Desporto
Há um clube em Espanha a transformar a vida de milhares de pessoas: "Eu quero mudar o mundo"
24 out, 2025 - 14:40 • Hugo Tavares da Silva
O dono do Racing Santander e o diretor da fundação, Sebastián Ceria e César Anievas, conversam com a Renascença sobre os programas sociais que implementam na Cantábria e o porquê da revolução. "Sou a pessoa mais afortunada do mundo."
A lembrança de César Anievas não conhece melhor outra história que não seja a lembrança das idas ao El Sardinero, amparado pela sombra dos avós, que viviam a 100 metros do campo do Racing Santander. Ali cresceu, ali se entranhou o amor ao clube de toda a vida.
Agora, Anievas é o diretor da fundação do Racing que tem vários programas sociais para mudar a vida das pessoas mais vulneráveis em Santander e na Cantábria. “Acho que sou a pessoa mais afortunada do mundo. Imagina um miúdo que é do Racing desde sempre…”
O interesse no que este clube faz pela comunidade teve origem nas páginas do “El País”. Jorge Valdano, o homem que conversou com a Renascença nos 50 anos do 25 de Abril, escreveu sobre o Racing Santander e elogiou muitíssimo o impacto que tem na sociedade.
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O Racing Santander lidera a segunda liga espanhola, depois de bater o Deportivo no passado fim de semana, e quem sabe para o ano esteja aí, entre gigantes. É o clube de Quique Setién e Pedro Munitis. Foi o clube de Vítor Damas, entre 1976 e 1980. Mas o futebol, hoje, é secundário.
“Somos um clube muito querido pelas pessoas, sentimo-nos muito admirados”, confessa Anievas, em conversa com esta rádio, lembrando que aquele é o único clube profissional da região. “Desde a entrada dos novos proprietários, dedicamo-nos a detectar grupos na sociedade que precisam de ajuda, o que fazemos é desenhar programas sociais.”
Em julho de 2023, Manolo Higuera, ex-futebolista do clube, e Sebastián Ceria compraram o clube. O segundo, um cientista-professor-matemático-filantropo argentino, vendeu a sua empresa por 850 milhões (juntamente com outros acionistas) e, para além de adquirir e investir no Racing, criou a Fundar, uma fundação para pensar os amanhãs da Argentina, onde nasceu em 1965. É um homem que, assumidamente, quer mudar o mundo.
Ceria, em conversa com Bola Branca, revelou a semente daquela crónica de Valdano, com o título "Quando o futebol conquista a rua". Conheceram-se e almoçaram juntos. Sebastián mencionou àquele homem "muito bom" e "muito culto" a visão que tinha para o Racing, o que fizeram e fazem em Santander.
“Contei-lhe que víamos o futebol como um agente transformador da sociedade, e não da maneira mercantilista. Queríamos usar o futebol para ajudar as pessoas e para que elas encontrassem um lugar comum, para construir uma ideia de comunidade.”
Ou seja, “o que contei ao Valdano foi que vemos no futebol um raio de esperança para podermos alcançar algo muito bonito”. Quando o artigo foi publicado no diário espanhol, o campeão do mundo de 1986 enviou-o a Ceria, com a mensagem: “Vamos ver se chegamos a muita gente…”
A história familiar de Ceria influenciou-o. O pai era um intelectual, a mãe era uma trabalhadora social. Cedo na vida percebeu o valor da solidariedade, da ajuda e do respeito ao próximo, conta. E, nota, fazer o bem não está refém de se ter dinheiro. “Não há ajuda que seja pequena, tudo soma.”
Anievas fala com um orgulho imenso do seu querido clube, nota-se a ternura na voz quando o tenta explicar. “É um novo conceito, porque o Racing sempre foi visto como um clube de futebol, mas agora queremos que a dimensão do Racing ganhe um novo nível, que realmente vejam o Racing como um instrumento para a transformação e a mudança social.”
São cinco os programas apoiados pelo governo regional. Um deles combate o assédio escolar, o bullying. O clube está em 15 escolas, com um impacto em quase 800 alunos. É um programa preventivo. Quem tem boas atitudes e combate o bullying, tem direito a receber presentes do Racing e a ter o seu nome nos campos e no estádio daquela entidade.
O “Racing Saudável” ligou o clube ao hospital de referência da região. O programa tem natureza psiquiátrica, já que as equipas médicas enviam meninos e meninas com problemas de saúde mental ou até obesidade para serem acompanhados por elementos do Racing. Com uma equipa profissional da fundação, os cuidados são totais. Rapazes e raparigas são inseridos na academia. “Através do desporto, conseguimos que mudem os seus hábitos”, explica Anievas.
Este programa foi levado a Buenos Aires, há duas semanas, a convite do River Plate. “Estive ontem reunido com um dos miúdos e com a sua mãe. Baixou 13 quilos. Vai competir aqui num clube da Cantábria e isso mudou radicalmente a vida dele. Agora quer sempre comer saudável, está muito melhor e mais feliz. Mudou tudo.”
Também mulheres em posição vulnerável, seja por doença, maus-tratos ou até por terem chegado ao país depois de fraudes ou enganos têm o apoio do clube, através de ONG. Os filhos passam a integrar a academia e a fundação ajuda-as a encontrar emprego e a reorganizar a vida. “Temos resultados fantásticos”, comenta César. Já Sebastián vê a bola de futebol como um veículo de olvido, como se aquelas sofridas mulheres esquecessem todos os dramas enquanto dão pontapés e riem.
O dono do Racing, um licenciado em matemáticas aplicadas que fala diretamente de Madrid, vai sorrindo e filosofando vagarosamente como um mui digno argentino. As conversas são tidas em dias diferentes. “Penso que não só temos que apreciar a vida e tentar ser felizes, mas também temos uma responsabilidade, e temos uma responsabilidade com os próximos, com os que não foram tão fortes como nós, e com essas pessoas que não veem um futuro alentador, porque vivem uma realidade difícil, porque tiveram má sorte, porque a vida não lhes sorriu, e nós podemos fazer algo para fazê-las felizes, e eu penso que essa é a minha ideia de mudar o mundo, é tentar dar felicidade, e penso que o futebol é uma boa ferramenta para dar felicidade.”
O pensamento de Ceria, que foi professor na Columbia Business School, é simples: sim, o futebol é resultadista e quando se ganha andam todos felizes, mas, quando não se ganha, o que sobra? “Tens de dar algo mais, tens de dar esse orgulho às pessoas de pertencerem ao clube, que é especial, que faz coisas pelos outros”, que utiliza a força do futebol para tentar mudar a realidade de uns e de outros.
“Então eu diria que sim, a resposta à sua pergunta é que eu quero mudar o mundo”, confessa.
Há outro programa que pertence a um lugar terno. Para combater a solidão e o isolamento dos mais velhos, ex-futebolistas dos anos 80 deslocam-se até eles para lembrarem momentos e trocarem cromos de memórias, assim como os miúdos do clube lhes escrevem cartas. E assim se introduz a consciência social na canalha.
Os cofres da fundação estão recheados. Não pedem dinheiro ao clube ou aos proprietários, pois compensa fazer o bem, garante César Anievas, que chegou a treinar as camadas jovens do seu clube do coração. “A imagem do nosso clube, com esses programas sociais, aumenta muitíssimo. Mais gente compra camisolas, vai ao estádio, temos mais sócios e admiradores.”
As conversas com estes dois homens, soldados do bem com o escudo do Racing Santander, conduzem a outros pensamentos e, necessariamente, a outros programas sociais. “Temos 100 miúdos com incapacidade intelectual connosco, vestem de Racing, vão a torneios, jogando na Liga Genuine”, um projeto da La Liga que visa fomentar a inclusão social e a igualdade de oportunidades.
Puxando um fio, parece que vem sempre mais uma avalanche de histórias e ideias e de maneiras de impactar na sociedade, na comunidade de Cantábria.
O matemático argentino, um empresário que entende de algoritmos e alta finança, recusa a ideia de o adepto ser um cliente. “Temos de ter muito respeito e amor pelo adepto.” E, por isso, recusa explorar e esticar as receitas na experiência no estádio, que pode ter os dias contados, pois há um plano para construir um novo.
O pensamento de Ceria vai sempre bater no mesmo. “A gente tende a esquecer os outros. Nem é por mal, pode ser por sobrevivência. Mas o pior que o ser humano faz é esquecer as pessoas que sofrem ou que passam mal.” E é aqui que o argentino (neto de avós maternos espanhóis), adepto do Racing de Buenos Aires e casado com uma senhora de Santander, revela os seus amores pelo programa “Memória Racinguista”, o tal em que os mais velhos esquecidos não são esquecidos.
“Quando eu cheguei”, continua Sebastián Ceria, “disse para esquecerem o que aconteceu antes, agora vamos sonhar em grande, vamos fazer coisas ambiciosas, vamos mudar a vida de muita gente”.
Há um tema interessante. Lembrando Sócrates Brasileiro e a sua luta por um Brasil desamarrado da ditadura (e dos companheiros do Corinthians) e até de Marcus Rashford, que lutou pela dignidade e a saúde de muitas crianças em Inglaterra, Ceria é questionado sobre a relação dos jogadores com as lutas sociais. O argentino compreende que eles não têm de saber exatamente o que está a acontecer, ou como sofrem os outros. O que lhes pede, sim, é que participem, que alinhem nas ações do clube.
“Quando eles vão ao hospital ver meninos com cancro, é muito importante, eles são ídolos. E os meninos esquecem tudo quando os veem. Não é tanto o falarem, mas participarem. Muitos dos jogadores estão orgulhosos por participarem.”












