Análise Renascença

Defesas centrais, os novos donos da bola na Primeira Liga

27 mai, 2025 - 15:51 • Diogo Camilo

Gonçalo Inácio é o jogador com mais toques na bola, por 90 minutos, nesta edição do campeonato português. Entre os que tocaram mais vezes no esférico - seja a conduzir o esférico, a passar ou a rematar - estão oito defesas centrais dos três grandes. E pela primeira vez na liga, os guarda-redes tocaram mais vezes na bola que os avançados.

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Defesas centrais, os novos donos da bola na Primeira Liga
Veja aqui a explicação do jornalista Diogo Camilo.

O jogo passa cada vez mais pelos defesas no futebol moderno e a I Liga não é exceção. Nos últimos sete anos, a Liga portuguesa conheceu uma mudança, em que os defesas centrais passaram a ser a posição que controla mais a bola - e em que os guarda-redes passaram a tocar mais na bola que os avançados.

Na época atual, o jogador com mais toques na bola por 90 minutos foi Gonçalo Inácio, do Sporting, com mais de 90 toques por jogo, seguido de Otávio Ataíde, do FC Porto. No top-10 estão mais seis defesas centrais - três do FC Porto, dois do Sporting e um do Benfica - e dois médios: Tiago Silva, do Vitória de Guimarães, e Jordan Holsgrove, do Estoril.

Esta é parte de uma análise da Renascença aos toques na bola que cada jogador da I Liga deu entre as épocas de 2018/19 e 2024/25, a partir de dados da Opta, que foi apresentada na Conferência Bola Branca, esta terça-feira à tarde. Aqui estão incluídas todas as vezes que um jogador toca na bola, seja a conduzir o esférico, em bola parada, num passe, cruzamento ou remate.


A premissa foi dada por Gary Neville, lenda do Manchester United e comentador da britânica Sky Sports, durante um podcast onde conversava com Roy Keane e Ian Wright.

"Estou sempre a ver defesas e guarda-redes com a bola. Não vamos ao futebol para ver um central do Brighton com a bola. Estamos a ver uma mudança completa. O jogo está a evoluir, mas o trabalho de um treinador não deve ser colocar a bola nos melhores jogadores e nos jogadores com mais qualidade?", questionou o antigo lateral direito, indicando que, nos seus últimos anos de carreira, os jogadores com mais toques na bola são jogadores de meio-campo virtuosos.

E não está errado. Olhando para os líderes de toques na bola na Premier League na década passada, a lista é dominada por médios - Cesc Fàbregas, Javier Mascherano, Santi Cazorla, Yaya Touré, Kevin DeBruyne, Jorginho.

Na atual década, os jogadores que mais tocam na bola são maioritariamente defesas - Trent Alexander-Arnold em 19/20, Andy Robertson em 20/21, João Cancelo em 21/22, Lewis Dunk em 22/23, Rodri na época passada e Virgil Van Dijk nesta temporada.

Outra grande mudança é o número de centrais entre os dez jogadores com mais toques: se era raro um central entrar na lista há 10 anos, agora os centrais compõem mais de metade do top-10. Nos números deste ano, são seis os centrais, além de Van Dijk que lidera a contagem.

A mesma mudança acontece em Portugal.

Olhando para os números da Opta, em 2018/19, a tabela dos toques na bola por 90 minutos era liderada por oito médios, com Gabriel do Benfica à cabeça (com 81 toques na bola por jogo), seguido por Alejandro Grimaldo e Jambor, médio croata do Rio Ave.


Na contagem há lugar para mais dois médios do Rio Ave nos 10 primeiros (Filipe Augusto e João Schmidt), além dos criativos daquele ano: Pizzi, pelo Benfica, Bruno Fernandes pelo Sporting, Olíver Torres e Hector Herrera pelo FC Porto. E sobra um, que é o único central da contagem: Jérémy Mathieu, do Sporting, com cerca de 74 toques na bola por jogo.

A lista da época que agora acaba em Portugal é completamente diferente.

Que jogadores tocam mais na bola?

Entre os dez jogadores que mais tocaram na bola por 90 minutos estão oito centrais dos três grandes - além de Gonçalo Inácio (que tem uma média de um toque na bola por minuto) e de Otávio, estão também na lista Diomande, Nehuen Perez, Ivan Marcano, Zé Pedro, Eduardo Quaresma e Nicolás Otamendi, todos com médias perto ou acima dos 80 toques na bola por jogo.

No espaço de apenas sete épocas, os centrais com mais toques na bola passaram a ter a bola mais 10 vezes por jogo.

Isto pode explicar-se pelo sistema a três centrais, que leva a mais trocas de bola - e mais posse - entre os elementos mais recuados da defesa, mas não explica tudo.

Para encontrar um médio mais ofensivo é preciso recuar mais de 40 lugares, para encontrar Di María, do Benfica, com cerca de 65 toques na bola por jogo.

Em termos totais, o jogador com mais toques na bola no campeonato foi Otamendi, seguido de Álvaro Carreras, Ousmane Diomande, Gonçalo Inácio e só depois um médio - Orkun Kokçu.

Olhando apenas para os toques na bola nos dois terços mais ofensivos do campo, já descontando a troca de bolas entre defesas na área defensiva ou perto dela, estão quatro médios centro entre os jogadores com mais toques no esférico, mas mesmo assim surge Gonçalo Inácio à frente de qualquer jogador ofensivo. No topo da lista está Tiago Silva, do Vitória de Guimarães.

Olhando para os diferentes anos, há um jogador que sobressai entre os quase dois mil registos: os seis meses de Enzo Fernández no Benfica em 2022/23 são números de extraterrestre - 118 toques na bola por 90 minutos, mais 15 do que o segundo melhor registo das últimas sete temporadas.

Que posições tocam mais na bola?

Por posições, é possível ver que os defesas centrais em 2018/19 registavam menos toques na bola por 90 minutos que médios centro e médios defensivos e que médios ofensivos e extremos, um paradigma que mudou na temporada seguinte.

Desde então que os centrais são a posição com mais toques na bola, com uma distância considerável para os médios. Já os guarda-redes, pela primeira vez este ano, ultrapassam os avançados - mais um sinal da evolução do futebol.

O guarda-redes com mais toques na bola na I Liga em 2024/25 é Diogo Costa, do FC Porto, com cerca de 40 - mais do que qualquer avançado dos "dragões".

Metodologia

Para a apuração dos resultados, foram considerados todos os 1.947 jogadores que realizaram pelo menos 10 jogos na I Liga entre as épocas de 2018/19 e 2024/25.

A contabilização de toques na bola e de toques na bola nos 2/3 ofensivos do campo foi feita pela Opta, portal de dados desportivos.

A posição do jogador foi definida com base na posição em que o jogador realizou mais jogos. Por exemplo, Tomás Araújo realizou mais jogos a defesa-central esta época do que a lateral-direito, tal como Matheus Reis realizou mais jogos a defesa central que a lateral-esquerdo ou Zeno Debast realizou mais jogos a defesa central do que a médio defensivo.

A metodologia não é isenta de falhas, pois considera apenas uma só posição para cada jogador, mas serve apenas para ilustrar o papel do defesa central no futebol moderno.

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