Entrevista Bola Branca

"Há nostalgia por Modric e Kroos": Quique Flores reflete sobre Real-Benfica, racismo, jogadores-artistas e cita Neruda

25 fev, 2026 - 13:30 • Hugo Tavares da Silva

Em entrevista à Renascença, o treinador espanhol que passou pela Luz, em 2008/09, diz que, embora goste deste Benfica, jogar no campo do Real é "outra coisa". Afinal, "o Bernabéu é o Bernabéu".

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Nunca lhe tinha acontecido em 36 anos no futebol profissional: Quique Flores ouviu, em março de 2024, insultos por causa das suas raízes ciganas e confessa que foi "feio e humilhante". Em conversa com a Renascença, o antigo treinador do Benfica fala do caso Prestianni-Vinicius, recorda esse Getafe-Sevilha que o magoou e ainda como foi viver o drama e a violência racista que sofreu o seu companheiro Freddy Rincón no Real Madrid.

Em dia de Real Madrid-Benfica, o espanhol, de 61 anos, avalia ainda o adversário e os passos atrás dos madridistas e, apesar de gostar do que vê da rapaziada de vermelho, nota que o "Bernabéu é o Bernabéu", ou seja, que será muito complicado para os jogadores de Mourinho, alguém "que está muito diferente" e defrontou em muitíssimas ocasiões como técnico do Valência e Atlético Madrid.

Como bónus, o treinador reflete também sobre a falta de artistas no futebol e, para manter a esperança ligada, cita Pablo Neruda, o poeta chileno.

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Começo pelo tema de Prestianni e Vinicius. Como viu esta história?

Tenho uma mentalidade de tolerância zero ao racismo. Para mim, qualquer gesto ou situação que pode implicar isto, parece-me que tem de ter um castigo exemplar para o futuro. Para os que queremos um futebol limpo, para os que queremos um futebol com espectadores respeitosos, se queremos um ambiente que ajude à convivência, não há outro caminho. Para mim, há racismo, há castigo, há que penalizar um jogador que pode insultar outro nesses termos.

Mas é difícil quando não se pode provar, certo?

Todos entendemos que quando se tapa a boca não é para dizer algo que acrescente, mas ao contrário. O próprio agressor, neste caso, não fez uma grande defesa da sua posição. Entendo que a UEFA tem de atuar e que tem de haver castigo.

Surpreende-o esse castigo preventivo?

Pareceu-me bem, pareceu-me justo. O castigo deve ser preventivo porque há a presunção de inocência, mas, vamos lá, seria muito fácil a partir de agora os jogadores taparem a boca com a camisola para falarem, entendes? Seria feio. Estaríamos a ultrapassar uma linha vermelha, numa altura em que devemos dar para o futuro uma imagem de um espaço educativo, para além de desportivo. Não o vejo noutras modalidades.

O Quique sofreu-o na pele recentemente, quando era treinador do Sevilla contra o Getafe, falou com orgulho nas suas raízes ciganas. Como é viver isso, como é estar desse lado?

É desagradável. Nunca me tinha acontecido, foi a primeira vez num campo, depois de 23 anos como treinador e 13 como jogador. É desagradável. Por isso, posso imaginar quando os insultos são contínuos e fortes... não me estou a meter na pele do Vinicius, estou a meter-me na pele de qualquer jogador que por qualquer motivo possa ser insultado, de forma racista neste caso.

Parece-me feio, desagradável, humilhante. Não é o que queremos para o futuro. Imagino que dentro de cinco, 10, 15 e 20 anos os estádios de futebol só existam como um lugar onde as pessoas se reunem para ir a um evento desportivo, onde se manifesta a paixão e a educação também.

Hmm, hmm.

Creio que ganhámos muito nos últimos 40 anos. Nessa altura era uma barbaridade, falava-se de Ku Klux Klan, havia insultos durante todo o jogo e não acontecia nada. Os jogos não era interrompidos. Há um protocolo há muitos anos, mas o futebol que devíamos ter, dentro de 10, 15 e 20 anos, deve ser infinitamente melhor do que o que temos agora.

Tivemos aqueles episódios com Freddy Rincón no Real Madrid, ou Wilfred [Agbonavbare] no Rayo Vallecano, Kameni... Era muito duro, não?

Claro. Vivi isso com o Freddy Rincón no Real Madrid, como companheiro, e também como Wilfred quando coincidimos em alguns jogos.

Como era viver isso com a vítima, com Rincón?

Era mau. Se tens uma consciência social, vive-se muito mal, ainda que não seja contigo. Vive-se mal. Não te entra na cabeça que exista racismo, ou que dentro de um evento desportivo tenham que existir esse tipo de diferenças. Para os que pensam numa sociedade melhor, não há espaço para esse tipo de situações.

Entende que Vinicius tenha de fazer esta luta? Bom, ou deveria estar mais gente com ele?

Eu separo o Vinicius jogador com as suas atitudes às vezes provocadoras com o Vinicius pessoa. Quando é atacado, tem de reagir. Porque tem de meter o protocolo em marcha, é assim. Afinal, é uma carga social, uma carga anímica e moral excessivamente pesadas para um miúdo. Ele deve proteger-se também porque deveria jogar em ambientes em que isso não exista. Outra coisa é pensar até onde vai Vinicius a provocar situações. Mas isso é outra coisa, é outro tema.

Pois, Mourinho misturou esses dois temas, certo?

Respeito muito os treinadores e meus colegas, há momentos de muita calentura e emoção quando acabam os jogos e não temos sempre as ideias claras.

Vamos a um pouco de futebol, Quique. É possível que o Benfica faça algo como fez há um mês? O que espera deste jogo?

O Bernabéu é muito Bernabéu, entrar no templo do Real Madrid é outra conversa. O Real Madrid tem a vantagem no marcador, mas devo dizer que gostei bastante do Benfica nos dois jogos contra o Real Madrid. Tem energia, bons jogadores, qualidade. Enlaça passes, vai para a frente. Talvez a única diferença que vejo é que o Real Madrid esteve muito melhor no segundo jogo. Mas o Benfica tem armas para meter dúvidas ao Real Madrid.

Está a melhorar com Arbeloa?

Está a melhorar, mas de repente dá passos atrás. No princípio custou-lhes muito arrancar, custou-lhes muito para sair da zona donde estavam com Xabi Alonso. Os avanços são pequenos e cada vez que dão dois ou três passos para a frente dão outro atrás. Parece-me que vai encontrando o 11, mas continua lenta a recuperação do Real Madrid.

Às vezes parece que há pouca magia, espera-se algo de Vinicius e Mbappé, que não pode jogar, mas talvez estejam a sentir falta de Modric e Kroos para controlar os jogos...

É uma das grandes penalidades que tem este Real Madrid. Há nostalgia por Modric e Kroos, eram jogadores que tinham uma capacidade enorme para começar as jogadas, para dar fluidez uns metros mais à frente, para que a circulação seja mais rápida. Obviamente, isso vê-se. Por outro lado, o Vinicius leva um tempo sem ser Vinicius, ainda que pareça que há uma pequena melhoria, e Mbappé está a jogar condicionado. Tem uma lesão que o impede de estar a 100%. Portanto, o problema continua a estar no gerar futebol e numa falta de incorporação dos laterais que no futebol de hoje é muito importante, que sejam mais dinâmicos.

Lembro-me do seu Benfica, acha que antes havia mais jogadores artistas? Esse debate é eterno...

Parece uma contradição mas os jogadores, no geral, são melhores tecnicamente agora, porque estão mais formados na academia e na escola. Qualquer jogador faz um passe de 40 metros, seja qual for a posição, um central ou um médio centro, um interior, são jogadores que estão formados para o controlo, movimentos e receção da bola. Taticamente, são jogadores melhor formados. Mas é verdade que se perdeu o futebol da rua, não tanto da sofisticação mas por experimentar muitas vezes, por repetição, fazias tabelas com a parede de casa ou no colégio. Há cada vez menos artistas. Tive na minha equipa Pablo Aimar e di María, estamos a falar de jogadores-artistas, artistas de verdade. Esses cada vez são menos.

Lembro-me sempre de uma frase de Jorge Valdano: a academia melhorou os piores e piorou os melhores.

[gargalhada] O Valdano tem sempre frases certeiras. Creio que é isso, é isso. É verdade que sempre haverá jogadores distintos, mas cada vez são menos. Digo-te uma frase de Neruda: podem cortar todas as flores mas não podem impedir a primavera. No fim de contas, é assim, sabes?

Para acabar, lembro-me daquela eliminatória entre Valência de Quique Flores e Chelsea de Mourinho. Ele elogiou-o muito na altura. Como era defrontar o português?

Tivemos muitos jogos importantes, quando estava no Valência e no Atlético Madrid. Ele estava no Chelsea e depois no Real Madrid. Foram muitos jogos. Eram duros, muito táticos, muito fechados, temos um grande reconhecimento um pelo outro. Sempre. Tive sempre admiração por ele porque sempre foi um treinador que fez crescer os jogadores e os projetos, teve carisma, pegada no balneário. É um treinador muito válido que leva muitos anos a treinar.

Parece-lhe a mesma pessoa?

Está transformado, obviamente. E mal seria se não fosse assim [risos], porque todos, com os anos, vamos mudando coisas, sabes? As sensibilidades mudam. Está mais tranquilo, está focado como sempre, concentrado no seu trabalho e com a mesma paixão, mas as suas mensagens são mais moderadas e tranquilas. E isso é o que faz o tempo.

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