Hóquei em patins

Reinaldo Ventura: "Quem criticou agora tem de estar calado. O Paulo Freitas ganhou, concordando ou não com as escolhas"

08 set, 2025 - 12:45 • Eduardo Soares da Silva

Portugal venceu o Europeu de hóquei em patins, o que não acontecia desde 2016, uma caminhada questionada desde o arranque, com dúvidas lançadas à convocatória e ao mérito do triunfo final. Qual é o estado atual da modalidade e, quando a poeira assentar, o que se pode fazer para a melhorar?

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Foi um Europeu de hóquei em patins envolto em alguma polémica, do início ao fim. A seleção nacional venceu o troféu pela primeira vez desde 2016 - a segunda neste século -, mas não faltaram críticas à seleção orientada por Paulo Freitas, desde a convocatória até ao mérito do triunfo.

Reinaldo Ventura, antiga lenda do hóquei em patins e figura da última vez que Portugal venceu o troféu, acredita que só resta "estar feliz" com o triunfo.

"Foi feito um grande trabalho. Concordando ou não com as escolhas do Paulo, a realide é que ele ganhou", disse, à Renascença.

Ainda antes do torneio, o Benfica atacou a convocatória do selecionador por não ter incluído João Rodrigues, Pedro Henriques e Gonçalo Pinto, relacionando com o regresso do técnico ao FC Porto.

"É difícil encontrar um dez que agrade a todos. Se leva os mais velhos, é porque não aposta na juventude, se aposta leva juventude é porque não aposta os melhores. A crítica faz parte e hoje em dia é muito fácil, basta ter um teclado, até de pessoas que se calhar nunca viram hóquei", defende Reinaldo Ventura.

Portugal perdeu todos os jogos da fase de grupos, mas o modelo da competição previa o apuramento de todos os clubes para os quartos de final, que acabaria por levar à vitória de Portugal.

Após a final, o treinador português Nuno Lopes, que é selecionador de França, afirmou que "não vê mérito nenhum" na conquista nacional.

"Uma equipa que vence apenas um jogo num Campeonato da Europa não pode ser campeã, é a minha opinião", afirmou.

Ventura compreende as vantagens e desvantagens do formato atual do Europeu, mas acredita que as críticas deveriam ter sido feitas antes da competição: "Ele já conhecia as regras do jogo desde o início do Europeu, se não concordava - e falo de cor porque não sei se o disse - deveria ter mostrado o desagrado antes de começar, não depois da final."


Portugal não vencia o Europeu há quase uma década. Fazia falta esta conquista?

Ganhar faz sempre falta. Uma equipa como Portugal que vive teoricamente com o melhor campeonato do mundo, tem obrigatoriedade de estar mais perto da vitória. Felizmente, conseguiram. Foi muito bom para o hóquei português, só vejo pontos positivos.

Gosta deste formato, que permite perder os jogos todos no grupo e passar na mesma, ou preferia a liga única e depois os dois primeiros a disputarem a final?

Calculo que este formato seja mais positivo para termos mais jogos competitivos durante a competição. No formato de todos contra todos há muitas goleadas e jogos com algum desinteresse. Há vantagens e desvantagens, assim o campeonato torna-se mais competitivo para todos.

Importante é que todos conheciam as regras desde início. Se concordaram com elas, não faz sentido no fim dizer isto e aquilo. Devem assumir o formato. Todos estavam de acordo, a partir daí têm de aceitar. Se poderia ser melhor, ou diferente, é uma conversa a ter com todos os intervenientes, que caminho queremos para o hóquei e como levá-lo para outro caminho. Há quatro países fortes na Europa, temos de arranjar formas para tornar isto mais abrangente. Aí sim, a opinião de todos fazem falta e aí sim, devemos ter mais atenção a isso.

Como se explicam as derrotas no grupo? Portugal olhou numa vertente de preparação para os jogos a partir dos quartos de final?

Conhecendo os jogadores e o Paulo Freitas, não me acredito que tenham encarado dessa forma. Acho que foi de forma pensada, não levando os jogadores à exaustão, mas em nenhum momento acredito que tenham feito para perder, para jogar menos bem ou para se pouparem.

Contra a Itália, Portugal foi melhor, não teve a sorte do jogo e cometeu erros que levaram à derrota. A França esteve melhor, nada a dizer, foi um jogo mais físico e acabaram por ganhar. Com a Espanha poderia ter caído para qualquer lado.

Na fase final é outra coisa, em jogos que realmente são a decidir, os erros são encarados de outra forma, a forma de entrar à bola é outra, a forma como defendemos é diferente. Aí sim, houve diferença. Jogar para não ganhar não me acredito de forma nenhuma.

Puxando novamente as palavras do Nuno Lopes, o selecionador francês. Compreende como um desabafo de quem acaba de perder uma final?

Tenho o Nuno Lopes como alguém que vive o hóquei, alguém que não gosta de perder e diz o que sente no momento. Acredito que tenha sido muito pelo facto de ter perdido, é uma posição em que poucas vezes a França esteve e é lógico que ele gostaria de ficar na história como a primeira equipa a vencer.

Agora, ele já conhecia as regras do jogo desde o início do Europeu, se não concordava - e falo de cor porque não sei se o disse - deveria ter mostrado o desagrado antes de começar, não depois da final. Acho que as declarações foram muito pelo peso da derrota e não ter conseguido o objetivo principal.

Foi um Europeu que terminou com polémica, mas também começou dessa forma, com o comunicado do Benfica a lamentar a convocatória. Foi uma aposta ganha de Paulo Freitas?

Só temos de dar os parabéns ao Paulo. Se perguntássemos a todos os adeptos e treinadores qual a melhor equipa, a maioria iria ser diferente. É difícil encontrar um dez que agrade a todos. Se leva os mais velhos, é porque não aposta na juventude, se aposta leva juventude é porque não aposta os melhores. A crítica faz parte e hoje em dia é muito fácil, basta ter um teclado, até de pessoas que se calhar nunca viram hóquei.

O Paulo escolheu os que, para ele, eram os melhores dentro do sistema e das variantes de jogo dele. Se é selecionador, temos de apoiar e criticar de forma construtiva, nunca recorrer à crítica fácil.

Quando ganha, quem criticou só tem de estar calado, e quem não criticou deve dar os parabéns. Foi feito um grande trabalho. Concordando ou não com as escolhas dele, a realide é que ele ganhou. Só temos de estar felizes, mais nada.

Como olha para o momento do hóquei em patins, comparando aos tempos em que começou a jogar profissionalmente no final dos anos 90. Pode haver a perceção que o hóquei perdeu espaço. Qual é a ideia que tem?

É lógico que acho que o hóquei tem de se adaptar aos tempos e tem essa dificuldade. A modalidade é muito querida aos portugueses e achamos que isso é suficiente, mas não é. Temos esta preocupação de ser o melhor campeonato, ter os melhores jogadores. Isto é por ciclos, umas vezes é Espanha, depois Portugal, depois Itália. Agora temos nós essa estabilidade e isso é muito positivo.

Temos de acompanhar o crescimento da modalidade com o crescimento da qualidade e é algo que, muitas vezes, não é feito. A opinião de todos é muito importante, acho que esse é o maior problema do hóquei. Há muito pouca gente a decidir e, quem decide, ouve muito pouco os intervenientes do hóquei.

Junto a isso, a modernização e a divulgação. É inadmissível termos o melhor campeonato do mundo e não tê-lo constantemente na televisão. Temos canais televisivos desportivos com cinco ou seis canais e o hóquei não está incluído. Agora há um acordo que um jogo passa, mas a divulgação é muito curta.

É preciso perceber: quem é responsável por isto? É a federação, os canais que acham que não tem interesse? Há muitas vertentes que devem ser discutidas para que o hóquei acompanhe o crescimento mediático. Não podemos estar à espera que cheguem a nós, temos nós de passá-la para o exterior, mostrar o que é hóquei e que continuamos vivos.

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