Volta a Itália

Recorde de Oliveira, Eulálio ao top-20 e estreante Morgado. Há brilho português no Giro mesmo sem Almeida

08 mai, 2026 - 12:45 • Inês Braga Sampaio

A Volta a Itália arranca esta sexta-feira, na Bulgária, sem João Almeida, mas com três portugueses em busca de objetivos diferentes. Quanto à luta pela geral, há um "ultra favorito", diz Olivier Bonamici: "Jonas Vingegaard tem tudo para esmagar."

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O pelotão da Volta a Itália parte esta sexta-feira para a estrada, para a sua 109.ª edição. João Almeida, que lideraria a UAE Emirates e seria candidato à camisola rosa, abdicou de participar, o que deixa o dinamarquês Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) como único super favorito à vitória na geral. No entanto, há outros portugueses em prova e Bola Branca tentou perceber como poderão desempenhar-se.

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Desde logo, há a perspetiva de recorde de Nelson Oliveira.

Aos 37 anos, o experiente ciclista da Movistar tem a possibilidade de igualar o recorde do polaco Sylwester Szmyd, que competiu entre 2001 e 2015, do maior número de Grandes Voltas concluídas de forma consecutiva. Há 22 Grandes Voltas que o português não desiste a meio e, em Itália, pode chegar à 23ª.

Olivier Bonamici, colaborador da Renascença e especialista em ciclismo, que comenta regularmente no canal Eurosport, realça a "regularidade" de Nelson Oliveira.

"É uma raridade, numa altura em que é um dos esforços mais cansativos que existem, e às vezes há outros ciclistas que entram em 'burnout', o chamado cansaço mental, falado cada vez mais no mundo do ciclismo. E para ter esta regularidade, este profissionalismo, o espírito de sacrifício, mostra um profissionalismo exacerbado. É algo inacreditável", enaltece.

Olivier destaca também o facto de Nelson Oliveira "viver na sombra", ou seja, não ser "conhecido a nível mundial".

"Apesar de ter ganho uma etapa na Vuelta, é um ciclista que vive na sombra dos outros, porque trabalha para os outros. É o chamado 'gregário'. E hoje em dia, ele trabalha para Enric Mas, o espanhol. Aliás, Enric Mas vai-se estrear na Volta a Itália e a presença do Nelson Oliveira deve-se ao facto de o Enric Mas confiar nele, é a prova de que ele faz um bom trabalho. O Nelson Oliveira é uma espécie de bússola, cada vez que veste esta camisola, para os líderes da sua equipa. Para ter uma espécie de segurança social direta da equipa da Movistar", assinala.

Afonso Eulálio pode sonhar com "top-20"

Se Nelson Oliveira é um dos mais experientes ciclistas em prova na Volta a Itália, Afonso Eulálio (Bahrain Victorious) vai participar pela segunda vez.

O jovem português, de 24 anos, destacou-se na edição anterior, tendo sido eleito o ciclista mais combativo da 17ª etapa. Acabou por desistir a meio da etapa 18, a três dias do final da prova, quando estava no "top-5" da classificação de montanha. Agora, já declarou como objetivo, numa entrevista à agência Lusa, lutar por uma etapa.

Eulálio é "um ciclista que está claramente em progressão". Embora o português tenha de trabalhar, no papel, para o colombiano Santiago Buitrago e para o italiano Damiano Caruso, neste Giro, Olivier aponta-lhe um objetivo ambicioso.

"Este é o último ano da carreira de Caruso, está na fase descendente, não oferece nenhuma garantia. E Buitrago é um ciclista que no ano passado passou completamente ao lado nas duas Grandes Voltas em que participou. Ou seja, Afonso Eulálio, à partida, vai trabalhar para os outros dois, mas, tendo em conta as suas qualidades de trepador e que a Volta a Itália é super montanhosa, se o Buitrago e o Caruso não estiverem à altura, eu acho que Afonso Eulálio tem uma palavra, até, a dizer para uma boa classificação geral. Não estou a dizer um 'top-10', que seria milagroso, mas sei lá, talvez um 'top-20', não é de descartar", sugere.

Lutar para ganhar etapas "pode ser complicado, sobretudo se os dois líderes estiverem à altura". Nesse caso, Eulálio não teria a liberdade necessária.

"Para ele ganhar uma etapa ou para fazer uma boa classificação geral, será preciso que os seus dois líderes não estejam à altura. Mas o primeiro objetivo dele, e da equipa, é trabalhar para a Bahrain fazer um 'top-10' na geral", ressalva.

António Morgado é "capaz" de ganhar etapa

Entre os ciclistas portugueses que vão integrar as fileiras do Giro há também um estreante em Grandes Voltas: António Morgado, de 22 anos, da UAE Emirates.

Na ausência de João Almeida, o líder da equipa será o britânico Adam Yates, vigente campeão e para quem os restantes ciclistas irão trabalhar. No entanto, Yates "também não é uma garantia absoluta", aponta Olivier Bonamici.

"É a primeira vez que é o único líder da sua equipa numa Grande Volta. Já foi na coliderança, mas líder assim, de forma tão clara, é a primeira vez. A equipa dos Emirates nunca ganhou uma Grande Volta quando [Tadej] Pogaçar não está. Nunca. Nunca aconteceu. Nem com o João Almeida, nem com o Adam Yates, nem com o Isaac del Toro. Nunca aconteceu. E é evidente que isto muda um pouco os objetivos da equipa", explica.

Ou seja, a UAE Emirates pode estar focada na classificação geral de Yates, mas também é expectável que tente conquistar etapas: "O ADN desta equipa, mesmo quando ela tem um ciclista bem classificado, tirando o Pogaçar, mas vimos no ano passado com o João Almeida na Vuelta, são ciclistas que atacam e caçam etapas. Portanto, acho que o Morgado vai ter alguma liberdade. Com o perfil que ele tem, de 'puncheur', é um ciclista perfeitamente capaz de ganhar uma etapa, sem dúvida."

Vingegaard pode "esmagar" a concorrência

Quanto à luta pela camisola rosa, Olivier Bonamici não tem dúvidas: "Vingegaard não é favorito; é ultra, ultra favorito a esta Volta a Itália."

"No papel, não há grande suspense. Pode ser uma volta aborrecida", confessa o comentador. Ainda assim, pede "cuidado", porque o Giro pode ser "imprevisível".

"Há um italiano que joga em casa, que é o [Giulio] Pellizzari, um jovem de 22 anos, e a Itália pode ser a loucura. Costumo dizer que ciclismo, quando não há, no papel, os melhores do mundo — e nesta Volta a Itália só há um dos melhores ciclistas do mundo, que é o Vingegaard —, são os ciclistas que fazem a corrida", frisa.

Ainda assim, Olivier reforça o favoritismo de Vingegaard: "Tem tudo para ganhar. Ele tem tudo não só para ganhar, como para esmagar a concorrência."

O Giro parte para a estrada esta sexta-feira, com início na Bulgária, ao longo das três primeiras etapas. A partir da quarta, o pelotão palmilhará quilómetros em Itália, com 11 etapas de montanha (cinco de alta montanha), nove planas e um contrarrelógio individual, num total de 21 dias. Roma irá coroar o novo camisola rosa.

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