Ciclismo

Qual a estratégia da Visma para destronar Pogačar? Sete perguntas e respostas sobre a primeira metade do Tour

15 jul, 2025 - 10:30 • Eduardo Soares da Silva

O primeiro dia de descanso da Volta a França após dez etapas chega com um camisola amarela inesperado. Pogačar continua a ser o grande favorito? Vingegaard está melhor ou pior do que o antecipado? O comentador Olivier Bonamici faz um balanço da primeira metade da prova, destaca três revelações e mede o impacto da desistência de João Almeida na UAE Team Emirates.

A+ / A-

Depois de dez etapas, a Volta a França chega ao primeiro dia de descanso com o irlandês Ben Healy como camisola amarela. O ciclista da EF Education-Easy Post é uma das revelações da prova, escolhido pelo comentador Olivier Bonamici.

Em resposta a sete perguntas da Renascença, Bonamici acredita que Tadej Pogačar continua a ser o grande favorito, até porque ainda não mostrou qualquer quebra, mas tem na sua equipa um ponto de fragilidade.

O comentador explica ainda qual pode ser estratégia da Visma para tentar levar Jonas Vingegaard a nova vitória, ainda que o dinamarquês já esteja com mais de um minuto de atraso em relação ao campeão mundial após um contrarrelógio desinspirado.

O abandono de João Almeida foi um dos pontos de destaque da primeira metade da prova e pode ter um impacto grande na UAE Team Emirates na entrada para a alta montanha dos Pirinéus e dos Alpes.

Depois de dez etapas, Pogačar (UAE Team Emirates) mantém o estatuto de favorito?

Sim, ele é o grande favorito, ainda não teve uma quebra. Até nas subidas, o Jonas Vingegaard nunca conseguiu vencer. Ele parece mais sereno e calculista. Não parece o Pogačar do ano passado, que dominou rapidamente o Tour. Não significa que não ganhe seis etapas no fim, mas vê-se mais contenção por parte dele. Ele sabe também que, mais do que nunca, tem um ponto fraco que é a sua equipa.

O Vingegaard (Visma-Lease a Bike) conseguiu acompanhar todos os ataques do Pogačar. Está melhor do que o esperado?

Acho que ainda é cedo para se dizer isso. Vingegaard está bem, consegue acompanhar, mas é normal que não perca muito nas subidas que tivemos até agora. O primeiro grande teste serão os Pirinéus, teremos três grandes etapas lá.

As subidas longas são o terreno preferido do Vingegaard. Depois temos os Alpes, sabemos que o Vingegaard adora as maratonas da altitude e sabemos que lida melhor com o calor do que o Pogačar. Pode ser a chave também. Ele tem um trunfo que é a sua equipa, taticamente é forte e não tem baixa nenhuma, ao contrário do Pogačar que já não tem João Almeida.

Qual tem sido e qual pode ser a estratégia da Visma para derrubar Pogačar?

Têm tentado cansar a equipa do Pogačar. Sabem que ele já não tem o João Almeida, a equipa está enfraquecida até porque o Sivakov não pareceu bem na última etapa. Não há muito mais a fazer neste momento. Nas etapas de alta montanha, podemos ter jogadas de xadrez extraordinárias, que é algo que estamos habituados com a Visma, no Giro deste ano e no Tour de 2022.

Além de uma equipa que parece mais forte, a Visma tem mais um trunfo, que é outro ciclista bem posicionado. Matteo Jorgenson está a cerca de 1m40s do Pogačar e ele, para além de braço direito, pode ser uma carta jogada a certa altura.

Pogačar já não tem um braço direito de grande qualidade como era o João Almeida e, em certas etapas, acho que vai ser essa a jogada da Visma, mas resta saber se resulta. Mesmo isolado, Pogačar pode derrotar a equipa da Visma.

Do que se viu do João Almeida (UAE Team Emirates) e dos outros candidatos, o pódio era alcançável?

É complicado dizer isso. Eu acho que teria estado na luta, mas considero que há uma diferença entre ele e Remco Evenepoel, acho que seria complicado, mas nunca se sabe. Estava a fazer uma época extraordinária e o pódio não era um objetivo principal dele.

Se fosse líder de uma equipa, lutaria com Evenepoel, mas quando tens o papel de ajudar o teu líder, é muito mais complicado. A queda é terrível para ele, para os adeptos, havia muita expectativa e terá de recuperar bem antes da Volta a Espanha.

Remco Evenepoel (Soudal Quick-Step) ainda pode ameaçar Pogačar e Vingegaard?

Das indicações que temos, nada aponta para que tenha colmatado o fosso que há entre ele e os outros dois. No ano passado, havia um ciclista de outro planeta, o Pogačar, o Vingegaard às vezes entrava nesse planeta. Mais abaixo vinha o Remco, a nove minutos de distância. A questão é que nove minutos ainda é muito tempo, é uma diferença enorme. Ficaria muito surpreendido que, neste ano, ele tivesse reduzido a diferença ao ponto de passar à frente dos outros.

No entanto, há circunstâncias de corrida, ele é um excelente ciclista. O Vingegaard pode desmotivar se perder muito tempo, o Pogačar pode ter um dia mau. Ainda não se pode tirar o Evenepoel da luta pela vitória, mas pelo que vimos, ainda tem muito que melhorar para chegar ao nível dos outros dois.

Quais são as revelações deste Tour?

O novo camisola amarela, Ben Healy (EF Education-Easy Post), mostrou que é um ciclista extraordinário. É o ano dele. Quando vences uma etapa e lideras a Volta a França é claramente uma grande época. É super ofensivo e está numa nova dimensão da sua carreira.

Também o francês Kévin Vauquelin (Arkéa-B&B Hotels), que está no sexto lugar da classificação geral e fez segundo na Volta a Suíça, atrás do João Almeida. É um dos melhores puncheurs do mundo e um ótimo contrarrelogista, ainda que vá quebrar na alta montanha.

E diria também o britânico Oscar Onley (Team Picnic PostNL) e cuidado com ele na classificação geral. Está no sétimo lugar, não é conhecido do grande público. É um excelente trepador, muito polivalente e muito regular neste Tour. Com tantas baixas nesta Volta a França, ele pode alcançar um "top-5", o que seria inacreditável porque tem apenas 22 anos.

Na luta dos "sprinters", o melhor tem sido Jonathan Milan (Lidl-Trek) ou Tim Merlier (Soudal Quick-Step)?

Diria que os números falam por si: duas vitórias para Merlier, uma para Milan. Parece-me que Merlier é o melhor sprinter do mundo.

E no dia que vence Milan, Merlier teve um problema e não sprintou nas melhores condições. Merlier também não tem uma equipa totalmente dedicada a ele porque divide a liderança com Evenepoel, que luta pela geral. É explosivo, tem uma grande leitura de corrida. Pode não ter a potência de Milan, mas pela leitura das trajetórias, é o melhor sprinter do mundo.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque