Entrevista Bola Branca

Jordan Holsgrove: “Quando erro, tenho a voz do meu pai na cabeça a dizer 'continua, o que podes fazer?'”

06 abr, 2026 - 07:45 • Hugo Tavares da Silva

Em entrevista à Renascença, o futebolista canhoto (que se inspirou em Iniesta e Xavi em miúdo) revela o que aprecia e não aprecia no nosso campeonato, lembra os tempos importantes no Paços de Ferreira e reflete sobre um dos mistérios no futebol: o medo.

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Depois de cumprir um sonho enfiado na camisola do Celta de Vigo, Jordan Holsgrove veio para o Paços de Ferreira, onde aprendeu coisas e abriu fissuras que lhe vão valer para toda a carreira de futebolista profissional.

O escocês, de 26 anos, está na terceira época no Estoril Praia e é um dos bons centrocampistas do nosso campeonato. O que tem vindo a fazer permite-lhe sonhar com a seleção nacional e a presença no Mundial. “Uma pessoa pode sonhar..."

Numa conversa com a Renascença, o canhoto que não gosta de rodeios, natural de Edimburgo, fala sobre o futebol português, revela as referências (Iniesta, Xavi e Gerrard) e o que não gosta por cá e até como é a sua relação com o erro. E reflete sobre o medo, um combate que é a bandeira do compatriota e treinador Ian Cathro, confessando que o ajuda ter na cabeça a voz do pai, um antigo futebolista.

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Um treinador escocês e um número 10 escocês no Estoril, uma das equipas que melhor joga à bola no nosso país. Esta é uma história improvável, ou não?

Sim, acho que sim. Não conheço muitos escoceses que são número 10 no estrangeiro, é uma história ‘cool' e única, certamente.

Há pouco tempo perguntei a Ian Cathro, num programa lá na rádio, se não gostaria de levar este bom futebol para a Escócia e mostrar que também é possível jogar assim. Ele disse que não. O Jordan não gostava de mostrar a sua canhota àquelas pessoas?

Sim, eu tenho aspirações de chegar à seleção nacional e, oxalá, espero ajudá-los. Espero que um dia os escoceses possam ver a minha qualidade.

Tem esperanças de ir ao Mundial?

É o sonho de todos os futebolistas ir a um Campeonato do Mundo, então... Uma pessoa pode sonhar. Jogo aqui o meu futebol, ajudo o Estoril o melhor que consigo e se isso significar que posso ir ao Mundial, então, sentir-me-ei agradecido.

A Escócia não vai ao Mundial desde 1998, o Jordan nasceu em 1999. O que lhe contam desse torneio? Ainda por cima jogaram contra o Brasil de Ronaldo e aquela gente toda...

Sim! Foi há muito tempo que eles foram pela última vez. É uma grande história, é muito importante para a Escócia ir ao Mundial.

Voltemos ao Estoril. Começaram outra vez mal e depois levantaram voo. Se na primeira época se percebe, com as novas ideias do treinador, na segunda é mais difícil entender. Tem alguma explicação?

Não diria que há uma explicação clara. Penso que estávamos confortáveis como equipa, já nos conhecíamos, tínhamos uma certa química que indicava que deveríamos ter começado melhor do que começámos. Mas é o futebol, certo? Às vezes não há uma explicação para não teres começado como querias, mas não tem nada a ver com alguém querer menos ou qualquer coisa desse jeito. Demos 100%, infelizmente não correu como queríamos, mas conseguimos dar a volta como fizemos na época passada.

Nem tudo foi fácil para o Jordan por cá, veio para o Paços de Ferreira e desceu de divisão. O que lhe ensinou essa experiência para ser hoje o futebolista que é?

Olhando para trás, foi uma experiência louca e algo que espero não voltar a viver outra vez, pelo tão difícil que foi. Sabes, é difícil ver os adeptos, os jogadores, depois de perderes um jogo e depois outro e outro... As emoções. Tínhamos reuniões todas as semanas para tentar sair daquela situação, é algo que levarei para toda a minha carreira de futebolista, estares nessa situação difícil e como tentas sair dela, e também o quão difícil que é. Foi um grande passo na minha carreira de uma forma estranha, porque foram lições grandes.

A pressão de não poder perder é muito diferente da de ter de ganhar jogos, ou não?

Sim, acho que sim, acho que sim. Naquela situação, assim que sofres um golo, por exemplo, sentes que o jogo está perdido. Nesse sentido, sentias que os jogos eram muito mais difíceis de ganhar. Essa pressão era maior, sim.

Até as pernas pesam mais, certo? É mental, o jogo.

Sim, certamente. Também vês os adeptos. Se começas a perder 1-0, toda a gente parece em baixo e negativa. É duro. Tivemos momentos em que achávamos que o mundo estava contra nós.

Ian Cathro fala muito no medo, não quer que os jogadores tenham medo, os dirigentes, o roupeiro...

[sorrisos]

... o que é ter medo no campo?

Há jogadores que podem sentir medo de jogar, de ter a bola e tentar coisas, de tentar ser criativo ou tentar ir para a frente ou ser forte a defender. Pode haver medo em qualquer tipo de jogador. O treinador quer garantir que não temos isso aqui, que joguemos com liberdade.

Como é que se engole o medo? É do jogador e vem lá de trás ou trabalha-se?

Acho que todos temos isso dentro de nós, é uma questão de o usarmos ou não, de deixarmos o medo controlar-nos ou o controlarmos nós.

A postura e a mensagem do treinador são cruciais nisso ou a energia do grupo pode falar mais alto?

Sim, ele é super positivo nesse sentido, para não termos medo de jogar e para irmos para o jogo com o máximo de confiança. Ele está atrás de nós, apoia-nos e permite-nos essa liberdade.

Quando penso em falta de medo, lembro-me do vosso jogo no Dragão esta época. Sentiu isso?

Sabemos como jogar futebol. Foi um erro meu, na verdade, que deu o golo deles. Mas foi uma boa reflexão da minha parte, cometi o erro naquele momento mas temos todo o jogo para jogar. Se jogar com aquele medo de não conseguir jogar futebol, provavelmente não vamos ter possibilidades de ganhar o jogo. Toda a equipa estava pronta para mostrar do que era capaz.

Ia perguntar sobre como lida com o erro. Foi sempre assim ou foi construindo essa carapaça para esquecer?

Foi algo que aprendi nos últimos seis, sete anos de futebol profissional. Tive momentos em que pensei “ahhh fiz um erro, o meu jogo já acabou, não consigo fazer mais nada”. O meu pai tem sido uma figura muito útil na minha vida, por ter sido futebolista também, é como se tivesse a voz dele na parte de trás da cabeça a dizer “fizeste um erro, continua, o que mais podes fazer?”.

Vem agora o Arouca [esta segunda-feira, 18h45], depois o FC Porto, que até pode ajudar a definir o campeonato. O Porto tem sido simpático para o Jordan, ou não? Lembro-me daquele livre direto.

Simmm, foi bonito ganhar aquele jogo. Eles são uma equipa super forte, a lutar pelo título. É definitivamente um grande desafio jogar contra eles.

E sempre bateu livres diretos? Ainda por cima em cima da linha, não há muito assim.

[risos] Lembro-me de toda a gente estar desiludida porque não tinha sido assinalado penálti. Felizmente, consegui marcar o golo [risos].

Foi um penálti para o Jordan.

[risos]

Como é que lida nestes tempos dos dados e das estatística. Quando acaba o jogo, quer saber coisas?

Não, para mim não importa. É o maior cliché de se dizer mas é verdade: o mais importante é ganharmos o jogo. Temos de ganhar o jogo, e ganhámos o jogo, e isso é jogar sem o tal medo. Depois do jogo, ouves alguns dados e parece bem, mas ganhámos o jogo ou não ganhámos? Isso é o mais importante.

Quando falei nesse jogo no Dragão, da primeira volta, ele disse “mas perdemos, não me interessa”. Ele é assim? Implacável?

Exatamente, acho que as pessoas do Reino Unido e Escócia são muito preto e branco. Queremos ganhar o jogo, se não ganhamos... Sim, jogámos bom futebol mas estamos aqui para ganhar [risos].

Como é que sentem nesta cultura portuguesa? É muito diferente o jogador português ou o grupo?

Já estou por aqui há alguns anos, em Portugal e Espanha, e acho que somos muito diretos e dizemos as coisas como são. Em inglês temos uma frase que é “beat around the bush” [andar com rodeios]. E, sim, ouvi umas frases de treinadores, no passado, que era estar com rodeios.

E os jogadores gostam de clareza, não é?

Eu sim, pessoalmente. Cresci com isso à minha volta. Eu tenho um treinador escocês [risos], é bom para mim porque cresci com isso. Para outras pessoas, talvez não seja assim, talvez prefiram ouvir ou aprender coisas de outra forma.

Já o conhecia quando ele veio para cá?

Não nos conhecíamos. Mas, assim que tivemos umas conversas, criámos uma boa relação.

Só perdeu 159 minutos na Liga, creio. O estilo de jogo contribui para a frescura física e mental ou simplesmente tem tido sorte no que toda a lesões?

Há muito trabalho nos bastidores. Tive muito azar, no passado, com algumas lesões. Trabalho muito nos aspetos físico e mental. Ninguém vê esse trabalho.

Surpreendeu-me ler que na sua juventude virou um “gym freak” [fanático do ginásio], porque diziam que não tinha corpo para ser jogador...

Quando estás a viver as lesões que eu tive, o ginásio torna-se super importante. Foi uma parte importante da minha carreira. Sim, para umas pessoas tornei-me num ‘gym freak’ [risos] mas é uma coisa positiva.

Ainda tem aquele encanto pela La Liga?

Quando eu era mais novo queria jogar em Espanha, e fui capaz de fazê-lo. Agora estou a desfrutar da vida em Portugal, adoro jogar aqui. Estou completamente focado nisso agora.

Aquele amor à liga espanhola foi por Xavi e Iniesta, não foi?

Sim! Eu e o meu pai estávamos sempre a vê-los jogar, tinham um estilo de jogo semelhante ao meu, a forma como eu gosto de jogar é semelhante à deles, então sempre tentei imitá-los no campo. Eram os meus ídolos.

Tem algum ídolo britânico?

Tenho de dizer Gerrard e Lampard. Eram definitivamente grandes quando eu crescia. Eu era um adepto Liverpool, gostava muito deles, então o Gerrard tinha uma grande influência em mim.

A Liga Portuguesa está muito longe da espanhola? Tecnicamente.

Não me parece. Há muita qualidade, não é muito vista, não se fala o suficiente dessa qualidade.

Sim?

Hm, hm.

Mesmo as equipas mais abaixo são complicadas lá dentro, é isso?

Tivemos alguns resultados que mostraram isso, batemos algumas equipas da parte de cima da classificação e tivemos problemas contra equipas abaixo. É uma liga muito competitiva, tem muita qualidade.

Isso nunca foi excesso de confiança? As derrotas contra equipas abaixo.

É uma brutalidade perder contra equipas não estando à espera, e contra quem não devíamos perder. Mas é o futebol, temos de continuar.

Qual é o objetivo para esta reta final?

Queremos apenas fechar o melhor que conseguirmos, estamos focados nestes jogos pensando jogo a jogo. Assim que acabar a época, veremos onde acabámos.

Chegaram a sonhar com a Europa?

Sabemos que está ali, não estamos super longe disso. No passado, até na última época, pensámos “será que conseguimos lá chegar? Será que conseguimos lá chegar?”. Agora pensamos jogo a jogo. No final da época, veremos.

O que é que gosta e não gosta no nosso futebol?

Hmmm... diria... ufff... Diria que uma coisa que não gosto muito é a qualidade dos relvados, se for completamente honesto. Alguns relvados onde vamos jogar podiam ser melhores. O tamanho às vezes é diferente, mas a relva mesmo e a forma como a bola se move não é incrível.

...

E gosto da intensidade. Eu gosto da intensidade.

Como foi crescer com futebolistas, o pai e avô foram futebolistas. O que lhe ensinaram? Que mais coisas diz essa voz?

O meu pai nunca quis forçar-me a ser futebolista. Ele sempre me disse que, se eu quisesse ser jogador, podia ser jogador. “Se quiseres, então vou pressionar-te”, então quando eu decidi ser ele puxou por mim, foi brutal comigo, muito honesto. Se eu tivesse um mau treino, se tivesse um mau jogo, ele dizia-me e garantia que eu ficava a sabê-lo. Ele voltava sempre ao mesmo: “Só estou a fazer isto porque tu queres ser um jogador, porque conheço o mundo, quero que tu conheças o mundo”.

Ter o meu pai e aquela voz na parte de trás da minha cabeça, em todos os treinos e em todos os jogos... ainda hoje! Não é tão intenso como quando era miúdo [risos], mas ainda está aqui. Sei que muitos miúdos não têm isso, por isso sou muito afortunado.

Ele vem ver os jogos?

Sim, vem aos que consegue, ele tem de vir de avião. Vê talvez um terço dos jogos da época.

Há alguma frase clássica entre vocês? Ou um conselho.

Uma coisa que eu adoro e que ele adora também é: “Acredita em ti ou ninguém o vai fazer”.

Já falámos nos tempos em Espanha, no Celta de Vigo, e no Paços. Queria perguntar-lhe o que aprendeu com jogadores como Gaitán e Iago Aspas? Só de vê-los a existir, como futebolistas e atletas.

O que ficou na minha cabeça é a inteligência deles. Esses dois jogadores não foram os mais rápidos com quem joguei, mas mentalmente eram os mais rápidos. Estavam à frente do jogo antes de tudo acontecer, então aprender com eles foi muito bom.

Para terminar, a última convocatória de Portugal trouxe Mateus Fernandes, uma estreia. Cruzaram-se aqui, talvez tenha ganhado outro impulso no nosso futebol aqui. Como é que ele era? Esperava que ele chegasse a este nível?

Sim, sim, o Mateus é um bom amigo. Na época passada consegui ir ver um jogo dele no Southampton, jantámos e é incrível ver a progressão dele. Do Estoril para jogar no Reino Unido, é incrível vê-lo lá. Tento ajudá-lo com o inglês de vez em quando [risos]. Estou muito orgulhoso por ele, é quase como um irmão mais novo depois de jogarmos juntos no meio-campo [risos].

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