Entrevista Renascença

Nelson Oliveira: "No Angliru é praticamente cada um por si, a equipa não faz nada"

05 set, 2025 - 12:00 • Eduardo Soares da Silva

O veterano ciclista português já subiu o Angliru em quatro ocasiões e explica a dureza da montanha que João Almeida tem pela frente nesta sexta-feira. Nelson Oliveira assume desejo de continuar na Movistar, mas sem obsessão para igualar o recorde de grandes voltas terminadas de forma consecutiva.

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Não há equipa que consiga ajudar João Almeida na dura subida do Angliru, nas Astúrias, que o pelotão da Volta a Espanha vai subir, esta sexta-feira, na 13.ª etapa.

A falta de apoio ao português tem sido tema de debate aceso nesta Volta a Espanha. Nelson Oliveira, um dos mais experientes ciclistas portugueses no ativo e com quatro subidas ao Angliru (2011, 2017, 2020 e 2023) explica que o papel da UAE nesta etapa é de poupar Almeida nas duas subidas de primeira categoria antes do Angliru.

"No Angliru, é praticamente cada um por si, a equipa não faz nada. Depende simplesmente da capacidade de sofrimento de cada um e das pernas", avalia, à Renascença.

Os 12,4 quilómetros de distância não são a grande dificuldade do Angliru, segundo o veterano português. O que custa é a inclinação: "Há um quilómetro infernal, que chega aos 21% de média."

Vingegaard e Almeida já travaram batalha nesta mesma subida na Vuelta de 2023, uma competição totalmente dominada pela Visma. Na altura, o dinamarquês deixou Almeida a quase um minuto de distância, mas este ano as contas são outras.

"Na altura o João não estava tão forte como está agora. Sei que o João está forte e motivado, não me parece o Vingegaard do Tour. Vai ser uma subida bastante difícil, é mais propícia a um Vingegaard, que é um pouco mais leve que o João, mas acho que ele se vai conseguir defender. O João coloca o seu ritmo, não olha muito para os rivais, vai consigo mesmo", prevê.

Aos 36 anos, Nelson Oliveira está em final de contrato com a Movistar e revela que está em conversações para continuar na equipa espanhola que representa desde 2016.

O português terminou o Tour deste ano, a 22.ª participação concluída em grandes voltas consecutivas, sem qualquer desistência. O polaco Sylwester Szmyd terminou 23 e o recorde poderá ser igualado: "Espero que aconteça, claro, mas não estou obcecado com isso."

O quão difícil é a subida do Angliru, que tem a reputação de ser é das mais difíceis no circuito profissional na Europa...

É uma subida diferente, a inclinação é que faz a diferença. Não é muito longa, mas a pendente que tem é muito íngreme e o quilómetro que tem a 21% é bastante duro. O que vem antes faz diferença, não é só a subida em si, é o que há antes e que define quem chega ao Angliru mais fresco.

Pode descrever a subida em si?

O início não é assim tão duro, depois há umas rampas de pendente muito exigente, depois alivia um bocadinho. Há um quilómetro infernal, chamamos-lhe o caminho das cabras.

O Nelson fez essa subida quatro vezes na Vuelta. Que memórias tem desta subida?

Como não sou trepador e não tenho de disputar as etapas, chego ao Angliru já com o trabalho feito. Nunca cheguei numa fuga para disputar essa etapa. O público ajuda-nos a subir tal montanha, que é muito dura.

Tenho boas recordações, nunca cheguei num estado de extremo cansaço, pude subir relativamente bem. Neste tipo de etapas, temos outros andamentos na bicicleta que nos permite ir com uma pedalada diferente de outras subidas e isso ajuda.

É ir quase a desfrutar do ambiente?

É tentar chegar com o mínimo sofrimento, mas vamos a sofrer, claro. Temos sempre de sofrer numa subida destas, então se estivermos perto do 'time-cut', então é a sofrer sempre até lá acima. O que é engraçado é que não descemos de bicicleta, descemos sempre de carro e temos de esperar que o último corredor chegue para que depois todas as equipas possam descer nos carros.

Em 2023, estavam o João Almeida e o Vingegaard na subida do Angliru. O Vingegaard ganhou quase um minuto. Podemos tirar daí algo para hoje, ou são momentos diferentes?

O João não estava tão forte como está agora. Não tenho visto valores certos, mas sei que o João está forte e motivado. Não me parece o Vingegaard do Tour. Vai ser uma subida bastante difícil, é mais propícia a um Vingegaard, que é um pouco mais leve que o João, mas acho que ele vai conseguir defender-se. O João coloca o seu ritmo, não olha muito para os rivais, vai consigo mesmo. Poderá estar com o Vingegaard.

Tem estado na ordem do dia o apoio, ou a falta dele, que o João Almeida tem tido nesta Vuelta. Numa subida como estas, a equipa faz diferença, ou só as pernas de cada um é que salvam?

Acho que são as pernas de cada um. A equipa é importante antes de chegar ao Angliru, aí tem de o proteger ao máximo, que não se desgaste muito até lá chegar e colocá-lo bem no Angliru. Lá, é praticamente cada um por si, a equipa não faz nada. Não é por aí, diria. Depende simplesmente da capacidade de sofrimento de cada um e das pernas.

Pode ser um dia para a fuga, ou vê as equipas da geral interessadas em controlar?

Acho que têm o interesse em controlar, mas tem sido uma Vuelta bastante aberta a fugas. Tem chegado quase sempre uma fuga, o que significa que estão abertos a isso.

Se estiver alguém perigoso para a geral, diria que é provável a equipa do líder não deixe ganhar demasiado tempo. Se chegarmos ao Angliru com dois minutos, não é nada. Parece bastante tempo, mas no Angliru dois minutos são uns 300 ou 400 metros, vemos o corredor à frente, mas demora até chegar a esse ponto.

O que resta da temporada? Mundiais e Europeus apenas ou ainda há mais corridas pela Movistar?

Espero correr pela equipa ainda. Tive uma pequena lesão numa mão, parti o quinto metacarpo e tenho estado a treinar muito pouco e estou a tentar recuperar o quanto antes.

A ideia era fazer o Mundial, não sei se vou estar em condições de ir, depois espero estar no Europeu, se tudo correr bem, e ainda fazer a última parte da temporada com a equipa, em Itália, onde há muitas corridas.

Está a terminar o contrato com a Movistar. O objetivo é ficar mais um ano?

Estamos em algumas conversações, óbvio que gostaria de ficar e está bem encaminhado. Espero que assim continue.

O que restam de objetivos na carreira? Há o recorde de grandes voltas consecutivas à vista, é por aí?

Isso não é bem um objetivo que tenha em mente. Se acontecer, será bem-vindo, mas não faço por isso. Se vier, será um recorde para se bater e espero que aconteça, claro, mas não estou obcecado com isso. O meu objetivo é desfrutar de tudo isto, ensinar os mais jovens a integrarem-se bem na equipa e por aí fora.

Quanto é que mudou o ciclismo desde que começou a ser profissional até agora?

A adaptação acaba por ser fácil, é uma evolução gradual, nunca passa do oito para o 80, vamo-nos adaptando com os anos a passar. O nível de treino mudou muito, treinamos bastante mais e de forma diferente.

A grande transformação é a nutrição e onde se têm feito grandes diferenças. É o principal fator de toda esta evolução. O material também sofreu grande mudança, sempre que vemos uma bicicleta nova, não sabemos onde vai melhorar, mas há sempre algo para melhorar, 1% faz muita diferença no ciclismo, todos os pormenores contam.

O stress mediático também mudou, a envolvência das redes sociais e da imprensa acabam por acrescentar stress, os ciclistas são cada vez mais jovens, antes começavam o auge com 25 anos, agora aos 20 já ganham um Tour. Só aí vemos que o ciclismo está diferente, aposta-se mais em jovens.

Faz sentido a camisola da juventude ainda ser até aos 25 anos?

[risos] É uma boa questão, algum dia mudarão, acho eu, mas ainda faz sentido.

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