"Game Over Israel"

Campanha pró-Palestina tenta convencer UEFA a votar suspensão de Israel. "Se houvesse votação, nós ganharíamos"

05 dez, 2025 - 07:00 • Inês Braga Sampaio

Diretor da campanha "Game Over Israel" apela ao presidente da UEFA: "Seja um líder.". Em entrevista à Renascença, Ashish Prashar diz que o organismo pode estar a violar a lei internacional e o estatuto que lhe permite ter isenção de impostos na Suíça.

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O diretor da campanha "Game Over Israel", Ashish Prashar, está convicto de que se a UEFA realizasse uma votação para decidir a suspensão de Israel das suas competições, o "sim" ganharia

Em entrevista à Renascença, Prashar rejeita desistir até que isso aconteça e apela a que Aleksander Ceferin, presidente do organismo que rege o futebol europeu, seja "um líder".

A campanha "Game Over Israel" foi lançada a 15 de setembro, um dia antes de uma comissão de inquérito da Organização das Nações Unidas (ONU) ter declarado, pela primeira vez, que Israel está a cometer genocídio contra os palestinianos em Gaza. No dia 16, colocou um cartaz publicitário na Times Square, em Nova Iorque, a apelar ao boicote ao futebol israelita. Desde então, 70 futebolistas e atletas juntaram-se à causa, incluindo Paul Pogba, Hakim Ziyech e Adama Traoré.

A missão é o boicote ao futebol israelita. Nesdta entrevista à Renascença, Ashish Prashar explica que os líderes da campanha se têm reunido com membros do Comité Executivo da UEFA, eles próprios dirigentes de federações nacionais e oficiais do organismo, com três objetivos: forçar o voto para uma eventual expulsão de Israel do futebol europeu, amealhar votos favoráveis e garantir que a UEFA toma ação disciplinar.

"Temos explicado por que razão devem votar para suspender Israel. Queremos ter a certeza que estão do nosso lado, assegurarmo-nos de que temos aliados dentro da UEFA que façam força para a realização de uma votação e criem as condições para que isso seja possível. E posso dizer com segurança que, se houvesse um voto, nós ganharíamos. Israel seria suspenso", afiança.

UEFA pode estar a violar lei internacional

Entre as reuniões, conversas, negociações e investigações, a campanha encontrou argumentos para forçar a mão de Ceferin.

"O Tribunal Internacional de Justiça determinou que Israel tem de abandonar território ocupado, por isso neste momento a UEFA está a violar esse acórdão, ao manter a Liga israelita sob a sua tutela enquanto estão em território ocupado. Além disso, o estatuto especial da UEFA, que lhe garante isenção de impostos na Suíça, é-lhe conferido porque, como organismo, tem como objetivo promover a paz. Agora, se tem entre os seus campeonatos o de um país que está a roubar as terras de outro povo, pode dizer-se que a UEFA está a quebrar o seu próprio estatuto financeiro", assinala Prashar.

No dia 9 de outubro, o governo israelita e o Hamas chegaram a acordo para um cessar-fogo, o primeiro passo de um plano de paz proposto pelo Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump.

No entanto, mesmo que "as balas e as bombas parem" em Gaza, Ashish Parashar considera que a UEFA deve manter um eventual castigo a Israel.

"Qualquer nação na História que tenha cometido um genocídio foi chamada à responsabilidade 'a posteriori'. Pensemos na II Guerra Mundial: a Alemanha foi banida do futebol, de todo o desporto e de todas as instituições culturais por cerca de seis anos. Isto não é uma anomalia. Só porque há um cessar-fogo, a UEFA não devia seguir em frente como se nada tivesse acontecido", sustenta.

Num momento em que, no entender do diretor da campanha "Game Over Israel", "está a tornar-se insustentável para a UEFA não realizar uma votação", o grande obstáculo é o presidente do organismo.

"A única pessoa que neste momento está a impedir que isso aconteça é o presidente Ceferin, e temos de perguntar porquê. O próprio Ceferin participou na guerra dos Balcãs e percebe os horrores da guerra e do genocídio, e que as pessoas devem ser responsabilizadas. Será que os seus princípios mudaram? Nós não vamos parar até a votação acontecer", atira Ashish Prashar.

"Ceferin tem oportunidade de ser um líder"

O conflito entre Israel e Palestina transborda para o futebol. Houve confrontos em Amesterdão, nos Países Baixos, em novembro de 2024, a propósito de um jogo entre Ajax e Maccabi Telavive.

O duelo entre as seleções de Israel e Itália, em Udine, de qualificação para o Mundial 2026, em outubro de 2025, foi disputado num estádio quase deserto, devido ao boicote dos adeptos italianos — os poucos que estiveram nas bancadas assobiaram o hino israelita. Isto, já depois de ter havido manifestações pró Palestina no exterior do estádio, que terminaram em confrontos com a polícia.

A Itália venceu por 3-0 e eliminou Israel da corrida ao Campeonato do Mundo.

No passado dia 7 de novembro, o Aston Villa-Maccabi Telavive, da fase regular da Liga Europa, realizou-se sem adeptos forasteiros nas bancadas, por receio de violência motivada pelo conflito na Faixa de Gaza. Ainda assim, houve distúrbios na área envolvente e foram detidas 11 pessoas, cinco delas por "insultos racistas".

Não apenas no futebol assistimos a manifestações. Em setembro, a Volta a Espanha, que o português João Almeida terminou em segundo lugar, foi "invadida", em várias etapas, por manifestantes pró Palestina.

"O resto do desporto segue o futebol, o único desporto verdadeiramente global. E neste momento, ao permitir que Israel continue no futebol, estamos a dizer que estamos bem com genocídio. Israel usou a cultura e o desporto por muitos anos para abafar as suas violações da lei internacional e de direitos humanos, e os organismos que tutelam o desporto têm sido vergonhosamente cúmplices durante este genocídio, ao evitarem o tópico", afirma Ashish Prashar.

Ashish Prashar, que salienta que a UEFA também pode justificar a realização de uma votação para decidir a suspensão de Israel com preocupações com segurança, diz que é hora de o presidente da UEFA decidir quem quer ser perante este conflito: "Estamos num momento da história em que um dia as pessoas vão olhar para trás e perguntar: 'O que fizeste tu?' Neste momento, o presidente Ceferin tem a oportunidade de tomar as rédeas e ser um líder. Não um seguidor, mas um líder."

"O mundo viu o que Israel está a fazer e, se os governos europeus não exige responsabilidades, o público sente que tem de fazer isso por si mesmo. Não estamos a dar ao público outra opção que não dar voz à sua oposição a este genocídio", sublinha.

Presidente da FIFA "não vai afastar-se" de Trump

E porquê Ceferin e não Gianni Infantino, o presidente da FIFA? Há duas razões.

"Para começar, a FIFA é irrelevante para esta discussão. (...) Gianni Infantino está em liga com a nova administração dos Estados Unidos. Todas as semanas ele faz uma conferência de imprensa com Donald Trump, a falar de coisas que não têm nada a ver com futebol. Ele não vai afastar-se da posição norte-americana neste assunto. Em simultâneo, ele nunca demonstrou o mínimo de compaixão para com a Palestina. Nunca fez sentido ir ter com ele", explica Prashar.

A segunda razão prende-se com o afastamento da Rússia do futebol europeu e mundial, em 2022: "A Rússia não foi, inicialmente, banida pela UEFA e pela FIFA. Dois dias depois da invasão à Ucrânia, 12 federações de futebol, lideradas pela Suécia e pela Polónia, boicotaram todo o futebol e forçaram a UEFA e, por consequência, a FIFA, no quarto dia, a anunciar a suspensão da Rússia. Sem essas 12 nações europeias, o futebol não teria continuado. E por isso estamos a pedir às federações, agora, que ajam da mesma forma moral e justa e pressionem a UEFA a tomar uma decisão similar quanto a Israel."

Perda de subsídio da UEFA pode arruinar futebol israelita

Além disso, revela o diretor da campanha, "a maioria dos países europeus jogam todo o seu futebol, a nível de clubes e seleções, no âmbito da UEFA". Por isso, se o organismo suspender Israel, "o futebol israelita perderá toda a relevância".

"A UEFA dá a cada liga uma contribuição financeira todos os anos. Israel perderia esse subsídio, o que deixaria o futebolista israelita na bancarrota. É quase irrelevante, a esse ponto, se a FIFA os suspender também. Mas espero que siga o exemplo e o faça", vinca.

Por outro lado, e ao contrário de Infantino, assinala Prashar, Aleksander Ceferin já mostrou vontade de organizar uma votação para decidir a eventual suspensão de Israel.

"Ele queria fazê-lo no dia 30 de setembro, é público. Mas depois o plano de paz de Trump, que não é verdadeiramente um plano de paz, saiu e Ceferin decidiu dar um passo atrás, para não interferir com esse anúncio. Queremos perceber por que razão ele não leva isto em frente", refere.

"Game Over" tem financiamento de comité antidiscriminação

A "Game Over Israel" é "uma coligação de pessoas normais", segundo o seu site oficial, incluindo "organizadores, ativistas, humanitários e adeptos de futebol". Utiliza fundos do Comité Americano Antidiscriminação Árabe e é aconselhado por vários oficiais de direitos humanos da ONU.

Ashish Prashar detalha que o trabalho implica, maioritariamente, reuniões com ministros dos Negócios Estrangeiros e dirigentes de federações nacionais de futebol, de modo a levar o voto para a suspensão de Israel à mesa de decisões da UEFA.

A Federação Irlandesa de Futebol votou para submeter uma moção formal junto da UEFA, para banir Israel das competições europeias, precisamente com o argumento de que dois estatutos da UEFA estão a ser violados. De acordo com o portal "The Athletic", pertencente ao jornal norte-americano "The New York Times", vai ser submetido no cantão de Vaud, na Suíça, onde se localiza a sede da UEFA, assente na lógica de que, se se concluir que o organismo está a quebrar a lei internacional, deve perder a isenção de impostos a que tem direito naquele país.

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    05 dez, 2025 Palestina? Isso ainda não existe 09:47
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