Futebol Nacional

FPF quer cursos UEFA Pro só para treinadoras. "Deixa-me triste ver outras mulheres desistir"

26 dez, 2025 - 12:00 • Inês Braga Sampaio

Bola Branca fez o levantamento do grau de habilitações requerido em Portugal e nas principais ligas femininas do mundo. Mariana Cabral pede que se valorize mais a treinadora portuguesa; Federação diz-se limitada pelas normas da UEFA.

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Mariana Cabral está há mais de dois anos a tentar tirar o curso UEFA Pro, o mais alto grau de habilitação de um treinador. Na iminência de iniciar funções como adjunta de um novo clube na Liga norte-americana feminina (NWSL), batalha contra um sistema que entende estar desenhado para o futebol masculino. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF), ciente do problema existente, remete responsabilidades para a UEFA e admite o desejo de abrir cursos especificamente para mulheres.

"Já. Várias", responde Mariana Cabral, quando, em entrevista à Renascença, é questionada sobre se já perdeu oportunidades por não ter o nível UEFA Pro.

"No mercado deste verão, a minha agente e eu tivemos várias abordagens que não passaram de abordagens, ou pouco mais, ou foi conversa e pouco mais, porque foi logo: 'UEFA Pro? Se não há, não dá'. Nos Estados Unidos, em Espanha e na Arábia Saudita", conta.

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Para a I Liga feminina portuguesa, ou Liga BPI, como é conhecida comercialmente, o nível de treinador requerido é o UEFA A, ou Grau III. As maiores ligas europeias são cada vez mais exigentes.

Bola Branca fez o levantamento do grau de qualificação mínima para as mais relevantes ligas do mundo: a NWSL pede o UEFA Pro, tal como Espanha, Alemanha e Suécia; já em França, Itália, Países Baixos e Portugal, é pedido o curso UEFA A, o nível logo abaixo. O caso de Inglaterra é particular: embora o nível mínimo exigido seja o UEFA A, os treinadores que detenham o diploma do UEFA Pro têm preferência, entre outros requisitos que estreitam muito o leque de escolha.

Ou seja, o problema, conforme explica Mariana Cabral, é que a oferta não está a acompanhar o aumento da procura.

"Tens muito mais candidatos, muito mais pessoas a precisar dessa qualificação, mas não houve um ajuste nem no número de cursos, nem no número de pessoas que podem entrar no curso. Obviamente, isto cria um problema grande, porque depois não consegues ter acesso à qualificação, e cria outro problema ainda: andamos sempre todas a dizer que precisamos de ter mais mulheres treinadoras, mas se elas não conseguem entrar no curso, depois fica difícil. As oportunidades surgem, mas nós se não temos as qualificações necessárias, não conseguimos agarrá-las", salienta.

Cursos a cada dois anos, máximo de 20 vagas

A UEFA obriga, desde este ano, a que cada curso UEFA A tenha pelo menos três vagas exclusivamente para mulheres e cada UEFA Pro tenha no mínimo duas.

Contactado pela Renascença, o diretor técnico nacional da FPF revela que há, atualmente, dez mulheres a tirar o curso UEFA A e duas a tirar o UEFA Pro.

Segundo dados disponibilizados pela FPF, há dois treinadores da Liga BPI com o curso UEFA Pro. São quatro, na verdade: José Fernando Pinto, também conhecido por Zé Nando, do Valadares Gaia; Kristján Gudmundsson, do Damaiense; Yerai Martin, do Racing Power; e Micael Sequeira, do Sporting (foi ele que assumiu, no papel, o cargo de treinador principal da equipa masculina do Sporting de Braga, quando Ruben Amorim não tinha ainda o grau de habilitações máximo, em 2019/20).

A UEFA permite a realização de cursos de dois em dois anos, com o máximo de 20 vagas. Oscar Tojo pretende "aumentar a oferta formativa e melhorar a formação dos treinadores em Portugal", contudo, diz-se amarrado às normativas do organismo que rege o futebol europeu.

"Quando nós entramos no UEFA Pro, que é algo regulado pela UEFA, temos aqui um conjunto de constrangimentos que temos de levar em linha de conta. Eu sei que às vezes as pessoas têm alguma dificuldade em perceber, mas é algo que vem imposto pela UEFA e que nós temos de cumprir, senão os cursos não são validados e não podem ser realizados", explica.

Critérios de aceitação respondem a exigências

Nos critérios de aceitação para o mais recente curso UEFA Pro organizado pela Federação, com o máximo de 20 participantes, em 2025, a categoria "Treinador Principal com contrato profissional registado em equipas participantes na Liga Feminina portuguesa (Liga BPI)" vem em oitavo. A categoria "Treinador Principal com contrato profissional registado em equipas participantes em Liga Feminina de topo de países situados até ao lugar 25 do Women’s FIFA Ranking de seleções" surge em décimo.

A diretora de futebol feminino da Federação Portuguesa de Futebol, Sofia Teles, entende as reservas em relação aos critérios, contudo, salienta que "as vagas foram sendo definidas em função dos critérios que seriam exigidos a quem pudesse estar a participar ou vir a participar em competições em que fosse exigido o UEFA Pro".

"Naturalmente não era esse o caso da liga BPI, cuja exigência é o UEFA A e, portanto, na seleção de critérios nós temos de garantir que quem está em competições onde é exigido o UEFA Pro consiga efetivamente ter essa qualificação", sustenta, acrescentando que "com 20 vagas, é difícil chegar a todo o lado".

"Havendo vagas que permitam chegar a mais gente, naturalmente que nós temos interesse. A Liga BPI é logo o primeiro critério, depois daqueles em que teoricamente é obrigatório ter o UEFA Pro", adita.

Tanto Sofia Teles como Oscar Tojo admitem a possibilidade de, futuramente, aumentar a exigência da Liga BPI para o curso UEFA Pro.

"Não é nada que seja para breve", ressalva a diretora de futebol feminino, que recorda que, quando foi implementada a exigência do curso UEFA A, "foi muito difícil conseguir que os treinadores tivessem a qualificação mínima para poderem participar e que os clubes tivessem uma base de recrutamento para ir buscar treinadores".

"Depende da evolução da própria Liga e das necessidades que estão inerentes. Ou seja, imaginemos que a UEFA coloca a obrigatoriedade de os treinadores terem nas competições europeias [femininas] o UEFA Pro. Aí, nesse momento, a Federação tem de acompanhar a regulação da UEFA e tem de pôr nas suas provas, neste caso, na Liga BPI, também esta exigência, para que os clubes possam estar preparados para dar continuidade nas provas europeias", refere Oscar Tojo.

Também nesse sentido, neste momento, o diretor técnico da FPF sente que "aquilo que está atribuído para a Liga BPI corresponde à sua necessidade".

"A nossa visão, juntamente com a ANTF, é aumentar a oferta formativa e melhorar a formação dos treinadores em Portugal. Mas depois, quando entramos no UEFA Pro, que é algo regulado pela UEFA, temos aqui um conjunto de constrangimentos que temos de levar em linha de conta. Eu sei que às vezes as pessoas têm alguma dificuldade em perceber, mas é algo que vem imposto pela UEFA e que nós temos de cumprir, senão os cursos não são validados e não podem ser realizados", vinca.

FPF quer realizar cursos só para treinadoras

Mariana Cabral considera que a "valorização da treinadora portuguesa" não está a ser feita. E dá o exemplo de Filipa Patão, que orientou o Benfica quando Cabral estava no Sporting, e que no verão assumiu o comando, como técnica principal, do Boston Legacy, da NWSL.

"Eu fico muito contente que a Filipa tenha conseguido ir para o Boston, mas a Filipa conseguiu tirar o UEFA Pro na Escócia, não foi em Portugal. O Benfica tem um protocolo com a Federação Escocesa, envia para lá treinadores e eles também utilizam as instalações do Benfica, coisas da Federação. E ainda bem que conseguiram, porque lá está, teve logo uma oportunidade", assinala.

Quem continua à procura de uma oportunidade é Mariana Cabral. A dificuldade de acesso aos cursos "afeta a carreira e a vida das pessoas", lamenta.

"Eu, felizmente ou infelizmente, sou bastante teimosa e vou continuar a tentar, mas percebo que haja treinadoras [que desistam]. Como há uma com quem eu falei nos Estados Unidos, que era treinadora adjunta de uma equipa da NWSL, que me disse que tentou entrar tanto nos Estados Unidos como num UEFA Pro. Tentou entrar três vezes, não conseguiu e disse, 'desisti, não quero mais isso para a minha vida'. Porque entretanto teve um filho, já tem família e simplesmente vai continuar como adjunta e desistiu de tirar o curso", recorda.

A vontade de tirar o curso UEFA Pro leva-a a mudar de equipa e de cidade. A treinadora juntou-se à equipa técnica do belga Jimmy Coenraets em fevereiro de 2025, e ainda tinha mais dois anos de contrato, mas optou por não continuar. Na hora de escolher o destino, a possibilidade de obter a habilitação que lhe falta pesou.

"Eu queria ficar nos Estados Unidos, e tinha dois sítios com que conversei, para ser treinadora adjunta. Decidi por um deles porque é um sítio histórico, porque me dão boas condições e porque vão fazer algo que foi muito importante para mim: estão muito interessados nesta questão do curso e vão tentar ajudar-me e vão pagar-me o curso. Faz-me sentir apoiada nesta questão, também porque estamos a falar de algo que custa quase 20 mil euros, é caríssimo", revela.

Cabral não adianta o nome do novo clube, porque ainda não assinou. A oportunidade de ter, finalmente, o UEFA Pro deixa-a satisfeita, porém, lamenta que outras jovens treinadoras não tenham a mesma sorte.

"A Federação podia perfeitamente dar bolsas a treinadoras. Se nós queremos ter mais mulheres treinadoras, faz sentido fazer isso. E mesmo mulheres que já têm alguma experiência, que já estiveram em clubes seniores, grandes clubes em Portugal. Onde é que elas estão agora? Estão a treinar ou desistiram? Desperdiçamos muito as pessoas que temos, e que podiam dar um contributo grande ao futebol feminino, pela experiência que têm. Mas se sentem que é difícil dar esse contributo, ou que ninguém está interessado em puxá-las para dar esse contributo, então depois acabam por seguir outros caminhos", afirma.

Oscar Tojo sublinha que "o grau de acesso é igual para todos", entre homens e mulheres.

"Aqui a questão é que, neste momento, nós ainda não conseguimos ter mulheres em competições de elevado nível que possibilite, pelos critérios, as mulheres poderem entrar. Agora, o acesso ao curso é igual para todos, seja masculino ou feminino. O que acontece é que se nós olhamos às competições em Portugal e também às competições estrangeiras, na maior parte destas competições, principalmente competições masculinas, existem treinadores masculinos. Logo aí, tendo em conta as poucas vagas que existem que são impostas pela UEFA, nós temos dificuldade, depois, de conseguir preencher com a quantidade de treinadoras que têm vontade e a necessidade de tirar o curso", reconhece.

A solução pode passar por um curso à parte: "Falámos recentemente com a UEFA e estamos na expectativa de poder criar cursos exclusivamente para treinadoras, que era um passo importante, porque nós necessitamos em Portugal de mais treinadoras UEFA Pro."

"Deixa-me triste ver outras mulheres desistir"

Mariana Cabral não tem dúvidas; quer voltar a ser treinadora principal. "Mas sem o curso é difícil, não é?", evidencia.

"Não me passou pela cabeça ainda, espero que não passe, desistir. Mas ultimamente tem-me passado pela cabeça: será que vou conseguir? Será que vou conseguir entrar? Não é algo que eu possa controlar, entrar ou não entrar, e depois há poucos cursos, há poucas vagas, até há pouca divulgação. Tenho de andar todas as semanas a ir às páginas das federações e ver se há coisas, porque não há um sítio em que possas ver se há cursos. Deixa-me triste ver outras mulheres a desistir, ou ver outras mulheres que não progridem na carreira, por causa disso", reitera.

Cabral dá o exemplo de Renée Slegers, treinadora do Arsenal vencedor da Liga dos Campeões, Sonia Bompastor, do Chelsea campeão inglês, Emma Hayes, dos EUA campeões olímpicos, e Sarina Wiegman, da Inglaterra bicampeã da Europa, para fazer notar que "há muito menos mulheres treinadoras do que homens treinadores, mas há muitas mulheres com sucesso".

"Faz sentido apostar-se nessa qualificação e acho que é uma preocupação que devia estar no topo das prioridades, não só da Federação Portuguesa de Futebol, mas da UEFA também. Interessa a toda a gente, não só às treinadoras, mas aos clubes também, para terem mais disponibilidade de pessoas para ocupar as vagas, e até às próprias jogadoras. Eu tive uma jogadora há pouco tempo agora nos Estados Unidos, era holandesa [Dana Foederer], que me disse que nunca tinha tido uma mulher treinadora em toda a carreira. Eu achei espantoso, como é que é possível? Não faz sentido no futebol feminino", remata.

Sofia Teles, diretora de futebol feminino da FPF, sabe que "há um caminho que tem de ser percorrido".

"É natural, fruto daquilo que foi a história do futebol em Portugal e do desenvolvimento do futebol feminino também, que ainda não haja um caminho, um percurso para as treinadoras mulheres de futebol. Mas queremos que cada vez haja mais e, portanto, é importante que também tenham esta possibilidade de se formarem e de se prepararem para poderem fazer efetivamente do futebol uma carreira", finaliza.

[Notícia atualizada às 16h20 do dia 26 de dezembro de 2025 — requisitos para treinar em Inglaterra e número de treinadores da Liga BPI com o curso UEFA Pro]

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