Entrevista Bola Branca
Do Arsenal para o wrestling, Ian Rosário quer ser o "Cristiano Ronaldo da WWE" e o primeiro campeão português
28 jun, 2026 - 09:20 • André Maia
Começou no futebol, no Benfica. Saltou para o Fulham e daí para o Arsenal. As lesões acabaram com o sonho, mas criaram um novo: ser o primeiro português campeão da WWE. Entrevista a Ian Rosário, um wrestler português em Miami.
Há um dizer popular português muitas vezes repetido: "Deus escreve direito por linhas tortas." Esse ditado poderia ser muito facilmente uma sinopse da vida de Ian Rosário. Uma vida com vários obstáculos, com vários sonhos quebrados, mas com os cacos a formarem sempre uma nova oportunidade, oportunidade essa que Ian procura neste momento.
Nasceu em Lisboa, cresceu em Londres e recebeu a Renascença na cidade onde mora neste momento, Fort Lauderdale, entre Miami e Palm Beach Gardens, onde ainda "mora" também a seleção neste momento. O palco escolhido foi o estádio onde todas as semanas joga Lionel Messi, mas Ian apareceu vestido à Ronaldo.
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Cristiano é um dos seus grandes exemplos, seja no futebol, em que as lesões lhe roubaram uma carreira promissora quando jogava no Fulham e no Arsenal; seja agora no wrestling, em que não tem dúvidas que vai triunfar: "Eu digo sempre, o meu objetivo é ser o Cristiano Ronaldo da WWE. Em tudo o que faço, quero ser o maior de sempre."
A entrevista a Bola Branca de Ian Rosário, o wrestler português que quer conquistar o ringue e a quem as lesões roubaram uma carreira promissora no futebol.
Ian, obrigado por nos receber aqui em Miami. Para quem não o conhece, quem é o Ian Rosário?
Olá, chamo-me Ian Rosário, sou de Lisboa, cresci em Londres, vivo em Miami há dois anos. Sou lutador de wrestling. O meu "goal" [objetivo] é chegar à WWE e ser o primeiro campeão português da WWE.
O Ian começou no futebol, e até já vamos explorar isso, porque jogou, por exemplo no Arsenal. Como é que aconteceu essa mudança para o wrestling?
Antes do wrestling, joguei futebol. Mas fiz três operações aos joelhos e com isso acabou a minha carreira. Joguei nas escolinhas do Benfica, nas camadas jovens do Fulham e do Arsenal. Infelizmente, rompi o ACL, o ligamento cruzado anterior, o menisco duas vezes, e a rótula do joelho esquerdo. No fim, tive de fazer três operações. Duas no joelho direito e uma no esquerdo. E isto tudo, antes de ter 18 anos.
Depois da primeira operação, percebi que a porta para o futebol profissional, com aquela idade, tinha fechado. Foi uma coisa que doeu muito, passei por uma fase de saúde mental muito má.
Como é que lidou com isso?
Olha, mandei camisolas para o lixo, troféus, queimei muita coisa. Foi um bocadinho mau, porque o futebol era a minha vida. Até hoje é. Às vezes dói, especialmente ver esta geração de agora, de jogadores das gerações de 1998, 1999, 2000. Eu nasci em 1998, é a minha geração. Vê-los agora a estar aqui nas seleções, nos clubes... dói um bocadinho.
Sente que podia estar aqui também?
Exatamente. Nunca se sabe o que podia ter acontecido. Eu sei a qualidade que eu tinha e o trabalho duro que fiz. O meu ídolo sempre foi o Cris [Cristiano Ronaldo]. Até hoje é. Só ver o que ele continua a fazer aos 41 anos. Gosto dele não só como jogador, mas como homem. Tanto é um ídolo para mim agora, aos 27 anos, como era quando tinha 12 ou 13 anos.
Mas mesmo apesar das lesões, como foi jogar em Inglaterra?
Eu fui para Inglaterra com sete anos. Cheguei ao Fulham com nove ou dez. Antes disso jogava nas Sunday Leagues, de equipa em equipa, à procura de oportunidades. Um olheiro viu-me e deu-me uma oportunidade. E eu agarrei-a.
Não era fácil. Em Portugal tu levas um estilo diferente de futebol. Mesmo tendo saído de Portugal aos sete anos, ainda trazes um bocadinho daquele estilo português que em Inglaterra não é tão comum. E entrei numa geração boa. Se bem me lembro, estavam lá o Patrick Roberts e o Ryan Sessegnon, por exemplo.
Foi uma grande experiência. Depois veio a minha primeira lesão. Foi no Fulham, na final da Taça. Eu era ponta de lança. A bola veio, eu fui lá, marquei e a rótula do joelho saiu para fora. Aí foi o primeiro choque. Eu pensava que era o Super-Homem e Deus acordou-me e disse que não era. Três meses depois mandaram-me embora. Fisicamente estava preparado para voltar, mas psicologicamente não conseguia jogar.
Seis meses depois, assinei pelo Arsenal. Joguei um jogo e, nos treinos, rompi o ACL e o menisco. Aí foi mesmo o ponto final para mim. O futebol era a única coisa que eu conhecia, era a minha vida. Houve uma altura em que até deixei de comprar o FIFA, que comprava sempre... não via nada do Benfica. Até houve um ano em que fui a Portugal e nem fui ao Estádio da Luz. Para mim isso era impensável.
E como é que aparece o wrestling?
Eu lembro-me de ver wrestling quando vivia em Portugal, na SIC Radical, com o meu primo Bruno. Foi ele que me introduziu ao wrestling. Lembro-me de ver o Eddie Guerrero, o Big Show. E nessa altura eu nem falava inglês. Lembro-me de perguntar à minha mãe: "Mãe, mãe, como é que se escreve 'Big Show' para ir ao website da WWE?"
Mas, claro, nessa altura nunca pensei que pudesse vir a ser uma realidade. E vou ser honesto, se não tivesse tido essas operações e as minhas lesões, nunca seria uma realidade.
Quando é que começou a treinar wrestling?
É engraçado. Por acaso, até comecei a treinar wrestling quando ainda estava no Fulham... sem os treinadores saberem [risos]. Eu vou ser honesto, quando tinha essa idade, só queria era jogar, jogar, jogar. Eles diziam sempre: "Não jogues futebol com os teus amigos fora do clube." E o que é que eu fazia? Ia jogar sempre com os meus amigos, porque queria sempre jogar. E quando não era a jogar com eles, passava horas a praticar livres, o "knuckleball", que é o livre que o Cris faz. Horas e horas, até chegar ao ponto de estar perfeito. Depois ia jogar com os meus amigos e isso tudo.
Mas respondendo à tua pergunta: o wrestling, para mim, começou em 2014. Depois, tive as operações. Fiz a minha recuperação completamente sozinho e preparei-me para ir para o Canadá. Estive no Canadá em 2018, na escola do Lance Storm, que é um antigo lutador da WWE e da ECW [Extreme Championship Wrestling]. Voltei depois para Londres e lutei por lá, só parei um bocadinho quando veio a pandemia.
E como correu a experiência no Canadá?
Houve um momento marcante: quando estava no Canadá conheci o Dominik Mysterio, que é filho do Rey Mysterio. Hoje, é um dos meus melhores amigos. E é afilhado do Eddie Guerrero, que é o meu grande ídolo do wrestling. É uma coisa que para mim, até hoje, não faz sentido nenhum. Como é que um menino que nasceu em Lisboa, chega a um ponto de ser um dos melhores amigos do filho do Rey Mysterio?
Como foi o momento em que conheceu o Rey Mysterio?
É uma história gira. Nós fomos de San Diego para Calgary, no Canadá. Eu e o filho dele estávamos na mesma escola de wrestling no Canadá. Ele foi lá ter uma semana depois de a escola começar. E nós estávamos a tentar acalmar-nos: "Malta, tudo com calma, tenham calma, o Rey Mysterio vem aí." Lembro-me de estar com os meus colegas Kenny e Ryan e dizermos: "Quando eles entrarem, tenham calma, não podemos fazer aquela coisa de fã."
Lembro-me que pegámos numas cartas de Uno. Nem estávamos a jogar, era só para termos alguma coisa nas mãos [risos]. Eles entraram, o Rey entra e eu pensei: "Ai, meu Deus, ele é baixinho." Mas é bem grande. Baixinho, mas é grande.
E chegou a conhecer o Eddie Guerrero?
Infelizmente não conheci o Eddie, porque ele morreu em 2005. Mas conheci o sobrinho dele, em 2019, e conheci também a mulher dele. Foram incríveis também e foi um sonho de criança, conhecê-lo através deles.
Como é que o Ian se sente por de repente estar dentro desses círculos do wrestling?
Às vezes penso que é o meu anjinho da guarda, a minha avó, que está ali a fazer os movimentos no xadrez da vida. A dizer: "Agora vais para aqui, depois vais para ali."
Se há dez anos tu me dissesses que eu ia viver em Miami, eu olhava para ti e dizia: "Está bem, está." O meu sonho foi sempre estar aqui. E estou aqui. Fiz acontecer, como tudo o que faço na minha vida. Seja no desporto ou na vida real. E essa mentalidade ganhei do meu tio Paulo. Mostrou-me tudo o que sei sobre ser atleta.
O seu tio era atleta?
Fez bodybuilding. Até hoje treina, treina, treina. Até nos mete vergonha a mim e ao meu primo. Eu também treino, mas ele...
Quantas vezes treina?
Eu treino uma vez por dia. Por acaso, agora estou numa fase de ganhar massa para fazer uma competição de bodybuilding no ano que vem. Depende da fase: se for para ganhar massa, treino uma vez por dia, cinco vezes por semana. Há uma coisa muito importante, que é ter dois dias de descanso. É uma coisa que digo a todos: o corpo precisa de descansar. Os músculos, para crescerem, precisam de descansar.
O ginásio é muito importante. Eu lembro-me que quando trabalhei na Nike eles diziam uma coisa muito interessante: "Se tens um corpo, és um atleta." Pode não ser para fazer desporto, ou para ir ao ginásio. Mas no dia a dia, nós mexemo-nos. Ser atleta não é só ser jogador profissional de futebol, lutador de wrestling ou bodybuilder. O velhinho que está na rua também é atleta, à sua maneira.
Lembra-se da primeira vez que viu wrestling?
Ao vivo, foi em 2012. Fui com o meu pai. Lembro-me que o John Cena entrou e o meu pai, que já tinha bebido umas cervejas, começou aos gritos: "John Cena! John Cena!". Fiquei cheio de vergonha.
Foi na O2 Arena, em Londres. Tenho um grande sonho de lutar lá, também no Madison Square Garden e ainda em Lisboa, no antigo Pavilhão Atlântico. Isso é uma coisa: quando estiver na WWE – não é "se" estiver, é "quando" – tenho de trazer a WWE para Portugal. O nosso país tem de fazer parte das "tours" europeias todos os anos, não é de cinco em cinco anos. Portugal tem de estar no mapa. Eu não percebo como é que nós temos uma capacidade tão grande para futebol, e para ter outros eventos, e a WWE não vem a Portugal sempre.
E como é que se entra na WWE?
Na WWE não há propriamente rankings. É mais construíres o teu nome. Nas redes sociais, nos "bookings", nas oportunidades que tens. Isso pode levar a "tryouts", televisão, media. Tudo conta. É tudo marketing e o valor que consegues trazer à marca.
Para mim, vir para a América foi começar do zero outra vez. Agora estou a voltar de uma lesão nas costas. Foi há dois anos, em Londres. Estava a levantar cerca de 650 libras [cerca de 300 quilos] e lesionei as costas. Espero voltar ao ringue até ao fim do ano, estou a fazer tudo o que tenho de fazer em termos de recuperação.
E tem algum limite temporal para entrar na WWE?
Estamos em 2026. O meu objetivo é assinar pela WWE em 2028. Não gosto de pensar no "e se". Já passei por isso no futebol. Para mim, isso foi o que mais me magoou psicologicamente. 2028, Mr. All Day, Ian Rosário. O primeiro português campeão da WWE.
Não vai acontecer logo, mas é continuar a puxar, puxar, puxar. Com mentalidade de campeão e nunca desistir, como o Cris. É o que eu digo sempre: o meu "goal" é ser o Cristiano Ronaldo da WWE. Não só como português. Em tudo o que faço, quero ser o maior de sempre. Quero ser o GOAT.
Tens 27 anos, ainda é uma boa idade para começar na WWE?
Ainda estou novo. Tenho 27 anos, vou fazer 28 este ano. Há muitos que assinam pela WWE aos 35 ou 36. Claro que eu gostava de já lá estar há dois ou três anos, mas tudo acontece por uma razão.
Ian, olhando para a seleção portuguesa: que jogador acha que seria um melhor lutador de wrestling?
Depois do que vi no jogo do Chile, o jogo de preparação, o Rafael Leão. Deu uma cacetada no homem... [risos]. Mas se calhar também o Bruno [Fernandes]. O Pepe já não está, senão... Mas como atleta, diria o Cristiano, tenho a certeza. Até porque sei que ele gosta de UFC. Ele ou o Rafael Leão.
Há muita gente que desvaloriza o wrestling, diz que é tudo a fingir. O que acha disso?
Acho que já fraturei uma costela, já tive uma fratura na coluna, lesões nos joelhos, rompi um bocadinho do joelho a lutar, fiz concussões... tudo.
Há muitas pessoas que dizem que não é verdadeiro. Mas eu respondo: quando vão ver um filme, ninguém pensa "ah, o Vin Diesel não está mesmo a levar porrada". Não, ninguém é assim tão hiper consciente. Pensam, "ai, ele levou um tiro". Toda a gente entra na história.
O que nós fazemos pode ter partes mais viradas para o espetáculo, claro. Mas nós, como atletas, fazemos coisas que não existem noutros desportos. Não é só lutar. Estamos a fazer um espetáculo. Temos de reagir ao público, mudar coisas na luta no momento.
Mas é coreografado?
Sim. Mas há muitas decisões que temos de tomar na hora. Se alguém acha que é falso, o meu conselho é que experimente. Em Portugal já há escolas em Queluz, na Ajuda, em Lisboa, no Algarve e no Porto. Vão lá, e levem um "bump".
Ian, de onde vem o seu nome artístico, Mr. All Day?
O meu "nickname", Mr. All Day, veio do facto de eu nunca parar. Quando estava na escola secundária, mesmo depois das operações, dois dias depois já estava no ginásio, com a perna toda protegida. Nunca paro. Para mim, tem de se ter mentalidade de campeão.
Os meus dois ídolos sempre foram o Cristiano Ronaldo e o Kobe Bryant. O Kobe tinha a "Mamba Mentality". O Cristiano também tem essa mentalidade. Os sacrifícios que os meus pais, os meus tios e os meus avós fizeram... eu sinto o peso da minha família nos meus ombros. Sou filho único, quero mudar a vida deles.
É isso que é o Mr. All Day. Nunca parar.











