4ª Conferência Bola Branca
Não se diz "não" a Boban, então Capellas foi revolucionar o Dínamo: “Quando ensinas um idioma novo, quanto antes melhor”
28 mai, 2026 - 07:30 • Hugo Tavares da Silva
O erro dos jovens treinadores, uma regra à prova de bala na academia do Dínamo Zagreb, o 'jogo de posição' e os seus embaixadores: "Cruijff sentia-se muito cómodo com um 5-4, Guardiola sente-se cómodo com um 5-0”.
Albert Capellas estava feliz da vida, era selecionador das Filipinas e vivia em Barcelona. Com tanto futebol para trás – seja como coordenador da academia do Barça ou adjunto do Dortmund na Champions, seja como treinador do Midtjylland ou selecionador sub-21 da Dinamarca –, estava na situação “idílica” para pensar na reforma.
Mas o telefone tocou.
Era um amigo a dizer-lhe que Zvonimir Boban, aquele mago que encantou San Siro e que agora é presidente do Dínamo Zagreb, ia ligar-lhe. E o telefone tocou. Bastaram “30 segundos para haver clique” com o croata da famosa patada antes da guerra. Capellas foi a Zagreb, esteve ali três dias a escutar Zvonimir.
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O amigo voltou a ligar e perguntou-lhe se já tinha respondido a Boban. Albert disse que não, porque o convite para diretor e responsável pela academia do Dínamo pressupunha uma mudança de vida importante. “Não se diz não ao Boban”, avisou o amigo. E Capellas acabou acatar aquele conselho. Com convicção certamente, pois a energia que transmite é avassaladora (“nunca me faltou…”).
“O Boban é uma lenda muito grande, é uma pessoa muito querida, com muita personalidade, ama o futebol, ama o futebol croata, o Dínamo Zagreb”, conta Capellas sobre o antigo 10 da Croácia. “Ele respira futebol por todos os lados, futebol e honestidade no futebol, que é ainda mais importante.”
Bola Branca conversa com Albert Capellas no âmbito da 4ª Conferência Bola Branca, no dia 28 de maio, no auditório da Renascença, em Lisboa. Falar-se-á de “Excelência no Futebol”. E Capellas já viu muita coisa, já fez muitas outras.
A ideia de Capellas é colocar os miúdos do Dínamo Zagreb, dos sete anos à equipa principal, a jogarem da mesma maneira. Resumindo, “uma linha de trabalho para que todos joguem e treinem da mesma forma, com o 'jogo de posição'”, diz sobre a doutrina que embala o futebol do Barcelona, ganhando outra visibilidade, reputação e seguidores durante a vigência de Pep Guardiola naqueles anos dourados no Camp Nou.
Para este catalão, o scouting é a coisa mais importante. “Selecionar jogadores o mais técnicos possível e com um entendimento de jogo, com uma tomada de decisão, que seja próximo do que procuras”, explica, assinalando: “Sem o foco estar no físico. Quanto tiverem 17, 18 e 19 anos, o físico já vai fazer diferença…”
É um tema recorrente na formação, a aposta no jogador grande e potente em detrimento do técnico. As datas de nascimento dos atletas podem denunciar algumas situações.
“Para ganhar, as academias selecionam jogadores dos primeiros três meses do ano. Para nós, isso é proibido. Há talento em janeiro e há talento em dezembro. Quando detectamos que um treinador só seleciona jogadores do princípio do ano, dizemos: ‘escuta, não estás a fazer bem o teu trabalho. De certeza que estamos a perder talentos de outubro, novembro e dezembro e queremos tê-los no Dínamo.”
O gigante de Zagreb foi campeão com quase mais 20 pontos do que o Hajduk Split. Cardoso Varela, o menino português de 17 anos que em tempos idos deu que falar numa contenda entre FC Porto e Barcelona, esteve em 25 jogos.
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O caminho do Dínamo é esse: somar talentos e ensinar-lhes um idioma. Ou seja, uma ideia, um caminho. Mas o mais cedo possível na vida deles, uma visão que vai contra a teoria de muitas pessoas do futebol juvenil.
“Quando ensinas um idioma novo, que é o que estamos a fazer aqui, ensinar uma maneira diferente de entender o futebol e de treinar, quanto antes melhor”, reflete Albert Capellas, de 58 anos. “Há essa crença de que os miúdos pequenos de oito, nove, 10, 11 e 12 anos têm de ter muita liberdade. Eu penso de forma muito diferente. É muito melhor se aprenderem este idioma o quanto antes possível.”
É que vão saber, desde cedo, onde se posicionar, como colocar o corpo, que rotas e caminhos há no campo de futebol para chegar às zonas idóneas que prometem ferir o rival. A dificuldade é sempre fazer isso tudo sem asfixiar o talento. Ninguém pode dizer que no Barça e City de Pep Guardiola não há talento e uma certa liberdade ordenada, certo?
A posição dos jogadores e o que isso permite, havendo pés para corresponder à doutrina, é importante para Capellas. E para o presidente do Dínamo.
“O Boban é um grande fã de Cruijff e deste futebol, desta maneira de entender o jogo, deste futebol moderno. Ele jogou contra o Barcelona dessa época, sempre digo que o Boban merecia jogar no Barcelona, mas o que aconteceu é que o Milan era mais importante que o Barcelona.” Em 1994, o Milan de Capello decretou o fim do Barça de Johan. Boban, com a camisola 9, jogou os 90 minutos dessa final da Liga dos Campeões, em Atenas.
Sobre Johan e Pep, Capellas tirou da garganta mais um tesouro verbal: “Digo sempre que o Johan Cruijff se sentia muito cómodo com um 5-4… e que Guardiola se sente muito cómodo com um 5-0”, pausa. Gargalhada sonora.
E continua: “É verdade. O grande passo em frente do Guardiola no futebol moderno foi, para além de atacar bem, tinha a equipa muito bem organizada na defesa”.
Sem Johan não haveria Pep, sentencia Capellas. “Cruijff teve a grande ideia, o Guardiola perfeccionou-a. Sem Cruijff, teríamos uma versão diferente do Pep.”
É isso que Capellas e Boban querem para o Dínamo, que terá um novo estádio. E uma nova academia também, pois “na Croácia há muitos talentos” mas falta algo mais.
O quê? “Falta-lhes escola, escolherem melhor, posicionarem-se melhor em campo, tomarem melhores decisões”, revela. “Eu aprendi isso no futebol catalão, no Barcelona. Mas aqui encontras talentos que na Catalunha não encontras, porque viveram num futebol de liberdade, de criatividade, de expressão sem amarras dos treinadores, isso é outro tipo de jogador.”
Ou seja, “o meu grande desafio aqui é como implementar o ‘jogo de posição’ e essa maneira de entender o jogo sem perder essa criatividade, que te dá o futebol mais de rua. Esse é o meu grande desafio”, assume.
E reforça: “O futebolista croata é muito atrevido, em qualquer parte do campo. Há que ensinar que nestas zonas atreves-te, jogas e protegemos-te, mas nesta zona tens de jogar fácil. Para essas coisas há que encontrar esse equilíbrio”.
Finalmente, questiono Albert Capellas sobre o que gostaria de dizer sobre erros ou hábitos que não vê com tão bons olhos. O catalão diz e diz outra vez que respeita todas as formas de atuar, mas há uma situação que o incomoda.
“Sou muito cético com as opiniões de jovens treinadores com muita pouca experiência, que pensam que sabem tudo, e não sabem as consequências das decisões deles”, confessa.
“Porque um ano treinas um clube, depois no outro ano treinas outro, e no outro ano treinas outro... tu não sabes as consequências do teu treino nestes miúdos. Ao contrário, quem esteve 10, 15 anos num clube sabe o que acontece, isso é uma das grandes vantagens”, acrescenta.
Este homem que viveu para o futebol e que não soube dizer não a Zvonimir Boban, quando era o selecionador das Filipinas a viver em Barcelona, lembra que viu miúdos de oito anos a chegarem à equipa principal. “Sei o que acontece quando não chegam lá…”
Concluindo, “no futebol há que ser atrevido e arriscar, mas é preciso ter muito respeito pelo conhecimento de futebol de muitíssimos anos. É ouro nos clubes ter pessoas com muitos anos”.
Há demasiada pressa?, pergunto. “Há muita pressa, isso não é bom. Estamos a pensar na minha carreira, na minha projecção, faço o que for preciso para chegar depressa. Este é o teu objetivo? Perfeito, mas não és treinador de formação. És outro tipo de treinador.”












