Entrevista Bola Branca

Darijo Srna e a guerra na Ucrânia: "Tivemos alguns jogadores que dormiram nos carros por causa dos ataques"

22 jan, 2026 - 11:35 • Hugo Tavares da Silva

Em entrevista à Renascença, o diretor desportivo do Shakthar revela como é estar no futebol durante a guerra, explica onde deve jogar Sudakov e garante que Arda Turan terá "um futuro incrível".

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Como é estar no futebol durante a guerra? "Às vezes, tens de ser pai, mãe, irmão e irmã, não é suficiente ser apenas diretor"
Como é estar no futebol durante a guerra? "Às vezes, tens de ser pai, mãe, irmão e irmã, não é suficiente ser apenas diretor"

A última vez que falei com Darijo Srna foi em 2019. A primeira fase da invasão da Rússia já começara, expulsando o Shakhtar de Donetsk, onde o ex-futebolista tem casa e não vai desde 2014. O croata, sempre positivo e com a bússola moral inatacável, já escapara à Guerra dos Balcãs. Foi por isso que foi vender vegetais e fruta na rua, saía de casa às três ou quatro da manhã. Entretanto o mundo viveu uma pandemia e a Ucrânia sofreu e vai sofrendo uma invasão ainda mais musculada com a ideia de derrubar Kiev.

Depois de tanto, queria apenas olhar-se ao espelho e sentir que era boa pessoa. Pouco mais de seis anos depois da nossa conversa, enfiado numa camisola laranja do clube com o n.º33, o diretor desportivo do Shakhtar mantém aquela energia positiva, quase incompreensível, mas já baixa os olhos quando fala em momentos difíceis. Tem a família em Londres e faz muitas horas para a ver. Já escapou para abrigos durante jogos, os jogadores já dormiram nos carros por causa de ataques noturnos e vários elementos do clube já perderam familiares. O antigo lateral, que como jogador ganhou 10 campeonatos em 15 anos de Shakhtar, está orgulhoso do povo e sente-se ucraniano. São já 23 anos por ali. Ele tem 43.

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A última vez que falámos foi em 2019, o mundo mudou um pouco...

Claro.

Como vai vivendo tudo?

Estou bem, estamos bem. Estamos fortes, estamos habituados a esta situação. É uma altura muito dura para a Ucrânia. Tem sido difícil desde o início, é o momento mais difícil, porque não há eletricidade, não há luz. As pessoas estão a sofrer, temos alguns jogadores que estavam em casa em dezembro, em Kiev, e dormiram nos carros por causa dos ataques. Mas está tudo bem, estamos fortes. Não sei durante quanto tempo isto vai continuar, mas esperamos que acabe tudo o mais rápido possível.

Como é que os jogadores conseguem jogar futebol? O Darijo também viveu demasiadas coisas, como uma guerra.

Eles estão a jogar pelo país deles. Estou orgulhoso deles, estou orgulhoso dos brasileiros e de todos os meus jogadores. Sabes, não é fácil viajar assim, ir para os abrigos, vais dormir às sete ou oito da manhã e depois vais jogar à noite. Não é fácil. Mas o que podemos fazer? Podemos lutar e jogar pela nossa equipa e pela Ucrânia e tentamos fazer o nosso melhor. Isto é o nosso trabalho.

Impressiona que os futebolistas não queiram sair do país. Podiam ter medo.

Claro. Nem é a questão de irem, eles estão a vir. Fizemos transferências no último ano e meio. Este é um clube muito forte, com um presidente forte, com adeptos fortes. O que posso dizer? Rezamos para que isto acabe o mais rápido possível.

Tiveram jogos e treinos interrompidos por sirenes ou bombas?

Jogos, sim, dois ou três. Tivemos de ir para o abrigo, depois regressámos.

Vivem e jogam em Kiev?

Vivemos em Lviv, mais perto da fronteira. Estamos a jogar na Europa, vamos muitas vezes a Kiev também. Estamos a viajar por toda a Ucrânia.

Lembro-me que não ia a Donetsk desde 2014. Ainda é assim?

É, claro. Estão lá os russos e não podemos ir lá. Há a guerra lá, russos, eu não quero ir lá enquanto os russos estiverem lá. Não são as minhas pessoas em Donetsk.

Tinha comprado lá casa, não é?

Sim sim, muitos jogadores compraram casa. Sabes, é muito fácil comprar ou construir uma casa mas é muito difícil quando perdes alguém, este é o problema. A casa não é um problema, esta guerra de merda está a levar muitas vidas humanas, crianças, mulheres, homens. É o maior problema disto.

Presumo que pessoas do Shakhtar perderam alguém.

Sim, alguns jogadores perderam familiares. Pessoas do clube também. Claro, não é fácil para ultrapassar estes problemas todos, mas estamos juntos. Aqui, às vezes, tens de ser pai, mãe, irmão e irmã, não é suficiente ser apenas diretor e ex-jogador, tens de ser amigo muitas vezes. Mas está tudo bem, estou orgulhoso do meu clube, do meu presidente, da nossa equipa e do clube porque estamos unidos e juntos, espero que continuemos assim.

Disse que não tinha eletricidade.

Sete, oito horas, talvez 10, às vezes cinco, depende da situação.

E o seu dia, como é? Fica o dia todo no clube? Está com a família?

A minha família está em Londres. Viajo muito. Para ir de Kiev para Londres precisas de talvez 30 horas, não é fácil. Estamos a viajar muito. Por exemplo, quando fomos jogar com o Shamrock, em Dublin, a nossa viagem do hotel de Kiev para o hotel de lá foram para aí 18, 19 horas.

Wow.

Mas o que podemos fazer? A situação é assim, estamos juntos nisto. Sabes, a grande vitória é, quando voltamos dessa longa viagem, está toda a gente feliz, a sorrir, treinam, ganham o jogo, voltam, isto é uma grande família.

Agora umas perguntas de futebol. Tem-se falado muito de Sudakov por cá. Mourinho usou-o pelo lado esquerdo e recentemente jogou a número 10. Pode ajudar-nos e dizer onde é que ele joga bem?

Claro que a posição dele é número 8, número 10. Mas o Mourinho é um grande treinador, se o mete no lado esquerdo é porque acredita que ele pode jogar lá também.

Mas é melhor no centro, então?

Sim! Connosco jogou no centro, mas talvez Mourinho não tenha opções, não tenha jogadores para jogar lá, sabes. Mas é a decisão dele, o que posso dizer? O Sudakov é um grande homem, uma grande pessoa e um jogador incrível.

O edifício da família dele foi bombardeado aí...

Sim, sim, sim

... é terrível, como é que eles conseguem jogar futebol? Como é o caráter dele?

Ele é forte. Todo o povo ucraniano é forte, eles mostram-no há quatro anos a lutar contra a Rússia. É um povo forte com uma grande mentalidade. São ótimas pessoas, honestas. Tenho a sorte de viver aqui há 23 anos, porque conheci tantas pessoas boas, tantas pessoas incríveis. São meus amigos para toda a vida. Sou croata mas sou ucraniano também. Eu estou com o povo ucraniano agora.

Para defender Sudakov, Mourinho disse que a preparação dele como jogador talvez não fosse tão boa por tudo o que está a acontecer. Sente isso? Sente que não podem ser uma equipa de elite e com os jogadores na melhor forma por causa da guerra?

Claro!

Não é só uma questão mental...

Claro. Não é fácil para eles ver todos os dias o que está a acontecer na Ucrânia. Ler as notícias. Todos têm família lá, têm medo por eles. Sentem stress. Quando vais dormir, não sabes o que vai acontecer durante a noite porque há quase sempre ataques. Claro que vais dormir sob stress. Mas não é só ele, é para todas as pessoas na Ucrânia.

E esse stress pode refletir-se na condição física ou na forma como trabalhas, certo?

Eu, quando sinto stress, não consigo comer, não consigo fazer nada. Depende. Conheço o Sudakov, é muito forte, conheço bem todos os nossos jogadores. Às vezes falo com ele e ele está muito feliz. Claro, ele precisa de tempo porque chegou já com o campeonato em andamento. Todos os jogadores precisam de tempo.

Como resume Sudakov?

Ahhhh, ele é... Quando falei com o Rui Costa, ele disse-me "eu guardo a camisola 10 para ele". O Rui Costa disse tudo sobre ele. Quando falei com o Rui Pedro Braz, antigo diretor desportivo, eles queriam-no tanto tanto. Temos uma relação incrível com o Benfica. O Rui Costa foi um jogador incrível, acho que está a fazer um grande trabalho agora. Tenho uma grande relação com o Rui Pedro Braz, agora na Arábia Saudita, percebe de futebol e de jogadores.

Como acha que vai ser a trajetória de Trubin? Será um guarda-redes para o topo?

Penso que sim, ele tem o talento. Mas, sabes, depende do resultado da equipa. O Benfica este ano... O Porto está incrível com o novo treinador, Farioli, o Sporting está bem e o Benfica mudou o treinador mais ou menos a meio da época. Mas o Benfica é sempre o Benfica. Toda a gente tem grandes expectativas para o Benfica.

Vocês têm agora Arda Turan como treinador. Como é ele?

O Arda é um treinador muito jovem. Com fome, ambicioso, com uma energia especial. Não temos medo de ter treinadores jovens. Temos a equipa mais jovem da história do Shakhtar. Não temos medo, estamos no bom caminho com o Arda. Está a fazer um bom trabalho. Tem muita ambição, tem um futuro incrível.

Olhei para a classificação e fiquei curioso com a equipa que está à frente com vocês. LNZ Cherkasy?

São uma equipa muito boa. O problema para nós é que jogamos a Liga Conferência, viajamos muito. Perdemos pontos. Não é fácil, olha para o Dynamo Kiev, também está a jogar a Liga Conferência e perdeu muitos pontos. Não é fácil, jogamos quinta-feira, viajamos 15/16 horas, vens sexta de manhã, jogas sábado. A logística não é fácil.

O Dynamo Kiev está a nove pontos. Vocês estão bem...

Sim, sim. Temos de continuar assim.

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