Reportagem Bola Branca

Uma peladinha com uzbeques no pôr do sol de Houston. "Se ganhávamos à seleção? Dava empate"

23 jun, 2026 - 09:45 • André Maia

A seleção do Uzbequistão (adversário de Portugal esta terça-feira, 18h) pode tirar o cavalinho da chuva: antes de chegar, já um grupo de uzbeques conquistava os campos de Houston. Jogam todas as sextas e partilham tudo: o amor por plov, o país, Ronaldo e acima de tudo futebol.

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Uma peladinha com uzbeques no pôr do sol de Houston. "Se ganhávamos à seleção? Dava empate"
Veja o vídeo.

A ideia era simples: encontrar uzbeques que vivesem em Houston e falar com eles. Podiam ser homens, mulheres, baixos ou altos, gostarem de futebol ou nem sequer saberem o que é um fora de jogo. Qualquer coisa serviria se fossem uzbeques. Afinal a missão era só uma: explicar que país é este aos ouvintes e leitores da Bola Branca.

Google: “Uzbeks in Houston”, escrevi eu. O primeiro resultado parecia promissor. “The Uzbek American Society of Houston”, ou, na língua de Camões, “A Sociedade Uzbeque Americana de Houston”. Parecia perfeito. Cliquei. Aqui, ali e acolá. A sucessão levou-me até uma fotogaleria. Foi lá que os olhos brilharam.

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Dezassete homens, uzebeques, alinhados em equipa, num relvado sintético de futebol. Na legenda, “organizamos jogos de futebol semanais”. A partir daí, a história não poderia ser outra: a Renascença tinha de estar num desses jogos semanais.

Email puxa email, contacto puxa contacto e de repente estávamos a usar pela primeira vez a rede social Telegram para falar com aquele homem que há em cada grupo de amigos. O que confirma quem vai ao jogo, marca o campo e paga a reserva. Esse homem chama-se Akhror Uktamov.

Amável e disponível, aceitou de imediato, mas… só há um pequeno problema: os jogos são às sextas-feiras e os jogos de Portugal em Houston não acontecem sequer perto de uma sexta-feira. E se desta vez for na quarta? A resposta do outro lado veio dias depois: “Olá, André. Não vamos conseguir mudar o jogo de sexta para quarta, vamos fazer ainda melhor: vamos jogar nos dois dias. Faremos um jogo extra quarta-feira para nos poder conhecer”. E assim foi.

Há dois campos sintéticos ao lado da Escola Primária de Eldridge Parkway, a cerca de 30 quilómetros do NRG Stadium, onde Portugal vai jogar esta terça-feira contra o Uzbequistão (e já jogou contra o Congo). Assim que me viu, Akhror [lê-se Arre-ror] acenou como se já nos conhecêssemos. Afinal de contas não havia tempo a perder, todos os jogadores estavam prontos para arrancar com a peladinha extra.

Nem todos eram uzbeques: havia um hondurenho e um russo. E não é inédito. “No início, os jogos eram só para os uzbeques, para nos reunirmos. Entretanto comecei a publicar os nossos jogos nas redes sociais em Houston. Com o tempo começaram a aparecer russos, americanos, cazaques ou quirguizes”, explica Akhror.

É uma espécie de relações públicas do grupo. É ele que todas as semanas confirma quem joga e reserva o relvado bem tratado onde já se joga há vários anos. E sem falhas. “Nós jogamos aqui todas as sextas-feiras. E não há semanas livres, nunca falhamos”, explica Akhror, confirmando uma questão que tinha sobre o país: afinal de contas, quão apaixonados são os uzbeques por futebol, num país em que o boxe é o rei? Muito. São muito apaixonados.

“Temos cerca de 40 milhões de pessoas no nosso país e todas adoram futebol. Jogamos futebol em todo o lado: na escola, nas ruas, em todo o lado. Não precisamos de um estádio, podemos jogar em qualquer lado”, conta-nos Otabek Zokirov, ainda a limpar o suor depois de um jogo intenso. E especial também para ele.

“Hoje marquei de cabeça! Tento fazê-lo muitas vezes, mas é difícil. Gosto de golos assim porque são ao estilo do Cristiano Ronaldo e eu sou fã dele”. E quem não é, Otabek? De todos os uzbeques que falámos, todos mencionaram CR7 a certa altura da conversa.

“Este momento é inacreditável para nós, especialmente por jogarmos contra os portugueses. Estamos muito felizes por defrontarmos jogadores de tão alto nível. Ronaldo, Bruno Fernandes… o povo uzbeque é fã de Portugal”, diz-nos Akhror já no final da partida. Não teve a mesma sorte de Otabek, que esteve na equipa vencedora.

“Infelizmente, hoje perdi. Mas houve muitos golos, ficou 11-9. Perdemos desta vez, mas está tudo bem, foi competitivo”, admite o “RP” do grupo, ainda a recuperar o fôlego.

Quem não precisa de o fazer é Adam Ortikov. Ou devemos chamar-lhe Khudoyor? “Eu chamo-me Adam, mas o meu nome original é Khudoyor. Vem do persa. Khudo significa Deus, Yor significa amigo. O amigo de Deus. Mas aqui, durante vários anos, tive sempre trabalho para soletrá-lo, por isso escolhi um nome americano, Adam”. E quem é ele? “Sou o presidente da Sociedade Uzbeque Americana de Houston”.

Já não joga porque às sextas-feiras não tem agenda e um problema de saúde afastou-o dos relvados. Mas não é por isso que Adam não acompanha os compatriotas à hora do jogo. E são muitos para comandar. Há entre 400 e 500 uzbeques na zona de Houston. E todos querem assistir ao jogo contra Portugal.

“O sorteio do Mundial foi no dia 5 de dezembro. E aí ficámos a saber que dois dos jogos seriam jogados no México. E dissemos ‘pronto, tudo bem, sem problema'. Passados uns dois dias, Houston confirmou que o Uzbequistão ia jogar cá. ‘Ótimo', disse eu [risos]. Marcámos uma reunião para dia 8 de dezembro e eu contei-lhes. Foi uma grande emoção. E vamos todos ao jogo”, lembra Adam.

E para o jogo em si, há grandes expectativas: todos apostam num empate e confiam cegamente na equipa. “Todo o país, 40 milhões de pessoas, vai estar a assistir. Podemos dizer que eles são como heróis. Toda a gente vai estar a ver estes onze jogadores, a nação inteira”, sublinha Adam, ainda que não consiga escolher qual das equipas joga melhor, se a da Sociedade de Uzbeques de Houston, se a seleção nacional do país.

“Quem ganhava num jogo entre os dois? Essa pergunta é uma pergunta muito política, por isso também vou dar uma resposta muito política [risos]. Acho que empatavam”, afirma o presidente da sociedade, admitindo que há por ali jogadores com muito potencial.

O “capitão” Akhror concorda, mas prefere que o protagonismo vá para os profissionais. “Tudo pode acontecer contra Portugal. Nós estamos ansiosos por ver o espírito de luta da nossa seleção. Vai ser uma boa experiência e esperamos que seja um jogo competitivo”.

“Se o Uzbequistão ganhar a Portugal vai ser uma sensação avassaladora. Este era o meu maior sonho. Esperámos 34 anos para estar aqui e nunca imaginei que fosse logo nos Estados Unidos e na minha cidade. Este jogo é uma grande oportunidade para nós”, afirma Otabek, que é também voluntário no estádio de Houston neste Mundial.

Agora é esperar a bola rolar, entre Portugal e Uzbequistão. Por enquanto o resultado é incerto, mas há uma certeza: já ganhou o futebol. “As pessoas estão unidas, a falar a mesma língua. A língua do futebol”.

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