Entrevista Bola Branca

“A FIFA e o seu presidente têm um poder tão grande que os Estados não se atrevem a contrariá-los”

11 jun, 2026 - 07:35 • José Pedro Frazão

O ex-presidente do Comité de Governação da FIFA, Miguel Poiares Maduro, acredita que o Mundial será uma competição íntegra no plano das arbitragens. Mas alerta que os árbitros estarão pressionados no subconsciente pelo peso de algumas federações.

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O ex-ministro Miguel Poiares Maduro não tem dúvidas. O presidente da FIFA “tem claramente problemas éticos” e a instituição está a levar a cabo um “processo muito significativo de captura da política”.

Numa entrevista sobre o contexto institucional do atual Campeonato do Mundo, que arranca esta quinta-feira, o antigo presidente do Comité de Governação da FIFA afirma que a competição será íntegra no plano das arbitragens, mas o poder das federações junto de quem decide a carreira internacional de um árbitro pode pesar nas próprias decisões arbitrais.

O Mundial de futebol, que agora começa, será uma competição íntegra?

Depende do tipo de integridade a que nos referimos. Em termos de arbitragens, de garantia de condições de isenção relativamente aos jogos, será íntegra. Se a confiança na integridade dos jogos fosse colocada em causa, isso teria um impacto económico e de credibilidade enorme para a FIFA.

Num sentido mais amplo da palavra “integridade”, aí é mais duvidoso. Houve interferências e uma mistura entre política e desporto à volta deste Campeonato do Mundo. Este Mundial tem um carácter cada vez mais elitista. Nunca os bilhetes foram tão caros. A FIFA adotou uma política de revenda de bilhetes e, em em vez de limitar a chamada ‘venda na candonga’, veio ela própria – FIFA - tirar benefício económico disso.

Acresce a dificuldade e as dúvidas em muitos países sobre o acesso livre e em canais abertos ao visionamento dos jogos. Em Portugal só há poucos dias tivemos a confirmação disso. Há países em que, pela primeira vez, os jogos não vão estar disponíveis em canal aberto.

Tudo isto são consequências de decisões da FIFA, que está a dar prioridade ao avolumar das receitas que obtém do Campeonato do Mundo, em vez de garantir que este desporto é acessível ao maior número de apoiantes. Nesse sentido mais amplo, podem ser suscitadas questões relativamente à integridade do futebol e do Campeonato do Mundo.

Não vê problemas, à partida, no Mundial, como também não vê na Liga dos Campeões ou nas competições nacionais?

Não vejo grandes problemas. Não posso garantir que certos clubes não são beneficiados. Falo de questões não só de arbitragem, mas outras que depois podem influenciar os árbitros. Há o caso conhecido de um comportamento inaceitável, que devia ter sido sancionado, em que o presidente do Paris Saint-Germain invadiu a cabina de um árbitro e partiu a bandeira do árbitro auxiliar. Devia ter sido claramente sancionado, e não o foi pelo órgão de disciplina.

Aí é criada uma suspeição sobre se não o foi devido à posição que tem no futebol europeu. Ele não é apenas o presidente do PSG, mas também o líder da única associação de clubes que a UEFA reconhece como representante de todos os clubes. É também membro do comité executivo da UEFA e CEO da empresa que detém boa parte dos direitos da própria Liga dos Campeões.

Esse estatuto dar-lhe-ia alegadamente algum benefício especial. No subconsciente dos árbitros, quando sabem que dirigentes de certos clubes ou federações têm um poder especial, isso também joga nas próprias decisões arbitrais.

Ao nível da concorrência, sabemos que o Manchester City e o PSG beneficiaram claramente de apoios ilegais ao abrigo das próprias regras da UEFA. E depois escaparam por decisões formais do Tribunal Arbitral de Desporto, onde o papel da administração da UEFA foi contrário ao exigido pelo seu órgão independente que pretendia sancionar.

O ‘Fair Play Financeiro’ é uma farsa?

O ‘fair play’ é mais para alguns do que para outros. Isso resultou claramente do comportamento que a UEFA teve nos processos relativos ao Manchester City ou ao PSG. E não é só ao nível da UEFA. O Southampton foi sancionado e perdeu o acesso à Premier League no Reino Unido - e provavelmente bem - com uma decisão em poucas semanas. Enquanto isso, há um processo no Reino Unido já com 7 anos, ainda não decidido, também de possível violação do ‘Fair Play Financeiro’ pelo Manchester City ao abrigo das próprias regras da Premier League. Temos aí regras diferentes e, portanto, nessa medida há algo a questionar.

Mas isso não é uma violação da integridade. Não acho que a maior parte dos árbitros sejam corrompidos. Não penso que haja um favorecimento claro de determinados clubes dessa forma. Se isso fosse percetível, o próprio valor económico dessas competições diminuía muito e a UEFA não tem interesse nisso.

No primeiro nível de integridade a que se refere, o problema é não haver instâncias de recursos independentes que regulem esta atividade.

Esse é sempre um dos problemas fundamentais da governação do desporto. Quando os organismos independentes que deveriam aplicar as regras disciplinares - ou proteger os árbitros ou aplicar as regras financeiras - não são genuinamente independentes, então a aplicação das regras, de forma igual a todos, é colocada em causa.

O princípio fundamental do Estado de Direito é a aplicação das regras de forma igual a todos, poderosos e não poderosos. Quando quem aplica essas regras está na dependência dos mais poderosos, a igualdade na sujeição às regras é colocada em causa.

No caso do ‘Fair Play Financeiro’, não há instâncias de recursos judiciais?

Havia. O caso do “Fair Play Financeiro” é muito interessante, até porque essas instâncias - incluindo o órgão deliberativo, que era presidido por um português, o doutor Cunha Rodrigues - comportaram-se de forma independente e aplicaram essas sanções.

Mas sabemos, por exemplo, foram sancionados no processo do PSG, sendo excluídos das competições europeias pelo órgão independente da UEFA. Recorreram para o Tribunal Arbitral que veio reverter essa decisão. Só depois soubemos que veio a reverter essa decisão, porque a UEFA foi ao processo dizer que afinal o seu Comité Independente não tinha razão.

Ou seja, a liderança política da UEFA minou a decisão do seu Comité Independente no Tribunal Arbitral do Desporto. Em vez de defender a decisão do seu próprio órgão independente, foi lá dizer que eles não tinham razão, a favor do PSG.

Diz acreditar na integridade, do ponto de vista da questão do comportamento dos árbitros. Mas os gráficos que produziu sobre o impacto da falta de público no estádio no período da COVID 19, mostraram-nos que o árbitro muda o seu comportamento consoante a pressão a que é sujeito por parte do público. Podemos transpor esta conclusão para o número de pressões que são feitas pelos dirigentes?

Obviamente. Os gráficos [que mostrei na 4ª Conferência Bola Branca] visam demonstrar que os árbitros não são imunes à pressão. O problema arbitral e de confiança na independência e isenção das arbitragens não é fundamentalmente um problema de corrupção dos árbitros. Claro que há – tivemos um caso na Bélgica há relativamente pouco tempo conhecido e há seguramente outros casos, e com valores envolvidos nas apostas desportivas - é possível que haja mais situações de corrupção arbitral.

Mas penso que a larga maioria dos árbitros são pessoas honestas. Como qualquer outra pessoa, os árbitros estão sujeitos a formas de pressão que muitas vezes funcionam no seu subconsciente.

O gráfico [em cima] procura precisamente medir isso, utilizando uma oportunidade única que foi o período da pandemia. Com os jogos sem público nos estádios, o que se procurou aferir foi a medida em que a presença e a pressão do público sobre os árbitros alteraria ou não as decisões arbitrárias, comparando a percentagem de decisões favoráveis às equipas da casa ou desfavoráveis às equipas visitantes com o público, versus a percentagem de decisões favoráveis às equipas da casa ou desfavoráveis às equipas visitantes sem público.

O que se viu foi uma alteração significativa. Os árbitros sem público decidem menos favoravelmente às equipas da casa e mais em favor das equipas visitantes, o que demonstra o impacto da pressão do público. Se essa pressão do público tem impacto no subconsciente dos árbitros, é natural que o façam face ao facto de saberem que a sua carreira está dependente de pessoas que respondem mais perante determinados clubes ou presidentes do que outros.

Por isso é que digo que, em Portugal, temos dois campeonatos - o que as equipas jogam e depois o campeonato da pressão sobre os árbitros, para tentar influenciar dessa forma as suas decisões.

Mas no Mundial, numa ‘bolha’ em que os árbitros também se colocam, sendo campo neutro - na maior parte dos casos - a pressão vai ser muito menor?

A pressão que existe aí é de outro tipo. É subconsciente e não uma pressão ilegal, mas não deixa de ter resultado. Se os árbitros sabem que, em determinadas posições de poder na FIFA, e em quem decide a sua carreira no futebol, estão determinadas pessoas mais próximas de certas federações do que de outras, é natural que o peso dessas federações possa jogar nas decisões arbitrais.

Não é que o árbitro queira, de forma consciente, beneficiar [alguém]. É inconsciente. Qualquer um de nós tem a pressão de que, quando erra em determinadas circunstâncias, pode ser mais penalizado do que quando erra noutras. Quando estamos debaixo de maior pressão quanto ao risco de errar - e errar de certa forma - a probabilidade de o fazer até aumenta.

Nos Estados Unidos da América há estudos muito interessantes que demonstram como os atletas mais famosos normalmente beneficiam de mais decisões arbitrárias favoráveis do que os outros, porque os árbitros sabem que, se erram contra um jogador muito conhecido, o impacto mediático e a pressão social sobre eles é grande.

É como marcar um penálti ao Brasil, ou à Argentina num Campeonato do Mundo, ou à equipa da casa, aos Estados Unidos?

Um árbitro sabe que essa decisão vai ser mais escrutinada do que a decisão de marcar ou não um penálti a favor ou contra o Curaçau. Isso é natural. O que é que devemos fazer? Criar instituições que sejam as mais imunes possíveis a pressões, para depois elas próprias protegerem os árbitros o mais possível dessas próprias pressões.

Do outro lado da questão da integridade, do ponto de vista institucional, e depois do que vimos nos Mundial da Rússia, do Catar e agora dos Estados Unidos, há um padrão contínuo, nas dúvidas sobre integridade, quer na atribuição da organização desses campeonatos, quer na forma como determinadas pessoas são favorecidas?

A integridade do processo de atribuição dos Campeonatos do Mundo aos vários países está claramente de novo em causa, com o que se passou sobretudo com a atribuição à Arábia Saudita, independentemente da legitimidade deste país querer acolher o Mundial.

Houve uma alteração das regras que estavam definidas, um processo que teve tudo menos transparência. Foram dadas poucas semanas para qualquer outro país apresentar uma candidatura, o que indicia suspeitas de que a Arábia Saudita teria um acordo com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para serem eles a organizar o Mundial.

Sabia-se que a Austrália queria apresentar-se, mas disse que, com aquele prazo, não poderia apresentar uma candidatura viável. Portanto, a indicação toda é de que o processo foi conduzido para resultar na atribuição à Arábia Saudita.

A circunstância do Mundial que vai acontecer em Portugal e Espanha ocorrer também em Marrocos - e depois com alguns jogos na América do Sul - também é um indício ulterior disso mesmo, porque os estatutos da FIFA obrigam a que os campeonatos do mundo vão alternando entre confederações. Organizar o próximo Mundial em três confederações ao mesmo tempo, permitiu que a confederação de que a Arábia Saudita faz parte fosse aquela que vai organizar esse Mundial. Há um conjunto de dúvidas bastante razoáveis quanto à integridade desse processo.

Mas, por proximidade, diminui as dúvidas na organização do Mundial de Portugal e Espanha, face às outras organizações dos outros Mundiais?

O Campeonato do Mundo que foi atribuído a Portugal e a Espanha passou por um processo muito mais longo e concorrencial. Não parece que tenha sido organizado de forma a garantir isso. Mas, de certa forma, somos participantes de um processo que conduziu à atribuição de um Mundial de uma forma que suscita muitas dúvidas. E como fomos participantes? Porque aceitámos que o nosso Mundial tivesse esses outros países, como Marrocos.

Por isso é muito difícil reformar a FIFA. Se Portugal e Espanha não aceitassem isso, não organizávamos o Campeonato do Mundo. A FIFA, sobretudo o presidente da FIFA, tem um poder tão grande que os Estados não se atrevem a contrariar.

Pelo que vimos da relação de Donald Trump com a FIFA, a geopolítica está muito dentro do processo futebolístico da FIFA?

Há um processo muito significativo de captura da política pela FIFA. Isso viu-se, por exemplo, na relação muito próxima cultivada entre Infantino e Trump para benefício de ambos. Essa proximidade protege a FIFA dos riscos de que, por exemplo, os Estados Unidos da América se ponham a investigar de novo a FIFA, pelo menos ao nível federal.

Depois de ter saído e caído, após os processos de 2015 e com a prisão de dirigentes da FIFA, Joseph Blatter dizia que aquilo tinha acontecido porque os Estados Unidos da América não tinham tido o Mundial, caso contrário os americanos nunca se teriam atrevido a investigar a FIFA. Portanto, a FIFA tem tudo a ganhar com essa relação de proximidade.

Trump também ganha, porque o Mundial e a relação privilegiada com a FIFA dá-lhe uma plataforma e um capital político alargado que de outra forma não teria. Permite-lhe expor as suas ideias, a sua visão do mundo a uma audiência global que normalmente tem menos interesse por esses temas.

Gianni Infantino, presidente da FIFA, é uma personalidade questionável do ponto de vista ético?

Do ponto de vista ético, não legal, não tenho dúvidas em afirmar que tem claramente problemas éticos, que infelizmente são bastante comuns no mundo do futebol. Conheço também bastantes pessoas no mundo do futebol, incluindo em federações de diferentes países, que gostariam que as coisas fossem diferentes. Gostariam que a UEFA e a FIFA fossem diferentes.

Infelizmente, normalmente para quem ocupa uma posição de topo desse género no mundo do futebol, a estrutura de incentivos é tal que acaba por conduzir a comportamentos pelo menos eticamente censuráveis.

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