Entrevista Bola Branca
Bernardo Tavares e a vida pelo mundo fora: "O meu novo clube é um cemitério de treinadores"
31 dez, 2025 - 13:25 • Luís Aresta
O técnico de 45 anos está há cinco anos na Indonésia. Em janeiro, assume o Persebaya Surabaya, onde será o quarto treinador desta época. “Selamat..."
Desde 2013 que Bernardo Tavares tem a mala de treinador sempre pronta para viajar e assumir novos desafios. É assim? “Claro, exatamente. É mesmo assim. Irei no dia 3 de janeiro, de volta, dia 5 já estou a dar treino e dia 10 já temos jogo”, diz à Renascença o técnico de 45 anos, natural de Proença-a-Nova. Bernardo Tavares está há cinco anos na Indonésia e vai assumir o comando do Persebaya Surabaya, emblema de Java Oriental (um cemitério de treinadores...). Já lá vamos.
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Por estes dias, Bernardo desfruta do convívio familiar e prepara a entrada em 2026, antes de regressar à Indonésia onde, em anos anteriores, experienciou o que é viver o Natal e o Ano Novo longe da família.
“A Indonésia é um país muito distante, um país de 280 milhões de pessoas em que a maior parte da população é muçulmana, apesar de também haver católicos e outras religiões. O que é um facto é que lá, a tradição do Natal não é igual à daqui.
"Este ano consegui passar o Natal em Portugal porque mudei de clube, mas é muito difícil. Tendo em conta os últimos anos, tenho passado o ano a trabalhar, só este ano é que vou conseguir passar aqui junto da família”, explica, antes de revelar a importância dos laços estabelecidos com aqueles com quem trabalha diretamente. Foi assim na passagem de ano 2024/2025.
“Sinceramente, foi um dia normal, porque tínhamos treino no dia 1 e depois tínhamos jogo, portanto celebrei com o meu adjunto, aliás, com os meus dois adjuntos portugueses. Fizemos um jantar, mas quando eram 10h30 já estávamos no hotel e nem sequer passámos a meia-noite juntos. Eu até penso que à meia-noite já estaria a dormir”, revela. Estar longe da família não é fácil, admite.
“Os mais próximos são sempre a minha família. Os meus pais, os meus tios, as minhas tias, a minha irmã, a minha mulher, os meus filhos, como é óbvio, são sempre os mais próximos, mas quando se está tão distante e longe de todos estes... Um dos adjuntos já trabalha há alguns anos comigo, acabamos por quase ser família, por passar tantas guerras, tantas lutas, os dois, e acabamos por passar muitas datas importantes juntos”, revela, complementando que “as pessoas que trabalham comigo, além de serem bons profissionais, são boas pessoas”.
E acrescenta: "Para mim, o ser bom profissional não chega, porque, ainda mais quando se está distante do nosso país, temos que também ter o lado humano e temos que também ajudar-nos uns aos outros, porque quando se está tão longe, numa cultura tão diferente daqui, é muito importante a nossa entreajuda".
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Aventura no estrangeiro teve “ajuda” do Belenenses
Foram os problemas de tesouraria no Belenenses que estiveram na origem da carreira de Bernardo Tavares no estrangeiro. “Tirei o UEFA-ProLicense em 2013. Na altura, entre 2010 e 2012, estava no Belenenses, havia a possibilidade de renovar contrato, mas já existia uma dívida bastante grande e o meu advogado alertou-me: se eu renovasse contrato, revogava a dívida anterior. Então, entre aspas, acabei por ser obrigado a sair do país, porque na altura o mercado de trabalho também estava muito saturado e as melhores condições vinham de fora”, confessa. "Por outro lado, eu também me queria lançar um bocadinho ao mundo. Ou era naquela altura, em 2013, ou já não seria”.
E assim foi. Bernardo Tavares rumou ao Bahrein para treinar o Al-Hidd. Regressaria a Portugal em 2014 para uma curta passagem pelo Tirsense, a que se seguiu nova experiência lá fora, desta vez no Al-Nahda, de Omã. Em 2015 ainda voltaria a trabalhar em Portugal, no Tourizense. A passagem pelo concelho de Tábua marcaria o adeus ao futebol português. De então para cá, Bernardo Tavares treinou na Tanzânia, Maldivas, Macau, Índia e Indonésia. De todos estes destinos, aquele de que guarda melhores memórias é a Tanzânia, apesar dos títulos conquistados em Macau e nas Maldivas.
“Sim, tive muitos títulos nas Maldivas, é certo, mas eu não olho para o futebol só pelos títulos. É claro que é importante, principalmente para o currículo do treinador, mas, por exemplo, eu fui muito feliz na Tanzânia, num país onde acho que fizemos um trabalho extraordinário. Pegámos numa equipa que nunca tinha estado na primeira liga praticamente só com jogadores jovens. Um clube que não tinha praticamente adeptos, que era uma aposta de um investidor americano-tanzaniano. Só estivemos lá na 1ª volta e conseguimos fazer um brilharete: estávamos em 7.º lugar, eles só precisavam de 12 pontos para conseguir se manter, mas depois só fizeram 11 pontos na segunda volta e acabaram por descer”, conta.
"Posso dizer que aí não ganhámos nenhum título, mas adorei lá estar, porque as pessoas eram muito simples. Vi uma parte da África que jamais poderia imaginar, onde quem tinha menos mais dava, onde a partilha não era obrigatória, mas era um ato supernatural. Existe um Bernardo Tavares antes de ir para a Tanzânia e um Bernardo Tavares depois da Tanzânia. Em termos humanos acho que me fez ver o mundo de outra forma”, assume num discurso emocionado.
A condição financeira no Africa Lyon, da Tanzânia, em 2017, obrigaria Bernardo Tavares a pegar na mala e a rumar às Maldivas, para treinar o New Radiant SC
“Só estive duas semanas sem clube”, explica. “Se formos olhar para os títulos, foi Maldivas e Macau, no Benfica de Macau, onde também ganhámos tudo. Pela primeira vez na história de Macau, conseguimos pôr uma equipa na fase de grupos da AFC Cup e ganhar quatro jogos em seis. Foi extraordinário, só perdemos contra o 25 de Abril da Coreia do Norte, que é praticamente a seleção da Coreia do Norte, e foi a equipa que ganhou a AFC Cup nesse ano. Fomos duas vezes à Coreia do Norte, já há 40 anos que ninguém lá ganhava, e nós fomos lá ganhar 3-2 à equipa de Pyongyang. Depois também fomos jogar lá contra o 25 de Abril e foi a minha pior derrota até hoje. Costumo dizer, na brincadeira, que empatámos 8-0, porque foi mesmo assim...eles eram muito fortes, 140 mil nas bancadas...”, recorda com ironia.
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Depois do Benfica de Macau, Bernardo Tavares treinou o Churchill Brothers da Índia e o HIFK de Helsínquia, onde cedo percebeu que “não havia caminho para fazer”.
A caminho de Java Oriental e do Persebaya, um “cemitério de treinadores”
Dentro de poucos dias, Bernardo Tavares estará em Java Oriental, para assumir o comando técnico do Persebaya Surabaya, dando continuidade à caminhada na Indonésia, iniciada em 2021 no PSM Makassar.
“Saí em abril de 2022 da Finlândia e em maio já estava no PSM Makassar, que é o clube mais antigo da Indonésia, tem 110 anos. O clube já não ganhava o campeonato desde 2001 ou 2002. Ganhámos em 2022, portanto fizemos um feito extraordinário” considera.
Já o Persebaia, explica, “é um clube que vai fazer na próxima época 100 anos de existência, um clube com muitos adeptos e que, se estiver bem em termos desportivos, consegue facilmente pôr 35 mil, 40 mil pessoas no estádio. As coisas não têm estado a correr muito bem nos últimos anos, porque normalmente existe muita troca de treindores. Eu vou ser o quarto treinador nesta época!”, salienta.
E acrescenta: "Mas é um clube grande, com muita tradição, que conquistou um título pela última vez em 2004. Há 22 anos que não ganham, vamos ver se consigo fazer ali algumas mudanças. Vou pegar na equipa agora, o objetivo é arrumar a casa, como se costuma dizer, ou seja, olhar para as camadas jovens, ver quem é que se pode aproveitar, quem é que não se pode aproveitar, tentar fazer um bom ‘scouting ‘e tentar fazer a melhor classificação possível para esta época. Na próxima, já é tentar olhar os lugares cimeiros para conseguir algo de bom”, assume, sabendo que tem pela frente um contrato de dois anos e meio.
Mas será que vai conseguir levá-lo até ao fim?
“Sabe que no futebol isto muda muito rápido”, responde, sublinhando que “os projetos no futebol não existem, ainda mais neste país, que é um país que ainda consegue ser pior do que o Brasil. Eu não conheço nenhum país que mude tanto de treinador...”
Nem Portugal?, pergunto. "Nem Portugal, exatamente, exatamente! O clube para onde vou é apelidado de cemitério de treinadores, ou seja, não é um clube qualquer, é um clube com uma massa associativa muito exigente. Já passaram lá bons treinadores e não têm muito tempo para trabalhar”, assinala. Porquê, então, correr este risco? “Eu gosto de desafios”, responde. “Sei que, no que resta desta época, não vou ter muitos ovos para poder fazer uma boa omelete. É tentar rentabilizar os ovos que estão lá e selecionar os melhores para ver se conseguimos que fiquem para a próxima época para depois fazer um trabalho melhor."
O jogador indonésio: pequeno em altura, grande na entrega ao jogo
Nesta entrevista a Bola Branca, Bernardo Tavares descreve o perfil de jogador indonésio e acentua que, tal como acontece noutras latitudes, também aquele país asiático está a redesenhar o seu futebol, com base nos descendentes que atuam no estrangeiro, em especial nos Países Baixos, ou não fosse a Indonésia uma antiga colónia holandesa.
“O senhor Erick Thohir, que já foi presidente do Inter de Milão, é indonésio e agora é como o patrão do futebol na Indonésia. Apostou muito na seleção, e visto que eles são uma antiga colónia holandesa, estão a ir buscar muitos jogadores de primeira liga ou da ou segunda liga da Holanda, com passaporte indonésio. Neste momento o jogador da Indonésia está a ser um bocadinho ultrapassado pelo passaporte com origem nos Países Baixos, digamos. Mas se formos analisar o perfil do jogador indonésio, sem esse passaporte, é um jogador rápido, normalmente é nas transições ofensivas e defensivas que conseguem ter maior performance, porque têm muita velocidade”, explica.
"O problema está na tomada de decisão, aí não são muito fortes. Também não são jogadores muito altos, 1,75m para um jogador indonésio é uma boa altura, já é considerado um jogador alto, e nós sabemos que a altura no futebol é essencial, principalmente nos esquemas táticos, quer ofensivos, quer defensivos. Penso que está aí a grande lacuna em termos defensivos da seleção da Indonésia, que não é muito alta e, quando compete com outras seleções da Ásia, acaba por perder muitas vezes nesse estilo de jogo”, assinala. Em todo o caso, Bernardo Tavares reconhece em alguns jogadores indonésios qualidade suficiente para atuarem nas ligas profissionais em Portugal
“Em 2022, quando peguei na equipa do PSM Makassar, tinham ficado em 14.º e os melhores jogadores saíram. Eu aproveitei os poucos que ficaram e fui buscar jogadores à 3.ª liga e às camadas jovens. Alguns desses jogadores que eu fui buscar no ano a seguir estavam na seleção”, revela.
"Alguns desses jogadores, a meu ver, teriam lugar num SC Braga. Neste momento o Braga está um bocadinho mais acima, mas, naquela altura eu olhava para o Braga e os seus alas defensivos não eram superiores aos irmãos Sayuri que foram meus jogadores. Um é Yance Sayuri, o outro é Yacob Sayuri, jogadores muito rápidos, com uma mentalidade muito forte, com uma atitude muito forte, uma reação à perda da bola muito forte. Rematam bem, um com o pé esquerdo, outro com o pé direito”, refere. O encantamento de Bernardo Tavares por alguns dos jogadores indonésios leva-o mesmo a afirmar que “a forma de combater faz-me lembrar a Alemanha, aquele jogador típico alemão, com grande atitude coletiva”.
FC Porto a caminho do título, com dois olhos no Sporting e um no Benfica
De malas feitas para regressar à Indonésia, Bernardo Tavares leva na bagagem as sensações do campeonato português.
“Acho que o FC Porto leva algum avanço, não só em termos pontuais, mas também em termos de moral. Fizeram boas contratações e acho que o treinador... ninguém esperava que chegasse a esta altura com esta diferença de pontos e com esta performance. Também vejo o Sporting com uma equipa forte, e acho que no Benfica, com alguns jogadores que vão contratar, o José Mourinho também conseguirá aproximar a equipa. O campeonato está muito competitivo, acho que o próprio Braga tem bons jogadores. O meu maior desejo é que mais Bragas venham, porque o futebol português só teria a ganhar”, sublinha, antes de desejar um feliz ano novo em indonésio, pois claro...
“Eles utilizam ‘selamat’ para tudo”, diz. “Selamat traduzido para português significa feliz, por isso posso dizer selamat. Desejo a todos os portugueses, onde quer que estejam em todas as partes do mundo, um ano de 2026 repleto de saúde, com muitas conquistas pessoais, profissionais e que sejam felizes”, conclui.












