Entrevista Renascença
"Chegas a duvidar de tudo". Bruno Gaspar reencontrou a felicidade, novamente em Guimarães
23 nov, 2024 - 11:00 • Eduardo Soares da Silva
O lateral é um dos mais experientes no plantel promissor do Vitória, que já bateu o recorde de triunfos consecutivos na Liga Conferência. Bruno Gaspar já ultrapassou uma depressão e voltou a viver momentos difíceis com lesões.
É em Guimarães que Bruno Gaspar se sente melhor e onde conseguiu render mais como jogador. O lateral é um dos mais utilizados esta época na boa campanha da equipa de Rui Borges, mas a jornada foi dura para o internacional angolano.
O lateral voltou ao Vitória, clube que representou entre 2014 e 2017, no negócio que viu Marcus Edwards rumar ao Sporting em janeiro de 2022, mas o lucro não foi imediato: esteve praticamente um ano e meio parado, com vários problemas físicos, que lhe recordaram os períodos mais negros em que ultrapassou uma depressão.
Na época passada, voltou a ser feliz ao reconquistar espaço e é agora dos mais utilizados por Rui Borges.
"Foi um período muito negro. Não jogar é mau, constantemente lesionado é ainda pior", revela, em entrevista à Renascença.
O Vitória está no 6.º lugar do campeonato, a três pontos do quarto posto, ocupado pelo Santa Clara. Na Liga Conferência, os minhotos partilham a liderança da prova só com vitórias, mas a experiência de Bruno permite-lhe reconhecer que era possível estar ainda melhor.
"No início, todos pensavam: "Entraram e já foi bom". Jogo a jogo, vamos chegando mais longe. Não adianta traçar metas futuras porque vivemos do presente", explica.
V. Guimarães. Bruno Gaspar feliz por regressar onde foi feliz
Jogador chega envolvido no negócio Marcus Edwards (...)
O balanço da época, para já, é muito positivo? Quer individualmente, quer coletivamente?
Sim, tem sido um início positivo. O ambiente continua saudável como no ano passado, temos novo treinador, novas ideias e temos correspondido. Temos jogos em que poderíamos ter feito mais e temos perfeita noção disso. Em termos individuais, estou perto do registo do ano passado e estamos ainda no início da época. A ideia é trabalhar para mais e melhor.
Era difícil pedir-se mais ao Vitória? Está a três pontos do quarto lugar e perfeito na Liga Conferência só com vitórias...
Não sei se podíamos pedir mais, ou não. Mas houve resultados que poderiam ser melhores. Perdemos nas Aves contra um adversário que é obrigatório ganhar, um jogo com muitas oportunidades, mas em que não fizemos golo e demos esperança aos adversário. O Boavista também... Estava 2-0, estávamos bem e voltamos a dar esperança. Porto é mais complicado e agora nos Açores perdemos por culpa própria. Podíamos estar melhor na tabela e temos noção disso.
O plantel está a habituar-se a jogar de três em três dias?
O que noto é que as pessoas falam da motivação diferente na Conference League, mas não acho que seja verdade, não sentimos isso. Do campeonato para a Conference temos três ou quatro dias para descansar, ao vir da Conference para o campeonato são dois dias. Isso faz a diferença, mais as viagens, agora vamos ao Cazaquistão. Mas é onde queremos estar, no próximo ano vamos querer estar aqui outra vez, não nos importamos de fazer estas viagens.
O mister roda muito a equipa, isso é importante para o grupo sentir que todos podem ajudar?
É importante para os jogadores sentirem-se importantes no seio do grupo, com minutos então é perfeito.
Como resume a campanha europeia só com vitórias? Faltava ao Vitória uma campanha destas na Conference?
Sim, faltava. Nos últimos anos temos ido às pré-eliminatórias e não temos conseguido o objetivo final. Vitória na fase de grupos e com capacidade de vencer é muito bom para nós e para Portugal.
Surpreende-o estar no grupo dos líderes?
Não. Sabemos a nossa qualidade, não duvidamos dela. Do outro lado, há qualidade, mas sabemos que podemos vencer a qualquer equipa.
Como avalia a competição, ainda por cima com a reformulação que removeu a relegação de clubes da Liga Europa... Podemos ver um Vitória a ir longe?
Claro que facilita o facto de não caírem equipas da Liga Europa, ajuda a que as equipas tenham mais chance. É uma boa competição, claro que queremos estar sempre mais acima, mas, fazendo esta campanha este ano, no próximo ano temos de exigir mais. Do clube, da equipa. Queremos isso numa competição melhor.
Há um objetivo traçado?
No geral, pensamos muito jogo a jogo. No início, todos pensavam que entraram na fase de grupos, mas vamos ver. Pensavam: "Entraram e já foi bom". Jogo a jogo, vamos chegando mais longe. Não adianta traçar metas futuras porque vivemos do presente.
Qual o jogo mais especial até agora?
Foi o de Zurique, lá. Era uma boa equipa, eram mais físicos do que nós. O primeiro jogo ia ditar o que ia ser a competição. Se perdêssemos, havia a chance de levar a eliminatória para nossa casa, mas vencer 3-0 contra quem foi... Foi um marco importante. No fim, estávamos tranquilos, não havia muita euforia, tivemos sempre os pés bem assentes no chão.
Tem jogado mais, mas como tem sido partilhar o balneário com o Alberto, um jovem a surgir?
Tem sido bom, tanto ele como o Maga são bons jogadores e incríveis pessoas. É bom dividir a posição com estes jovens, são muitos bons jogadores e obriga-me a trabalhar mais.
Como tem sido trabalhar com o Rui Borges? O Vitória parece ter encontrado uma estabilidade, foram cinco treinadores na época passada. Faltava isso?
Faltava, claro que sim. Acho que o mister foi uma boa apostar do clube, é jovem, com ambições. É como nós, como os jogadores. Tem uma tática diferente da que estavamos habituados, é muito preocupado com os aspetos defensivos, com rotinas, com as bases da equipa. É diferente do que estávamos habituados.
Apesar da instabilidade, foi uma época marcante para o Bruno, depois de um ano e meio sem jogar...
Foi muito importante, trabalhei muito para voltar a ser competitivo. Tive alguns problemas, mas sentia que as coisas podiam ser diferentes, acreditei na oportunidade, que iria surgir, e agarrei-a.
Como se vive um período desses?
É uma pergunta para a minha mulher, que levou comigo. Foi um período muito negro. Não jogar é mau, constantemente lesionado é ainda pior. Quando fazes tudo para estar bem, sem te magoares, e mesmo assim os resultados não vêm logo... Demorei um pouco a absorver os resultados. Tudo valeu a pena.
Um jogador duvida de si mesmo?
Chega a duvidar de tudo. Depois entras numa fase em que tentas fazer de tudo e também não é bom. Não sabes se melhoras, ou pioras. Encontrei um equilíbrio bom para mim, com a minha família, os meus filhos, e consegui dar a volta.
Já revelou que no período do Sporting viveu uma depressão. Isso capacita uma pessoa para lidar melhor com este período?
Claro que ajudou, sempre que me vou abaixo olho para trás e é como se não quisesse voltar ali.
Ainda é acompanhado?
Já não tenho sido, no ano passado tínhamos uma psicóloga aqui no clube e chegámos a falar sobre algumas coisas, mas já não tenho sido acompanhado.
Ainda há estigma nos jogadores para procurar ajudar?
Acho já não há tanto. Mesmo por parte do clube. Antes, se dissesse que não estava bem, se calhar havia da outra parte um: "Isso não é nada". No presente, há uma preocupação maior.
Esteve aqui no clube em duas passagens, o Vitória volta a viver um momento muito bom como clube?
Em relação à primeira passagem, temos muito mais condições. Há pequeno-almoço, almoço se for preciso. Já podemos fazer recuperação com banhos quentes, frios... Só nos preocupamos com jogar e na primeira passagem não era bem assim. Claro que ainda faltam coisas, todos sabem disso, mas é sempre bom saber que estamos a caminhar para lá.
Na sua última época aqui, o Vitória ficou em quarto, mas, olhando para esta, vemos um Braga que não está a morder os calcanhares aos grandes. Podemos ver o Vitória a voltar a essa posição?
Vejo o campeonato mais competitivo do que há uns anos. Se conseguirmos não perder os pontos que já perdemos, acho que vai ser uma campanha interessante, mas é preciso focar, ver o que dá para fazer melhor e não dar abébias às outras equipas.
Em Guimarães, fala-se muito da Taça de Portugal de 2013, já venceu uma pelo Sporting e perdeu uma final com o Vitória. É um assunto pendente?
Adorava ganhar uma Taça com o Vitória, ganhei com o Sporting, mas ganhar aqui iria ter um gosto diferente, para melhor, seria muito mais especial. Já no ano passado, só quando chegámos à meia-final é que começamos a pensar: "E se der?". Claro que temos o sonho e a ambição de ir ao Jamor, mas é prematuro falar disso, temos de ser humildes e ter os pés bem assentes na terra.
Está muito ligado ao clube. Não é natural de cá, mas já é o clube que mais vezes representou na carreira.
De coração. Gosto muito do clube, sinto-me vitoriano, todos me acolheram muito bem, quer dentro, quer fora do clube. A cidade é incrível.
Como foi o processo do regresso? Foi na transferência de Edwards para o Sporting, estava a voltar da MLS. Era o sítio perfeito para regressar?
Tinha estado um ano nos Estados Unidos, tinha a minha mulher grávida, a minha filha ia nascer em fevereiro e queria regressar a Portugal. O Vitória era o cenário perfeito, havendo interesse das três partes, naquele caso, tudo se alinhou para que voltasse. Na altura, falei com o meu empresário, no início de dezembro, e disse-lhe que queria voltar, para tentar que as coisas acontecessem. O Sporting estava interessado no Edwards, o Sakho saiu nessa altura, foi tudo perfeito para que eu voltasse.
Teve três passagens lá fora: Fiorentina, Olympiakos e Vancouver Whitecaps. O que guarda destas passagens?
Gostei de estar nos três, todos os clubes eram bons, as cidades também. Os campeonatos eram todos bons, diferentes. A Fiorentina foi a passagem mais difícil que tive, tinha uns 23 anos, o meu primeiro filho ia nascer e não soube lidar muito bem com a distância. Achei que estava preparado para ir para fora, mas estava um pouco verde. O campeonato é muito exigente, físico e tático. O físico não é o meu forte, não me vejo muito nesse estilo de jogo.
E foi a época da morte de Astori...
Sim, não ajudou nada, mas acho que conseguimos fazer uma boa época em homenagem a ele.
É mais caseiro, nesse sentido? Prefere ficar em Portugal?
Não, eu gosto de sair. Foi mais a primeira passagem. Gostei muito de estar nos Estados Unidos, vivi no Canadá e nos Estados Unidos. Também gostei muito da Grécia, os adeptos são incríveis, fui campeão, embora não tenha muita noção do que é. Os adeptos eram muito apaixonados, foi muito celebrado, mas se fosse campeão cá no Sporting ia ser totalmente diferente, ia ter mais noção das coisas, entendes? É sempre bom ser campeão, estar lá na festa.
Sente-se menos?
Não é bem isso, mas claro que um grego vai viver aquilo muito mais do que eu.
No verão, surgiram notícias que houve oportunidade para sair, mas quis ficar, apesar do prejuízo financeiro dessa decisão. É verdade?
Dou muito valor à minha família. Optámos por ficar, estamos felizes aqui, todos em casa gostam do Vitória, ainda que a minha mulher seja 50-50 com o Sporting, mas já torce pelo Vitória quando jogamos contra eles. Foi uma decisão de todos, o melhor era ficar cá.
Tem 31 anos, mais ano e meio de contrato. Que planos há para o futuro?
Sobretudo desfrutar do presente. Já tive algumas lesões, pensei sempre para a frente. Desfruto do jogo, do treino e tento fazer o melhor. Depois, logo se vê.
Fazer 30 anos, o envelhecer enquanto jogador, é difícil? Ainda que hoje se jogue até mais tarde, naturalmente...
Felizmente, hoje podes ter uma boa carreira até muito tarde. A tecnologia e os cuidados são outros. O meu pai jogou e conta-me cada história. Era impensável os jogadores fazerem isso hoje, mas claro que sempre me disseram que o futebol era rápido. Quando era novo dizia: "'Tá bem, outra vez essa história". Mas hoje sinto muito isso, passa tudo muito a correr. Claro que custa ver que estás mais perto do final, mas estou orgulhoso da minha carreira, dos clubes em que joguei, tenho algumas mágoas por não ter sido feliz em certos sítios, tenho noção, mas tudo ajudou no meu crescimento. Se hoje estou feliz e desfruto do meu futebol, é também pelas passagens menos positivas. O melhor que posso fazer é desfrutar do momento.
Nenhuma dessas mágoas foi cá no Vitória. É um sítio feliz?
Foi também por isso que quis voltar. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, ia ser feliz aqui.











