Mundial 2026

Da euforia à depressão. Portugal no divã depois de as expetativas terem sido insufladas

18 jun, 2026 - 15:26 • João Carlos Malta

O psicólogo e ex-bastonário da Ordem dos Psicólogos Francisco Miranda Rodrigues ajuda a avaliar o momento mental e de confiança da seleção. Ao olhar para os adeptos, diz que há quem procure no futebol uma compensação emocional. Quanto à pressão, diz, não há ninguém imune. Nem os deuses do futebol.

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“Candidatos.” “Favoritos.” “É para ganhar.” E até o slogan da seleção para este Mundial de Futebol: “Vai dar Portugal.” A confiança de que entre a equipa das quinas e o levantar a taça no dia 19 de julho no Metlife Stadium, em New Jersey, existia apenas a formalidade de oito jogos, caiu nos primeiros 90 minutos.

A República Democrática do Congo, equipa que há mais de meio século não jogava a maior competição de futebol, foi adversário suficiente para tirar pontos à equipa de Martinez e até ser superior em alguns momentos do jogo. O país caiu no divã.

O psicólogo e ex-bastonário da Ordem dos Psicólogos Francisco Miranda Rodrigues diz à Renascença que esta perceção de “fracasso nunca tem a ver apenas com o resultado”.

É antes o resultado da “distância entre aquilo que nós todos, enquanto opinião pública, esperávamos e aquilo que realmente aconteceu”. Apesar de em Houston, na quarta-feira, estarem em campo 11 contra 11, Miranda Rodrigues fala de um adversário silencioso.

“Portugal entra com uma carga simbólica enorme e com uma expectativa de que somos candidatos ou favoritos, que temos talentos suficientes para dominar os adversários, que o Cristiano Ronaldo continua a poder decidir tudo nos grandes momentos, como se a história obedecesse a uma espécie de narrativa que nós todos construímos durante anos”, descreve.

Tudo certo, até que “o jogo contraria essa narrativa” e o empate “não é apenas vivido como um empate”, “é vivido com um grande impacto emocional”.

"Há pessoas que vivem o desporto como um espaço de compensação emocional"

Francisco Miranda Rodrigues defende que para muitos adeptos, a seleção “é uma extensão da identidade nacional, da memória coletiva, da autoestima pessoal” e quando Portugal ganha “há uma espécie de apropriação”. “É como se tivéssemos estado dentro do campo a ganhar alguma coisa. Ganhámos, somos grandes, somos muito bons, mostrámos quem somos”, descreve.

Mas há o reverso da medalha. “Quando Portugal não corresponde passa-se para outro extremo, muitas vezes falharam, não prestam, acabaram, a equipa não tem a mentalidade que devia ter”, contrapõe. E esta oscilação, acredita, diz mais sobre nós enquanto povo do que sobre o jogo e sobre os intervenientes.

O símbolo maior desta tese talvez seja mesmo Cristiano Ronaldo, apesar de pela sua dimensão de estrela planetária a análise não se circunscrever ao povo português. O psicólogo diz que o astro português “é associado à excelência, à superação, à decisão, à ideia de que Portugal pode estar entre os melhores do mundo” e quando se espera um outro tipo de exibição, “a reação pública, depois, é desproporcionada porque não se está a avaliar apenas ou o lance ou um jogador, está-se a avaliar simbolicamente uma narrativa inteira, uma juventude que já passou, o legado, o medo de declínio, a dificuldade de aceitar que até os mais extraordinários de todos nós são humanos e também há aqui uma frustração que é projetada”.

E conclui que “há pessoas que vivem o desporto como um espaço de compensação emocional, a equipa ganha, eu sinto-me um pouco maior ou melhor, a equipa perde ou empata e isso é frustrante face às expectativas, e eu sinto-me que me retiraram de qualquer coisa e é mais fácil encontrar um culpado do que agora olharmos para essa complexidade”.

Mesmo na alta competição não se é imune à pressão

Mas faz sentido usar o argumento da pressão, quando os 26 da seleção nacional jogam nas melhores equipas do mundo e muitos já venceram as principais competições de futebol? O ex-bastonário assume que os atletas de alta competição “estão habituados aos palcos mais expostos do mundo” e “a competirem nos limites há muito tempo”, e que, por isso, “certamente a maior parte deles terão desenvolvido competências para lidar com situações deste género que são muito acima do comum de nós”.

“Mas isto não é igual a dizer que sejam imunes a 100% e que, portanto, não possam também, em determinadas circunstâncias, falhar”.

Para o próximo jogo, na próxima quarta-feira, com o Uzbequistão, há a necessidade de recuperar psicologicamente a equipa.

Miranda Rodrigues deixa algumas dicas: “Não devem ouvir tudo, não devem ler tudo, não devem muito menos responder a tudo, ou seja, devem proteger a atenção que dão àquilo que está a acontecer à volta deles.”

É difícil, mas treina-se. Um atleta de elite não pode impedir a opinião pública de falar, mas pode tentar reduzir o impacto que essa opinião pública tem no balneário”, remata o antigo bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues.

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