova e, mais tarde, recambiado de volta para o Chievo. Nem o retorno a um clube onde brilhara o motivou: "Perante as dificuldade, desisti." Foi assim que Francesco Acerbi foi parar ao Sassuolo, então uma equipa do fundo da tabela na Serie A (esta época, foi de Serie B, mas já garantiu o regresso ao principal escalão). E foi aí que a vida lhe deu o primeiro safanão.

Os exames médicos são um dos procedimentos obrigatórios na contratação de um jogador. É assim que se detetam eventuais lesões ou problemas físicos que frustram uma transferência. Veja-se José Ángel, que em novembro falhou os testes no Sporting. Ou Úmaro Embaló, que esteve muito próximo de rumar ao Gil Vicente no verão passado. Hakim Ziyech falhou os exames no Al-Nassr em 2023, Patrik Schick na Juventus em 2017. Terá sido um problema dentário que em 2009 frustrou a mudança de Aly Cissokho do FC Porto para o AC Milan. Mattia Perin chumbou no Benfica, em 2019. Três anos antes, tinha sido Sandro, no Sporting.

Para Francesco Acerbi, então com 25 anos, os exames médicos com o Sassuolo traduziram-se no diagnóstico de um cancro testicular. Após ser submetido a cirurgia de emergência para remover o tumor, voltou à ação com a nova equipa. Porém, meio ano depois, em dezembro de 2013, mais um revés: o defesa foi suspenso por ter acusado o uso de substâncias ilícitas num controlo antidoping.

Em janeiro, Acerbi foi ilibado e a sua suspensão levantada. Era um presente envenenado, porém: provou-se que os traços da hormona proibida detetada nos testes antidoping tinham sido produzidos por novo tumor nos testículos.

Foi com a recidiva do cancro que Acerbi virou a vida e a carreira do avesso.

"O cancro foi a minha sorte, salvou-me a vida. Sem a doença, teria acabado na Serie B ou talvez até tivesse deixado o futebol. Sem ela, teria acabado muito mal e ninguém me teria salvado", confessou Acerbi, na entrevista à "L'Ultimo Uomo".

A celebração eufórica de Acerbi com os companheiros do Inter. Fotos: Daniel Dal Zennaro/EPA
A celebração eufórica de Acerbi com os companheiros do Inter. Fotos: Daniel Dal Zennaro/EPA
Francesco Acerbi celebra golo pelo Inter de Milão na meia-final da Liga dos Campeões frente ao Barcelona. Foto: Daniel Dal Zennaro/EPA
Francesco Acerbi celebra golo pelo Inter de Milão na meia-final da Liga dos Campeões frente ao Barcelona. Foto: Daniel Dal Zennaro/EPA

Acerbi convenceu-se do "poder" da própria mente, como contou em entrevista ao jornal italiano "La Gazzetta dello Sport", em 2023, quando completou 35 anos.

"A vida precisa sempre de desafios. Eu precisava disso, primeiro com o meu pai e depois com a doença. Repetia para mim mesmo: 'Não tenho medo'. Depois, percebi que é impossível não ter medo. Mas sem medo, ter-me-ia retirado. Com os cancros, a minha verdadeira vida começou, dando-me uma segunda oportunidade", disse.

O central recorreu a apoio psicológico, depois de bater os dois tumores, de forma a perceber "como reagir e dar um passo em frente". Francesco queria voltar a jogar ao mais alto nível: "Se não ia mais jogar pelo meu pai, iria fazê-lo por mim."

O Sassuolo não deixou cair Acerbi e, quando ele regressou à competição, foi recompensado por isso, com um jogador mais motivado que nunca.

O defesa brilhou e estreou-se pela seleção italiana em novembro de 2014 (já tinha sido chamado antes, mas nunca entrara em campo). Desde então, soma 34 internacionalizações e um golo, e ajudou a Itália a conquistar o Euro 2020, embora como suplente. Em 2018, Acerbi rumou à Lazio e, ao fim de quatro temporadas, deu o salto para o Inter de Milão em 2022. Era o regresso ao topo, dez anos depois de ter desperdiçado a primeira oportunidade com a sua - assumida - falta de profissionalismo. Há comboios que passam duas vezes.

Atualmente, Francesco Acerbi é um dos homens da confiança de Simone Inzaghi, que já levou o Inter à conquista de duas Taças de Itália, três Supertaças, um "scudetto" da Serie A e, agora, a uma final da Liga dos Campeões.

O central, que nunca marcara na prova milionária, subiu para o ataque no período de maior desespero do Inter, depois de Raphinha ter feito o 3-2 para o Barcelona, aos 87 minutos. Só demorou cinco minutos a antecipar-se a Ronald Araújo para responder a um cruzamento de Denzel Dumfries e, qual ponta de lança, encostar a bola lá para dentro, forçando o prolongamento na eliminatória. No tempo extra, Davide Frattesi fez o 4-3 e apurou os "nerazzurri" para a final de Munique.

O golo do empate foi o momento de glória de um defesa-central que nunca tinha marcado na Liga dos Campeões e que, para meter o pé naquela bola junto ao poste esquerdo da baliza de Wojciech Szczesny, por muito teve de passar: a morte de um pai demasiado exigente, falta de profissionalismo, álcool a mais, dois tumores e um volte-face que lhe arriscou a vida, mas salvou-lhe a carreira no futebol.

Foi um momento de euforia total. Acerbi tirou a camisola às riscas e a camisola interior, andou aos saltos e foi festejar com o banco do Inter de Milão.

Na final da Liga dos Campeões, a 31 de maio, em Munique, o Inter vai defrontar Real Madrid ou Arsenal. Aconteça o que acontecer, Acerbi já venceu - e aprendeu a não tomar nada como garantido: "É importante teres algumas pessoas à tua volta, duas ou três em quem possas mesmo confiar. É importante perceberes o que queres, realmente, da vida, porque o teu tempo vai chegar mais cedo ou mais tarde."

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