Reportagem Bola Branca
Com 10 épocas no Caldas, o mister Vala desafia o futebol moderno: "É preciso mais paciência"
19 dez, 2025 - 11:05 • João Filipe Cruz
A Renascença foi às Caldas da Rainha saber que homem é este que treina os pelicanos reais desde 2016. O professor José Vala quase chegou ao Jamor, obrigou o Benfica a ir a penáltis e subiu à Liga 3. Na véspera do Caldas-SC Braga para a Taça, Vala recorda a Bola Branca que nem tudo foi feliz e houve momentos em que pensou desistir.
Num futebol cada vez mais centrado em resultados e imediatismo é difícil encontrar exemplos de longevidade de cargos. É raro depararmo-nos com exemplos de jogadores de um clube só, as direções também caem sem serem submetidas a sufrágio e, na base da "cadeia alimentar", o cargo mais "dispensável", o de treinador. Da Alemanha chega-nos o exemplo de Frank Schmidt, no Heidenheim há 17 anos, é a exceção de uma regra vigente.
Em Portugal - mesmo não chegando aos mais de 700 jogos do alemão de 51 anos - encontramos, nas Caldas da Rainha, uma exceção: José Vala, de 53 anos, é o timoneiro dos pelicanos reais desde 2016 e esta é a 10.ª consecutiva no banco da clube da Liga 3.
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O professor de Educação Física não esconde o amor que sente pelo Caldas Sport Clube. Filho da terra, chegou ao clube em criança e formou-se nos pelicanos reais. "Toda a minha família está ligada ao Caldas. Tive dois tios que foram jogadores do clube, mas a minha grande referência, que fez com que quisesse chegar aos seniores do Caldas, foi o meu irmão, que jogou aqui muitos anos e nunca teve outro clube. Foi sempre a minha referência, mesmo quando eu estava nas camadas jovens. Sempre tive o desejo de partilhar balneário com o meu irmão e isso aconteceu", explica a Bola Branca.
Concretizou o sonho de chegar aos seniores e, tirando uma experiência no Beneditense, dedicou a carreira ao Caldas. Foram 10 temporadas de chuteiras calçadas pelo símbolo do qual é sócio há "seguramente mais de 30 anos". Há pouca gente que saiba mais sobre o Caldas por dentro como o mister Vala.
"O clube está muito diferente. Agora tem cerca de 400 atletas na formação, no meu tempo nem infantis tinha. Vir jogar para o Caldas já era um feito enorme. Lembro-me que chegavam uns 100 miúdos para as captações para os iniciados e o plantel só tinha 25. Eu fiquei sempre e fui sempre capitão. Subi aos seniores, estive aqui duas épocas, fui estudar e tive de sair porque o Caldas era completamente profissional", desabafa.
"Aluno razoável", queria ser jogador profissional mas, "felizmente", foi forçado pela família a seguir para a universidade, sobretudo pelo irmão, "que já tinha tido a experiência de largar a escola pelo futebol", e foi o "melhor que fez". Licenciou-se em Educação Física e, mais tarde, completou o mestrado em Psicologia do Desporto, já a pensar na carreira de treinador, porque antes "não lhe passava pela cabeça". Caiu de paraquedas numa equipa técnica do Caldas.
"Ser treinador não me passava pela cabeça. Mas quando estava aqui, com o mister Gila, ele lançou-me o desafio. Até lhe perguntei se não me queria a jogar e ele disse 'não, vamos fazer uma coisa diferente, ficas como jogador e na equipa técnica'. Não foi uma experiência positiva. Achei que era misturar. Equipava-me de um lado, ouvia do outro, já andava doido com tanta coisa. No ano seguinte optei por deixar de jogar e integrar a equipa técnica do Gila, com quem estive sete anos como adjunto", partilha com a Renascença.
"Feliz ou infelizmente", Virgílio do Nascimento, Gila no futebol, saiu e José Vala acabou promovido a técnico principal. Não ficou para a época seguinte porque a direção considerou que não tinha experiência, mas "ganhou o gosto".
O professor de Educação Física numa escola em Atouguia da Baleia manteve a colaboração com uma academia em Óbidos que, aproveitando o facto de se ter despedido do clube do coração, decidiu arrancar com uma equipa sénior em 2013. José Vala aproveitou alguns "miúdos da formação" e, ao fim de duas épocas, guiou a Associação Espeleologica de Óbidos à Divisão de Honra da Associação de Futebol de Leiria, onde terminou em 8.º na época de estreia e o o sucesso despertou o interesse da casa de sempre.
Taça de Portugal
Caldas-Sp. Braga para a Taça vai jogar-se em Torres Vedras por causa da chuva
O apito inicial vai ouvir-se às 19h00 desta terça-(...)
"Um dos vice-presidentes do Caldas, um dos meus melhores amigos, viu-me a fazer um bom trabalho em Óbidos e ia-me dizendo 'um dia vais para o Caldas' e eu dizia-lhe sempre 'tu tens um grande treinador', até que chegou a altura", recorda.
Dois mil e dezasseis foi a altura. O ano que marca o início de uma caminha cuja longevidade desafia o imediatismo que impera no desporto-rei.
A meia-final da Taça, a subida à Liga 3 e o momento em que pensou parar
José Vala chega bem antes da hora do treino ao mítico Campo da Mata, que ficou indisponível horas antes do encontro com o Braga por causa da chuva. Recebe Bola Branca na sala de conferências de imprensa e faz a revista aos melhores e piores momentos que cabem numa década de casamento.
No momento da conversa, o clube não atravessa o melhor momento: quatro derrotas consecutivas e cinco jogos sem vencer na Liga 3 (agora cinco derrotas e seis jogos em vencer), ainda que, pelo meio, tenha conseguido o apuramento para os quartos de final da Taça, no desempate por grandes penalidades frente ao Tondela, de dois escalões acima. Ainda assim, os pelicanos ainda ocupam o quinto lugar da Série B, muito perto dos lugares que valem o apuramento para a fase de subida à II Liga.
Sem nunca esquecer o presente, desafiamos José Vala a eleger marcos desta passagem que conta com mais de 300 jogos de histórias e, logo na segunda época, há um momento marcante e único no emblema do Oeste: meias-finais da Taça de Portugal, em 2017/2018.
"Poucos falam desse jogo, mas foi dos mais importantes, quando ganhámos ao Cesarense, que estava na série de cima, uma equipa brutal, na altura treinada pelo Secretário e pelo Cândido Costa. Ganhámos e fizemos um grande jogo. Depois, o Arouca veio aqui e ganhámos, a seguir a Académica, as coisas foram surgindo, a cidade foi-se movimentando e também nós. Quando eliminámos a Académica sabíamos que íamos apanhar o Farense, que é um histórico, mas na altura estava na nossa divisão e pensámos que tudo podia acontecer. Ganhámos e chegámos às meias-finais. Foi épico", recorda à Renascença.
Na meia-final a duas mãos o adversário era o Desportivo das Aves. A derrota por 1-0 no primeiro embate, na Vila das Aves, deu esperança ao conjunto das Caldas da Rainha. "Houve uma altura em que acreditámos. Lembro-me que, quando acabou o jogo nas Aves, pensei que, com a Mata cheia, podíamos muito bem ganhar. Levamos o jogo para prolongamento, não deu para mais, mas não esteve longe", desabafa.
O Caldas acabaria por perder 2-1 no Campo da Mata, mas caía com o clube que viria a conquistar a prova rainha nessa época. José Vala foi convidado a assistir, no Jamor, à final entre avenses e Sporting e, dado o momento dos leões e o desfecho da partida, ficou a sensação de que podia ter sido feita história.
"Foi difícil ver. Quando parei na área de serviço de Loures estava a vir um autocarro de adeptos do Aves, houve um senhor que olhou fixamente e perguntou-me 'não é o treinador do Caldas?', eu respondi que sim e ele diz-me 'você é que devia estar ali, mas se estivesse não estávamos nós', mas custou-me muito. Era o Sporting, mas acho que qualquer equipa tinha hipótese de ganhar ao Sporting daquela altura", reconhece.
Ao lado de José Vala estava Thomas Militão, defesa que só conheceu um clube e passou nove das 10 temporadas do mister no clube. O antigo defesa, que pendurou as chuteiras no final da época passada, serve de sublinhado de memória do treinador, que é "como um pai". Também Thomas sente o agridoce quando recorda aquele percurso na Taça: "Éramos arrogantes o suficiente para acharmos que tínhamos hipóteses de ganhar ao Aves, apesar de eles terem vencido o primeiro jogo. Chegando à final, íamos apanhar um Sporting frágil e era bem possível".
Três anos depois, outro marco importante na carreira de Vala e do Caldas: a subida à Liga 3, mas sem alguns espinhos na roseira de 2020/21, é que se o final foi de festa, pelo meio houve uma altura em que a rutura aconteceu, mesmo que por um dia.
"Tivemos um período complicado, com quatro derrotas e um empate e tínhamos um calendário difícil na parte final. Nesse ano, as equipas desciam de divisão ou integravam a luta pela subida à Liga 3. Acabámos por ficar em quarto. Mas cheguei a deixar o clube por um dia.
Quando perdemos com o Pêro Pinheiro, com um golo do Marcelino que foi nosso jogador, disse logo ao Nuno Ferreira 'acabou'. Sentei os jogadores todos, sentei-me numa marquesa e expliquei a situação. Não me sentia com força, sabia que a maior parte dos jogadores estavam comigo, mas não dava. Mas no dia seguinte, apareceram-me o Militão e o Luís Paulo em casa e, depois de uma conversa que guardamos para nós, voltei. Voltei com força e eles tinham razão porque subimos de divisão", recorda Vala.
Se perguntarem pelo momento mais difícil no Caldas, o mister aponta esta fase de uma temporada que rendeu a subida mas, uma vez mais, há um "tirando este", em dezembro de 2025. Mas depois desse jogo com o Pêro Pinheiro, houve mesmo um fim.
Desistir do futebol nessa altura? "Sim. Cheguei a casa, a minha mulher já sabe como sou e viu logo. Chorei um bocadinho ao pé dela e fui para o quarto. Pensei que havia de voltar a treinar, mas não tão depressa. Queria recompor-me. Talvez por não ser esta a minha profissão, achei que precisava de uma pausa", recorda.
Mas não houve e, no final, o Caldas garantiu a subida à primeira edição da Liga 3.
A festa da Taça havia de voltar ao Campo da Mata em 2022, quando o Caldas recebeu o Benfica e obrigou o 'Golias' a ir a penáltis para passar à fase seguinte. José Vala recorda que começou a preparar o jogo frente a um "Benfica demolidor" com um jantar entre equipa técnica e a televisão ligada no confronto entre águias e PSG. A preparação passou da mesa para o "sofá do Morgado", "molinho" e rendeu uma sesta ao mister, num momento que serviu para o grupo de trabalho brincar com o mister: a fotografia do momento foi parar a um grupo de conversa do plantel, com a legenda "mister a preparar o Benfica". No final, com ou sem sesta, o Caldas deu (muita) luta ao Benfica.
Ainda assim, para o mister, a meia-final foi diferente: "Apesar de o jogo com o Benfica ser mais mediático, quando chegámos à meia-final nós estivemos muito tempo a viver aquilo, de novembro até abril".
"Nunca pensei ficar tanto tempo"
Nove temporadas completas, uma meia-final da Taça, um bater de frente com o Benfica "demolidor do primeiro ano de Roger Schmidt" e uma subida. Há currículo nesta relação entre Vala e Caldas e um denominador comum: as reuniões de final de época que, até agora, serviram para reforçar o laço.
"Quando chegamos ao final da época há sempre uma análise. Quem está à frente do clube acha que sou o melhor, eu sinto-me bem, é inquestionável que gosto do clube mas, geralmente, quando há essa análise, sinto motivação e nunca apareceu nada que pusesse em causa a minha continuidade", explica.
O mister não esconde que os resultados vão sendo atingidos porque "senão, por melhor que fosse a relação, ninguém estaria tanto tempo num clube".
"É como as renovações, é com naturalidade. Há objetivos atingidos? As coisas foram feitas? E, por vezes, também é como se vive os momentos menos bons. Na altura do presidente Jorge Reis, ele disse-me que se eu saísse, a direção também saía porque eu era o treinador da direção. E o presidente Rodrigo também já me disse algo semelhante. É uma pessoa a quem o Caldas deve muito e acho que só se vai perceber isso daqui a uns tempos. Se não fosse o presidente, não sei como o clube estaria. Um miúdo com a coragem que ele teve...", detalha Vala.
Thomas Militão não tem dúvidas sobre os feitos do mister. "Há gente nas Caldas e no clube destinadas a vencer e o mister é um deles. Todos os anos, têm sido feitos atrás de feitos. Há que dar mérito ao trabalho e não esperar pelas alturas menos boas e apontar a pistola", aponta a Bola Branca.
Também José Vala assume que houve fases no Caldas em que se fosse "num clube normal cortava-se no treinador". Mas o Caldas não é um clube "normal" devido, segundo o técnico, "às pessoas, aos jogadores e à capacidade que o treinador tem para não desistir".
Mas não é assim no futebol em geral. O termo "chicotada psicológica" aparece todos os anos, várias vezes, e ninguém - ou quase ninguém - escapa, incluindo o próximo adversário dos pelicanos na Taça, que até foge à regra recente.
"O Sporting de Braga tem um presidente que não é propriamente conhecido por segurar treinadores, mas com o mister Vicens aconteceu diferente. Começou mal, mas os resultados apareceram e agora está muito melhor", reconhece Vala.
Mas "por vezes há muita precipitação". Para o técnico, "há alturas em que não é o treinador que é mau, só não é o certo para o projeto que o clube tem. Há outras vezes em que é o contrário, o treinador é o certo e, tirando os resultados, tudo o que tínhamos perspetivado está a acontecer".
José Vala gostava de "ver mais paciência no futebol", mas entre risos exclama que "estabilidade só nos sub-23". "Futebol é competição. Há os que ganham, perdem, sobem e descem e haver estabilidade é difícil", admite.
"Mais experiente", mas a mesma "pureza"
Quase 10 épocas depois, José Vala tem debaixo da língua a frase "mais peso e cabelos brancos" quando perguntamos o que mudou desde que voltou ao clube do coração. Num tom mais sério, o treinador adianta que se sente melhor no cargo, ainda que não seja profissional, mas também deixa reparos a si próprio.
"Como pessoa acho que estou igual, mas como treinador penso que estou melhor, sinceramente. Apanhei a moda do sair a jogar com 100% de risco, mas percebi que mais valia não arriscar tanto. Às vezes fico lixado comigo próprio porque perdi, mas pelo menos perdia da maneira como penso, que é pressionar alto, sermos agressivos, não baixarmos e às vezes o lado estratégico dá cabo da cabeça. Acho que mudei um bocadinho, mas não tanto", vinca.
Sugestionado, ou não, pela presença do treinador a centímetros, Thomas Militão concorda e vai mais longe: "Está mais experiente. Nos primeiros anos era muito mais nervoso e impulsivo no banco. A essência está toda lá e é o que tem feito diferença e tem garantido que todos gostem dele".
Um dos episódios que o antigo defesa guarda com maior carinho é o de um jogo em Mafra em que, "rodeado por 10 adversários" depois de um desentendimento, "o primeiro a aparecer foi o mister", mas também recorda um outro, num treino, que revela o cumplicidade entre jogador e treinador que sempre foram também amigos.
"Num treino, aqui no Caldas, estávamos a trabalhar uma saída de bola que senti que não estava a funcionar. Há muitos jogadores que podem não estar a gostar de fazer aquilo, mas vão-se calar e fazer na mesma e eu não sou assim, tenho de questionar. Lembro de não estar a sair bem, não estava a sentir-me confortável e expus a situação. Só ouço o mister lá do do fundo 'é pá, ó Mili, mas tu também tens de reclamar por tudo e por nada?'. É uma relação que começou no meu primeiro ano de sénior e nunca vai acabar", garante Militão.
E o fim? Está na cabeça? Para José Vala, até pode ser em breve, desde que seja como quase nunca foi.
"É egoísmo da minha parte, mas gostava de sair do Caldas de forma tranquila. Que nos sentássemos todos à mesa e disséssemos 'foi brutal, uma honra, mas chegou a hora'. Seja por que razão for, que o clube queira mudar, que surja uma oportunidade. Não tenho marcos ou objetivos, só quero sair a bem. De tantas vezes que estive cá, em muitas não saí a bem, mas sempre que saí sabia que ia voltar ao clube em que cresci. Quando sair, quero vir à Mata ver jogos, beber umas cervejas, mandar uns gritos e aplaudir. Para que isso aconteça tenho de sair a bem e se for para a semana, é para a semana", reconhece.
Mas Militão não concorda e puxa da experiência para deixar claro que 10 épocas não são sinónimo de relaxamento: "Ano após ano, o mister conseguiu inventar algo novo. Mesmo naqueles anos em que podíamos estar um bocado mais saturados, conseguiu reinventar-se e fazer qualquer coisa nova. E é a pessoa. Há treinadores que têm muita experiência e cursos e falham muito como pessoas. E a grande essência do mister é a pureza e no mundo do futebol é difícil ser assim".
O antigo defesa e amigo quer que o casamento "acabe em 2050", José Vala está pronto para aceitar o fim da relação, mas assegura que, quando o fim chegar, "vai parar algum tempo", não por desgosto, mas porque foi bom e dificilmente haverá igual.












