Entrevista Bola Branca
Antunes: "Ainda agora acabei a carreira e já sinto falta do cheiro da relva, é um estilo de vida"
30 jun, 2025 - 11:00 • Eduardo Soares da Silva
O internacional português decidiu terminar a carreira aos 38 anos, depois de salvar o Paços da despromoção à Liga 3. À Renascença, revela os detalhes de uma transferência falhada para o Atlético de Madrid, o sonho cumprido de ser campeão em Portugal e o futuro desejado como treinador.
Sentado na bancada da Mata Real a recordar a carreira, Antunes ri-se sobre a ironia de considerar os rivais Paços de Ferreira e Freamunde como "os dois clubes de coração".
"Eu sei que parece irónico por serem rivais, mas é a mais pura das realidades, sou tão freamundense como pacense", diz, entre risos.
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Natural de Freamunde, o lateral esquerdo que jogou 13 vezes pela seleção nacional terminou a carreira após salvar o Paços da despromoção à Liga 3. No total, esteve seis épocas na Mata Real, em três passagens diferentes.
O clube precisou de bater o Belenenses no "play-off" para continuar no futebol profissional. O Paços perdeu a primeira mão, no Restelo, e só uma reviravola no prolongamento garantiu a permanência no segundo jogo.
Os colegas já sabiam que esse seria, provavelmente, o último jogo da sua carreira.
"Reuni o grupo no balneário no dia anterior, pedi-lhes que fossem para casa a pensar no que queriam para o futuro deles porque o meu percurso estava a acabar", conta.
O jogo foi de nervosismo. Antunes foi campeão nacional na Ucrânia e em Portugal, venceu sete títulos, jogou mais de 20 jogos europeus, mas sentiu um nervosismo como há muito tempo não sentia.
"Tomei uma pastilha para dormir melhor no dia anterior. Se não o fizesse, poderia nem dormir de noite. Cheguei ao clube às onze da manhã e a concentração era só depois da uma. Queria que o jogo começasse rapidamente, mas ao mesmo tempo, não queria que o tempo passasse para não acabar a carreira. Se o jogo tivesse cinco horas, eu ia querer jogar todas as cinco horas", diz.
E tudo acabou bem. No final do jogo, anunciou na "flash interview" da Sport TV que seria o provável fim da sua carreira. Uma semana depois, o anúncio oficial. Aos 38 anos, com mais de 500 jogos nas pernas em cinco países diferentes, decidiu terminar.
"Idealizava acabar na I Liga, mas não se pode pedir tudo. Acabei onde queria e estou feliz porque conseguimos uma manutenção sofrida. Se fosse outra descida, aí já ficaria um amargo muito grande", explica.
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Antunes foi decisivo ao longo da época. Marcou seis golos numa época de incerteza em relação ao futuro: o Paços mudou de direção e terá uma provável entrada de investimento estrangeiro. No entanto, confessa à Renascença que, há meio ano, não pensava pendurar as botas
"Decidi jogar mais um ano na época passada, pensando que tudo iria ser melhor no Paços. Acabou por não ser. Senti-me bem fisicamente esta época, não pensava acabar, mas com a partida do meu pai, fui tendo algumas reflexões em família e pensei acabar", revela.
Chegara, afinal, o momento certo para "dar oportunidade à malta mais jovem".
Depois de tantos anos com a rotina de treino, o dia a dia está prestes a mudar radicalmente para Antunes: "Fui profissional 23 anos, é mais de metade da minha vida, nunca me vi a fazer outra coisa".
"Acho que se perde mais do que se ganha [quando se decide reformar]. Pelo menos inicialmente. Ainda agora acabei e já sinto falta do cheiro da relva, do ambiente de balneário, as pessoas que envolvem o clube, todas as brincadeiras, os almoços, estágios, os jogos de cartas. É um estilo de vida", reflete.
Antunes considera-se um "privilegiado": "Fiz o que gostei e acabei com 38 anos, consegui alongar bastante a carreira".
O lateral viu o Paços crescer. Quando passou pelo clube pela primeira vez, era um Paços à procura de estabilização na I Liga. Nem sequer o estádio era o mesmo, antes de uma profunda renovação com a reconstrução de duas bancadas.
Também o Paços viu o lateral em diferentes fases da carreira. A primeira passagem foi em 2006, ainda um jovem contratado precisamente ao rival local. Nesse ano, apuraram-se para a Taça UEFA com um 6.º lugar.
"Fiz parte do velhinho Paços, com poucas condições de infraestruturas, mas já não nos faltava nada nessa altura. Agora, nesta última fase, há condições fantásticas, que não é de clube de segunda, não é compatível com o que está a acontecer. O Paços deveria ser uma das dez equipas mais fortes da I Liga e não tenho dúvidas que, mais cedo ou mais tarde, vão voltar e afirmar-se definitivamente", avalia.
"Estive perto de uma depressão"
Antunes ficou pouco tempo em Portugal. Assume que teve "várias propostas", mas optou pela Roma de Lucianio Spalletti. Era uma equipa de "muitos craques".
"Só estar ali a vivenciar tudo diariamente já era um sonho, treinar todos os dias com os meus ídolos, não há melhor coisa que isso", diz. E enumera: "Totti, De Rossi, Juan, Cicinho, Perrotta, Pizarro, eram muitos".
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Fez oito jogos nessa época e seguiu emprestado para o Lecce para ganhar mais rodagem na Serie A. Voltou dois anos depois, mas com outro treinador, já não fazia parte dos planos.
Foram três épocas de pouca utilização com empréstimos ao Leixões, Livorno e Panionios. Chegou até a estar seis meses a treinar sozinho num dos piores períodos da carreira.
"Foi muito difícil para um miúdo que vivia sozinho em Itália. Estava perto de querer abandonar o futebol e de entrar numa depressão. Não sabia como controlar essa tristeza que se estava a apoderar de mim, mas tive ajuda da minha família para tentar novas experiências", atira.
O regresso ao Paços não demorou. Pediu a rescisão em Itália e regressou para "a casa" para vivenciar mais uma época histórica do clube, em 2012/13, com o apuramento para a Liga dos Campeões.
Antunes nem sequer ficou até ao final da época. Destacou-se de tal maneira que, em janeiro, mudou-se para o Málaga, onde chegou aos quartos de final da Liga dos Campeões.
"Consegui relançar a carreira nesse ano, e se houvesse VAR nesse ano, acho que iríamos até à final da Champions", lamenta. Os espanhóis eliminaram o Porto nos "oitavos" e só caíram para o Dortmund nos quartos de final com um golo em fora de jogo no prolongamento.
Do acordo falhado com o Atlético ao título em Portugal
Depois de Málaga, seguiram-se dois anos e meio no Dínamo de Kiev, onde foi campeão nacional pela primeira vez. Voltou à La Liga para mais três épocas no Getafe. Aí viveu o melhor momento de forma individual e esteve perto de dar o maior salto.
"Em 2018/19 estava no meu melhor ano, não fiz os últimos sete jogos e entrei no melhor onze do campeonato. Na semana antes de me lesionar, tínhamos chegado a um acordo verbal para ir para o Atlético de Madrid", revela.
Com a grave lesão, tudo ruiu. Quase não jogou em 2019/20 e quando menos esperava, o telefone tocou.
"Não estava à espera, estava em recuperação, mas apareceu o convite do Sporting. Cumpri mais um sonho, o que de jogar num grande em Portugal e ser campeão nacional", explica.
Nem jogou muito, fez apenas 13 partidas, mas recorda que estava tapado "por um miúdo que é provavelmente o melhor lateral do mundo hoje em dia": Nuno Mendes.
"Posso-me orgulhar de dizer que fui um companheiro e ajudante dele, se é que precisava de ajuda, porque já tinha tudo. Estou eternamente agradecido ao Sporting pela oportunidade", diz.
No Sporting reencontrou-se com Ruben Amorim, que tinha sido seu colega na seleção nacional. Nos leões, a relação era outra, de treinador para atleta e, nesse aspeto, o atual treinador do Manchester United é dos melhores com quem já se cruzou.
"Nunca pensei que ele fosse ser treinador, mas vi o quão bom ele é e ainda podia vir a ser. Entende muito do jogo e tem uma relação com os jogadores muito boa, há poucos treinadores assim, lembro-me talvez só do Paulo Fonseca e do Pellegrini terem uma relação semelhante, tão aberta. É o segredo dele, para além do que entende de futebol, claro, que é muito", avalia.
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O sonho de ser treinador
Terminada a carreira, Antunes já há muito tempo pensa no que vem a seguir. Já tem os dois primeiros níveis de treinador e quer seguir por esse ramo.
"Não me sinto preparado para tomar já rédeas de uma equipa principal, muito menos num escalão elevado, tudo tem o seu tempo", diz.
Mais do que tirar o terceiro nível, Antunes remete para a "formação de 23 anos de profissional, é uma maior lição do que propriamente um curso".
Entre começar por treinar na formação e "devolver um pouco ao futebol", o futuro preferido de Antunes seria juntar-se a uma equipa técnica nos profissionais: "Nunca vivenciei o que é ser líder em todos os sentidos, tomar decisões, errar no onze, como é uma semana de trabalho do treinar, o que o leva a escolher por A ou B. Isso vai ajudar-me no futuro".












