Entrevista Bola Branca
Descolado do rótulo de treinador defensivo, Petit quer "dar o passo seguinte na carreira"
19 jun, 2026 - 09:20 • Luís Aresta (entrevista) , João Malheiro e Beatriz Veloso (vídeo)
O experiente treinador português ganhou estatuto a salvar equipas da despromoção na I Liga. Afastado o rótulo de treinador conservador, Petit quer agora estabilizar o Santa Clara e sonhar com patamares superiores.
Petit é um treinador feliz no Santa Clara. Depois de confirmar a manutenção na I Liga, vai ficar pelo menos mais uma temporada nos Açores para ajudar o clube a crescer e valorizar jogadores.
Na segunda parte da entrevista à Renascença, o experiente treinador assume o sonho de dar um passo em frente na carreira e orientar uma equipa que lute por algo mais do que a manutenção, objetivo dos clubes que treinou nos últimos anos.
Originalmente rotulado como um treinador defensivo, Petit acredita que já largou essa reputação ao longo dos mais de 300 jogos orientados na I Liga portuguesa, no Rio Ave, Boavista, B SAD, Marítimo, Moreirense, Paços de Ferreira e Tondela.
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Pela nona vez, salvou uma equipa da descida. Neste caso, o Santa Clara. Como conseguiu dar a volta à situação do clube, atendendo até que entra no clube com duas derrotas com Estrela da Amadora e Benfica, se não estou em erro?
Normalmente nós, treinadores, temos de estar sempre atentos a todos os plantéis da I Liga, porque se houver trabalho, temos de conhecer minimamente aquilo que é o plantel e achámos que o plantel do Santa Clara tinha condições para sair daquela posição.
Quando chegámos lá, nesse mesmo dia, tínhamos acabado de cair no “play-off”, porque o Casa Pia tinha vencido o Porto, mas conhecendo o plantel a fundo e sabendo que propusemos uma ideia nova de jogo, depois de dois anos e meio com o Vasco Matos, que fez um bom trabalho no Santa Clara com três centrais, mudando para uma linha a quatro, num 4-3-3.
Não tivemos um bom início, com Estrela da Amadora até fizemos um bom jogo, mas acabámos de perder e depois o jogo com Benfica, onde acabámos também de perder 2-1. A partir daí a equipa começou a assimilar bem os processos, a acreditar naquilo que estava a fazer e acho que acabámos de fazer um resto de campeonato com tranquilidade, com qualidade e valorizámos os nossos ativos.
Por falar em valorização de ativos, o que é que vê no João Afonso, que o leva a colocar na baliza nas últimas jornadas?
Além de trabalhar com os dez que estão em campo, que é a minha função, também analisamos muito aquilo que é o percurso dos guarda-redes, para que a equipa possa também sair com bola de trás. Vimos que tínhamos ali um produto com qualidade, que bastava apostar nele que poderíamos acreditar que seria uma solução para o futuro.
No jogo com o Nacional tinha falado com os treinadores dos guarda-redes que o João poderia ser titular. Já tínhamos minimamente a manutenção garantida e acho que poderíamos apostar nele, porque ele era um jogador da seleção sub-18, sub-19, já tinha também trabalhado nos sub-21 e achámos que poderia estar ali uma boa oportunidade.
Fez um bom jogo com o Nacional e a prova de fogo também no jogo com o Porto, onde fez dois grandes jogos e acaba por merecer, porque é um miúdo com qualidade, um açoriano e acho que tem um futuro muito risonho pela frente.
O que é que se pode esperar dele no FC Porto?
Eu vejo um miúdo com tranquilidade, joga muito bem com os pés, muito sereno e muito seguro no jogo aéreo e na saída dos postes. Dá tranquilidade à equipa. Ele vai cometer os seus erros como todos cometem, mas acho que poderá ser o titular do Porto futuramente.
Sente-se um treinador que sabe apostar nos jovens e que gosta de apostar nos jovens?
Sim, quem olha para o meu percurso nestes 302 jogos de I Liga, pelos clubes onde nós passámos, não só fomos obrigados, como também tínhamos a necessidade de analisar os sub-23, para poder apostar neles. Não tenho medo de apostar em juventude, acho que o futebol não tem idade. Tem qualidade, tem personalidade e nós temos apostado muito na formação, porque hoje em dia o futebol português é vendedor, forma bem, que valoriza bem os seus ativos e que depois que os vende.
Vai continuar no Santa Clara. Já definiu objetivos para a próxima época? É possível sonhar com a Europa depois desta época?
Andam sempre os três grandes à volta do título, o Braga poderá também intrometer-se ali pela briga, mas andam ali nos quatro primeiros e depois numa época faz um Famalicão o quinto, ou um Estoril, um Santa Clara…
Queremos é fazer uma época tranquila, onde possamos valorizar ativos, melhorá-los e vendê-los. É a isso que nos propusemos e a ideia também do clube e dos seus donos. Está a haver uma grande transformação com um centro de treinos que já está com dois alvados, um sintético, ainda falta montar mais algumas coisas, e isso faz parte da nossa ideia: época tranquila, valorizar ativos, jogar um bom futebol e tentar vender jogadores para que o clube continue a crescer.
E reforços seguramente também precisa, ou não?
Sim, aquilo que temos falado com a administração é que há um ciclo de quatro anos de muitos jogadores que desceram, depois subiram outra vez e ficaram aqui no Santa Clara durante três ou quatro anos.
Hoje em dia não é fácil ter um plantel com 70% dos jogadores a ficarem durante estes anos. Estamos a tentar mudar um pouco, trazendo sangue novo para a equipa, jogadores jovens e portugueses que possam também chegar à ilha. Vamos fazer um plantel jovem, com alguma experiência noutros jogadores, para um campeonato tranquilo.
Olhando para a sua carreira, sente-se um treinador valorizado?
Todos os trabalhos em que me meti, e foram desafios difíceis, consegui sempre o objetivo final, que era a manutenção. Salvar equipas. Para salvar equipas também tem que haver qualidade e muita gente fala que sou um treinador defensivo, mas quando estás em último lugar, só há um caminho que é ganhar, senão não sais daquela posição.
Há um rótulo que nos meteram e que às vezes tentamos mudar. Acho que já mudei esse rótulo. Continuo a fazer o meu trabalho, continuo a ter objetivos e desafios difíceis, mas chego ao final da época e consigo concretizá-los, consigo valorizar ativos e isso é que me satisfaz, essa valorização, ter sempre trabalho.
Se estiver três ou quatro meses quieto, já me estão a chatear para ir trabalhar. Neste momento sou um dos treinadores com mais jogos de I Liga, já tenho alguma experiência, continuo a fazer o meu trabalho, e conforme fui como jogador que cheguei a estar a um grande, neste caso no Boavista com 24 anos, e depois mais tarde a venda para o Benfica, quero ser assim como treinador, ganhar a minha experiência para quando tiver um clube com outras ambições, possa agarrar e ficar.
Essa ambição sua existe, de treinar um clube de outro patamar?
Todas as treinadoras têm essa ambição de lutar por objetivos diferentes. Nos últimos dez anos tenho objetivos de manutenção, mas quero partir para outro desafio. Agora sinto-me bem nos Açores, sou bem acarinhado pelos açorianos, estou a gostar do projeto, hoje em dia é difícil estar dois ou três anos anos no mesmo clube. Os últimos foram o Sérgio Conceição no Porto e o Ruben Amorim no Sporting. Os treinadores fazem um ou dois anos e depois saem.
Queremos fazer um bom campeonato no Santa Clara, que o clube comece a crescer, que tenha boas infraestruturas para valorizar não só a equipa principal, mas também o susb-19, sub-23 e equipa B. São muitos jogadores e nós estamos atentos a eles. Quero fazer um bom trabalho e depois dar um passo seguinte na minha carreira.
O que ficou da experiência no Cuiabá?
Foi uma das experiências mais enriquecedoras que tive. Quando chegámos ao Cuiabá estávamos em último lugar. Tinham sido cinco jogos, cinco derrotas e zero golos. Sabíamos que era um objetivo difícil, mas a experiência foi muito boa. Jogávamos de três em três dias, tínhamos que ter dois microciclos de treino.
Eram muitas horas de voo, muitas horas nos hotéis, muita preparação de jogos, mas conseguimos num espaço de 19 jogos -- essencialmente 10 semanas -- sair da zona de descida e conseguir ir para outros lugares.
Depois, com o excesso de jogos, mais a Copa Sul-Americana, ir para Argentina e Chile, houve um desgaste enorme sobre o plantel que tem de ser extenso e é preciso ter qualidade em dois jogadores por posição. Pedimos ao presidente para reforçar a equipa, mas assim não entendeu porque fez um treino de treinos com qualidade acima da média e depois não tinha grande coisa para ir buscar jogadores. Houve desgaste e vim embora.
Tenciona voltar a ter alguma experiência no estrangeiro?
Não fecho a porta a nenhum país, quero dar um passo cada vez, também gosto de ter qualidade de vida, estar com a família a acompanhar-me, mas não fecho a porta a nenhum país.
Por falar em estrangeiro, como é que viu esta regresso de Marco Silva a Portugal para treinar no Benfica?
É um treinador com qualidade, que deu provas disso. O percurso dele foi feito mais em Inglaterra, e também passou pela Grécia. É um treinador jovem, com uma boa ideia de jogo. Nós também acompanhamos a liga inglesa e acho que tem todas as condições para discutir pelo título no campeonato português.
As coisas não têm estado fáceis no Benfica…
Nos últimos anos, o Benfica não tem conquistado títulos, a exigência do clube, dos seus adeptos, exige que em todos os anos se possa conquistar títulos, seja o campeonato que é o principal, seja a Taça de Portugal, seja uma boa Liga dos Campeões, seja uma Liga Europa.
O Marco poderá entrar nessa onda de voltar ao título, sabendo que o FC Porto também está muito forte, o Sporting também tem muita qualidade e está a fazer um bom trabalho nos últimos anos. Espero que seja um campeonato competitivo.
Dói-lhe ver o atual Boavista?
Dói-me. Por acaso moro perto, mudei-me para lá, e dói-me porque é um clube onde eu cheguei com nove anos, onde fui campeão de infantis, de iniciados, de juniores e de séniores. Tenho uma história com o Boavista, não só como jogador, mas como pessoa. Depois de acabar a minha carreira no estrangeiro, voltei para o Boavista quando me pediram, já estava num momento mau, na terceira divisão.
Fiquei como jogador, depois passei para treinador-jogador e conseguimos reerguer o Boavista, conseguimos voltar à I Liga, e depois num espaço de meia dúzia de anos acontece isto. Há muitos erros de várias pessoas, é um clube com uma história e toda a gente tem um carinho especial para o Boavista.
E vê uma solução para o Boavista?
Eu espero e acredito que possa haver uma solução. Acho que enquanto existir um boavisteiro, o Boavista continua a respirar, mas está difícil. Toda a gente conhece as dívidas do Boavista, espero que as pessoas que possam estar à volta da situação possam encontrar soluções. Vai demorar uns longos anos, mas que volte porque é preciso no futebol português.










