Entrevista Bola Branca

Martí Perarnau: "Quando Cruijff chegou a Barcelona havia ditadura. Ele continuou a comportar-se como um homem livre"

24 mar, 2026 - 10:00 • Matilde Pinhol

Quem o diz é alguém que privou com o génio da Laranja Mecânica. Martí Perarnau, um atleta olímpico que se transformou no biógrafo de Pep Guardiola, explica quem era Johan Cruijff no dia em que se assinala o décimo aniversário da morte do holandês.

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Um dos maiores nomes da história do futebol partiu neste dia há 10 anos. Johan Cruijff revolucionou o futebol no campo e depois nos gabinetes, era um pensador, um homem livre e alguém que chocava de frente com os outros.

Para assinalar esta data redonda, Bola Branca conversa com Martí Perarnau, um antigo atleta olímpico e jornalista que se converteu no biógrafo de Pep Guardiola, o discípulos dos discípulos de Johan Cruijff. Perarnau reflete e revela as camadas menos conhecidas do 'holandês voador'.

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Falar de Cruijff é falar de alguém que revolucionou o futebol, mas por outro lado vemos alguém que poderia aparentar ser um pouco mais conservador na sua vida privada. Concorda?

Não tenho 100% de certeza de que na sua vida privada fosse uma pessoa conservadora. Era uma pessoa ligada a um conceito muito importante da família, talvez porque não teve pai e porque teve de ajudar muito a mãe.

Nesse sentido, poder-se-ia dizer que foi algo mais conservador nalguns aspetos da sua vida, talvez sim, mas não tenho 100% de certeza de que ele se considerasse a si próprio conservador, nem pouco mais ou menos. Suponho que, como toda a gente, tem os seus traços pouco convencionais.


Muitas vezes pensa-se em atos de Cruijff, como a recusa de participar no Mundial de 78 ou o beijo na braçadeira com as cores da Catalunha, como atos políticos. Mas não será que tudo isto não se resumia mais à sua forma de estar?

Sim, eu diria que era um homem livre, vivia num país livre como era a Holanda. Sobretudo, era um homem de espírito livre porque as circunstâncias da vida o fizeram entender que o mais importante eram os seus próprios valores, os seus princípios, e que não estava disposto a ajoelhar-se diante de outros, nem por dinheiro nem por outras razões.

Quando chegou a Barcelona, encontrou um país onde ainda havia Franco, estávamos na ditadura franquista. Ele simplesmente continuou a comportar-se como era, mas o choque foi muito forte porque uma coisa é ser um homem livre na Holanda e outra em Espanha, naqueles anos. Na Holanda, ao comportar-se como um homem livre, evidentemente chocou com muitos no futebol: com o Ajax, com a seleção, com a Adidas... porque tinha os seus princípios e punha-os acima de outros, não estava disposto a vergar os seus critérios por mais que à frente estivesse o "Senhor Adidas" ou o "Senhor Ajax". Ao chegar a Espanha, isso multiplicou-se, porque encontrou num país que não era livre. Desde pôr "Jordi" ao filho num país onde não se podia pôr Jordi aos filhos. Isso aumentou a sua imagem de rebeldia, mas ele não mudou, o contraste é que foi muito grande.

Na sua etapa como treinador, o choque continuou a notar-se?

Sem dúvida nenhuma. Aquela famosa frase como treinador do Barça, em que diz que os catalães ainda vivem atemorizados e que, por isso, teve de contratar jogadores bascos, que estão menos atemorizados e são mais valentes...

Mais do que o futebol, o que há aí é uma frase que reflete uma realidade social e política. E ele, portanto, continuou como treinador com o esse mesmo espírito. Desde defender os jogadores que se tinham manifestado contra o presidente Núñez, até à sua própria reação de quando se foi embora do Barça. Ele não mudou. A última vez que falei com ele, em 2009, estava igual a 1973. Tinha mudado o físico, mas não parecia ter mudado a sua mentalidade nem o seu espírito em absoluto.

Muita gente associa Cruijff ao independentismo. Mas ele era mesmo independentista ou apenas se identificava com a cultura catalã?

Ele, quando chega a Barcelona em 1973, faz uma imersão profunda na Catalunha pela mão de Armand Carabén, que era o secretário-geral do clube. O Armand explicou-lhe muito bem todas as questões catalãs. O Johan não foi o típico futebolista que chega a um sítio e não sabe onde está. Sabia perfeitamente onde chegava social e politicamente.

Com o passar dos anos, manifestou-se claramente a favor da independência da Catalunha. Não era independentista porque era holandês. É como se tu te fosses declarar independentista de um país da Polinésia. Podes ter muita simpatia, mas não são os teus sentimentos de nascimento. Mas manifestou-se a favor do movimento basicamente por uma questão muito relacionada com a sua maneira de ser: porque vais impedir alguém de ser o que ele quer ser? Ou seja: "Se eu quero ser da Polinésia, porque me vais proibir-me de ser da Polinésia? E quem és tu para me proibires se esse é o meu sentimento?".

E a comparação com Guardiola? Diz-se que Cruijff é o "pai" de Guardiola, mas em questões políticas acabam por ser muito diferentes, não?

Creio que nisto eles acabam por ser muito distintos, mais por uma questão de personalidade. O Guardiola identifica-se muito claramente com o independentismo e com a solidariedade com gente oprimida, fazendo ações em privado, em segredo, para ajudar. São distintos pela personalidade de cada um e por onde a vida os levou.

O Johan teve o impacto de conhecer crianças com Síndrome de Down e isso marcou-o muito. Dedicou-se a isso ao deixar de ser treinador. O Pep ainda está no ativo, não pode ter uma atividade tão intensa noutro terreno. No fundo ambos têm similitudes, mas evidentemente são distintos.

Das duas etapas no Barça, jogador e treinador. Qual teve mais impacto?

A de jogador tem mais impacto instantâneo de imagem, de orgulho, de recuperação da autoestima. Estavam há 14 anos sem ganhar a liga, de repente ganha-se 5-0 no Bernabéu e o clube volta a ser uma máquina. Nesse sentido de impacto emocional, sim, mais como jogador.

Mas no sentido de impacto profundo, de provocar consequências radicais e marcar um rumo definitivo - a maneira de jogar da formação, o tipo de futebolista - creio que é a etapa de treinador. Aí, o Cruijff treinador apaga todas as dúvidas e contradições e marca o rumo definitivo.

Cruijff foi selecionador da Catalunha. Acha que era o único estrangeiro capaz de fazê-lo?

[risos] Sim, é possível, não tinha pensado nisso sinceramente. Seguramente haverá mais algum, mas em qualquer caso era a pessoa ideal. Ser selecionador da Catalunha ainda hoje é simbólico porque não podem ser uma seleção oficial. É o estrangeiro que tem unanimidade e que não provoca dúvidas de "porquê este?".

Há uma história de um jornalista que perguntou a Cruijff se ia aprender catalão. Respondeu que já falava holandês, castelhano e inglês, e que não ia aprender catalão. Como é que isto era visto pelos culés, que costumam pedir esse esforço?

Sim, isso que dizes é verdade. No Barça procura-se isso, o sócio quer isso. Agora com o Hansi Flick fala-se um pouco disso: "Bem, Hansi, falas inglês, perfeito, mas algum dia podias começar a dizer algo em catalão". O Johan não o fez. Eu creio que, primeiro, o Johan era muito pragmático em tudo o que fazia e deve ter pensado que já era velho e não o ia aprender. Mas a razão básica é que o Johan não era catalão e não se sentia catalão.

Hmm, hmm.

Ele podia apoiar as questões catalãs: a independência, a liberdade da gente, pôr o nome que quisesses ao teu filho, o deixar de viver atemorizados... tudo isso ele apoiava 100%. Mas não podias pedir-lhe que, de repente, se sentisse catalão.

Ele continuava a sentir-se holandês e ponto final. Suponho que essa deve ser a razão pela qual não fez nem sequer o esforço de o aprender. Ele entendia-o perfeitamente, mas não fez o esforço. Talvez por uma mistura do seu pragmatismo com a preguiça a partir de certa idade. Nisto, por exemplo, é muito diferente do Guardiola.

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