Futebol nacional

"Ofereci-lhe 40 mil contos por época": quando o Sp. Braga tentou contratar Mourinho, o adjunto do Barça

19 mar, 2026 - 11:20 • João Fonseca , Hugo Tavares da Silva

Em conversa com a Renascença, João Gomes Oliveira, o então presidente do SC Braga, revela os detalhes da proposta a Mourinho: “Nunca mais me esqueço, ele apresentou o organograma e um plano de trabalho, desde os iniciados aos profissionais".

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Antes de ser José Mourinho, José Mourinho foi Zé Mário. O garoto que ia entrando na adolescência acompanhava o pai para todo o lado, exigia ir ver todos os jogos do seu ídolo, guarda-redes de Belenenses e Vitória FC. Era acompanhado pela avó materna. Quando passou num exame na escola, teve direito a escolher um presente, então lá decidiu ir conhecer todos os estádios que não conhecia da I Divisão.

Estas e muitas outras revelações foram contadas por José Mourinho no programa “Jogo de Palavra” da Renascença, onde Rui Miguel Tovar descobre pérolas sem fim. A entrevista assenta na relação de Mourinho com o pai, Félix Mourinho, no âmbito do dia do pai. A certa altura na conversa, o atual treinador do Benfica, de 63 anos, relatou que recebeu um primeiro convite para ser treinador principal quando era adjunto do Barcelona.

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O treino era tudo menos uma novidade para este jovem setubalense. Ajudou o pai a lutar por uma subida de divisão no União da Madeira, com um relatório muitíssimo detalhado sobre o rival, e treinou jovens no Comércio Indústria e no Vitória de Setúbal. Depois, veio o futebol mais a sério, no Estrela da Amadora, Ovarense, Sporting e FC Porto.

Quando o telefone com sotaque catalão tocou, Bobby Robson levou José Mourinho com ele para o Barcelona. Ali acabaria por privar com futebolistas como Ronaldo ‘fenómeno’, Pep Guardiola, Luis Enrique, Luís Figo, Laurent Blanc, Popescu… chega? Okay, Rivaldo, Giovanni, Nadal, Stoichkov. E Baía e Couto, claro.

Já na segunda metade dessa década de 1990, Mourinho recebeu um convite improvável. “Eu estava no Barcelona e sou convidado pelo Braga. É o primeiro clube que me faz um convite para ser treinador principal”, revelou o treinador, que reconhece “aquele impulso” para ir, e depois relata um diálogo com o pai.

– Tem juízo
– Pai, o Braga é uma boa oportunidade.
– Tem juízo. Hoje o Braga, amanhã o Guimarães, Belenenses, Marítimo, algum vai ser o primeiro. Mas Barça!? Adjunto? Barça, jogadores de alto nível, crescer, trabalhar com essa gente. Tem juízo. A tua hora vai chegar.

João Gomes Oliveira era o presidente do SC Braga na altura. “Foi através de um empresário que era amigo dele, deu-nos a entender que o Mourinho poderia estar disponível para aceitar uma proposta do Sporting de Braga. E eu disse: nem é tarde nem é cedo…”, conta o antigo dirigente a Bola Branca.

Foi o então presidente do clube minhoto que endereçou o convite formal ao adjunto de Robson no Barcelona. “Ele estava numa indecisão de assumir um clube como técnico principal”, lembra. O convite e as condições do treinador deram um aperto de mão fictício. “Nunca mais me esqueço, ele apresentou o organograma e um plano de trabalho, desde os iniciados aos profissionais”, conta Gomes Oliveira.

Ficou tudo fechado. “O salário era 40 mil contos por época [200 mil euros], tudo direitinho”, confessa, mencionando um contrato de um ano e outro de opção.

Agora que conhece a declaração de Mourinho sobre o pai, que o demoveu do tal “impulso”, o antigo presidente admite que terá havido essa interferência, ainda que na altura não tenha desconfiado de nada. “Acredito piamente que ele falasse com a família, com o pai, eu não sei, mas acredito que possa ter sido isso do pai.”

E o convite foi recusado.

Gomes Oliveira reconhece que aquela proposta para o treinador que ainda não era treinador principal estava acima do orçamento do SC Braga e que seria necessário envolver patrocinadores para cobrir aquele movimento.

“Era uma aventura, digamos assim, para o Sporting de Braga, não para ele”, desabafa o antigo presidente. “Eu sabia bem que para nós era dinheiro em caixa, como dizia o outro… Fiquei com imensa pena. Mais tarde falámos e eu disse-lhe que haveria de treinar o Braga. Ainda nos rimos um bocadinho.”

A carreira de Mourinho, sabemos agora, não passaria pelo Sporting Clube de Braga. Em setembro de 2000, o Benfica de Vale e Azevedo deu-lhe a oportunidade de ser o líder de uma equipa técnica. Seriam apenas 77 dias no Estádio da Luz na primeira experiência como técnico principal.

Seguiram-se União de Leiria, FC Porto, Chelsea, Inter, Real Madrid, Manchester United, Tottenham, Roma, Fenerbahçe e, desde setembro, o regresso ao Benfica, onde tudo começara há 25 anos e onde cumprira apenas 11 jogos, o último o tal 3-0 ao Sporting, em que terminou de joelhos a celebrar e a encostar Manuel Vilarinho à parede, com um ultimato. O treinador acabou por sair e ser gigante noutro lado.

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