10 dez, 2025 - 12:25 • Redação
Depois de três décadas dedicadas à competição, João Sousa diz ter sentido “alívio” nos primeiros meses após abandonar o circuito. Atualmente, viaja pelo mundo para ouvir jogadores, representar as suas preocupações e fortalecer a ligação entre os tenistas e a ATP. E garantiu que ver o circuito por dentro surpreendeu-o e mudou a forma como passou a ver a modalidade.
João Sousa despediu-se dos courts a 3 de abril de 2024, no Estoril Open, mas o pós-carreira chegou sem o vazio que muitos atletas confessam sentir. Pelo contrário, descreve aqueles primeiros meses como “ótimos”, marcados por um inesperado sentimento de leveza. “Era algo que eu desejava: desligar um bocadinho do ténis. Foi uma decisão difícil, claro, depois de uma vida inteira dedicada ao desporto, mas também houve uma sensação de alívio físico e mental”, afirma João Sousa.
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O ex-tenista recorda que, pela primeira vez em muitos anos, pôde viver sem rotinas rígidas: “Aproveitei para jantar com amigos, fazer coisas que não fazia há muito tempo… Foram dois meses muito bons".
Apesar da despedida dos courts, não deixou as raquetes totalmente paradas. “Alguns amigos ligam-me para jogar e eu acabo por ceder. E às vezes ainda faço uma perninha no padel, porque a base está lá.”, continua.
A saída não foi repentina. João Sousa admite que “ninguém está verdadeiramente preparado para deixar aquilo a que dedicou três décadas”, mas reconhece que o seu corpo começou a impor limites: “Fiz isso durante 30 anos. Ninguém está preparado para essa decisão. Mas fisicamente já não estava ao nível para continuar. Foi muito meditada e envolveu a minha equipa e a minha família.”, confirma o ex-top 30. Mentalmente ainda estava presente. O físico, porém, acabou por ditar o desfecho.
Ao contrário de outros atletas que enfrentam um vazio pós-carreira, João Sousa encontrou rapidamente um novo caminho e isso não foi por acaso. A ATP abordou-o ainda durante o Estoril Open.
O dirigente da ATP explica que teve “a sorte de, no meu último torneio, um dos diretores da ATP ter vindo falar comigo. Desafiaram-me a integrar a ATP e a desempenhar estas funções [diretor de comunicação dos jogadores].”
No entanto, tal como a decisão de deixar a competição, esta decisão também foi pensada e não aceitou de imediato. De abril a outubro, deu tempo a si próprio, mas a primeira experiência em Wimbledon, durante o verão, convenceu-o. “Queria perceber se era realmente aquilo que queria. E percebi que podia pôr um bocadinho do meu cunho e ajudar os jogadores.”, confessa o ex-tenista.
O novo cargo acabou também por evitar uma das fases mais duras da transição para muitos atletas e pela qual agora ocupa parte do seu trabalho: a vida dos jogadores depois do ténis. “Não passei por esse luto competitivo. Sei que muitos passam, mas tive a felicidade de receber este convite.”, admite.
Estoril Open
O tenista português que venceu quatro torneios ATP(...)
O cargo pode parecer abstrato, mas João Sousa explica-o de forma direta. A sua missão é simples no papel, difícil na prática: ser a voz dos jogadores dentro da estrutura da ATP e, ao mesmo tempo, explicar aos jogadores as decisões da organização.
O reconhecimento do que fez enquanto jogador trouxe-lhe vantagens como “ter a confiança dos jogadores”. E assim, torna-se mais fácil comunicar com os tenistas com a vertente de que “entre jogadores comunica-se de forma diferente de alguém que vem de uma perspetiva mais institucional.”, explica.
O dia a dia implica reuniões internas, contacto permanente com tenistas e viagens constantes: “Viajo para os quatro Grand Slams, para os Masters 1000 e alguns ATP 500. É onde estão mais jogadores e onde posso fazer um trabalho mais abrangente".
Também está a descobrir uma nova faceta, a de gestor e interlocutor. Para o dirigente da ATP “nem sempre é fácil, mas é uma responsabilidade grande representar os jogadores".
Quanto à organização que encontrou “no mundo que é a ATP”, João Sousa garante: “A grande maioria dos jogadores não faz ideia de como a ATP está bem estruturada”.
Nas redes sociais da instituição, o antigo número 1 português disse que aprendeu "mais em quatro dias de trabalho do que em 20 anos de carreira.”. E explicou também que “enquanto jogador, via apenas parte do todo.”.
A visão mudou completamente depois de integrar a instituição, João Sousa percebeu que “o ténis é uma indústria gigante”. E revela que os "jogadores olham muito para o próprio umbigo, porque é um desporto individual. Mas há toda uma máquina por trás que faz isto funcionar".
Neste momento tem em mãos a garantia de consenso entre jogadores e a ATP sobre os Masters 1000 passarem a ter duas semanas. E não está a ser fácil porque, como diz entre risos, “o tenista, por natureza, não é uma pessoa que está conforme com aquilo que tem”.
Um ano depois de ser apresentado em Turim como novo diretor de comunicação dos jogadores ATP, João Sousa viveu um episódio improvável: ajudou Jannik Sinner e Carlos Alcaraz, os maiores tenistas do circuito, a preparar a final do ATP Finals, no mesmo court.
Contudo, não era ele quem ia cumprir essa missão, conta enquanto ri. Mas garantiu que “a experiência vai ficar certamente na memória”. No pequeno tempo que teve conseguiu perceber “o peso de bola incrível que eles têm”, mas também como as raquetes continuam em movimento. Na condição de dirigente, conseguiu compreender, de forma ainda mais clara, as exigências do ténis moderno.
João Sousa vê a modalidade em Portugal com otimismo: “Hoje temos condições para formar jogadores que eu não tive. Temos três tenistas no top 150. Vejo um futuro risonho".
Sobre Nuno Borges, foi cauteloso nas comparações: “Não seria justo comparar carreiras. O Nuno já demonstrou que tem nível para estar na elite. É muito competitivo". Relativamente a Francisco Cabral, que alcançou o 23.º lugar do ranking de pares, foi mais assertivo: “Teve coragem em apostar nos pares, está a colher os frutos. Acredito que pode ser top 10.”
Quanto ao ténis feminino, reconheceu margem de progressão: “Falta um grande empurrão. Há talento, mas precisamos de mais.” E sobre o que falta ao ténis português para crescer, deixa um recado estruturante que a federação não pode esquecer: “O ténis não é só competição, temos de aproximar o ténis das pessoas.”
Apesar de atualmente ocupar um lugar estratégico na ATP, João Sousa evitou grandes projeções, preferindo “viver o presente”. E afirma que está "muito contente" com as funções que desempenha e a aprender muito. "O futuro? Vamos ver.”
Por agora, a missão é clara: fazer a ligação entre a elite mundial do ténis e a estrutura que a governa, um papel que assumiu com o mesmo profissionalismo com que entrou nos courts durante toda a carreira.