Mundial 2026
O segredo do Brasil no Mundial talvez seja Endrick, um garoto com aura de lenda
13 jun, 2026 - 07:15 • Hugo Tavares da Silva
Desatou um milagre num Botafogo-Palmeiras com apenas 17 anos, foi para o Real Madrid, caiu, duvidou e voltou a sorrir no Lyon. Esta noite o Brasil estreia-se no Campeonato do Mundo e muitos suspiram pelos segundos 45 minutos para testemunharem algo especial.
Um dos dias mais memoráveis da história recente do futebol brasileiro aconteceu em novembro de 2023. O Botafogo namorava definitivamente a ideia de voltar a ser campeão, o que não acontecia desde 1995 (quem se lembra de Túlio Maravilha?). O Palmeiras de Abel Ferreira, a seis pontos, continuava a morder e a manter os olhos na bola.
Aos 36 minutos, o marcador oficializava o escândalo: Botafogo 3-0 Palmeiras. Até que Endrick decidiu que o seu nome ia percorrer todas as esquinas do mundo. O garoto, um prodígio de 17 anos que encantara na Copinha dois anos antes e que confessa coisas improváveis como admirar Bobby Charlton, pegou na bola. Evitou cinco adversários, parece nem ter acelerado tudo o que podia e meteu a bola na baliza do Botafogo.
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“Toca para mim”, disse aos companheiros, com um atrevimento atroz e irresistível. Pouco depois, a bola pingou para ele. A bola, convém dizer, é sábia, cai demasiadas vezes nas botas certas para ser uma mera coincidência. Quando a bola bateu no relvado, como um salpico, ali bem perto da linha da grande área, Endrick teve de tomar uma decisão, entre esperar pelos caprichos daquela ferramenta lindíssima ou acelerar o tempo.
E ele acelerou o tempo.
E, expondo os homens e as mulheres que tocam de maneira vulgar numa bola de futebol, empurrou com o joelho a bola para o chão, para depois bater na baliza com um golpe seco. Assombroso. Três-dois e o Nilton Santos, a casa da mítica ‘Estrela Solitária’, já abanava com o bafo quente das más notícias. Flaco López empatou o jogo e Murillo, já muito depois da hora, fez o quatro-três. Que jogo.
O Palmeiras acabaria por vencer o Brasileirão, o Brasileirão de Endrick. Aquele jogo com o Botafogo será para sempre lembrado. Na altura já tinha assinado pelo Real Madrid, um acontecimento galáctico que sabemos agora que não seria um conto de fadas. Das promessas de céu ao anonimato foram alguns meses, a que se juntou depois uma lesão. E Endrick já não era Endrick, era alguém que parecia triste, inútil para a equipa.
Até que apareceu o Lyon. Paulo Fonseca foi “paizão”, como o jovem futebolista já chegou a dizer, e ajudou o avançado brasileiro a encontrar-se. A chamada de Carlo Ancelotti para o Mundial era uma miragem até que a Ligue 1 lhe devolveu vida, estatuto e aquela aura de lenda. Agora, numa altura em que o talento do futebol brasileiro já não é como antigamente, o 9 que devia ter a camisa 9 do Brasil é uma das grandes esperanças da canarinha.
“Diria que o Endrick é, claramente, o joker da seleção do Brasil”, partilha Ricardo Oliveira Duarte, jornalista e coordenador de notícias e multimédia da Flashscore no Brasil. “Muito muito novo, foi um jogador que se destacou imenso no Palmeiras por causa da forma quase descarada como encarava todos os jogos, e todos é todos. É bom lembrar: com 17 anos decidiu um campeonato para o Palmeiras.”
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Este jornalista português valoriza o papel de Paulo Fonseca nesta história que desagua no Campeonato do Mundo das Américas onde o Brasil tenta o hexa, a tristeza não tem fim desde 2002. “Conseguiu estabilizar uma mente que poderia estar mais inquieta…”
E que jogador é este, afinal? “Tem características que mais ninguém tem na seleção do Brasil. O Endrick é classificado como um 9 apesar de no Lyon ter tido boa parte das oportunidades a ir da linha para dentro. Ele é um 9, só que é um 9 totalmente diferente, a lembrar Romário. É muito mais de atacar o espaço, não joga fixo, tem uma mobilidade incrível”, enumera as virtudes.
Mas há mais: “Depois, para além da capacidade técnica, é muito potente. Tem uma capacidade de aceleração impressionante, acho que não é comparável com ninguém dentro da seleção brasileira, nem de outras seleções referência, nem com o Pelé, nem com o Ronaldo. Vai fazer o caminho dele. Ninguém pode apostar o que será, apenas eventualmente que será grande e bom. É um jogador com perfil e capacidade para ser uma das grandes figuras deste Brasil, o tal joker.”
Endrick Felipe Moreira de Sousa tem 19 anos, nunca viu o Brasil campeão do mundo, o que parece uma perversão maldita e imperdoável. Nenhum brasileiro deveria saber o que isso era, nenhum brasileiro deveria deixar de testemunhar dribles e sorrisos sem fim… mas aqui estamos.
“O início de um rei”, assim definiu o “L’Équipe” a chegada de Endrick à liga francesa. Faz lembrar aquele texto mágico de Nelson Rodrigues quando chamou a Pelé “rei” ainda antes do Mundial de 1958, na Suécia. Pelé tinha 17 anos. Se há jogador autossuficiente e com uma sagacidade avassaladora, esse futebolista é Endrick. O surgimento precoce com a força de um cometa não é mero acaso.
“Quando ele saiu do Brasil para o Real Madrid, a expectativa sobre ele era gigante”, contextualiza Eduardo Geraque, um jornalista brasileiro. “Mas, depois de não descolar em Espanha, a coisa deu uma arrefecida. Hoje ele é visto mais, no caso do Brasil, como aquele jogador que pode sair do banco, no meio do segundo tempo, e mudar o jogo. Resolver, sabe?” Sei, pois. “Temos que acompanhar como serão os próximos passos dele no futebol.”
Eduardo Geraque tem uma ideia para esta Copa. Ainda por cima o Brasil iguala agor o jejum histórico que viveu entre 1970, quando foi campeão do mundo no Azteca, e 1994, no tal festim de um me de Romário (e o penálti de Baggio para as nuvens). O Brasil não é campeão desde 2002, há 24 anos, quando Ronaldo ‘fenómeno’ meteu dois golos na baliza do temível Oliver Kahn e deu as boas-vindas ao inédito penta, ao qual ninguém se aproxima desde o início da história dos Mundiais em 1930, no Uruguai.
“Na minha opinião, ele tem o elemento surpresa”, promete Geraque. “Jogo difícil, faltando 20, 25 minutos para acabar. Coloca o Endrick. Ele tem saúde e é destemido. Pode dar bem certo…”
O Brasil estreia-se esta noite no Mundial contra Marrocos, a sensação de 2022. A partir das 23h00 portuguesas, os olhos vão estar naquela farda amarela e azul que, depois de 1958 e de decretado o fim do 'complexo vira-latas', sempre foi sinónimo de descaro, drible, golo e alegria, algo que foi esquecido pelo caminho. Talvez Endrick, o garoto com aura de lenda, seja o fiel guardião desse Brasil de tempos idos.









