14 jan, 2026 - 13:30 • Eduardo Soares da Silva
O presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF), Henrique Calisto, reconhece que o mau ambiente em torno das arbitragens não é um bom sinal para o futebol português, mas não são os treinadores os principais responsáveis.
"Não há treinadores a insinuar que há uma conspiração para beneficiar A e B. Têm liberdade de constatar erros. Não têm sido agressivos, mal educados, não há uma quebra de ética. Diria até que os treinadores portugueses são muito comedidos, olhando para outros países", explica.
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Numa entrevista à Renascença no dia em que a associação cumpre 40 anos, Calisto aborda ainda o aumento dos cursos UEFA A e o que está a ser feito para tentar acelerar a obtenção do nível máximo para quem chega à I Liga.
Que avaliação é que faz hoje da influência da ANTF e de que forma é que pode ainda melhorar?
É positiva. Sou uma testemunha viva do começo da associação, fui o seu presidente. Viveram-se momentos difíceis. Em 1986 acabou uma divergência profunda porque existiam dois sindicatos. Os treinadores falavam a duas vozes e existiam muitas quezílias, públicas até. Para que existisse um chão comum, eu e o meu clube de treinadores juntamos os dois sindicatos e assim foi criada a ANTF, com um núcleo muito pequeno. Hoje somos 9,200 treinadores, o que diz muito do seu crescimento. Não há crescimento em termos de sócios se não houver trabalho profícuo na defesa dos treinadores. A defesa tem como papel de charneira a formação dos treinadores.
Os sócios têm crescido recentemente?
Sim. A associação, com mais sócios, mais meios, uma sede própria, tem alargado a sua intervenção e isso vai continuar.
Os cursos, principalmente o UEFAPro, são um tema regular no debate sobre a formação dos treinadores. É preciso mais oferta? O que a ANTF pode fazer nesse sentido?
Até ao ano passado, era norma que o UEFA C e o UEFA B, os dois cursos mais baixos, fossem feitos nas associações distritais. O nível A e o UEFA Pro são feitos pela Federação Portuguesa de Futebol. O UEFA A tinha apenas um curso, este ano já temos quatro. Pretendemos que passe também para a tutela das associações distritais.
Em relação ao UEFA Pro, há uma convenção de treinadores, subscrita pela UEFA e as federações que define o esqueleto claro de formação de treinadores e o UEFA Pro tem de ser feito, obrigatoriamente, de dois em dois anos. Pode existir ano a ano, se colocar um requerimento e tem de estar bem fundamentado. É isso que queremos, há uma grande procura, nomeadamente os treinadores que querem ir para o estrangeiro e precisam, no mínimo, do UEFA A. Isso está em vias de resolução.
O UEFA Pro vai ser difícil, mas temos de desencadear os meios legais para que se faça, pelo menos ate 2030, um curso por ano. Seria bom para dar resposta à procura, que é imensa.
Um por ano é suficiente?
Fazer um por ano já é difícil. É o limite máximo que se pode fazer e já precisa de uma fundamentação séria.
O requerimento já foi feito pela FPF?
Sim, em 2024/25 fizeram-se dois cursos UEFA Pro. Este ano, muito dificilmente não poderá haver e no ano seguinte teremos. Pretendemos que seja, até 2030, pelo menos um por ano.
Vimos o João Pereira, do Casa Pia, a ir tirar o curso a Espanha, perdeu até alguns treinos durante a época. Situações como esta fragilizam treinadores que estão ao mais alto nível?
É óbvio, mas as determinações são para toda a Europa. Em certos países, sobram vagas e que são vendidas, onde se encaixam alguns treinadores portugueses. O percurso formativo é longo, queremos que seja mais curto, nomeadamente do UEFA A para o UEFA Pro.
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Está desajustado em relação à velocidade com que os treinadores sobem de patamar?
Há dois quadros legais, o do IPDJ, que é a lei portuguesa, e o normativo, que é a convenção da UEFA com todos as federações e que tem um quadro diferente. Por exemplo: o IPDJ obriga a que do terceiro para o quarto nível existam dois anos de latência, fica dois anos em estágio, entre aspas. Tem de ter dois anos de prática. A UEFA só determina um, já encurtaríamos aí um ano.
Estamos a trabalhar com a FPF, que tem mostrado abertura para fazer manuais que não existem, alterar conteúdos que precisam de ser alterados para a nova realidade do futebol. Dentro do que pode ser alterado, vamos trabalhar para que aconteça, nunca perdendo qualidade da formação do treinador.
Recebe muitas queixas dos treinadores neste sentido? Vemos Luís Pinto, Vasco Botelho da Costa, entre muitos outros, que subiram rapidamente.
Neste momento, nem tanto. Uma ou outra. O UEFA A está em resolução e vai resolver, a curto prazo, a procura desses cursos. O UEFA Pro temos algumas. Queremos encurtar o processo, melhorar conteúdos. Este ano, foi alterada a norma que dizia que o treinador que subiu da II para a I Liga só podia orientar esse clube. Esse treinador agora pode treinar nessa decisão.
Foi o que aconteceu precisamente com o Luís Pinto e o Vasco Botelho da Costa...
Exatamente, sem essa alteração, teriam de ficar no seu clube. Foi o que aconteceu com o Tiago Margarido, que teve de ficar no Nacional. Já é uma abertura para a mobilidade. Outra alteração que queremos fazer no quadro regulamentar é permitir que o treinador que esteja a frequentar o UEFA Pro poder trabalhar na I Liga, coisa que neste momento não pode. A UEFA permite. Isto é facilitador, mas sem perder as competências. A qualidade do curso tem de se manter. Afirmamo-nos pela exigência na formação.
Hipoteticamente, a ANTF podia dar os cursos UEFA A e UEFA Pro?
Sim. Como também há instituições privadas que dão, só que todas as que dão cursos fora da tutela da FPF e UEFA, têm um suporte legal para treinarem em Portugal, mas não podem treinar fora. Há instituições que fazem o primeiro e segundo nível, mas a UEFA não reconhece. Se alguma der, no futuro, UEFA PRO, poderá treinar na I Liga, mas não pode ir lá para fora treinar.
Aconteceria o mesmo se fosse a ANTF a dar?
Sim, a não ser que, como somos parceiros e sócios da FPF, reconhecesse esse curso, mas não estamos vocacionados para isso. Achamos que as associações são o local certo.
É uma questão ideológica?
É operacional. Quem dá os cursos são os treinadores, poderiam dar nas associações ou aqui. É mais fácil e central irem às associações, que cobrem todos os distritos. Nós teria de ser aqui no Porto, não parece correto. Defendemos que tem de ser nas associações, temos uma ação fundamental na creditação. Os cursos que se fazem para ter os créditos de três em três anos.
Mudando de tema: defende o modelo espanhol em que os treinadores são proibidos de treinar mais do que um clube por época na mesma divisão?
Não sei se isso continua em vigor, mas aqui é inconstitucional. O direito ao trabalho é fundamental, não podemos castrar um treinador de aceitar uma oferta de outro clube, que até pode ser de maior dimensão. O que pretendemos são mecanismos mais rápidos para as chamadas chicotadas psicológicas. Que o treinador receba imediatamente o que tem a receber, ou com um acordo claro para esse pagamento. É fundamental clarificar esse processo.
Há muitas derrapagens ainda?
Sim, ainda há algumas. Falamos muito de I e II Liga, mas acontece muito mais frequentemente nas divisões secundárias.
Temos cinco estrangeiros a treinar na I Liga. Farioli no FC Porto, Silaidopoulos no Rio Ave, Bacci no Tondela, Carlos Vicens no SC Braga e o Ian Cathro no Estoril Praia. Que opinião tem deste crescimento?
Não podemos vetar a entrada de treinadores estrangeiros quando nós somos exportadores. A afirmação do treinador português não se faz por decreto, faz-se por competências, que se transformam em títulos. Os clubes têm o direito de escolher quem querem.
Mas como se explica? É porque temos mais portugueses a querer uma carreira lá fora?
Sabe quantos treinadores portugueses estão no estrangeiro? São 400 em 54 países. Só não há mais porque muitos não conseguem o UEFA A. É obrigatório ter esse curso até para ser adjunto, o que obriga o curso a ser mais vasto. Temos zonas sem UEFA A e temos de chegar a zonas de menor densidade populacional.
Futebol Nacional
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José Mourinho voltou a Portugal este ano. O que significa para a classe?
Não significa algo bom só para nós, mas para a Liga. Chama mais atenções, a Europa e o Mundo estão de olho no que Mourinho está a fazer no Benfica. É com orgulho e satisfação. Os clubes portugueses começam a ter mais sustentabilidade para contratar os treinadores que, quando foram para fora, aumentam muito o seu salário. Muitos não voltam porque têm sempre ofertas muito melhores. Quando um clube contrata Mourinho, é porque tem capacidade financeira para contratar os melhores. É sempre bom.
É melhor até para os direitos televisivos, que é uma lacuna que temos. A ANTF é uma instituição de cariz sindical, mas tem como perspetiva dar o seu contributo para que possamos fazer um futebol mais bonito, mais atraente, transparente.
O aumento do investimento vem também com a entrada de investimento estrangeiro. Isso poderá vir com maior tendência a serem escolhidos treinadores de fora? Dou o exemplo do Rio Ave, com treinador e investidor grego.
Acho que não, o grande problema é que tenham capital forte e que haja transparência nas fontes desse dinheiro. Esse é o problema maior. A afirmação do treinador não é por decreto, já mostramos que somos competentes. É um mercado livre. Nós que temos 400 lá fora, não podemos fechar portas aqui.
Foi um tema algo polémico na campanha. Teve opinião contrária sobre o selecionador português...
Não. A minha opinião é clara: eu gostaria de ter um treinador português em todos clubes e em todas as seleções. Mas não podemos fechar o mercado. Quando se contrata um treinador estrangeiro, a ANTF está aqui também para os defender. Estatutariamente, a nossa associação está aberta a estrangeiros que exercam aqui a sua função. Sendo português, gostaria, mas cabe a todos os dirigentes.
Escolhendo um treinador estrangeiro, cabe na nossa associação, tem os mesmos direitos e deveres do que os portugueses. Essa luta é um paradoxo.
Foi acusado de chauvinismo, um patriotismo exagerado...
Acho que qualquer português gostaria de ter um treinador português. É bom para o futebol português, mas não podemos hostilizar e criar problemas a quem vem de fora. Têm de ser bem acolhidos. Não tem nada a ver com racismo ou xenofobia. Os nossos têm competência, mas cabe aos dirigentes.
Esta época tem existido muita fricção entre as classes - treinadores, árbitros, dirigentes -, compreende as opiniões e críticas dos treinadores? Há um limite que é ultrapassado?
Acho que está a ver mal a questão. As críticas sobre a arbitragem, que infelizmente tem cometido alguns erros, partem dos comentadores.
Também dos treinadores.
Diga-me quem?
Mourinho e Farioli já o fizeram, por exemplo.
Constatam erros, que o árbitro X cometeu este erro, não andam no mundo das especulações e das conspirações escondidas. Não há treinadores a insinuar que há uma conspiração para beneficiar A e B. Têm liberdade de constatar erros. Não têm sido agressivos, mal educados, não há uma quebra de ética. Diria até que os treinadores portugueses são muito comedidos, olhando para outros países. Se há paz, ela é promovida pelos treinadores. Os comentadores é que o fazem, é a tarefa deles.
Os dirigentes, ainda que saíndo do tema ANTF, não têm poupado nas palavras.
Dou-lhe razão e isso é mau. O mundo é uma aldeia global. Quando dizemos mal do nosso futebol, todo o mundo sabe.
Presidente da Federação ignora polémica do Santa C(...)
É má publicidade?
É má publicidade. Estive fora 13 anos e lia tudo o que se passava sobre o Apito Dourado no próprio dia. Era notícia nos países onde estive. É mau para o futebol português. Se quem diz mal tivesse a consciência do reflexo que tem, teria mais recato. É uma má propaganda. Se há setor profissional que tem tido alto nível, é o futebol. Deve ser a única atividade que está no "ranking" mundial nos dez primeiros há 20 anos.
Somos campeões em muitos escalões, tivemos o melhor treinador, temos o melhor jogador, tivemos o melhor árbitro, somos campeões no futebol de praia, futsal, no feminino estamos lá. Temos um património que não pode ser esbanjado por discursos inflamados que, muitas vezes, extravazam ao que era recomendado. Eu defendo os treinadores, têm tido uma postura clara de constatação de erros.
O que gostaria que a ANTF concretizasse a longo prazo?
Temos de dar mais regalias, já demos algumas. Neste momento, todos os problemas laborais abaixo de 15 mil euros, a ANTF pega no processo e acompanha até que transite em julgado. Estamos a fazer protocolos para dar regolias nos combustíveis, companhias de seguro, aluguer de carro. Algumas já estão quase feitas.
Queremos criar um quadro de defesa do treinador dos escalões mais baixos, para que exista um quadro legal que os defenda em casos de conflitos legais. Na I e II Liga há um contrato coletivo de trabalho, há uma plataforma de defesa aí. Criamos um departamento de apoio psicológico, em situação de stress.
É muito usado?
Começa a ser. Criamos há três meses e temos já algumas requsições.
E na I Liga?
Ainda não, mas eles também têm os seus psicólogos. De qualquer forma, vimos o caso do Leonardo Jardim. Vemos muitos treinadores que chegam a "burnout", temos de dar ajuda com profissionais competentes.
Algo mais?
Aumentar o nível de formação em termos de qualidade e quantidade de treinadores que possam frequentar os cursos. Vamos criar uma revista semestral, que será uma plataforma para dar conhecimento a novas metodologias e de divulgação dos treinadores. E queremos aumentar o número de sócios. De 14, 15 mil sócios, temos 9,200.
Esperamos que cheguemos aos 10 mil no final do mandato. Os outros presidentes que possam vir, que atinjam o pleno. Ainda assim, somos dos sindicatos que tem maior percentagem de adesão, temos cerca de 65% dos treinadores como associados. Com estas regalias, estas dinâmicas de defesa dos treinadores, possamos atingir.
Pela forma como fala, depreendo que não fará mais do que um mandato?
Depende. Fui o primeiro presidente. Saí, voltei porque houve uma quase exigência de colegas meus para me candidatar. Não me agarro ao poder. Tenho muitos colegas que já estiveram nas direções. Faremos a homenagem hoje neste jantar, por exemplo Professor Neca, Carlos Queiroz, Nelo Vingada, Leonardo Jardim, Domingos Paciência, Carlos Manuel, Fernando Santos, Frasco, Manuel José, Manuel Cajuda, Augusto Inácio, Carlos Carvalhal, Jaime Pacheco, Jorge Braz, muitos outros.
Todos eles fizeram parte dos órgãos sociais. Há mais gente que poderá tomar conta dos destinos da ANTF, se eu não continuar. Felizmente, temos cada vez mais uma massa pensante e crítica que adere à causa do treinador.