4ª Conferência Bola Branca
A fadiga mental no desporto: "As emoções começam no indivíduo, mas propagam-se de uns para os outros"
26 mai, 2026 - 11:25 • Carlos Calaveiras
A dois dias da Conferência Bola Branca, a Renascença conversa com Pedro Almeida, psicólogo do desporto. Em cima da mesa, os desabafos de Rui Borges e Sudakov, a história de Fernando Mamede e como as mortes de Jorge Costa e Fehér afetaram o grupo.
Pedro Almeida, psicólogo do desporto e professor no ISPA, é um dos coordenadores do livro “Intervenção Psicológica em Contexto Desportivo", juntamente com João Lameiras e António Rosado.
Em conversa com a Renascença a dois dias da Conferência Bola Branca, na quinta-feira, que trata "A Exclência no Futebol", este especialista comenta alguns casos recentes do desporto tendo por base a sua experiência de mais de 20 anos a trabalhar com atletas.
O "cansaço mental", a "falta de vontade" de jogar ou as "equipas técnicas invisíveis" são alguns dos temas abordados em Bola Branca.
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Antes de irmos ao livro que levou a esta conversa, deixe-me dar alguns exemplos de situações que aconteceram recentemente. O treinador do Sporting, Rui Borges, chegou a queixar-se, após um período de cinco jogos sem vencer, que mais que o cansaço físico, sentia os jogadores cansados mentalmente. Esta é uma questão que pode mesmo afetar o rendimento dos jogadores?
Objetivamente, a resposta é sim. Ou seja, a fadiga mental - vamos chamar-lhe assim - obviamente pode afetar porque mexe com o nível de ativação, mexe com o nível de concentração porque a própria concentração é muito afetada pelo nível de ativação que o atleta tem e depois pode mexer em várias outras variáveis, mas que vão por aí fora, desde questões que têm a ver com a capacidade de ter força, energia - vamos chamar-lhe energia -, energia de ativação suficiente para dar a volta a situações mais complicadas que os jogos vão trazendo. Mas eu diria que, se tivéssemos que nos centrar em duas ou três coisas, o nível de ativação, quando nós entramos em fadiga, baixa substancialmente e isso pode afetar diretamente os níveis de concentração. Isto é uma resposta bastante direta e objetiva com impacto direto no rendimento.
Não é por acaso, por exemplo, que em algumas profissões, dou-lhe o exemplo dos controladores de tráfego aéreo, ao fim de duas horas, normalmente têm que fazer uma pausa e os nossos carros ao fim de duas horas dizem-nos para pararmos. Não é por acaso: há uma fadiga que se acumula e que no caso dos jogadores de futebol, com níveis emocionais, com conjunto de questões de exigência física e mental da grandeza que esses jogos tiveram, pode obviamente provocar um nível acima da média de fadiga física e de fadiga mental também, como é evidente. Portanto, eu diria que a resposta objetiva à questão do treinador é que sim, isso pode acontecer. A questão aqui é se pode prevenir ou não. Ou se podia ter antecipado ou não, só quem lá está a ver é que sabe.
Ouvimos muitas vezes que fisicamente os jogadores precisam de 72 horas para recuperar. Este dado também se aplica ao tempo que a cabeça necessita para limpar de um jogo para outro?
Não há dados objetivos sobre isso por uma razão simples, porque isso não se mede dessa maneira. Há uma intersubjetividade muito grande, há uma idiossincrasia muito grande de indivíduo para indivíduo e de situação para situação e é isso que transforma esta área da intervenção psicológica bastante mais complexa do que a intervenção física porque, evidentemente, as coisas não são tão objetivas. Temos que entender o quadro de funcionamento de cada pessoa e depois não nos podemos esquecer que, se estivemos a viver numa equipa, há processo de contágio emocional e, portanto, as emoções começam no indivíduo, mas propagam-se de uns para os outros por contágio, seja mais pelo positivo ou pelo negativo, mas propagam-se. Se vivermos todos juntos um conjunto de coisas, a probabilidade de isso propagar de uns para outros por muita força de vontade que haja no sentido inverso, pode ficar difícil.
O que é que eu julgo que pode acontecer? Duas linhas de atuação: uma de preparação individual de cada atleta, e isso é um trabalho que cada um tem que buscar, de autorregulação e, portanto, de preparação para lidar com situações deste género, antecipando cenários e sabendo o que fazer nesses cenários. E, do ponto de vista coletivo, a mesma coisa, mas implica a própria preparação do treinador neste mesmo processo mental e, portanto, digamos que haver um trabalho específico do treinador primeiro consigo próprio, numa lógica de auto-liderança, de se preparar a si próprio, e depois ter capacidade para antecipar e preparar a equipa para coisas que possam vir dessas situações. Se bem que, como nós sabemos, não se consegue antecipar tudo, mas quanto mais anteciparmos o esperado, menos inesperado temos para lidar, digamos assim.
Curiosamente, na mesma altura, Sudakov, jogador do Benfica, terá admitido a um jornalista ucraniano “desgaste psicológico” e “falta de prazer em jogar futebol”. A ser verdade, não é muito normal ter um jogador a admitir estes problemas. Na sua experiência, conhece casos destes?
Sim, acontece. Não acontece com muita frequência, porque uma das coisas que a maior parte dos atletas gosta de fazer é praticar a modalidade que pratica e tem paixão por aquilo que faz. Mas já tive atletas no passado e no presente que chegam a algumas fases da temporada e estão absolutamente exaustos e só à espera que chegue o último dia para ir de férias. Isso pode-nos chamar a atenção para um tema fundamental que é comum aos atletas, a todas as pessoas, mas quem está e quem vive em ambientes mais tensos, mais intensos, tem que ter cuidado, que é a capacidade de oscilar do ponto de vista emocional, ou seja, ir buscando no seu dia-a-dia pequenas coisas que o façam fazer uma espécie de chill-out para desligar, porque esses mecanismos de oscilação emocional são os que são responsáveis por nós não entrarmos completamente em exausto emocional. No fundo é como se tivesse aquelas panelas de pressão antigas que tinham um pipo e de vez em quando ligamos o pipo para sair ar.
E portanto é um bocadinho esta a ideia. E essa ideia é fundamental para não chegarmos a uma primeira fase da temporada e estarmos completamente exaustos, que acontece frequentemente em março, abril, acontece frequentemente este nível de exaustão muito grande, mas que será tanto maior quanto menos capacidade de regulação energética - vamos chamar-lhe assim - que vamos tendo connosco, fomos fazendo ao longo do tempo. E essa regulação tem muito a ver com pequenas atividades para desligar do quotidiano profissional e ligar em coisas que nos façam sentir bem, que nos façam desligar a cabeça, sobretudo que nos façam desligar a cabeça e que pode ser coisas calmas ou intensas também, mas que nos façam desligar a cabeça daquilo que nos leva para outros patamares de exigência, nomeadamente patamares de elevada ativação, de elevado foco, de elevada intensidade. Portanto, eu diria que se conseguirmos fazer isso, a probabilidade de sentirmos isso que este atleta referiu é menor, mas é provável e é possível, ou seja, é uma coisa que pode acontecer.
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“A Excelência no Futebol” é o tema da conferência (...)
O FC Porto, recente campeão nacional, teve um início bastante traumático da temporada com o falecimento de Jorge Costa. Aparentemente conseguiram transformar essa dor em combustível para o agregar do grupo de trabalho.
Sim, pode acontecer. Eu tive uma experiência parecida no Benfica, em 2004, com a morte do Feher. Eu estava na equipa, na altura, e acompanhei no estádio de Guimarães, a viagem e depois todo o processo que se seguiu e posso dizer que é uma situação que se pode transformar simbolicamente num motivo de união do grupo e de criação de símbolos que ajudem o processo de coesão da equipa. Portanto, isso é uma coisa que pode acontecer. Eu vivi isso diretamente e vi isso acontecer num grupo que na altura não era propriamente o exemplo de um grupo coeso, mas que, de facto, se transformou num grupo coeso, pelo menos ao nível da tarefa, e até se conseguiu ganhar a Taça de Portugal nesse ano contra o FC Porto. Esse ano da morte do Feher foi um ano extremamente difícil, mesmo do ponto de vista futebolístico, foi um ano difícil, mas de facto nós conseguimos criar um conjunto de símbolos. E eu consigo imaginar que isso possa ter acontecido com a questão do Jorge Costa, terem criado alguns símbolos internos, alguns pontos de união, e de alguma forma conseguir fazer com que isso aumentasse os níveis de coesão interna.
Já entre desportistas fora do futebol tivemos alguns casos mediáticos, como por exemplo, a ginasta Simone Biles durante os Jogos Olímpicos, momento de pressão máxima, em que a própria atleta teve a perceção de que não estava bem e conseguiu travar a tempo. Esta capacidade da própria pessoa perceber, que há um problema, facilita
Sim, o autoconhecimento é fundamental para qualquer um de nós antecipar e autorregular-se em situações mais difíceis. No caso dela, eu julgo que foi essa questão, e digamos também ter as coisas muito claras de ponto de vista de prioridades, de vida, também a ajudou a parar num momento certo para reorganizar do ponto de vista mental e atacar depois a situação quando já estivesse melhor. Mas eu julgo que, não sabendo detalhes sobre a vida da atleta, eu diria que questões que têm a ver com o seu autoconhecimento, provavelmente com uma estatura de suporte forte, que a ajudou a tomar a decisão, ou que a suportou na tomada da decisão, podem ter sido decisivos no processo de melhoria, e depois de voltar já restabelecida e já preparada para os novos desafios. Mas é um processo que se constrói ao longo do tempo, não é um processo de um momento para o outro. Daí a importância de, desde muito novos, os atletas desenvolverem autoconhecimento e desenvolverem processos de treino mental para se autorregularem e para serem mais fortes do ponto de vista psicológico.
Em Portugal há sempre um caso que é lembrado nestas alturas: Fernando Mamede, que foi um super campeão, mas que em muitas alturas falhava. Se fosse hoje teria seguramente tido um acompanhamento melhor…
Partilhei, mais de uma vez, em mesas redondas, onde estava o Fernando e onde eu também estava, já como psicólogo, e tivemos a ocasião de ele dizer exatamente o que o Carlos acabou de dizer, e eu de dizer aquilo que vou dizer, que é, evidentemente que sim. O desconhecimento, obviamente, que complica muito os processos de mudança individual e, portanto, as pessoas não terem consciência de nada, do que é que está disponível para já, do que é que se passa dentro da cabeça e, depois, que ajudas é que poderiam estar disponíveis para serem usadas, etc. Todo esse processo, nos anos 80, basicamente era o que acontecia. Eu julgo que uma das coisas que melhorou substancialmente com o passar dos anos, dos anos 80 para cá. No início da minha profissão, apanhei ainda muitos atletas com essas mesmas sensações, sentiam os problemas, não sabiam o que fazer.
Eu julgo que uma das coisas que se alterou nestes últimos 30/35 anos, foi exatamente o nível de consciência de um conjunto de detalhes relacionados com o funcionamento psicológico, com o funcionamento mental, a literacia sobre uma série de processos, de coisas que se podem fazer para melhorar, e também há uma literacia sobre quem é que o pode fazer, quem é que nos pode ajudar. Ainda estamos muito longe da perfeição, ainda temos muitas pessoas com crenças muito desajustadas face a quem é que são os agentes que podem ajudar as pessoas a melhorar, mas, claramente, estamos com níveis de literacia muito diferentes, quer nos atletas, quer nos treinadores, ainda com um caminho grande para fazer nos dirigentes, mas, claramente, com um caminho já muito percorrido por parte de atletas e treinadores.
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O campeonato terminou neste fim de semana, estiveram em discussão vários lugares de subida e descida. Para os jogadores, psicologicamente falando, a pressão de subir ou de descer é a mesma?
A pressão, ou a perceção de pressão, depende muito da interpretação que as pessoas fazem da realidade. É a história do copo meio cheio ou meio vazio, sendo que o copo está a meio. Seja lá o que seja, a pressão também pode ser vista e lida como algo benéfico, ou seja, que facilita o funcionamento do indivíduo ou que prejudica o funcionamento do indivíduo.
Portanto, temos aqui várias variáveis. Por um lado, a emoção sentida pode ser facilitadora ou debilitadora, e é a mesma emoção. E, por outro lado, a existência dessa emoção tem muito a ver com o processo interpretativo que eu faço da realidade. Ou olho para a situação como um desafio ou olho para a situação como uma ameaça. Ou olho para aquilo que eu controlo ou olho para aquilo que eu não consigo controlar. Sendo que, quando olho para aquilo que eu controlo, estou muito mais próximo do desafio de estar focado naquilo que é de mim. Portanto, a experienciar menos ansiedade e, provavelmente, a ter as emoções que eu preciso para ter um bom desempenho. Quando olho para aquilo que eu não controlo, para aquilo que eu não consigo ver solução, muito provavelmente vão saltar, entre aspas, emoções menos favoráveis ao meu desempenho e, portanto, estou mais longe de ter um bom desempenho.
Um dos treinadores que esteve esta época em Portugal foi José Mourinho. Ao longo da sua carreira de mais de 20 anos, sempre se disse que um dos seus pontos fortes era precisamente a parte psicológica, de motivação de grupos. Não sei se esta alegada característica do técnico é visível ao seu olho clínico.
Vou simplificar muitas coisas para o grande público perceber. Aquilo que nós pensamos influencia aquilo que nós sentimos. Aquilo que nós sentimos influencia aquilo que nós pensamos. Isto é como se fosse um loop contínuo. E pelo meio vão saltando umas “pipocas” mais ou menos controladas chamadas comportamentos. De uma forma muito simplista, há um princípio de reciprocidade contínua entre aquilo que a gente sente e aquilo que a gente pensa e vão saltando, digamos assim, comportamentos. Ora, o que acontece? Os comportamentos que nós vemos podem, de facto, ser comportamentos espontâneos por parte do sujeito ou comportamentos deliberadamente construídos por parte do sujeito para mostrar qualquer coisa. Ora, se nós não conhecemos bem a pessoa, nós não sabemos exatamente o que é que está a acontecer.
Evidentemente, pela repetição constante de ver o mesmo treinador no dia-a-dia, ouvir as suas verbalizações, ver como é que reage a determinadas situações, nós cruzamos não só aquilo que ele diz com aquilo que nós observamos e, portanto, numa lógica mais próxima do dia-a-dia desse treinador, dá para, obviamente, antecipar e compreender o que é que cada treinador quer dizer e se aquela reação foi controlada, se não, se foi descontrolada. Porque podemos ter duas reações absolutamente idênticas, só que uma foi controlada quando o treinador fez aquele comportamento que parece descontrolado, mas não era, era um descontrolado, entre aspas, controlado ou então podemos ter um treinador que se descontrolou efetivamente. E essas coisas nós só conseguimos perceber depois de conhecer muitos outros detalhes do funcionamento da pessoa. Só à distância, só vendo uma vez ou outra, não se consegue perceber. Evidentemente, quando temos treinadores que estão sempre na televisão, fica muito mais fácil de tentar perceber um bocadinho o que é que está a acontecer. Mas eu não vou arriscar a pôr a adivinhar o que é que o Mister Mourinho quando os comportamentos significam uma coisa ou outra, não faço ideia, não é?
Agora, eu tentaria era ficar com esta ideia de que para entendermos os comportamentos, só ver os comportamentos é curto. Precisamos perceber o que é que as pessoas pensam, o que é que verbalizo internamente dentro da sua cabeça, por exemplo.
Hoje em dia, as equipas técnicas são alargadas e imagino que a maioria tenham psicólogo na estrutura. Os clubes já tratam bem esta necessidade? E, já agora, os jogadores já recebem bem as indicações que recebem do psicólogo?
Eu julgo que, infelizmente, não é uma realidade alargada ainda. Acho que neste momento, estamos a falar do futebol em particular, há várias coisas que estão a acontecer ao mesmo tempo. Há, de facto, ao nível da formação nos clubes uma situação onde o psicólogo já é praticamente uma figura fixa dos staffs em muitos clubes, mesmo clubes mais pequenos, mais modestos, até porque a certificação das academias é um dos pontos que passa também pela questão da existência ou não de um psicólogo. Portanto, ao nível da formação, eu diria que a coisa tende a estabilizar. Nos plantéis profissionais é bastante mais variado e há muitas nuances. Há desde psicólogos que estão dentro das equipas a trabalhar com toda a gente, há psicólogos só diretamente ligados às estruturas clínicas, onde estão os médicos, os fisioterapeutas, e numa lógica quase de apoio individual aos atletas, sem ligação nenhuma com mais ninguém. Portanto, o atleta procurou o psicólogo, ou o psicólogo procurou o atleta e o psicólogo ajudou o atleta nesse contexto mais de busca individual. E depois temos também os psicólogos que estão dentro das equipas técnicas. Em Portugal há um ou outro caso, uns mais visíveis que outros.
Há um caso muito visível de um psicólogo dentro de uma estrutura técnica, que é o psicólogo espanhol Joaquim Valdez, que estava na equipa técnica do mister Luís Enrique já há muitos anos. Ele está na equipa técnica, juntamente com outros membros do staff, assumindo a sua especialidade, que é a área mental, e o mister Luís Enrique a confiar completamente esse trabalho, mas num trabalho que é essencialmente com a equipa técnica, ou seja, o psicólogo aí trabalha essencialmente com a equipa técnica, ajudando a equipa técnica no seu trabalho. E os atletas que quiserem procurar o psicólogo, sim, mas essencialmente o psicólogo dentro da equipa técnica está para ajudar.
Certo...
Eu próprio já tive essa experiência, passei por vários destes papéis, posso lhe dizer que passei por todos estes formatos diferentes, e, portanto, isto é algo que vai acontecendo. E agora, desde há uns anos para cá, há também uma espécie de equipas técnicas invisíveis, que os próprios atletas e os próprios treinadores buscam apoios individuais em várias áreas, entre outras também na área da psicologia, fora dos clubes, e construindo as suas próprias equipas de trabalho. Ou seja, há uns anos só os grandes, grandes atletas tinham estas estruturas, tipo o Ronaldo.
Atualmente, posso lhe dizer que um jovem atleta de uma equipa júnior de um clube grande, por exemplo, ou um atleta profissional de uma equipa média, pode ter a sua estrutura de um fisioterapeuta, ou de um preparador físico, ou de um psicólogo, ou destas valências todas, numa estrutura que é invisível ao clube, ou que já é visível para o clube, porque os próprios clubes estão a evoluir no reconhecimento destas estruturas que os atletas acabaram por arranjar. E muitas das razões pelas quais isto foi acontecendo têm a ver com a necessidade dos atletas de buscarem individualidade. Tem muito a ver com a cultura do futebol e com os medos que se instalam, mas esta busca de individualidade é uma coisa muito importante para os atletas e julgo que é razoável estas áreas têm de crescer tanto.
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Isto de os jogadores terem psicólogo particular e fisioterapeuta particular, como é que os clubes aceitam?
Isto é um tema na ordem do dia de muitos clubes. Quando digo clubes, digo treinadores que simplesmente proíbem. E há clubes/treinadores e ou treinadores que simplesmente aceitaram o inevitável. Ou seja, assim como assim vai existir, mas vale tentar ver a melhor maneira de encaixar as peças todas. Uma das formas que, pelo menos eu tenho defendido, é da responsabilização do atleta, porque o atleta, se fizer mal, faz mal a si próprio. A área física é a área mais sensível. Se faz um trabalho físico sozinho pode complicar a sua vida. A responsabilização direta do atleta, pelo seu próprio caminho individual, é fundamental para que ele não crie dano a si próprio. Claro que ao criar dano a si próprio, está a criar dano ao clube. Mas é importante, diria, não metermos a cabeça na areia como a avestruz e encararmos porque isto é uma realidade que está presente no mundo inteiro do futebol e não é só no mundo altamente profissionalizado. É um tema complicado. Há quem lhe chame as equipas técnicas invisíveis. Mas eu diria que é um tema – posso-me enganar -, mas não tem como dar a volta, porque ele vai continuar a existir.
Eu estive 25 anos no Benfica, saí em 2019, e nos últimos anos, já me estava a acontecer, nas entrevistas individuais que eu fazia no início da temporada, já era normal aparecerem-me atletas que tinham alguém fora do clube e perguntavam-me se eu podia falar com a pessoa em causa. Eu tenho pessoas que acompanho atualmente que têm psicólogos no clube. Há um atleta que eu tenho neste momento que me perguntou se eu podia falar diretamente com o psicólogo lá no clube para nós nos organizarmos.
E qual foi a sua resposta?
Sim, claro que sim. Desde que o atleta queira, claro que sim. Foi o próprio atleta a pedir-me para eu falar diretamente com o psicólogo do clube. Eu perguntei-lhe se o psicólogo do clube quer. Ele disse, sim, quer. Então pronto, vamos a isso. E, obviamente, com o consentimento informado, que é a expressão técnica que nós usamos na psicologia por parte do atleta, para nós, eu e o colega, partilharmos informação, pois claro que sim, porque o atleta em causa deu-me o consentimento informado. Mas já tive atletas, diria a maioria, que não quer que eu fale com o psicólogo do clube. Por exemplo. E nós não temos outra remédio senão seguir as ordens de quem é o nosso cliente.
Eu dou formação de treinadores do UEFA e UEFA Pro desde 2006. Isto é um tema que há 20 anos não se falava. Posso-lhe dizer que agora é um tema, claramente, num curso de treinadores, é raro um curso onde nós não abordamos este tema. É um tema que está em cima da mesa, constantemente. Tem que se arranjar uma maneira de compatibilizar as realidades que estão a acontecer e que têm que se compatibilizar. Quando as coisas forem mais claras e o próprio clube/treinador permitir e abrir espaço para que os atletas partilhem com quem trabalham fora e poderem integrar as coisas, é muito mais fácil. Vai ser muito mais fácil para toda a gente. E eu julgo que isto vai ser absolutamente inevitável.
Vamos então ao livro. Vários especialistas lançaram o livro “Intervenção Psicológica em Contexto Desportivo". Resumidamente qual é a ideia desta obra?
O objetivo foi, de facto, eu e os meus outros dois colegas coordenadores do livro discutimos um conjunto de ideias sobre onde é que queríamos chegar com este livro e a partir daí juntámos um conjunto de autores. Um desfruto da sua experiência mais de investigação, outro da sua experiência mais de intervenção e tentámos juntá-los em torno de um conjunto de temas que nos parecem pertinentes nestes mundos. Uns clássicos, outros menos clássicos, mas, no fundo, fazendo aqui mais uma contribuição para, digamos, as publicações que existem neste contexto, que não são muitas em português, várias já, mas não são assim tantas e, no fundo, dando mais um impulso à disciplina no nosso país. Isso por um lado. Por outro lado, abrindo aqui espaço também para outras áreas de intervenção, onde, nomeadamente, os profissionais do desporto, os psicólogos do desporto têm intervindo. São outras áreas de performance humana, de desempenho humano onde também há atividade psicomotora e, neste caso, temos um capítulo sobre e-sports.
Há muitos psicólogos do desporto a trabalhar com atletas de e-sports e há também, poderíamos ter lá também algo sobre outras áreas do movimento, mais do mundo artístico. Também poderia lá estar. Neste caso, sim. Esse capítulo é, digamos, o único de outros mundos que não é o desporto propriamente dito. Mas, no fundo, foi dar mais um impulso à área com mais um manual, digamos assim, que mete um conjunto de temas em cima da mesa que são altamente pertinentes para o desempenho e para o bem-estar de todos os que andam neste mundo.
Para terminar, o livro é para quem? É para treinadores? É para leigos?
Eu diria que é um livro feito de vários livros. E, portanto, tem casos práticos que podem ser muito úteis a quem está no terreno, seja como psicólogo, seja como treinador, seja como atleta, porque podem se rever no problema e nas soluções. E tem capítulos mais fundamentais que resultam mais do estado da arte e da investigação em diferentes temas.
E, portanto, tem aí acrescente de informação e literacia a quem está no desporto, mas também a quem é de fora do desporto e que está interessado em perceber porque é que algumas coisas acontecem. E tem lá vários temas, desde questões de fenómenos mais grupais, fenómenos de equipa ou fenómenos individuais. E, portanto, tem lá um bocadinho de tudo, como eu lhe disse, desde os temas mais clássicos até os temas mais emergentes.
Mas tem lá um bocadinho de tudo para aumentar a literacia sobre o assunto. Mas, como lhe digo, o nível de aprofundamento e de compreensão do tema obviamente vai ser diferente em função de ter algum conhecimento prévio ou não, mas julgo que um leigo consegue ler o livro e ficar com ideias e o menos leigo aprofunda algumas coisas, porque vai captar coisas que se calhar o leigo não capta à primeira e se calhar alguém está mais virado só para a parte prática destes temas. Também tem lá uns quantos casos que tentámos colocar um cheirinho, digamos assim, entre aspas, de casos práticos para mostrar também um bocadinho aquilo que se pode fazer quando acontecem algumas coisas.












