"Quem me dera ter nascido 20 anos mais tarde". Anabela Cazuza e a história de uma carreira "feliz" mas que ficou a meio

07 mar, 2025 - 09:56 • Inês Braga Sampaio

A antiga defesa-central fez parte da reconstrução da seleção feminina nos anos 90, foi capitã do Sporting, "uma honra enorme", e "secou" uma lenda do futebol italiano. Até que sofreu uma lesão grave que lhe deixou mágoas e que a catapultou para o futsal.

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"O futebol foi, e é, uma grande paixão. Costumo dizer muitas vezes 'quem me dera ter nascido 20 ou 30 anos mais tarde, para poder desfrutar do futebol como ele é hoje'." Anabela Guerra "Cazuza" foi feliz no futebol, nos pelados e longe das câmaras, num tempo da história em que cada jogadora era "mais uma", mas fazia história a cada jogo. Contudo, não é imune a uma ou outra dor, sintomas de uma época do futebol feminino de que os arquivos pouco ou nada guardaram.

Corria o ano de 1993 quando Carlos Queiroz, então selecionador masculino, deu a ideia de reavivar a seleção feminina, que estava em "pausa" há cerca de dez anos. António Simões ficou encarregado de escolher as primeiras 23 jogadoras da segunda vida da equipa nacional. Anabela, então no Sporting, foi uma delas.

"Para nós, foi maravilhoso. Tudo era", recorda, em entrevista à Renascença.

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"Muitas de nós, eu inclusive, estávamos a pisar relvados pela primeira vez, porque jogávamos em pelados. Se havia amor à camisola, era naqueles tempos. Não quer dizer que hoje não haja, mas jogava-se muito por amor ao desporto, com condições de treino que hoje seriam inaceitáveis. Mas foi tudo com muita felicidade, com muito deslumbramento, foi fantástico tudo aquilo que se fez com as dificuldades todas que houve. E ver onde se está a chegar hoje é um motivo de orgulho", vinca.

Guerra é apelido, "Cazuza" é alcunha. Foi-lhe atribuído quando começou a jogar no Odivelas. A RTP passava, na altura, uma novela brasileira chamada "Vereda Tropical" e, em redor de Anabela, cismaram que havia uma personagem, de nome "Cazuza", que era parecida com ela. O epíteto ficou.

Cazuza chegou ao Sporting pouco tempo depois, em 1991/92, e rapidamente ganhou um lugar no centro da defesa. São memórias que guarda: "Foi uma honra enorme ter jogado no Sporting. Sou benfiquista, nunca o escondi, mas tive um prazer enorme em ter jogado no Sporting. Aqueles anos em que fui capitã de equipa... Só tive pena de não ter sido campeã no Sporting, na altura."

No seu auge, Anabela Cazuza era uma jogadora "muito rápida, com boa leitura de jogo" e qualidade técnica, que sabia sair a jogar e fazia passes em profundidade, "com bom jogo de cabeça", sustenta. Características de uma defesa-central de elite, como as que agora passeiam pelos relvados internacionais.

"Hoje olho para a Mapi León, do Barcelona, e vejo algumas coisas parecidas comigo. Eu creio que tinha essas coisas todas na altura em que joguei futebol. A velocidade era uma coisa muito característica, lia muito rapidamente as desmarcações das atletas. A Mapi tem uma coisa que eu não tinha, que é um pé esquerdo fabuloso. Joguei com e contra jogadoras como a Carla Couto, entre outras incríveis. Tinha características que hoje provavelmente fariam de mim uma excelente defesa-central. Era ter nascido 20 anos mais tarde e a conversa era outra", atira.

As valências físicas e técnicas e as marcações cerradas que fazia às avançadas adversárias valeram-lhe a chamada para a nova seleção nacional.

"Desfrutei muito, adorei ter jogador tempo suficiente para fazer parte da seleção que arrancou nos anos 90, ter estado presente nos primeiros Mundialitos. Quando se disputa um desporto com o nível de emoções que o futebol desperta, fica para toda a vida. (...) E apesar de às vezes termos sentimentos contraditórios, do género, 'que pena não termos tido estes holofotes em cima', por outro lado também sentimos que alguém tinha de começar e desbravar caminhos. Nós fizemos o nosso papel e, hoje, estamos cá a apoiar incondicionalmente este leque de jogadoras, que eu acho que nos vão dar ainda mais alegrias", afiança, nesta entrevista a Bola Branca.

Dessa época, guarda também a memória de grandes jogadoras que já "ninguém conhece". A que mais a marcou foi Anabela Silva, do Boavista e também internacional, que "tinha uma técnica absolutamente fora" do normal: "Ainda não vi nenhuma jogadora em Portugal com a técnica que ela tinha."

Eram tempos de alegria para Anabela Cazuzo. Até que, quando já representava o 1.º de Dezembro, que viria a tornar-se o clube com mais campeonatos da história do futebol feminino em Portugal, sofreu uma grave lesão.

"O futebol naquela altura não se vivia como se vive hoje. A atenção que se dava às atletas não tem nada a ver. Tive uma lesão grave no meu joelho direito e tive uma recuperação muito longa. Na altura, jogava pelo 1.º de Dezembro. Fiz o último jogo pela seleção e senti-me abandonada por parte das pessoas que estavam à frente do futebol na altura. Fiz a recuperação sozinha", recorda a antiga jogadora, que se mostra, por outro lado, grata ao Sporting, que lhe estendeu a mão.

Anabela ficou um ano parada, em recuperação, e não via como regressar ao futebol. Foi aí que surgiu, de um grupo de amigos, o convite para jogar futsal. "Gostei muito", diz, embora não esconda que o futebol nunca ficou esquecido.

"Houve uma oportunidade de voltar ao futebol de 11, mas aí, por uma questão de mágoa, não voltei. Hoje, posso dizer que me arrependo. Arrependo-me, porque ainda tinha muito para dar e podia ter voltado a ser internacional", lamenta.

Cazuza acredita que, hoje em dia, seria "completamente impensável" que uma jogadora titular na seleção nacional e num grande clube deixasse de praticar futebol devido a uma lesão. Ela e as companheiras eram "mais uma entre todas", refere, longe da atenção das câmaras; agora, "as jogadoras têm nome".

"Teria tido a atenção e o apoio para uma recuperação de lesão completamente diferente. E com certeza teria jogado muitos mais anos. Eu deixei de jogar futebol de 11 com 25 ou 26 anos. Hoje, com outras condições, poderia facilmente ter chegado aos 30 e poucos. Teria sido diferente. A Cazuza teria jogado mais anos e teria sido muito mais vezes internacional, não tenho dúvida nenhuma", frisa.

Há 20 anos, porém, a realidade não era essa e Anabela não voltou ao futebol de 11.

Continuou no futsal até deixar de jogar, em 2006. Apesar da mágoa, os pavilhões permitiram-lhe cumprir um sonho: "Tive a oportunidade de jogar no Benfica, que é o meu clube de coração e onde fui campeã, e foi o último clube onde joguei."

Vinte anos depois, as jogadoras da seleção nacional e dos maiores clubes portugueses são caras conhecidas, jogam na televisão, vendem camisolas, protagonizam reclames, têm milhares de seguidores nas redes sociais.

Cazuza começou a carreira no Odivelas. Foto: Anabela Guerra Cazuza
Cazuza começou a carreira no Odivelas. Foto: Anabela Guerra Cazuza
Equipa do Terras da Costa em 1988. Foto: Anabela Guerra Cazuza
Equipa do Terras da Costa em 1988. Foto: Anabela Guerra Cazuza
Seleção nacional em 1994, na Algarve Cup. Foto: Anabela Guerra Cazuza
Seleção nacional em 1994, na Algarve Cup. Foto: Anabela Guerra Cazuza

É uma era bem distinta do relativo anonimato em que Anabela Cazuza e as companheiras viviam, nos anos 90 e, até, no início dos anos 2000.

"Ver jogadoras como a Kika [Nazareth], que está a jogar e a dar cartas naquela que eu acho que é a melhor equipa do mundo, o Barcelona, e outras tantas jogadoras que já dão cartas por aí, é um motivo de felicidade enorme", assume.

Anabela gostava que houvesse mais registos de quando jogou futebol. Nesse sentido, agradece a Anabela Brito Mendes, amiga e ex-companheira de equipa no Sporting, que é "daquelas pessoas que têm feito tudo para que a memória não se apague". Por mais que que as imagens se diluam na fita do tempo.

"Nem sei se há arquivos televisivos. É uma pena, porque tivemos alguns jogos na seleção... Lembro-me bem de um jogo que fizemos em Itália, na altura a Itália era fortíssima e nós fomos lá ganhar 2-1. Elas tinham uma avançada que depois foi selecionadora, também, que era a Carolina Morace. Tive o prazer de jogar contra ela e de a marcar. E tive mais prazer ainda porque das vezes que a marquei ela não marcou nenhum golo", atira, com um sorriso na voz, antes de acrescentar, nostálgica: "Foi um jogo incrível e tenho muita pena de não haver registos."

As jogadoras de futebol brilhavam num vácuo. Não havia telemóveis, nem redes sociais, nem equipas de televisão ou de rádio que as acompanhassem.

"Ficam as memórias", diz Anabela Cazuza. "E muitas fotografias."

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