Futebol Nacional
O sobe e desce, as confissões de Mourinho e as despedidas: a crónica do dia das decisões
17 mai, 2026 - 01:35 • Hugo Tavares da Silva
Se a luta pela vaga na Champions não teve muita história, Casa Pia e Estrela da Amadora agarraram-se à esperança e ofereceram um fim de tarde atribulado. Bola Branca reúne heróis improváveis (e outros prováveis), declarações surpreendentes e resume o dia.
É sempre assim. Este derradeiro jogo vale tanto como os outros durante o ano, mas a carga é completamente diferente. Neste sábado houve drama fora de horas, pelo menos um herói improvável, milhões de euros que pareciam aquelas miragens dos desenhos animados para uns e uma certeza para outros, houve homenagens, confissões várias do eventual futuro treinador do Real Madrid, viu-se festa, celebraram-se regressos, sofreram-se despedidas e também caíram lágrimas. O futebol é isto, ou não é?
Durante oito minutos, Alvalade imaginou que podia ficar fora da Liga dos Campeões. A entrada feroz do Benfica no António Coimbra da Mota, a casa do apático Estoril Praia, foi de tal maneira avassaladora que obrigou a cenários precoces. Foram três golos em 16 minutos.
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O Sporting, sossegando as suas gentes, marcou pela primeira vez aos 15 minutos, por Eduardo Quaresma. O Gil Vicente de César Peixoto, que chegou a prometer a Europa e terminou a Liga num mui honroso sexto lugar, tentou bloquear a equipa de Rui Borges e foi conseguindo até que deixou de conseguir. Os rapazes de verde serenaram com a vantagem (Hjulmand e Luis Suárez engordariam a contagem).
Na Amoreira, Richard Ríos, que vem apresentando uma faceta goleadora notável, Alexander Bah e Rafa Silva fizeram os golos que pintariam todos os 90 minutos (Peixinho reduziu com um golaço). Rafa alcançou os 100 golos pelo Benfica. Segundo o "Zerozero", é o 21º futebolista dos encarnados a conseguir tal feito, numa lista liderada, pois claro, por Eusébio (472 golos).
Enquanto os rivais de Lisboa decidiam o segundo lugar, em Espanha escreviam que Marco Silva está fechado no Benfica para substituir José Mourinho. Por outro lado, acotovelando as nuvens, os jogadores do FC Porto iam maravilhando os seus adeptos nas ruas e águas do Porto. Na Ribeira viveram-se tempos felizes, com um fogo de artifício harmonioso e barulhento com a deslumbrante Ponte Luís I como paisagem.
A equipa de Francesco Farioli bateu o Santa Clara, por 1-0, na despedida do Dragão desta temporada com cheirinho a nostalgia e a futuro, e com direito a um bombom: os jogadores usaram a farda onde se vão enfiar no próximo ano, um “tributo aos anos 80”. Os números vermelhos nas costas dos futebolistas encaixam na perfeição naquelas linhas azuis e brancas tradicionais, serão os 40 anos da final de Viena.
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Pinto da Costa e Jorge Costa foram aplaudidos e adorados como se não tivessem ido a lado nenhum, por tanta história que fizeram ali, e o Porto é agora um clube, aparentemente, sem grandes fissuras. As vitórias trazem isso, o consenso. A sintonia. Basta ver o que se passou nas ruas da cidade, da Ribeira aos Aliados, passando pela CM do Porto. “Nem sei explicar esta coisa mais linda", desabafou uma adepta, de 51 anos, com os olhos a brilhar.
André Villas-Boas era um homem feliz. “A alegria das pessoas é o que mais me comove. É os sócios e adeptos do FC Porto encontrarem de novo as vitórias. Encontrarem-se de novo com os títulos. Este é um clube ultravencedor.” O dirigente, um treinador bem-sucedido e presidente sucessor de Pinto da Costa, deixou umas palavras também para Farioli, um homem licenciado em filosofia pela Universidade de Florença. Por falar nisso, já ouviu o podcast "O Código Farioli" da autoria do jornalista Eduardo Soares da Silva?
Sobre o que vem aí, o presidente do FC Porto falou sem rodeios: “Temos obrigatoriamente de trabalhar o mercado e renovar equipas. Isso é que é a dificuldade. Há uma base construída, mas temos de tornar este clube sustentável e temos obrigatoriamente de mexer no mercado e renovar-nos ano a ano”.
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A noite tornou-se mais noite, como é suposto, e os jogos acabaram sem grandes surpresas: Sporting 3-0 Gil Vicente e Estoril 1-3 Benfica. Ou seja, os bicampeões que deixaram de ser campeões e que não conseguiram o tricampeonato agarraram a vaga na Liga dos Campeões – o segundo lugar –, que ainda pode ter o brinde de ter entrada direta, pois o Aston Villa está a fazer o favor de ser uma equipa admirável na Premier League.
Falhado o objetivo Champions e perante os rumores muitíssimo ruidosos da mudança para a capital espanhola, José Mourinho confessou que há coisas a acontecer. "Nenhum de nós é parvo, há conversas entre o meu agente e o Real Madrid", finalmente confirmou, ainda que garanta que a única proposta que tem seja do Benfica, e que por isso há "99%" de probabilidades de ficar na Luz.
Outra novidade foi a confissão de que é benfiquista. Sabia que o Benfica é a primeira equipa da Europa a terminar a liga em terceiro lugar sem derrotas? O Diogo Camilo conta-lhe tudo.
Pizzi disse adeus aos adeptos do Estoril mas sobretudo aos do Benfica. Acabou a carreira, o jogador que partilhou o balneário do Grupo Desportivo de Bragança com Rui Borges, o treinador dos leões que lhe deixou umas palavras muito simpáticas na sexta-feira. O transmontano recebeu como presente um vídeo no relvado, num ecrã gigante, perante o olhar solidário e terno dos pares. Os colegas, depois, levantaram-no nos céus da Amoreira.
Também Hidemasa Morita se despediu de Alvalade (e já agora Quenda, futuro Chelsea) e do futebol português. O japonês, um jogador fino fino com inteligência para dar e vender, saiu em lágrimas. A seguir ao apito final, depois dos abraços e dessas coisas que dão forma ao carinho, jogou à bola com os dois filhotes naquele tapete perfeito. Foram seis anos por cá, quatro de leão ao peito e dois nos Açores, dentro da farda do Santa Clara. Era um homem-cola, juntava todos, comprava a ideia, tornava a bola mais redonda e sempre sempre naquele jeito discreto, silencioso. Vai fazer falta, mas convém lembrar que ainda vai disputar um troféu: a final da Taça de Portugal, no próximo domingo, dia 24.
Enquanto ainda se prolongava no tempo a contenda lisboeta na corrida pelo torneio que dá muito dinheiro, o Famalicão cimentou o quinto lugar, batendo o Alverca, por 1-0, terminando a época a apenas três pontos do SC Braga e ainda sonha com a Europa.
Os holofotes têm a mania das grandezas e já se sabe que a atenção mediática estaria sempre do lado de Sporting e Benfica neste sábado, mas o fim de tarde e início de noite foram realmente alucinantes. Nacional, Casa Pia, Tondela e Estrela da Amadora entraram para a última jornada com três cenários em cima da mesa: manutenção, play-off ou descida à II Liga.
O Nacional fez o seu trabalhinho com o Vitória SC e esfregou as mãos. O Tondela, que ainda chegou ao golo do empate aos 65’ por Rony Lopes, percebeu daí para a frente que não ia extrair sumo das pedras, então seria sentenciada a sua descida de divisão. O drama viveu-se no campo do Casa Pia, longe de Pina Manique, e em Braga, com um Estrela com estrelinha.
Os casapianos não foram além de um 1-1 contra o Rio Ave, mas talvez chegasse, bastava o SC Braga confirmar a superioridade contra os que viajaram da Amadora até à Pedreira. Lekovic marcou primeiro para os visitantes. Gabri Martínez empatou para o Braga. Lekovic fez penálti, viu amarelo e Pau Victor virou o marcador. Nesta altura, o Estrela da Amadora estava prestes a anunciar o regresso à II Liga…
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Depois de drama tardio, Casa Pia cai para o play-off. Tondela despromovido
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Até que Lekovic entrou outra vez em ação. O defesa meteu mais um golo, aos 90’+6, tirou a camisola, viu o segundo cartão amarelo e o consequente vermelho e salvou o Estrela. Que dia para o central sérvio.
Ou seja, o Casa Pia de Álvaro Pacheco que parecia ter a vida bem encaminhada vai disputar o play-off contra o Torreense, que goleou esta manhã o Vizela, por 4-0. Os senhores de Torres Vedras sonharam com a promoção direta, mas o Académico de Viseu empatou com o Sporting B e isso chegou para a festa de regresso ao primeiro escalão do futebol português 37 anos depois. Académico e Torreense acabaram com os mesmos 59 pontos.
O play-off entre Torreense, finalista da final da Taça de Portugal, e Casa Pia joga-se a duas mãos nos dias 23 e 29 de maio. Na Liga II, já se sabia, o campeão foi o Marítimo. No domingo decide-se a vaga no play-off, a manutenção e a despromoção para a Liga 3. Está prometida mais um noite escaldante, com muita incerteza ainda para Paços de Ferreira, Portimonense e Farense.
De regresso à II Liga estão Amarante e Académica. Os primeiros confirmaram o título da Liga 3, na vitória contra o Vitória Sport Club B, enquanto os segundos confirmaram a subida depois da vitória contra o Trofense. O Belenenses, que até venceu o Mafra por 3-1, terá de ir à bulha no play-off contra Paços, Portimonense ou Farense.
É sempre assim. O derradeiro jogo vale tanto como os outros durante o ano, mas a carga é completamente diferente. E que bom é para o futebol…












