Entrevista Bola Branca
Quando Rui Patrício falhou com o Leiria, atraiu a assobiadela para ele: "Eu disse que tínhamos guarda-redes para o futuro"
11 dez, 2025 - 14:35 • Hugo Tavares da Silva
Ricardo Peres foi treinador de Rui Patrício no Sporting e na seleção. Em conversa com a Renascença, o técnico de guarda-redes explica a carapaça do "animal competitivo", revela um momento que definiu tudo e até conta a história do penálti com o Marítimo na estreia. E deixa um elogio enorme a Tiago.
Há homens e mulheres que se cruzam na vida de homens e mulheres para lhes mudar a vida. Foi o que aconteceu com Rui Patrício e a equipa técnica de Paulo Bento. Depois da afinação da máquina nos ateliers de Alcochete, o treinador e o aliado do gabinete das luvas, Ricardo Peres, subiram o jovem guarda-redes à equipa sénior. Quando Ricardo e Tiago estavam tocados para uma visita ao Funchal, Rui Patrício estreou-se nos Barreiros. Aos 75 minutos, o imberbe rapazinho com casca dura defendeu o penálti de Kanú e ficou debaixo de olho dos sportinguistas.
Apesar desse momento mágico, Rui Patrício voltou apenas a voar entre os grandes na época seguinte quando Paulo Bento e Ricardo Peres lhe deram seis jogos, "aconteça o que acontecer". O erro chegou, acompanhado pela assobiadela ruidosa e implacável de Alvalade que beliscou a equipa, mas naquele momento o miúdo de Marrazes chamou para si a responsabilidade. Peres não tinha dúvidas que estava perante o futuro e talvez tenha recordado o que lhe disse quando o menino tinha 17 anos: "Podes vir a ser um dos melhores guarda-redes do mundo".
Rui Patrício anunciou na quarta-feira o fim da carreira e será homenageado pela Federação Portuguesa de Futebol na sexta-feira.
Como é que aparece Rui Patrício?
O Rui Patrício é notado por nós, por mim pessoalmente, quando comecei a trabalhar nas camadas jovens do Sporting como treinador de guarda-redes. No primeiro treino houve logo um destaque perante as qualidades que ele apresentava, mas, acima de tudo, pelo potencial que ele apresentava. Era um guarda-redes que ainda dividia a sua titularidade nos sub-17 com o Marco [Pinto], eram dois guarda-redes de seleção, não era política de formação do clube fazer passar um jogador apenas pela titularidade mas ir alternando, ter várias experiências, de jogar e saber também não jogar.
Hmm, hmm.
Quando estávamos no escalão júnior, o Rui ia assiduamente treinar aos juniores e na segunda época que iniciámos em que depois se deu a transição para os seniores, o Rui era o nosso titular nos sub-19 e treinava connosco nos seniores quando passámos para lá. Lembro-me de estarmos sentados na academia, os campos dividiam-se por um corredor, eram abertos, toda a gente tinha acesso visual a todos os campos. Havia uns bancos de jardim. Estávamos sentados e disse-lhe: "Podes vir a ser um dos melhores guarda-redes do mundo. Tens 17 anos, se te focares e trabalhares bem, se fores humilde e aprenderes bastante, vais ser, tenho a plena convicção, um dos melhores do mundo".
E o Rui estabeleceu nesse momento esse compromisso e o resto é ele. O foco que ele põe no seu desenvolvimento pessoal, profissional, o que ele apostou em todas as competências e na humildade que tem em aprender com muitas pessoas que lhe queriam bem. Boas pessoas atraem boas pessoas e isso fez com que ele tivesse a carreira que teve, deve-se essencialmente a ele.
Como era ele? Parece-me muito discreto, quase avesso aos holofotes.
O Rui era um miúdo que viveu, desde muito cedo, no Sporting. Veio de Marrazes, de Leiria. Ele era um miúdo discreto, sim, mas dentro do grupo era muito bem aceite e bem disposto, brincalhão, muita gente gostava dele. Sempre foi uma pessoa bastante social. Agora, fora do círculo, teve sempre a sua discrição e a sua não vontade de mostrar muito o que poderia ser. E fez bem, fez bem. Isso fez-lhe humilde, de forma a poder aprender, este mindset às vezes é o oposto do mindset de querer mostrar algo. O que ele queria mostrar era focado no trabalho, na aprendizagem, na competição, na avaliação do treino e competição e sempre no foco de querer ser melhor. Adicionou a isso a parte do desenvolvimento pessoal que foi muito importante em determinado momento da sua carreira. Ajudado por boas pessoas e bons profissionais, deve-se a ele o patamar que atingiu.
Saltemos para a estreia com o Marítimo. Lembra-se do episódio?
Esse jogo não era uma escolha difícil, porque o Ricardo e o Tiago estavam ligeiramente tocados, não podiam dar o seu contributo, tinha mesmo de jogar o Rui. Lembro-me do episódio do penálti que existiu nesse jogo e de correr para trás da baliza, para lhe dar indicação do que o jogador adversário poderia fazer. Ele olhou para trás e disse-me "esteja descansado, que eu vou defender". Eu fiquei calado. E isto é o Rui. Quando há foco na tarefa, não é preciso dizer mais nada porque o trabalho é feito na retaguarda e depois ele tem essa capacidade incrível de expandir tudo o que assimila e reproduz em competição.
Houve o outro lado da história, vieram os erros, normais para um miúdo, as críticas todas, a pressão para o Paulo Bento tirá-lo da baliza. E seguraram-no. Como foi passar essa fase com ele?
Houve aqui uma pessoa que não podemos esquecer, bastante importante nessa fase: o Tiago. Era o colega de lugar, competia pelo lugar e em determinado momento tivemos de sacrificar o tempo de jogo do Tiago para lançar o Rui. E o Tiago foi o primeiro a apoiar o Rui nesse aspeto. Nós já vínhamos a conversar há algum tempo que o Rui já merecia uma oportunidade, mais tarde ou mais cedo estávamos cientes que a oportunidade ia surgir. Quando decidimos lançá-lo, foram-lhe dados seis jogos de imediato. Lembro-me de chamarmos o Rui ao gabinete e o Paulo dizer-lhe "tens seis jogos, não te preocupes com nada, vais jogar estes seis jogos e aconteça o que acontecer vais jogar". Depois, porque era uma data FIFA, fazíamos uma avaliação e conversávamos.
Esses seis jogos eram primeiro com o Leixões, fora, e a seguir Manchester United, fora. O Rui fez uma primeira parte contra o Leixões mais nervoso, o que era normal, com aquela idade, indo com aquela pressão, numa época que estava a ser bastante difícil para o Sporting. No jogo contra o Manchester United fez uma exibição incrível, acabámos por perder com um livre do Ronaldo já nos descontos, mas o próprio Ronaldo acabou o jogo e saiu direto ao Rui para lhe dar os parabéns.
Hmm, hmm.
No terceiro jogo, o Rui tem a sua primeira falha. E aí, de uma forma algo injusta para um jovem da academia, um produto Sporting, e também devido à frustração da época que se estava a fazer, acabou por se descarregar em cima do miúdo toda essa frustração perante os resultados. É o momento-chave, para mim. Quando o Rui falha nessa golo contra o Leiria, em que o Toñito faz o golo nas costas dele, de cabeça, existe uma assobiadela geral por parte do público para a equipa, e o Rui, com aquela idade, levanta os braços e diz que a assobiadela deve ser para ele, porque foi ele que errou. Quando acabou o jogo, olhei para o Paulo Bento e disse: "Temos guarda-redes para o futuro". Um miúdo de 18 anos fazer isto perante 30 mil pessoas, no seu terceiro jogo como sénior, tirando o jogo contra o Marítimo na época anterior, é diferenciado. Com o valor que tem, com as competências que tem, vai ser guarda-redes de certeza.
Há um reencontro na seleção, não é?
Mesmo nessa altura, o Sporting ainda não valorizava... O Rui acabou por ter dois erros que eu me lembre que custaram pontos para o Sporting, numa época que foi muito difícil para nós. Isso trouxe um peso muito maior a qualquer miúdo que comece a jogar e que faça erros, o que é perfeitamente normal. Só que os erros dele trouxeram perda de pontos, logo trouxeram uma carga, logo trouxeram uma certa etiqueta de que o Rui não era guarda-redes para o Sporting. E essa forma de pensar foi permanecendo alguns anos. Ele teve de lidar com uma certa desconfiança que existia, mesmo dentro de casa, mesmo cada treinador que chegava, chegava muitas vezes desconfiado do seu valor mas depois acabava sempre por ser convencido através do trabalho e do rendimento que o Rui tinha, acabava sempre por ser um dos jogadores mais importantes do Sporting.
Certo.
Na minha opinião, só passados três, quatro anos é que o Rui, pelo seu valor, competência e profissionalismo, consegue dar a volta a esta forma de avaliação do público em geral e consegue de uma forma natural ser visto de acordo como devia ser visto, que era como um grande guarda-redes. Nesse período da seleção foi quase uma continuidade, uma articulação fácil com o treinador de guarda-redes que tinha estado connosco nas camadas jovens do Sporting. Havia ali uma continuidade. O Rui estava inserido num grupo de guarda-redes muito bom e com muito trabalho árduo, o Beto e o Eduardo. Permanecemos com os três na esmagadora maioria dos estágios. Com o Eduardo a deixar de jogar no Benfica, acabámos por optar por colocar o Rui e a partir daí o Rui tem o rendimento na seleção que toda a gente viu.
Sendo próximo do Rui, como foi viver aquela final de 2016? Aquela defesa assombrosa...
Fomos falando durante esses anos todos e continuamos a falar. Mais uma vez, não me surpreende. Quando o Rui assume, com o seu foco... é dos atletas que tivemos que mais conseguia transformar em rendimento através do foco na tarefa aquilo que aprendia e assimilava no treino. Tendo o Rui já uma experiência grande, o seu nível emocional era super estável na esmagadora maioria dos jogos e não havia muitos factores que o pudessem desequilibrar, nem factores que o pudessem levar a uma certa euforia que o pudessem desconcentrar. Lembro-me do penálti defendido, em 2012, contra o Xabi Alonso, em que defendeu e permaneceu impávido e sereno, porque foi isso que foi combinado... nem o factor de ter uma vez ou outra ter alguma responsabilidade em algumas ações de insucesso, como acontece a qualquer jogador.
A final é o foco, era o animal competitivo que queria jogar sempre os jogos mais difíceis, nos ambientes mais difíceis, e aí vinha ao de cima o que o Rui tinha de melhor e mais profundo, que era saber estar na mais alta competição e nos mais altos desafios que pudessem existir.
Como resume a carreira do Rui?
Um exemplo e uma inspiração para os jogadores mais jovens. Está ali uma carreira que pode ser estudada ao pormenor, que teve altos e baixos, que teve desafios muito grandes quando era muito novo, e a resposta humana foi sempre uma inspiração para qualquer pessoa que acompanhasse o Rui. Por isso, o Rui deve ser visto como alguém que teve uma carreira exemplar, do que é um ser humano num jogador de futebol.












