Televisão perdeu monopólio no Mundial. "Generalistas não terão dinheiro para transmitir estes eventos"
11 jun, 2026 - 06:30 • Inês Braga Sampaio
A entrada de plataformas como a LiveModeTV, que vai transmitir 34 jogos do Campeonato do Mundo, no mercado português acarreta várias ameaças: à televisão generalista, aos canais premium e até ao jornalismo.
Pela primeira vez, a televisão não tem o monopólio da transmissão de uma grande competição de futebol masculino, em Portugal.
A LiveModeTV transmite 34 jogos do Mundial 2026 no YouTube, de forma gratuita, incluindo todos os jogos da seleção e a final. É o futuro a chegar ao presente, com investimento de Cristiano Ronaldo, com ameaças para futuras transmissões em sinal aberto e para o jornalismo.
Importa começar por fazer a ressalva de que todos os jogos da seleção nacional do Mundial terão, além do relato na Renascença, transmissão em sinal aberto na televisão, depois de os canais generalistas terem chegado a acordo com a FIFA para transmitir 20 partidas do torneio.
A negociação teve intervenção da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), para que a lei se cumprisse, já que, todos os anos, o Governo define um conjunto de conteúdos de interesse generalizado do público, pela sua relevância social, que deve ter transmissão em sinal aberto. O Campeonato do Mundo de futebol está incluído.
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De acordo com o nº 2 do Artigo 32º da Lei da Televisão e dos Serviços Audiovisuais a Pedido (LTSAP), "em caso de aquisição, por operadores de televisão que emitam em regime de acesso condicionado ou sem cobertura nacional, de direitos exclusivos para a transmissão, integral ou parcial, direta ou em diferido, de outros acontecimentos que sejam objeto de interesse generalizado do público, os titulares dos direitos televisivos ficam obrigados a facultar, em termos não discriminatórios e de acordo com as condições normais do mercado, o seu acesso a outro ou outros operadores interessados na transmissão que emitam por via hertziana terrestre com cobertura nacional e acesso não condicionado".
"Na falta de acordo entre o titular dos direitos televisivos e os demais operadores interessados na transmissão do evento, há lugar a arbitragem vinculativa da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, mediante requerimento de qualquer das partes", pode ler-se no nº 3.
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Serão, então, 20 jogos a distribuir pelos três canais generalistas, da seleção nacional e não só, sendo já conhecido que a SIC vai passar o Portugal-RD Congo, a TVI terá o Portugal-Uzbequistão e a RTP irá transmitir o Portugal-Colômbia.
A SportTV, um canal pago, vai transmitir todos os jogos do Mundial. A LiveModeTV, um canal de YouTube, tem direito a 34 jogos, incluindo todos os da equipa das quinas, as meias-finais e a final. Contas feitas, haverá mais 14 jogos em direto no YouTube, disponibilizados de forma gratuita, que na televisão em sinal aberto.
"É um sinal do que vai ser o futuro", afirma Luís Marinho, antigo diretor de conteúdos da RTP e participante do podcast "Novas Crónicas da Idade Mídia", da Renascença.
Marinho admite que a LiveModeTV vai ser "uma concorrência forte" aos canais portugueses tradicionais. Contudo, entende que o grande ameaçado pela versão portuguesa da "CazéTV" até pode ser a SportTV.
"Pode prejudicar mais a SportTV, que é um canal pago, que exige uma subscrição. Vai transmitir todos os jogos, mas é natural que sinta aqui alguma concorrência. Eles poderão ser os principais prejudicados, de certa forma, com estas transmissões abertas, através do YouTube, proporcionadas por esta LiveModeTV", sustenta.
Afinal, o que é a LiveModeTV?
Para perceber o que é a LiveModeTV, é preciso recuar às origens: à CazéTV.
A CazéTV é um canal digital de conteúdos desportivos criado em 2022, pelo "streamer" brasileiro Casimiro Miguel, em parceria com a empresa de marketing desportivo LiveMode. Na altura, o objetivo era transmitir jogos do Mundial 2022, no Qatar. Desde então, o negócio proliferou-se e a CazéTV obteve os direitos de várias grandes competições, como o Mundial 2023 feminino, os Jogos Panamericanos 2023, os Jogos Olímpicos de Paris 2024, o Mundial de Clubes 2025 e o Brasileirão.
Em janeiro de 2024, um ano e três meses depois da sua criação, a CazéTV tornou-se o maior canal de desporto do YouTube, no Brasil.
Entretanto, a LiveMode comprou o canal por completo, passando de 51% do capital social para 100%, e em maio de 2026 Cristiano Ronaldo passou a ter "participação relevante" na plataforma, que na Europa se chama LiveModeTV.
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Luís Marinho considera que, no futuro, vai haver "muito mais força a nível destes dispositivos, nomeadamente o YouTube, para este tipo de transmissões.
"É uma entrada [no mercado português] para ser uma expansão mundial. Partem do Brasil, já estão em Portugal, Portugal poderá ser uma plataforma para a Europa, e eles vão querer ter uma presença mundial. Penso que não será muito longe", admite o antigo diretor de conteúdos da RTP, em entrevista a Bola Branca.
A tendência, alerta Marinho, "é que corra bem", porque a plataforma chega a Portugal ancorada no universo de 27,9 milhões de subscritores da CazéTV. O canal da LiveModeTV, criado a 18 de novembro de 2025, já soma 137 mil subscritores.
A audiência média da CazéTV "é um fenómeno que já ultrapassa muito tudo aquilo que podemos imaginar em relação a audiências das televisões tradicionais", assinala Luís Marinho.
"O futuro vai passar muito por aqui. Ninguém imaginava, naturalmente, há meia dúzia de anos, que isto fosse possível. Porque estamos aqui a falar depois de muitos milhões de dólares para comprar direitos do Mundial de futebol, não é? Ou, pelo menos, uma boa parte desses direitos. A CazéTV praticamente os dividiu com a Globo no Brasil, portanto estamos a falar de uma realidade que, em Portugal, é completamente inatingível. E mesmo a nível da Europa não sei se é muito fácil de atingir", explica.
"Não é boa notícia para o jornalismo"
A LiveModeTV transmitiu alguns amigáveis de preparação para o Mundial 2026. Um dos aspetos que saltaram à vista foi o facto de a narração e os comentários terem sido assegurados por "influencers". Algo que, no entender de Luís Marinho, "para o jornalismo, não é uma boa notícia".
"Tentando agarrar um público mais ligado a estas áreas dos 'influencers' e companhia, certamente serão 'influencers' conhecidos, com muita gente a segui-los, etc. Não é bom para o jornalismo, porque, de facto, eu continuo a achar que o desporto, e sobretudo a este nível, a nível mundial, precisa, obviamente, de ser acompanhado por jornalistas", assevera.
Por outro lado, o antigo diretor de conteúdos da RTP acredita que a rádio pode sair relativamente incólume da entrada de "streamers" e influenciadores no negócio.
"Eu não sei se a rádio vai sofrer muito com isto, para ser sincero. Apesar de tudo, dentro desta — vou exagerar um pouco — hecatombe que tem atingido o jornalismo, sobretudo os jornais de papel e as audiências das televisões tradicionais, a rádio tem sido aquela que se tem mantido estável e até a crescer em alguns segmentos. Já há muitos anos todos sabemos que 'ai, a rádio vai morrer', e felizmente não morreu, e até se encontra com excelente saúde. Portanto, não sei se a rádio vai ser muito, muito atingida com este fenómeno", salienta.
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Para a televisão, a história é outra. Neste Mundial o impacto pode não ser grande, refere Luís Marinho, até porque os canais generalistas conseguiram garantir 20 jogos da prova, incluindo todos os compromissos da seleção portuguesa. Aliás, para o antigo dirigente do canal público, "seria um bocado escandaloso se Portugal não conseguisse transmitir em sinal aberto os jogos da sua seleção". Mais ainda estando na lei.
"Mas este ano já foi um drama para se conseguir que as televisões conseguissem ter dinheiro ou fazer um acordo para conseguir comprar os direitos, que cada vez vão ser mais caros. Exatamente quando entram, ainda por cima, este tipo de tubarões, que é o caso do Youtube, que devem fazer os preços crescer imenso. E qualquer dia, de facto, as televisões generalistas não vão ter dinheiro para transmitir este tipo de eventos", prevê.
E como combater isso?
"Essa é a chamada pergunta do milhão de dólares", remata Marinho.
O Mundial 2026 arranca esta quinta-feira, no México, nos Estados Unidos e no Canadá, e termina a 19 de julho. O jogo de abertura será transmitido pela RTP, pela SporTV e pela LiveModeTV. Quanto aos jogos de Portugal, pode contar com o relato e o acompanhamento ao minuto da Renascença, na rádio, na app e em rr.pt.









