Ténis

Pedro Sousa: "Eu nervoso e o Jaime preocupado com os patos a voar. Raramente se acanha nos grandes momentos"

19 mar, 2025 - 11:30 • Inês Braga Sampaio

Em entrevista à Renascença, o ex-tenista e agora treinador de Jaime Faria fala do percurso do jovem, das armadilhas no caminho e da sensação de "sofrer de fora".

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Os patos que voam sobre o campo não seriam a típica preocupação de um jovem tenista às portas da primeira participação no quadro principal de um torneio de categoria ATP 500 e da entrada no top-100 do ranking mundial.

Contudo, foi precisamente com isso que Jaime Faria, cuja cabeça "dispersa para muitos sítios", de acordo com o seu treinador, se preocupou naquele momento decisivo. É também o que lhe permite jogar contra Novak Djokovic como se já estivesse nestas andanças há muito, chegar aos quartos de final do Open do Rio de Janeiro e chegar ao topo "quase à primeira tentativa", assinala Pedro Sousa.

Em entrevista à Renascença, o antigo tenista - um dos oito portugueses que atingiram o top-100 - e atual treinador fala do que Jaime Faria, que atingiu o 87.º lugar do ranking ATP aos 21 anos, tem de melhor e ainda para evoluir, das armadilhas no caminho e da sensação de, agora, "sofrer de fora".

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O Jaime Faria chegou ao top-100 do ranking mundial de ténis. E agora?
Este é o principal objetivo da maior parte dos jogadores na carreira, mas não acaba e novos objetivos aparecem. Ele ainda tem 21 anos, até acabou por chegar aqui um bocadinho mais rápido do que estava à espera, mas já estamos a pensar mais à frente, a tentar arranjar maneiras de ele continuar a melhorar, para que essas partes que ele tem de melhorar se traduzam em melhores resultados e em continuar a subir.

Ainda é tudo um pouco recente, ele acabou de entrar. Ainda por cima, agora está lesionado e temos de travar um bocadinho, mas já estamos a pensar mais à frente e, para já, cimentar a posição dele no ranking. Ele agora vai cair num dos lugares, mas vamos tentar manter-nos nos 100 primeiros e depois, quando já estiver um bocadinho mais sólido e mais habituado a este nível, tentar rankings mais acima.

É a oitava vez que um tenista português consegue alcançar o top-100. O Pedro também o conseguiu: que dicas tem para dar ao Jaime?
Que ele continue a treinar, a melhorar, a ouvir e a dar o litro. Ele sabe o que é que passou para chegar aqui e o que eu tento explicar quando as coisas não correm tão bem ou quando não há momentos tão bons, é que ele não se esqueça disso, que confie, que volte a trabalhar bem, que volte a 'dar o litro' e confiar que os resultados vão aparecer.

Felizmente, têm aparecido, desde os últimos tempos. Sabemos que as coisas não correm sempre bem, mas é tentar acreditar no caminho que estamos a fazer e segui-lo tanto nos bons, como nos maus momentos.

Quando um tenista chega de forma tão precoce ao top-100, que armadilhas existem no caminho?
É não tirar os pés do chão, é não achar que já está tudo feito. É continuar com ambição, com vontade de melhorar. Por enquanto, ele está bem nesse aspeto. Claro que, uma ou outra vez, as coisas não correm tão bem, mas é tentar manter a ambição e a humildade, saber o que é que custou a chegar aqui e também ter um bocadinho a noção de que, se se começa a desviar muito do caminho, a probabilidade de errar é maior.

A velocidade com que se entra neste tipo de rankings também pode ser a velocidade com que se sai. Basta descuidarmo-nos um pouco nos treinos, na competição, e em tudo o que está à volta, e isso vai notar-se no ranking e tanto vai para cima como vai para baixo.

Face a esta subida meteórica que o Jaime teve, é preciso puxá-lo de volta para o chão ou a cabeça dele já está afinada?

Não diria [puxar] para o chão, a cabeça dele às vezes desperta muito para outros sítios. Ele é muito bom miúdo, é um miúdo cinco estrelas. Já o conheço há bastante tempo, dou-me muito bem com ele - até fora do campo, não só em relação ao ténis - e acho que nem é preciso pôr-lhe os pés no chão, acho é que a cabeça dele dispersa para muitos sítios às vezes. Também o ajuda em algumas situações [dispersar-se], noutras nem tanto.

É tentar mantê-lo o mais possível no sítio. O que faço é tentar controlá-lo, tentar fazê-lo ver qual é o caminho certo. Tem corrido bem, eu tento dar-lhe o meu ponto de vista, ele às vezes dá o dele, mas quase sempre estamos de acordo. Há um ou outro momento a quente em que as coisas são um bocadinho mais duras, mas faz parte, a alta competição é assim. Os dois temos noção disso. Nesse aspeto, tem sido fácil, porque ele, quando é chamado à atenção, quase sempre nos dá razão.

Quase sempre...
[risos] Ainda é jovem, tem de aprender.

Já explicou como é treinar o Jaime, mas deste, ainda curto tempo, de colaboração no alto nível, tem algum episódio mais característico de que se lembre?
Durante o torneio do Rio [de Janeiro, em fevereiro], na primeira ou na segunda ronda do "qualifying", ele estava um bocadinho mais nervoso. A cabeça dele começa a dispersar para alguns lados e nesse dia dispersou para os patos que estavam a passar por cima do campo. Até foi discutir com o árbitro porque estavam patos a voar sobre o campo. Achei a piada. Ele estava nervoso, eu estava nervoso, estávamos num jogo importante, e a cabeça dele estava preocupada era com os patos que estavam a voar sobre o campo.

Ou seja, quando diz que ele dispersa para outras coisas é mais essas distrações?
Sim, acho que é um dos pontos em que ele tem que melhorar. Não se distrair tanto com coisas exteriores e estar mais preocupado com o que ele pode controlar. É aquele clássico que se usa muitas vezes. Neste momento é por aí que ele pode evoluir. Ele tem noção disso, eu também acho que é por aí o caminho.

Claro que ele nunca vai ser, se calhar, um jogador frio, como são outros, mas tem de tentar controlar isso um bocadinho mais. Acho que é um dos pontos-chave que temos de melhorar.

E do tempo do Pedro como tenista, o que é que aprendeu que agora faz questão de ensinar ao Jaime?

Aprendi muita coisa, mas tento passar um bocadinho do conhecimento e das opiniões que fui formando enquanto jogador. Claro que eu tenho noção de que cometi erros, tenho noção de que podia ter mudado uma outra coisa. E hoje em dia tento passar para ele a minha visão, o que ele pode melhorar, o que ele pode e não pode, ou deve e não deve fazer. Mas todos somos diferentes, ele tem as coisas dele, eu tinha as minhas. Tento mostrar-lhe o caminho que acho que é o correto e que o leva mais perto do sucesso.

Agora, recuando aos seus tempos de tenista, como foi para o Pedro o momento em que entrou pela primeira vez no top-100?
Foi um grande alívio. Eu já estava há algum tempo à porta e, quando acabei por entrar, até estava de muletas, estava lesionado, não podia jogar. Não sei durante quanto tempo, mas lembro-me que estava de muletas. E foi um alívio, foi uma alegria grande, já tinha estado à porta uma ou duas vezes. Sabia que aquela era uma oportunidade de entrar e que nem ia poder estar a competir porque estava lesionado.

Mas acabei por estar [no top-100] e foi um marco importante na minha carreira. E ainda bem que aconteceu, porque era um dos grandes objetivos que eu tinha.

E como é, agora, a vida de treinador?
É diferente. Às vezes parece mais fácil, às vezes parece muito mais difícil. É sofrer de fora. Parece que está tudo fora das nossas mãos, o que torna mais difícil, mas pronto. Quem está a dar ali e quem está a sofrer e quem está atrás da bola agora não sou eu, resta-me estar de fora e tentar ajudar o mais que consigo naquele momento, que às vezes não é muito. É fazê-los sentir que estão ali com alguém a competir com eles.

E às vezes, a ver o Jaime jogar, ainda lhe dá vontade de ir lá para dentro?
[risos] Não, muito poucas vezes. Além disso, ele já me passou, por isso eu já não ia fazer grande coisa. Já não ia fazer muito melhor, de certeza.

O Jaime tem uma esquerda, como se viu no Rio e em Santiago do Chile, que está a assumir contornos de algo especial. Como vê a evolução dele e o que há ainda para afinar?
Sim, a esquerda é uma das armas dele. Faz o que quer da esquerda. A par dos serviços, são as maiores armas que ele tem. Para o tamanho que tem, também se mexe bastante bem.

Depois, a competir, aquele fator que ele tem de a cabeça a dispersar para alguns lados, às vezes também tem coisas positivas e raramente se acanha nos grandes momentos. Ele jogou com o Djokovic [no Open da Austrália] e parecia que já tinha jogado não sei quantas vezes. Entrou no top-100 quase à primeira tentativa. Fez "quartos" no Rio na primeira vez estava a jogar um [torneio de categoria ATP] 500. Claro que há pontos a melhorar. Como disse, tentar não se dispersar tanto com fatores que não consegue controlar, que às vezes perde um bocadinho a lucidez.

E uma outra direita que já está melhor, mas que ainda temos de evoluir, se queremos subir no ranking e melhorar e ganhar adversários melhores. Tem de se melhorar ali um outro aspeto, mas é um caminho que é longo. Ele tem 21 anos e ainda temos tempo para isso.

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