20 fev, 2025 - 11:20 • Carlos Calaveiras
Jéssica Rodrigues conseguiu um feito inédito é campeã do mundo júnior de corrida no gelo. O feito é ainda mais surpreendente sabendo que em Portugal não há as mínimas condições de treino para os atletas. Ou vão estagiar no estrangeiro ou fazem treino com rodas, o que obriga a constante readaptação antes das provas.
E a situação parece que não vai melhorar muito no futuro próximo: o pavilhão para desportos de inverno que vai ser construído não permite realizar a prova que deu o ouro ao país.
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Em declarações à Renascença, a jovem madeirense, de 18 anos, ainda sonha com um lugar nos Jogos Olímpicos de Inverno daqui a um ano, mas reconhece que vai ser difícil. No entanto, espera que o seu mais recente feito chame mais atletas para a modalidade e, quem sabe, mais apoios.
Vamos começar pelo princípio. De onde vem este gosto pela patinagem no gelo?
Nós entrámos na patinagem no gelo, eu e os meus colegas de equipa, porque o meu treinador [Alípio Silva] tinha um sonho, que era entrar nessa disciplina da patinagem no gelo. A federação, a Câmara Municipal da Calheta e o nosso clube, o Clube Desportivo e Recreativo dos Prazeres, deu-nos uma oportunidade e, desde 2021, estou a fazer gelo desde setembro até março.
Ainda experimentou outras modalidades ou foi direto à patinagem no gelo? Não é uma escolha óbvia.
Sim, é um desporto mesmo muito diferente e que não era assim tão falado quando eu era pequena, mas foi a opção dos meus pais. Os meus pais colocaram-me na patinagem de rodas e continuo a fazê-la até hoje. É a minha base de tudo.
Onde é que treina? Em Portugal há condições para praticar as corridas no gelo?
Não, nós temos que fazer estágios fora de Portugal, temos que ir para a Alemanha ou então para a Holanda. Cá na Madeira fazemos rodas, também fazemos trabalho de ginásio, bicicleta, corrida, natação. Gelo não dá para fazer porque não temos mesmo condições nenhumas para fazer gelo cá na Madeira ou em Portugal.
Portugal é um país habituado a ver patins com rodas. Já patins com laminas não é muito comum. Imagino que seja muito diferente…
Exato, é diferente. No gelo, é um desporto que exige muito mais da nossa condição física e é muito mais preciso, é muito mais técnico do que as rodas. Temos que ter uma boa técnica e uma boa força.
Sendo diferente as rodas ou a lâmina, imagino que isso obrigue a uma constante readaptação antes das competições.
Pois, nós precisamos, pelo menos, de uma semana ou mais. Vou dar um exemplo: nós fomos para uma Taça do Mundo dia 28, que começava dia 1. Não tivemos tanto tempo de adaptação. A nossa sorte foi que, uns dias antes, tínhamos feito um estágio no gelo, na Holanda, e já vínhamos mais mentalizados para o que íamos fazer, senão não íamos ter muito tempo de gelo.
Esses estágios constantes na Alemanha e na Holanda, quem é que paga? É a federação, os próprios atletas, os clubes?
Neste momento, eu e o Afonso Silva [atleta da seleção masculina] temos bolsas, somos os dois do mesmo clube e fomos os dois sozinhos para a Holanda estagiar, sem treinador, sem nada. Tínhamos lá um treinador à nossa espera, holandês, mas é completamente diferente ter um treinador que saiba falar a língua e esteja sempre presente connosco.
A bolsa é da Federação de Desportos de Inverno?
Nós temos uma bolsa olímpica.
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Quando começou com as competições, percebeu logo que tinha jeito?
No primeiro ano que nós fomos, o Alípio Silva [treinador] também foi connosco e conseguiu que os atletas dele (eu, o Afonso Silva, o Marco Leira e o António Edgar Freitas) conseguíssemos os tempos para ir a uma Taça do Mundo na Alemanha.
Antes do Mundial foi quarta classificada numa Taça do Mundo e sexta nos Jogos Olímpicos da Juventude. Foram dois bons treinos?
Foi. Eu fiquei mesmo muito feliz tanto nos Jogos Olímpicos da Juventude, como na Taça do Mundo. E agora fiquei mesmo muito feliz e impressionada com o meu desempenho ao longo destes três anos.
A Jéssica é campeã do mundo júnior de patinagem no gelo. Estava à espera deste resultado?
Eu sonhava já com o resultado. Eu sabia que era possível, mas não tão cedo. Foi um grande choque quando aconteceu.
Antes de mais, explique o que é isto da corrida “mass start”
A prova acontece numa pista de 400 metros, uma pista idêntica ao atletismo, só que em gelo. É uma das únicas provas de equipa que existe em contacto entre as atletas, o resto das provas é o atleta contra o tempo.
Nós temos as semifinais, com 16 atletas, passam 8 de cada série e na final existem 16. Durante a prova existem pontos intermédios, na quarta volta e na sétima, quem passa em primeira recebe três pontos, quem passa em segunda, dois, e quem passa em terceira, um. Quando toca para a última volta, quem passa em primeira recebe 30 pontos, em segunda, 20 e em terceira, 10. Ou seja, quem passa nessas três posições já tem o pódio garantido e foi o que aconteceu comigo, que consegui passar em primeiro.
E há outro tipo de provas?
Sim, existem.
E a Jéssica só faz “Mass Start” ou também faz outras corridas?
Eu faço outras, mas nós, neste Mundial e na Taça do Mundo, não conseguimos fazer porque não tínhamos uma terceira atleta [feminina].
Na Time Pursuit, que são seis ou sete voltas, as três atletas vão juntas e conta o tempo da última. Na Time Sprint são três voltas e cada uma tem que dar uma volta à frente. E também temos a Mixed Relay, que é um homem e uma mulher, seis voltas, três voltas a cada um, onde a rapariga parte primeiro, dá uma volta, transmite para o rapaz, o rapaz faz duas voltas, volta a transmitir para a rapariga, ela faz duas voltas e voltam a transmitir para a última volta, para o homem.
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É a primeira medalha de Portugal num Mundial de desporto de inverno. Deve ser um orgulho ainda mais especial, imagino.
Sim, eu estou muito feliz. Eu acho que nas minhas entrevistas todas eu consigo expressar a felicidade que estou a sentir, estou sempre a emocionar-me. As pessoas já me chamaram de chorona, que estou sempre a chorar, mas é uma coisa tão única que só quem consegue sente. É sensacional mesmo.
E agora, campeã do mundo júnior, o que se segue?
Agora o gelo acabou. Esta foi a minha última prova de gelo este ano. Vai começar a época das rodas.
E vai passar para os seniores ou ainda vai continuar nos juniores?
Eu nas rodas já sou sénior, no gelo ainda me falta um ano de júnior.
Daqui a um ano temos Jogos Olímpicos de Inverno. A Jéssica ainda pode lá chegar?
Não é impossível, mas vai ser duro. Nós temos que nos qualificar a partir das próximas Taças do Mundo, que são em setembro, mas ainda temos de conseguir os mínimos. Aí vamos estar na Divisão B, temos que ganhar a Divisão B para estar na Divisão A e na Divisão A entrar nos 16 primeiros.
Ainda não tenho os mínimos, estou a tentar trabalhar para isso e conseguir o apuramento nas provas individuais, onde ainda temos que trabalhar e faltam muitas coisas para melhorar. Eu acredito que seja possível, mas é muito difícil.
E, conhecendo as adversárias seniores, quem são as favoritas?
Nós temos os holandeses, os americanos e os italianos também são bons. E muitos deles faziam rodas antes de irem para o gelo.
Está previsto Portugal construir no Seixal um pavilhão específico para os desportos de inverno. Lá para 2027 vai deixar de fazer constantes estágios no estrangeiro, seguramente
Vou continuar a fazer. O que eles vão construir é para o hóquei no gelo. Não vai ter [pista de] 400 metros. Não vai dar. Só se nós começarmos a fazer short track. Aí podemos ter essa oportunidade de experimentar e treinar lá.
Antes de fechar, a Jéssica tem 18 anos. O que está a estudar e o que pretende ser quando for “grande”, se me permite a brincadeira?
Eu estudo na Universidade da Madeira e estou em Desporto. Quero ser professora de Educação Física de 1.º ciclo.
Este mediatismo da Jéssica nos últimos dias e os seus resultados podem contribuir para o aumento dos atletas nestes desportos de inverno em Portugal
Sim, eu quero muito que isso aconteça. Eu queria muito que esta modalidade crescesse em número e em quantidade, mas sei que quando isso acontecer já não vou estar cá, porque é um processo demorado, mas quero muito que isso aconteça.