Entrevista Bola Branca
Aloísio: "Cruijff raramente ia para o meio nos meiinhos, ainda tinha uma técnica incrível"
24 mar, 2026 - 12:25 • Hugo Tavares da Silva
O histórico central do FC Porto esteve dois anos no Barça de Johan Cruijff, que o fisgou depois de um Internacional-Ajax numa digressão europeia. Bola Branca ouve Aloísio no dia em que se assinala o décimo aniversário da morte do antigo futebolista e treinador neerlandês.
A história de Aloísio no FC Porto é tão grande que às vezes é olvidada a sua proveniência: o Barcelona de Johan Cruijff. Foi o revolucionário holandês que foi buscar o central brasileiro, fino fino e que seria um mentor nas Antas para outros, ao Internacional de Porto Alegre, em 1988.
Numa conversa breve com Bola Branca, Aloísio recorda a convivência com Johan, que morreu há exatamente 10 anos, explica o momento exato em que captou a atenção do treinador que transformou o Barça e revela que o ‘holandês voador’ era tão bom que raramente ia para o meio nos famosos rondos…
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Quando me respondeu no WhatsApp, disse-me que era um prazer falar no melhor treinador do mundo...
Sim, sim. Na minha carreira tive grandes treinadores, tive essa felicidade, mas o Cruijff foi o melhor, apesar de ter trabalhado somente dois anos com ele [em 1988/89 e 1989/90]. Já o admirava pelo trabalho dele, tive essa felicidade.
Como é que chega ao Barcelona?
Eu estava na seleção olímpica, em Seul, e já era jogador do Barcelona. Já tinha sido vendido. Eu jogava no Internacional de Porto Alegre e fizemos uns jogos pela Europa, numa digressão. Num torneio na Escócia, estava o Ajax e na época era o Cruijff o treinador deles.
Ganhámos esse torneio e na final jogámos contra o Ajax e ganhámos 2-0. Passado um ano ou dois, o Cruijff foi contratado para o Barcelona e fez quase uma equipa nova. Como jogava com três centrais, lembrou-se de mim [risos]... Realmente, fiz um grande jogo. Ele lembrou-se do Aloísio, foi ele que pediu a minha contratação.
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Bem, nunca mais o esqueceu.
Não, não.
Ele queria defesas que pareciam avançados e que tocavam bem, não era?
Sim, a mentalidade de jogo era o que depois vimos no ‘dream team', no tiki-taka. Independentemente da função do jogador, tinha de jogar futebol, jogar bola. Ou seja, sair jogando, na preferência a começar lá atrás com os guarda-redes. Ele exigia isso. E ter o maior tempo possível a bola porque assim a equipa dele tinha mais possibilidades de ganhar jogos, e de cansar menos na verdade. Ele tinha essa ideia de jogo que desenvolveu no Barcelona com grande sucesso.
Lembra-se do primeiro contacto com ele?
Como eu estava na seleção e nós chegámos à final, acabámos por ficar mais tempo, um mês ou um mês e pouco. O campeonato já estava em andamento há quase um mês, já se tinham jogado uns três ou quatro jogos. Então, conheci-o quando voltei da seleção, na semana de treinos. Conversámos muito, de tudo. Até então não tinha tido contacto com ele.
Como era ele? Dizem que era duro, que tinha sempre razão. Um ego complicado...
[gargalhada]
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... como era Johan como pessoa?
Ele tinha muita personalidade. Desde a época de jogador. Ele falava as coisas, o que achava certo, não tinha receio da imprensa ou mesmo do clube. Para mim, era uma pessoa tranquila. Pelo seu histórico e pelo que foi como atleta, pelo nome que tinha, era muito tranquilo, não via vaidade nele no dia a dia com os jogadores, na forma de falar e de se colocar. Pelo contrário, era muito simples nas conversas.
Na cobrança aos jogadores durante os jogos e treinos, no aspeto tático, era um bocadinho exigente. Se não cumprisse, ele trocava o jogador e nem dava explicação. Procurava defender e proteger o plantel, sempre que as coisas não corriam bem e a imprensa falava mal ou criticava, ele dava a cara.
E nos treinos, ele tocava na bola?
Sim! Ele tinha 53 anos, se não me engano, estava jovem, em pleno fisicamente. Participava nos rondos [meiinhos], no aquecimento, ele gostava. Raramente ia para o meio porque ele não perdia a bola, não errava passes [risos]. Era muito engraçado. Tinha uma técnica ainda incrível...
O Aloísio fez-se treinador também. Levou algo de Johan para essa vida?
Algumas coisas, sim. E do Mourinho também, com quem trabalhei. Fui jogador do Mourinho, quando ele chegou ao Porto com o Bobby Robson. Depois, trabalhei com o Mourinho. Tirei um bocadinho dos dois. O Cruijff era diferente do Mourinho, na forma de pensar e de ver o jogo. São as minhas duas referências. Tive a felicidade de poder trabalhar com esses dois senhores do futebol.
Se falasse com alguém que nunca ouviu falar sobre Cruijff, o que diria?
[risos] Sim, há muita gente que não o conhece, o pessoal mais novo. É quase impossível, quando se fala no nome Cruijff, não ir lá atrás no tempo e saber que foi um dos maiores jogadores da Holanda e considerado um dos maiores do mundo. Era uma pessoa espectacular, como ser humano e profissional. Tive a felicidade de trabalhar com ele nesses dois anos, aprendi muito, ensinou-me muita coisa que levo e vou levar para a minha vida.










