Entrevista Bola Branca
Entre a vida "pacata" no Midtjylland e o desejo de jogar mais, Dani Silva tem uma decisão a tomar
22 jan, 2026 - 10:05 • Inês Braga Sampaio
O médio português tem jogado pouco e, perante as abordagens, admite a saída, em busca do "contexto ideal". Em entrevista a Bola Branca, Dani Silva fala do Braga-Nottingham Forest, do "seu" Vitória de Guimarães e dos sonhos para a carreira.
Dani Silva não conteve a emoção ao ver Nélson Oliveira e Samu levantar o troféu da Taça da Liga. O médio português do Midtjylland guarda o Vitória, e Guimarães, no coração e não esconde o desejo de voltar um dia. Por agora, tem outra decisão a tomar: entre a vida "pacata" na Dinamarca e a saída para um "contexto ideal".
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Uma lesão e a mudança de treinador prejudicaram Dani Silva, de 25 anos, que agora luta para reentrar na equipa inicial do segundo classificado da Liga Europa (em igualdade pontual com o primeiro, o Lyon) e da Liga dinamarquesa — com apuramento de campeão por jogar. O médio tem 16 jogos realizados, de 34 possíveis, cinco como titular, e admite que a saída em janeiro pode ser positiva.
"Felizmente, há algumas abordagens. Felizmente, tenho alguns clubes interessados na compra e no empréstimo. Mas cabe ao Midtjylland decidir, e aos meus representantes e a mim, no final", assume, em entrevista a Bola Branca.
Dani estará atento ao Sporting de Braga-Nottingham Forest, desta quinta-feira em que espera que a equipa portuguesa dê "uma resposta em grande" e chute para canto as dificuldades demonstradas nos últimos jogos. Ainda assim, o médio assume que, para os objetivos do Midtjylland, dá mais jeito o empate.
Leia a entrevista de Dani Silva à Renascença, em que o médio, durante uma viagem no autocarro da equipa desde Alicante (Espanha), aborda o Midtjylland, a vida na Dinamarca, o "seu" Vitória e o sonho da seleção, entre outros temas.
Liga Europa
Dani Silva confia em "resposta em grande" do Braga frente ao Forest
"Saber sofrer. Noutros momento vai estar por cima,(...)
Jogaram com o Nottingham Forest agora na Liga Europa. Como é que se lembra desse jogo?
Lembro-me que foi um jogo muito exigente. Sabíamos que o Nottingham estava a passar uma má fase. Tinham acabado de despedir o Nuno Espírito Santo, se não me engano. Estavam numa má fase. Muitas derrotas consecutivas. Estavam quase em último na Premier League. E nós, entre o grupo, decidimos e conversámos que tínhamos de aproveitar essas fragilidades.
Os adeptos também estavam um bocado contra a equipa naquele momento. Iria ser o primeiro jogo europeu do Nottingham em casa, depois de muitos anos. E estávamos muito focados nesse jogo, em ganhar e aproveitar as fragilidades que o Nottingham tinha nesse momento.
Quais são as principais armas do Forest?
Acho que, por ser uma equipa que joga Premier League e com jogadores muito bons individualmente, tem muito andamento. Não só individualmente, mas coletivamente.
O meio-campo é muito bom, recordo-me disso. Os extremos muito fortes no um para um. É uma equipa muito organizada defensivamente, sabe definir todos os momentos do jogo.
Recordo-me que ganhámos esse jogo com duas bolas paradas. Foi um jogo em que também soubemos sofrer. De certeza que o Braga vai ter de saber sofrer em alguns momentos do jogo. Penso que também noutros momentos vai estar por cima. É aproveitar esses momentos.
É verdade que sofreram dois golos, mas marcaram três e venceram. Que fragilidades tentaram explorar no Nottingham Forest?
Nós tentámos explorar mais o jogo físico, porque sabíamos que ele estavam desconfiados naquele momento, entre a equipa. Não estavam com muita confiança entre si. Não estavam com grande confiança coletivamente e individualmente, devido ao momento em que se encontravam, e tentámos explorar.
Nós vínhamos de duas vitórias e estávamos invictos na Liga Europa. Estávamos num bom momento. Isso também ajudou muito. E tentámos seguir o que tínhamos vindo a fazer desde então.
Neste momento, tanto o Braga como o Nottingham Forest são equipas que estão em momentos frágeis, ajustando aos objetivos de cada um. Os ingleses em risco de descer e o Braga acaba de perder a possibilidade de conquistar dois troféus. Isso pode influenciar? A Liga Europa pode ser uma espécie de tábua de salvação para as épocas de ambos os clubes?
Sim, sim, sem dúvida. Neste caso, o Braga está um bocado afastado da luta pelo título, a nível da Liga. Agora na Taça da Liga, ficou em segundo lugar frente ao meu Vitória. Foi eliminado da Taça de Portugal. De certeza que eles vão dar uma resposta em grande e de certeza que o grupo está mais concentrado para o próximo jogo, para dar uma resposta positiva. Isso também conta muito.
Mas vai ser um jogo diferente, porque o Braga vive um momento bom na Liga Europa. E vai apanhar uma equipa muito forte, se calhar das mais fortes da competição. E vai ser um bom jogo de assistir, sem dúvida.
O Dani dizia ainda agora "o meu Vitória". Tendo sido formado, precisamente, no Vitória, por quem vai estar a torcer neste jogo?
Sem dúvida que vou estar a torcer para a equipa portuguesa, como é óbvio. Mas estando no Midtjylland, também tenho de olhar muito para o meu lado e talvez um empate fosse bom.
Para equilibrar as contas do apuramento, não é?
Exatamente.
E como está a correr esta segunda época no Midtjylland?
É uma época de muita aprendizagem, de altos e baixos. Mas, principalmente, de me conhecer ainda mais como pessoa e como jogador. Principalmente, é isso. É saber as minhas limitações, trabalhar nas minhas fragilidades. E nunca duvidar de mim.
Isso tem sido uma aprendizagem esta época. Já joguei muito; trocaram o treinador, não estou a jogar tanto como gostaria. É só responder com trabalho e todos os dias tentar melhorar e ir ao encontro das perspectivas do treinador, para ajudar a equipa. É um bocado assim que eu olho para esta época, que ainda vai a meio.
O Dani teve uma lesão, que terá complicado a questão. Mas como disse, neste momento, não tem sido opção regular. Pretende continuar até ao final da época? Ou a saída, seja por empréstimo, seja por venda, é uma possibilidade?
Essa é uma boa questão. Claramente que eu não estou satisfeito. Tem o aspeto da lesão, que foi num timing... Eu cheguei ao clube com o outro treinador e estava a jogar muito. O estilo de jogo enquadrava-se mais ou menos em mim. Entretanto, há mudança de treinador e agora o estilo de jogo é totalmente diferente ao meu. E há aquela fase de adaptação, em que eu tento não encontrar desculpas e adaptar-me com o trabalho, diariamente. É encontrar as soluções e não os problemas.
Em termos de mercado de janeiro. Obviamente que eu quero jogar e, se a melhor opção para mim e para o clube for a minha saída para um contexto melhor, em que eu me enquadre melhor, eu estou totalmente aberto a isso. Mas, neste momento, estou a focado em melhorar e inverter a minha situação no Midtjylland.
Mas teve alguma abordagem, para empréstimo ou para venda?
Felizmente, há algumas abordagens. Felizmente, tenho alguns clubes interessados na compra e no empréstimo. Mas cabe ao Midtjylland a decidir, e aos meus representantes e a mim, no final.
Tem algum destino preferencial? Por exemplo, um possível regresso a Portugal ou a Vitória? Ou um possível regresso a Itália?
Neste momento, o objetivo principal, caso aconteça uma saída, seria um contexto ideal para mim. Preciso de demonstrar e estar inserido num contexto que seja o meu contexto e que me dê tudo aquilo que eu sei fazer de melhor. É um bocado aí que estamos a tentar perceber. E se acontecer, será por aí.
E o que seria o contexto ideal?
O contexto ideal para mim seria uma equipa que jogasse o meu estilo de jogo. Que gostasse de ter a bola, que jogasse para ganhar, que jogasse para ganhar títulos, campeonatos, maioritariamente com bola. Acho que seria um pouco por aí: dar valor à bola.
Passando para fora de campo, como é a vida na Dinamarca?
A minha vida na Dinamarca é muito simples. Viver na Dinamarca e no sítio onde eu vivo, que é Herning, é muito simples, não é complicado de todo. Eu vivo com a minha noiva, a Diana, e com o meu cão, o Simba. É uma vida muito pacata, muito tranquila.
Vou treinar, venho do treino, vou passear o Simba com a Diana, vamos jantar fora uma vez ou outra... É um bocado treino-casa, casa-treino. Em dias de folga, tentamos fazer algo diferente, mas a cultura em si não é de todo parecida à nossa. Para ir jantar fora, temos de ir às 17h30, 18h. As coisas fecham todas muito cedo, às 19h já está tudo fechado.
Agora, o tempo torna completamente impossível andar na rua, porque é muito frio, muita neve, muito gelo. Os dias acabam às 14h. Mas a cidade é muito segura, o país é muito seguro. Vive-se muito bem, como é óbvio, mas tem esses pontos negativos.
Como alguém que nasceu em Aljustrel, e está habituado ao sol português, também custa essa falta de calor e luz?
Sem dúvida. Nós agora estamos em Espanha, estamos em Alicante, e eu já precisava de uma semaninha de calor. Em Alicante está um tempo muito bom, dá para apanhar sol na varanda, e nós somos latinos e gostamos disso. E já precisava de uma semaninha assim.
Mas sim, eu sou de Aljustrel, mas não estive lá muito tempo. Vim com a minha mãe e com o meu pai, na altura, para o Seixal, com cerca de dois anos de idade, mas também perto de Lisboa faz muito bom tempo. Ainda por cima nesta altura, viver na Dinamarca, com muito gelo, com neve, com graus negativos, seria complicado para todos os portugueses.
A atualidade tem sido marcada pela intenção de Donald Trump de anexar a Gronelândia aos Estados Unidos. Falam do tema por aí? Tem ouvido alguma opinião, especialmente dos dinamarqueses, sobre o tema?
Não, não. Nunca.
Não ouviu nada?
Nada. Sem dúvida que devem ter falado entre eles, mas a língua é tão complicada que eu ainda não percebo quase nada. Só sei o básico. Também há muitos jogadores estrangeiros e muitos sul-americanos, brasileiros, portugueses há alguma malta do staff, mas nós não tocamos nesse assunto. Estou um pouco a par dos acontecimentos, das novidades, que agora é quase diariamente, mas não temos tocado nesse assunto.
E foi bom encontrar portugueses no staff quando chegou aí?
Sem dúvida. Eu passei uma experiência no Verona em que, basicamente, na segunda época, era o único que falava ou espanhol, ou português. O resto era tudo malta estrangeira ou italiana. Não diria que passei maus momentos, mas sem dúvida que é muito melhor ter alguém português e que fala a mesma língua.
É totalmente diferente, e eu estou sempre a dizer que nós temos muita sorte de isto acontecer, porque realmente somos muitos e somos como uma família aqui. Ajudamos sempre sempre que preciso e isso é muito bom. Estou muito feliz por ter encontrado portugueses, pessoas que falam a minha língua, e que a gente se tenha dado bem e sejamos uma família.
Estão em segundo no campeonato, mas também é verdade que depois há a play-off, ou seja, há um apuramento de campeão. Como está a ser a época a nível coletivo?
Tem sido uma época quase irrepreensível. Estamos a lutar para ser campeões em três competições diferentes, jogamos de dois em dois, três em três dias, e acho que conseguimos dar uma resposta muito positiva em todos os jogos.
Na Liga, estamos em segundo, uma diferença de quatro pontos para primeiro, mas ainda vai chegar a outra fase e ainda temos três jogos contra a equipa que vai à frente. Estamos muito confiantes, temos muitos jogos em que, se algo correr mal num, conseguimos dar resposta logo passado dois ou três dias. Temos feito uma época muito boa coletivamente.
Estamos satisfeitos, mas ainda não acabou, isto não vale nada e temos de continuar. Espero em maio estarmos a festejar alguns destes títulos, destas competições por que estamos a lutar.
E falam aí na Dinamarca dos dinamarqueses do campeonato português, como Alexander Bah, Morten Hjulmand e Victr Froholdt?
Sou sincero, não falam muito. Eu vejo os jogos todos de Vitória e, quando está a jogar com o Porto, o Sporting ou o Benfica, e estamos em estágio, às vezes comentam, perguntam como é que eles estão no campeonato, porque não devem acompanhar tanto. E falamos um pouco, mas vagamente, sobre isso. Mas de resto, não falamos muito.
Claramente, o Dani mantém um carinho especial pelo Vitória. O regresso, seja agora, seja mais tarde, também é algo que o deixaria feliz? É algo que deseja?
Sem dúvida, sem dúvida. Para além do clube e da cidade, neste momento também já tenho uma família lá, com a minha noiva. Por isso, é um clube, como me diz muito, mas não é só o clube, também é as pessoas de lá. Vai ficar sempre marcado no meu coração. Estando lá ou não, estou sempre a torcer pelo Vitória e isso é o que conta para mim.
E como é que viu agora a conquista da Taça da Liga?
Emocionei-me, como é óbvio. Por tudo aquilo que muitos dos meus colegas já passaram, que estavam lá e que eu acompanhei, por todas as críticas que já fizeram sobre a equipa, na atualidade. Eles mereceram muito, e ainda bem. Fiquei muito feliz.
Também se sentiu ali a levantar o troféu com eles?
Não, isso deixei para eles. Mas fui o primeiro, ou dos primeiros, a aplaudir. Como serei sempre. Porque muitos dos jogadores que estão lá eram miúdos que estavam na equipa B e que treinavam comigo na altura, e pá, eu sinto-me um bocado como pai deles e orgulhoso ao mesmo tempo.
Cumpriu o sonho de jogar na equipa principal do Vitória, cumpriu também o sonho de jogar em Itália. Tem mais algum sonho que gostaria de cumprir?
Neste momento, quero ser feliz a fazer o que mais gosto, sentir-me bem e poder ajudar a minha família e amigos. É o que me deixa realmente satisfeito.
Obviamente que jogar na seleção nacional é um sonho, jogar na Champions League é outro sonho, mas tudo acontece, e esses sonhos só acontecem, se eu estiver feliz, no contexto certo, como eu já me referi, e se todas as pessoas que eu gosto estão à minha volta, estiverem bem. É para isso que eu trabalho todos os dias. Primeiramente, para que tudo isso aconteça e, depois, para poder pensar em jogar na Champions League, jogar pela seleção e outros objetivos que venham para concretizar depois.
O Dani ainda é jovem, tem apenas 25 anos. Disse que jogar pela seleção é algo de que gostava; considera que está ao alcance com a carreira que tem feito? E o que considera que pode faltar para lá chegar?
Temos uma das melhores seleções do mundo, se não a melhor. O meio-campo, que é a posição onde eu jogo, para mim, é o melhor do mundo. Sei que é muito difícil entrar num grupo como a nossa seleção, e ainda bem, quer dizer que há grandes talentos e que as coisas correm bem.
Mas é como digo, é agarrar-me ao trabalho. Tenho esse sonho; se um dia vou conseguir ou não, não depende só de mim. Mas tudo o que depender de mim eu vou tentar fazer, e vou tentar trabalhar todos os dias, para que isso um dia seja cada vez mais real.













