Entrevista Bola Branca

Paulo Jorge Pereira: “Andam a chamar-me doido desde 2020. Não vou desistir, vou lutar pela medalha"

14 mai, 2026 - 12:40 • Carlos Calaveiras

Afinal, Portugal está perto da medalha? Há ou não há uma Costa-dependência? Quais são os benefícios de acumular seleção e o clube da Roménia? E o que falta ao nosso andebol para andar para a frente? Paulo Jorge Pereira, o selecionador nacional, responde a tudo.

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O treinador Paulo Jorge Pereira está na seleção de andebol desde 2016 e aí vai continuar, pelo menos, mais dois anos. A renovação está confirmada, só falta oficializar. Vão ser dois anos desafiantes até porque Portugal vai ser coorganizador do próximo Campeonato da Europa de Andebol, mas a modalidade não começa nem acaba em 2028.

Em entrevista a Bola Branca, Paulo Jorge Pereira reforça que há muito que já foi feito, e com excelentes resultados, na seleção e nos clubes, mas há também muito por fazer, por exemplo ao nível das infraestruturas.

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Os irmãos Costa do Sporting são excecionais, reconhece o selecionador, mas não há dependência. Importante é a equipa e há exemplos disso.

A vida de técnico de andebol não é fácil, que o diga Paulo Jorge Pereira que, às vezes, tem vómitos à frente ao computador após maratonas a trabalhar. A saúde mental é uma questão, mas vai arriscar mais um ano a acumular a seleção com o Dínamo Bucareste, da Roménia, clube pelo qual conseguiu vencer as competições nacionais do país.

Está confirmada a renovação do contrato por mais dois anos. Foi fácil chegar a acordo?

Foi só uma questão de detalhe. E foi relativamente simples, sim.

Para quando a oficialização?

Tem havido uma certa dificuldade nas agendas. Até pelo facto de eu estar fora do país. Imagino que durante estes próximos tempos, brevemente, será feito o anúncio oficial.

Este vai ser seguramente um período desafiante, especialmente tendo em conta que Portugal vai ser um dos coorganizadores do próximo Campeonato da Europa de andebol.

Nós não podemos pensar que o andebol vai nascer em 2028. Sabemos que é um momento importante porque vamos finalmente poder jogar em casa na fase preliminar e no main round, oxalá. E isso para nós é um plus de motivação porque nunca tivemos essa oportunidade de poder jogar junto do calor daqueles que nos podem ajudar ainda mais. Isso nunca aconteceu, poderá vir em 2028 a concretizar-se essa oportunidade. Portanto, para nós é esse tal plus que é importante, mas, ao mesmo tempo, aquilo que eu digo é que não podemos pensar que nada começa ou acaba em 2028 porque nós temos vindo a fazer tanta coisa que, de facto, foi impressionando muita gente.

Hmm hmm.

Não temos aquela sensação de missão cumprida porque parece que ainda falta sempre qualquer coisinha e nós queremos que assim seja. Queremos ter sempre um motivo e esse motivo está sempre aí. Até porque, como eu lhes digo muitas vezes, nós temos que estar satisfeitos com aquilo que temos feito, mas o que é um facto é que ainda não ganhámos, por exemplo, uma medalha. O motivo está sempre aí, e nós andamos sempre atrás, e sabemos que temos crescido muito, e que agora conseguimos lutar contra qualquer seleção. Portanto, acho que o facto de jogar em casa pode ser visto como mais uma oportunidade, provavelmente com alguma vantagem, em relação às outras que tivemos até agora.

Portugal vem de um quarto lugar no Mundial e de um quinto no Europeu. Estes dois resultados consecutivos aumentam a responsabilidade?

Esse quarto e quinto acabam por ter mais algum impacto, porque sucessivamente temos chamado a atenção de muitos portugueses, alguns até desconheciam que podíamos jogar tão bem andebol, e que pouco a pouco agora vão percebendo que essa modalidade também existe em Portugal. Mas, no entanto, desde 2019... e vou dizer 2019 porque nós aí é que começámos a qualificação para o Euro 2020, onde fomos sextos... é que fomos tendo resultados.

Foi um sexto lugar no Europeu, que depois nos deu acesso ao torneio pré-olímpico. As pessoas não sabem, mas é muito difícil a qualificação para um torneio pré-olímpico. Porquê? Porque implica sempre estar no top-8 mundial ou europeu antes desses Jogos Olímpicos. O que é curiosíssimo é que nós nunca tínhamos estado em nenhum, e agora fomos duas vezes, a dois torneios pré-olímpicos consecutivos.

Portanto, isto que nós temos feito já desde 2019 tem sido sempre muito difícil de conseguir e, ao mesmo tempo, muito apetitoso por termos conseguido. Tirando uma exceção, que foi quando, no Euro 2022, com a questão da pandemia que foi alucinante porque tínhamos casos de covid e foi brutal esta preparação, em ficámos em 19º, creio eu, de resto, sexto, sétimo e quinto em quatro Europeus sucessivos. Tem sido um percurso muito atrativo, muito gratificante. Se eu tiver que me lembrar de um registo, é luta e cansaço. Mas aquele cansaço apetitoso que vale a pena fazer, que dá gosto fazer, que dá gosto ter.

O Paulo já o disse: falta-nos a medalha. Pode ser em 2028?

A mim já me andam a chamar doido e maluco desde 2020 quando eu dizia que era possível ganhar a França. Às vezes perguntava a mim próprio se eu estava louco mesmo ou se estava a ver as coisas direitas. E quando fomos aos Jogos Olímpicos, em Tóquio, eu disse "toda a gente vai lutar por uma medalha, pode não ganhar, pode ficar em último, mas vai lá lutar pela medalha". E eu disse-lhes que nós tínhamos que lutar pela medalha. E estivemos muito perto de poder avançar para a fase seguinte. Não foi um golo, foi um terço de golo.

Nós, em três jogos, se tivéssemos feito mais um golo, passávamos para a fase seguinte e ficaríamos perto de poder lutar por uma medalha. Acabámos por não o conseguir fazer, mas o que é certo é que, depois, os anos seguintes, vieram-nos dizer que, com essa meia-final que tivemos, acabaram por certificar aquilo que eu tenho vindo a dizer: se nos prepararmos bem, nós temos jogadores de elevada qualidade. E já desde 2020, não só agora.

...

Se nos prepararmos melhor, se cuidarmos melhor de tudo o que é logística, que conduz depois a melhores performances, tudo isso vai ajudar a que possamos ser mais competitivos. E o ser mais competitivo pode ser estar perto de ganhar uma medalha. Eu não vou desistir. Nunca o fiz e vou continuar a lutar. E a tentar também que... Não é tentar, que eu não gosto da palavra tentar. Tratar de arrastar as pessoas que estão ao meu redor. Arrastá-las comigo para lutar por um objetivo que é espetacular. É aquilo que nos faz levantar amanhã mais cedo e trabalhar mais.

Portanto, enquanto esses objetivos estiverem lá, eu acho que vale a pena lutar por eles. É isso que vamos tratar de fazer, que é lutar por chegar o mais alto possível e a medalha está sempre aí como possibilidade.

O processo de renovação da seleção tem decorrido com alguma tranquilidade nesses últimos anos. Imagino que seja um processo para continuar.

Imagino que nas outras modalidades também seja parecido, não sei. Há muita gente que trabalha desde a identificação dos jogadores até ao alto rendimento. E aquilo que eu digo sempre é que nós, sendo o país que somos, não podemos falhar. E quando digo falhar é não podemos falhar na identificação do jogador e, nas poucas pessoas que nós temos, tentamos ter um grupo preparado. E felizmente temos conseguido, em determinados momentos, colocar esses jogadores mais jovens também a competir. Desde que não seja numa fase final, pode ser como fizemos agora contra a República Checa. Há um mês e meio, acabámos por ter uma seleção jovem a ganhar à República Checa, com uma semana de preparação. Foi uma semana extraordinária para mim. Gostei muito de trabalhar com este grupo, de muita gente nova. E isso nós vamos fazendo, essa integração. Mas a verdade é que nós não podemos falhar na questão da identificação dos jogadores que têm um bom perfil porque temos um grupo muito reduzido de atletas de alto nível.

Certo.

Claro que, felizmente, já vamos tendo cada vez mais gente a jogar em campeonatos competitivos. Era impensável há 10 anos termos a quantidade de atletas e de treinadores também a trabalhar fora do país. E, neste momento, eu acho que também os clubes, que têm sido bastante competitivos nas competições europeias, sobretudo o Sporting, que fez duas participações fantásticas na Liga dos Campeões, e a prestação da seleção masculina, e das seleções mais jovens, também, masculinas, tudo isto tem alavancado um pouco a possibilidade de as pessoas fora do país olharem para Portugal como pessoas que valem a pena neste desporto. Todo este conjunto de fatores acabam por ajudar a que o andebol esteja cada vez mais competitivo.

É inevitável falar nos Irmãos Costa [Francisco e Martim]. Eles têm estado em destaque nos últimos anos, quer no Sporting, quer na seleção. Há alguma dependência excessiva em relação a eles?

Não, não. Eu recuso completamente essa questão da ‘Costa-dependência’. Agora, a verdade é que são jogadores de grande valor, mas, muitas vezes eles não estão e nós conseguimos qualificar. Claro, quando eles estão, o nosso rendimento ainda pode ser maior. Eles fazem coisas de outro mundo ao jogar andebol.

Eu não gosto muito de individualizar porque se nós não conseguimos ver uma equipa como uma equipa… Se começamos a ver uma equipa como os jogadores A, B ou C, e um conjunto de jogadores é um conjunto de jogadores. Uma equipa é uma equipa. É muito mais valiosa.

Eu não consigo conceber a nossa seleção sem o Rui Silva, se tivermos que falar de nomes, embora esteja a cometer um erro outra vez, não consigo conceber a seleção sem o Luís Frade. O Luís Frade foi um jogador de quem falámos muito pouco, mas é o jogador mais titulado da nossa seleção. O Luís Frade, neste momento, é um dos melhores pivôs do mundo e joga no Barcelona. E, portanto, nós não podemos esquecer estes jogadores.

Eu já sei que os irmãos Costa sobressaem muito porque eles são impressionantes a jogar andebol, mas sem estas pessoas e mais algumas que eu poderia falar… O Vítor Iturriza foi considerado o melhor pivô do mundo no último Mundial. Aquele golo contra a Suécia, nos últimos segundos, se não tivéssemos o Martim Costa, provavelmente já não tínhamos ganho esse jogo porque ele faz coisas impressionantes.

Agora, eu, sinceramente, não gosto muito de dizer “se tivéssemos aquele jogador, podia ser diferente”. Podia. Mas isto, para mim, é fundamental que as coisas sejam vistas sempre em torno de um grupo de pessoas, de uma equipa, e cada um tem o seu papel dentro da equipa, e cada um é importante. Ninguém é invisível. É por aqui que nós vamos. Agora, claro, há sempre alguns atletas que, em determinados momentos, se destacam mais do que outros, mas não dependemos de ninguém… nem do treinador. Não dependemos de ninguém, nem do treinador.

Tem-se falado muito que os irmãos Costa podem sair do Sporting no final desta época. Do ponto de vista do selecionador, é indiferente que eles joguem no Sporting ou num qualquer clube alemão, por exemplo?

É difícil responder a essa questão. Haverá sempre prós e contras. O campeonato alemão, por exemplo, é um campeonato em que, hoje em dia, discute-se muito a questão do número de jogos que os atletas que jogam na Bundesliga fazem por ano. Eles jogam até entre Natal e a passagem de ano porque têm uma visão muito mercantilista da coisa. O ano passado, por exemplo, houve uma imensa onda de lesões na Bundesliga, porque é uma brutalidade a quantidade de jogos a que são submetidos.

Portanto, há uma vantagem em jogar na Bundesliga, porque é o melhor campeonato do mundo, é o campeonato mais exigente, com maior visibilidade, mas também tem estas desvantagens que, depois, em termos de seleção, podemos sofrer com isso. Eu, enquanto selecionador, acho que tem que haver um certo equilíbrio nestas coisas, mas, claro, para mim, será sempre relativamente secundário onde jogam os jogadores. Mal seria se eu tivesse que ter uma opinião sobre isso. Cada um segue o seu percurso, a sua vida, e depois, aquilo que me compete é só tentar ter sempre as pessoas que estão em melhor estado de prontidão para representar a seleção em determinados momentos.

Certo.

Mas admito que, algum dia, um atleta tenha essa ambição de poder jogar sempre em campeonatos mais competitivos, mas não é obrigatório que um jogador tenha que ir para fora de Portugal para podermos pensar que está a dar um salto enorme. Felizmente, em Portugal também se pode jogar bem andebol, embora, claro, que no campeonato existe um certo desnível Sporting, FC Porto, Benfica comparando com as outras equipas. Se falamos na Alemanha, todos os fins de semana são sempre jogos de alta rotação e aquilo implica que os jogadores que jogam na Bundesliga estejam sempre a 200% fisicamente.

É como eu digo, há prós e contras. Neste caso, eu, como selecionador, só desejo que todos se sintam bem onde estão e nas escolhas que fazem, porque o estarem felizes, para mim, já é fantástico, na hora de os convocar, é bom é que eles venham felizes e não venham tristes por qualquer motivo.

Há uns meses, a Renascença falou com o seu amigo Anselmo Ruiz, o analista de dados espanhol, que nos disse que acha que o Francisco Costa está destinado a “reescrever o jogo”. É uma declaração muito ousada ou o Kiko está mesmo neste nível?

Não, não é ousada, porque o Kiko e o Gidzel são jogadores que fazem coisas que, às vezes, nós não conseguimos entender como é que eles conseguiram fazer aquilo. Têm uma disponibilidade e uma capacidade de decidirem em determinados momentos do jogo e compreendem o jogo, estão sempre um bocadinho à frente de quase todos.

Portanto, quando ele diz reescrever o jogo, é estar um pouco à frente do jogo normal, daquilo que nós sabemos normalmente. E eles já fazem algumas coisas, ao nível das fintas, ao nível da tomada de decisão, que, às vezes, superam o jogo tradicional. Eu creio que foi por causa disso que ele se referiu à questão de reescrever o jogo.

Anselmo Ruiz também nos contou o truque que ajudou a derrotar a Dinamarca no Europeu: ter ataques mais lentos. Como é que incorporou esta ideia no seu jogo? Resultou.

Sim, desta vez sim. Nós também fizemos a mesma coisa quando jogámos com eles no último Mundial e não resultou. Porque não conseguimos ficar fiéis àquilo que tínhamos programado. Isto tem a ver com a questão do ritmo de jogo. Nós sabemos que o big data trabalha com dados. Ele foi-me dando algumas informações acerca de várias coisas, uma delas foi esta questão da Dinamarca. Ele dizia-me "se vocês tiverem X posses de bola contra a Dinamarca, entre estes valores e estes valores, o mais certo é perder. Se vocês querem a probabilidade de perderem é esta. E se vocês conseguirem reduzir o ritmo de jogo, ou seja, aumentando o tempo de ataque, vai haver menos posses de bola”.

Hmm.

E nós conseguimos ficar um pouco mais fiéis a isto. Começámos com o ritmo de jogo elevado logo no início, mas nós estávamos a comunicar entre nós e disse "aqui e aqui vamos tentar andar neste ritmo de jogo, aqui e aqui podemos aumentar". Depois até não foi exatamente aquele plano que seguimos, mas claramente percebemos que os nossos tempos de ataque foram mais elevados. Conseguimos planificar cada ataque com mais tempo de posse de bola.

Claro que não foi só isso que explicou [a vitória]. O Gidzel falha dois remates num momento que normalmente não falha, também teve a ver com o facto de a Dinamarca não ter sido tão eficaz. E do Pedro Tonicher, por exemplo, se lhe perguntarmos "tu consegues defender dois remates seguidos ao Gidzel?” Ele vai logo dizer que não, mas naquele jogo defendeu. Nós estivemos muito eficazes ofensivamente também, cuidado. Houve uma série de fatores e a questão do ritmo de jogo foi mais um fator e foi importante. Tudo junto, acabou por dar um resultado positivo contra aquela que eu acho que é a melhor seleção do mundo neste momento.

Portugal derrotou mesmo a melhor seleção do mundo. Terá sido o ponto alto da seleção portuguesa e do selecionador Paulo Jorge Pereira?

Eu acho que nós temos que ser pragmáticos. Acho que aquele dia, aquele jogo, foi um dos melhores jogos que nós fizemos na vida da seleção. Isso é seguro. Mas houve tantos momentos altos que a nossa seleção teve. Eu não sei se esse até foi o melhor, sinceramente. Eu não me esqueço quando nós ganhámos à França e nos apurámos para os Jogos Olímpicos. Eu não me esqueço, em 2021, depois de ter perdido por um com a Croácia, num jogo altamente discutido em termos do que é a prestação arbitral, que no dia seguinte conseguimos ganhar à França em França.

E aquele jogo em Guimarães que também ganhámos a França por sete golos quando a França era campeã mundial, campeã olímpica, campeã da Europa, e nós ganhámos por sete golos. Portanto, há muitos momentos em que nós tivemos uma prestação excepcional em que é difícil destacar um. Claro que este é mais chamativo, é o ganhar à melhor do mundo, mas houve muitos momentos importantes e extraordinários que a nossa seleção fez. Este foi mais um.

O Paulo acabou de se sagrar campeão nacional na Roménia, com o Dínamo de Bucareste…

Não fomos só campeões, foi o triplete. Fomos campeões, ganhámos a taça e tínhamos ganho também a Supertaça no início da época. Portanto, foi o triplete. E eu já sei que, teoricamente, o Dínamo na Roménia é a equipa mais forte. Teoricamente, tem que ganhar, é obrigatório. Mas o problema é que toda a gente quer ganhar ao Dínamo, toda a gente quer ganhar ao mais forte. E, às vezes, aquilo que aparentemente pode ser fácil, não é assim tão fácil. Foi extraordinário para nós.

Eu acho que nunca tinha feito o triplete. No FC Porto, há muitos anos, quando eu era treinador, também conseguimos o Campeonato Nacional, uma Taça de Portugal e duas Taças da Liga. Isto em três anos, mas nunca em simultâneo. Portanto, este ano tive esta oportunidade de poder, em simultâneo, num clube, conseguir ganhar os três títulos. Estou orgulhoso.

Isto de acumular clube e seleção não tem sido um problema, nem para si, nem para a federação. Como é que isto se consegue?

Há muito poucos casos. O problema tenho eu porque, como sabe, esta vida de treinador é uma vida… vou dizer que pode ser longa, até pode ser longa, mas… eu tenho 61 anos, portanto, para nós podermos fazer as coisas bem feitas, temos que ter energia e levantar cedo, como eu faço todos os dias. Enquanto eu conseguir fazer isto, farei. Mas os treinadores, como eu, que são muito poucos, que acumulam uma seleção de alto nível – nós, neste momento, já podemos dizer que Portugal é uma seleção de alto nível – e uma equipa que joga nas competições europeias, como é o caso do Dínamo, isto, para a saúde mental e física, mas, sobretudo, para a saúde mental, tem momentos exigentes, tem momentos muito difíceis. Veja o caso do Talant Dujshebaev, que agora vai para a seleção francesa, mas, há uma semana, despediu-se do clube, o Kielce.

...

Eu vou arriscar mais um ano e acumular uma seleção com um clube porque, bom, nós não somos treinadores de futebol. Não ganhamos aquilo que ganha um treinador de futebol. E quando nos surge a oportunidade de poder consolidar um pouco, em termos financeiros, a vida das nossas famílias, pois nós aproveitamos. Eu estou consciente dos riscos. Recentemente, comecei, outra vez, a ter vómitos ao olhar para o computador. Esta sensação também a tive o ano passado, a seguir ao Mundial. Quando cheguei à Eslovénia, quando estava a trabalhar no Celje, durante uma semana olhava para o computador e tinha tonturas e apetecia-me vomitar.

Em Portugal, eu sei que há muita gente que tem consciência daquilo que faz o treinador para preparar uma competição e um jogo e para preparar a equipa para poder render ao máximo, mas eu sei que a maior parte das pessoas não tem ideia nenhuma do que é que nós fazemos.

Eu recordo-me uma vez o meu tio, que mora ali perto de Amarante, que me perguntava “mas o que é que tu fazes?". Há pessoas que pensam que nós chegamos ao treino, damos uma bola à rapaziada e agora toca aí a jogar. E nós ficamos ali sentados na cadeira a vê-los.

Isto é um percurso também que todos os nossos dirigentes, todos os nossos políticos, todas as pessoas que tomam decisões valentes para o desporto nacional têm que perceber o que é que faz o atleta e o que é que faz o treinador para se preparar para competir. E eu tenho a certeza que quando nós conseguimos elevar o número de pessoas que entendem o que é que faz o treinador e o atleta para poder competir ao mais alto nível, tudo vai ser mais facilitado em termos do que é tudo o que rodeia a performance do atleta e do treinador.

...

Neste caso do ‘acumular’, eu se pudesse, não acumulava. Mas também tenho consciência de outra coisa: os meus melhores resultados com a seleção aconteceram quando eu estava a acumular com equipas. Porquê? Eu tenho a seleção dois meses por ano, tudo o resto é trabalho de observação de atletas, é trabalho de dar seminários, ou seja, em dez meses, mais ou menos nove meses, eu faço tudo menos estar a treinar dentro do campo com a equipa e a jogar. E isso tira estado de prontidão ao treinador.

Atenção que houve anos em que também tivemos bons resultados quando eu não estava a acumular. Eu recordo-me do sexto lugar em 2020 e eu não estava a acumular, tinha acumulado no ano anterior, portanto, não é obrigatório, mas eu sinto-me mais em forma. Eu recordo-me quando não estava a acumular, às vezes, e pedia aos jogadores "vocês têm que ter uns dias de paciência para eu me ambientar à minha nova tarefa, que é estar aqui no terreno, a mexer para trás e para a frente, com treino de manhã e à tarde". Há aquela adaptação que é preciso fazer até ao nível da observação do jogo. O facto de estarmos ali no banco, há muitos detalhes que acontecem no jogo que se nós não estivéssemos treinados, se os nossos olhos não estiverem treinados para poder observar esses detalhes, leva-nos mais tempo, custa-nos mais.

Portanto, por um lado, a questão financeira obriga-me a acumular, arrisco um pouco a saúde mental, por outro lado, também me sinto mais em forma quando acumulo para ir à seleção. Eu quero ter bons resultados, enquanto eu puder manter-me assim, pois muito bem. Quando eu vir que já não dá, pois não dá. Mas, para já, tem corrido bem.

Portugal já tem vários jogadores no estrangeiro. Gostava de perceber se há, como no futebol, algum programa que lhe permita ver jogos.

Eu pago para ter acesso às plataformas, não é assim tanto dinheiro que eu tenho que pagar para poder ter acesso e ver todos os jogos dos atletas que jogam no estrangeiro. Por exemplo, os jogos em França vejo na Andebol.tv, pago uma mensalidade e posso aceder aos jogos todos. Aqui, na Roménia, nós temos uma plataforma, mal acaba o jogo é logo colocado na plataforma. Na Alemanha também se paga para poder aceder. É isso que eu faço.

Agora, alguns jogos eu vejo em direto. Aqueles jogadores que pertencem à lista que normalmente estão presentes, eu vejo quase todos os jogos. Todas as semanas vejo o jogo do Porto, vejo o jogo do Sporting. Em França também é mais ou menos fácil de seguir as estatísticas porque a federação francesa disponibiliza as estatísticas, tem um site impressionante, é fácil seguir.

No campeonato português o Sporting tem sido a equipa mais forte dos últimos anos, acabou de se sagrar tricampeão, depois o FC Porto, que está muito perto, e o Benfica não tão perto. O campeonato tem conseguido manter um bom nível?

Sim, nós em Portugal, mesmo com as equipas que estão um bocadinho mais abaixo da tabela, também conseguimos assistir a alguns bons jogos, não se joga mal em Portugal. No entanto, nota-se que há uma diferença acentuada entre aquelas três e as restantes. Tem muito a ver com a questão financeira. Não é fácil encontrar formas de ter melhores orçamentos para poderem também ter melhores atletas.

Nós vamos a França ou à Alemanha e cada jogo é um espetáculo, não é só o jogo. Eles em França até chamam o ‘troisième temps’, que é o terceiro tempo. A terceira parte o que é? Acaba o jogo, a conferência de imprensa é dada numa sala com mesas altas em que as pessoas compraram o jantar e bebem vinhos de altíssima qualidade, depois veem os atletas todos, estão ali um bocadinho com os patrocinadores, com os fãs que compraram o seu jantar e depois vem o treinador dar a conferência de imprensa em direto, num palcozinho.

Certo...

Portugal, se quer consolidar em termos de andebol, tem que olhar para estes exemplos e nem que seja de uma forma não tão sumptuosa como esta. Tentar arranjar formas de trabalhar algumas iniciativas deste género que atraiam as pessoas ao pavilhão. E depois há a questão das infraestruturas. Nós andamos lá fora há muitos anos e vemos como é, quais são as condições de trabalho que aquela malta tem. Eu tenho muito, muito respeito por todos os clubes em Portugal e todas as pessoas que trabalham nos clubes que têm menos poder económico, que não conseguem ter um pavilhão melhor. Não é muito agradável ir assistir a um jogo de andebol quando lá dentro estão zero graus ou 40 graus. Não é possível, até por uma questão de saúde para os atletas. Ninguém vai ao cinema com zero graus ou com 40 graus. Alguém vai ao cinema com essa temperatura? Ninguém.

Portanto, é um caminho a percorrer. Claro que os clubes são aqueles que têm menos poder de decisão nesta área das infraestruturas, mas Portugal, de uma vez por todas, tem que pensar um pouco e dizer “se calhar esta malta precisa de ter melhores condições de trabalho". Quantos jogos foram adiados este ano porque o piso estava impraticável por causa da humidade? Nós estamos a falar disto, é preciso que as pessoas comecem pouco a pouco, nem que seja por uma questão de meritocracia, ou seja, vamos começar de cima para baixo.

Os clubes que conseguiram atingir um nível bom temos que os ajudar mais. Temos que arranjar uma forma entre câmaras e todas as organizações possíveis e imaginárias, tem que haver uma forma de ajudar mais estas pessoas para que haja uma prática mais digna. Há muita coisa a fazer para nós podermos consolidar o andebol como um produto a vender e agradável de seguir. Quando vamos ao Dragão ou quando vamos ver um jogo do Sporting ou do Benfica aquilo é agradável, claro, são pavilhões com estruturas boas, mas há muitos outros que não são assim.

Aqui há uns meses, a propósito de infraestruturas, a Renascença falou com o presidente da federação de basquetebol e ele queixava-se de que em Portugal não há um pavilhão que permita organizar um Europeu ou um Mundial de modalidade nenhuma porque não há pavilhões de 10 mil lugares. A este propósito, o Benfica vai alegadamente avançar com o Benfica District que inclui um pavilhão de 10 mil lugares. Independentemente do clube que avance com uma proposta destas, este é um passo importante?

É um passo obrigatório. Agora, vamos lá ver: vamos construir um pavilhão com 10 mil lugares só para as equipas irem lá treinar e jogar? Não. Vamos construir um pavilhão com 10 mil lugares onde eu também possa fazer alguns eventos e, se calhar, até nem treinamos naquele pavilhão, treinamos uma ou duas vezes e o resto dos dias é para eventos. Essas estruturas pagam-se elas próprias quando são bem pensadas. Portanto, é um caminho a percorrer mas, lá está, há zonas do país em que não é preciso 10 mil lugares, é preciso só uma estrutura em que as pessoas não tenham que adiar jogos porque está humidade ou porque está frio ou porque está calor. Isso é o primeiro passo.

Aqui há uns anos construíam-se pavilhões sem estruturas de apoio, como por exemplo um ginásio. Hoje em dia isso é impensável, construir um pavilhão sem ginásio, porque não é possível jogar andebol sem podermos fazer trabalho de força. Só dei o exemplo do ginásio, podia continuar e falar em salas de recuperação, salas de trabalho, salas de reuniões, tudo isso é preciso num pavilhão, não é só um pavilhão. Eu já tenho 61 anos, mas acho que ainda vou conseguir ver o meu país com estruturas mais sérias de trabalho. Já existem algumas, mas tem que haver mais.

Deixe-me, para terminar, falar da política de comunicação da federação de andebol durante as grandes competições. Há uma grande abertura, os jogadores falam com os jornalistas nas vésperas dos jogos e isso nunca impediu a seleção de ter bons resultados. É um exemplo que poderia ser seguido por outras federações

Eu recordo-me que quando a Ana Teixeira [departamento de comunicação da federação] fez um vídeo com a seleção com a música de Jorge Palma fui eu que lhe dei a ideia e ela fez isto durante uma competição. "Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar" e conseguimos chamar um pouco a atenção porque isto é uma mensagem fortíssima. Também tivemos o Buba Espinho – ele jogou andebol – e eu andei atrás dele durante meses para ele vir a um treino nosso, ele treinou connosco um bocadinho, almoçou connosco, trouxe a viola e tocou para nós alguns temas, foi espetacular. Nós não nos podemos dissociar e andar numa bolha. Claro que nós falamos antes, há um programa de treinos e reuniões e depois há sempre aqueles momentos para a comunicação social. Tenho direito de veto, mas é raro eu interromper alguma iniciativa que [a comunicação] tenha tomado.

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