Seleção Nacional
Cala-se a música, termina a última dança. As seis histórias de Cristiano Ronaldo em Mundiais
06 jul, 2026 - 23:14 • Inês Braga Sampaio
Acabou a história do capitão da seleção nacional em Campeonatos do Mundo. Sai com história feita, 11 golos em seis edições e uma última dança fora do tempo.
Termina a última dança de Cristiano Ronaldo em Mundiais, depois da eliminação diante da Espanha, por 1-0, esta segunda-feira. Vale, pois, recordar as participações de CR7 em Campeonatos do Mundo.
São seis Mundiais, de 2006 a 2026, com cinco treinadores diferentes. Só repetiu Fernando Santos, que orientou a seleção nacional na Rússia e no Qatar.
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A história de Ronaldo no Campeonato do Mundo não goza do mesmo sucesso que a dos Europeus — mesmo não contando com a vitória em 2016, as jornadas europeias da seleção portuguesa, desde a estreia do avançado, tendem a durar mais tempo.
No fim, Cristiano despede-se com 11 golos, um só na fase a eliminar, e tornou-se o jogador mais velho a marcar num Mundial e o único a marcar em seis edições.
Mundial 2006
Até hoje, o melhor Mundial de Cristiano Ronaldo foi o primeiro.
Inserido no Grupo D, Portugal tinha como adversários Angola, Irão e México.
A equipa das "quinas" venceu os três jogos: primeiro com os angolanos, por 1-0, golo de Pedro Pauleta; depois, derrotou os iranianos, por 2-0, golos de Deco e de Cristiano Ronaldo (grande penalidade), que tinha conquistado a titularidade dois anos antes, no Euro 2004, em que Portugal chegara à final; e terminou com um triunfo por 2-1 sobre os mexicanos, construído com golos de Maniche e Simão Sabrosa.
Seguiu-se, nos oitavos de final, o jogo que ficaria conhecido como a “Batalha de Nuremberga”. Ainda hoje é o encontro de um Mundial com mais cartões exibidos nos 90 minutos: foram 16 amarelos e quatro vermelhos. Ronaldo não foi admoestado.
Nos “quartos”, mais um reencontro de dois anos antes. Portugal e Inglaterra não desataram o nó e o nulo durou até ao desempate por grandes penalidades. Ricardo voltou a ser herói, tendo defendido os remates de Frank Lampard, Paul Scholes e Jamie Carragher, e Cristiano Ronaldo converteu o penálti decisivo.
Nas meias-finais, os portugueses foram mais perigosos, remataram mais, fizeram mais remates enquadrados com a baliza, no entanto, não conseguiram bater Fabien Barthez. Marcou a França, pelos pés de Zinédine Zidane, a castigar grande penalidade cometida por Ricardo Carvalho, que tão bem estivera até aí.
Portugal seguiu para o jogo de atribuição do terceiro lugar. Todavia, perdeu por 3-1 com a anfitriã Alemanha e não conseguiu igualar a prestação de 1966. Ficou na quarta posição.
Mundial 2010
Cristiano Ronaldo já era jogador do Real Madrid quando pisou os relvados da África do Sul, mas vinha de uma onda de lesões. Não estava no seu melhor momento — a "explosão" no Santiago Bernabéu viria apenas na época seguinte, com José Mourinho no banco dos "merengues" e o número 7, outrora de Raúl González, às costas.
Na seleção, o treinador era Carlos Queiroz. A relação entre CR7 e o selecionador começou bonita, ainda no Manchester United, quando Queiroz era adjunto de Alex Ferguson, mas terminou de forma azeda. Já lá vamos, no entanto.
Por agora, a fase de grupos, que começou com um nulo frente à Costa do Marfim. Depois, a goleada por 7-0 à Coreia do Norte: marcaram Raul Meireles, Simão, Hugo Almeida, Tiago, Liédson e, mesmo a fechar, Cristiano. Um lance um tanto quanto caricato, mas já dizia Dadá Maravilha: "Não existe golo feio, feio é não fazer golo."
Apesar do "ketchup" de golos diante da Coreia do Norte — foi precisamente neste Mundial que Ronaldo celebrizou a frase "os golos são com o ketchup", ainda antes da estreia —, Portugal ficou em branco nos restantes jogos. Inclusive no nulo diante do Brasil, na última jornada da fase de grupos, que deixou a equipa em segundo lugar.
O segundo posto importa, porque ditou um cruzamento com a Espanha logo nos oitavos de final. E num jogo muito fechado, e apesar das muitas defesas de Eduardo, foram os espanhóis a vencer, por 1-0, com um golo de David Villa.
Voltamos ao azedume. A meio do jogo, Ronaldo foi "apanhado" a debater com Queiroz. No final, quando os jornalistas lhe perguntaram como explicava a eliminação da seleção, o capitão respondeu: "Falem com o Carlos Queiroz."
Assim terminou a segunda passagem do treinador, que em 1994 falhara o apuramento para o primeiro Mundial nos Estados Unidos, na seleção.
Mundial 2014
Novo selecionador, agora Paulo Bento, que levara Portugal às meias-finais do Euro 2012, e outra vez Cristiano Ronaldo com dificuldades físicas. O capitão chegou ao Brasil com problemas no joelho direito e jogou sempre com essa zona ligada.
As limitações físicas de Cristiano eram prenúncio de um Mundial muito negativo para a seleção portuguesa: começou com uma goleada por 4-0 imposta pela Alemanha, com expulsão de Pepe à mistura, e continuou com um empate por 2-2 com os Estados Unidos (marcaram Nani e Silvestre Varela pela equipa das "quinas").
Na última jornada, não valeu de nada a vitória sobre o Gana, por 2-1, com autogolo de Boye e um golo de Cristiano Ronaldo, que voltou a só festejar uma vez.
Portugal caiu na fase de grupos, com quatro pontos e sem glória, atrás dos EUA.
Mundial 2018
Portugal chegava à Rússia como campeão da Europa. O primeiro jogo foi um "thriller" e talvez o melhor de Cristiano Ronaldo em Mundiais.
De saída do Real Madrid, o capitão assinou um "hat-trick" frente à Espanha, um dos golos de livre direto, e anulou o bis de Diego Costa e o golo de Nacho: 3-3.
Ronaldo voltou a estar em evidência diante de Marrocos, ao fazer o único golo da vitória por 1-0. No terceiro jogo, no reencontro com Carlos Queiroz, foi Ricardo Quaresma a resolver, de trivela, porém, o Irão empatou já nos descontos, para o 1-1.
Nos oitavos de final, apesar da expectativa gerada, Portugal esbarrou no Uruguai. Cavani bisou e, apesar do golo de Pepe, a equipa das quinas disse adeus (2-1).
Apesar da despedida precoce, foi o melhor Campeonato do Mundo da carreira de Cristiano Ronaldo em termos de números: marcou quatro golos.
Mundial 2022
Ainda com Fernando Santos, o único repetente da carreira de Cristiano Ronaldo, Portugal reencontrou Gana e Uruguai, mas desta vez seguiu em frente.
Começou com um golo de penálti do capitão, a que se acrescentaram João Félix e Rafael Leão, no triunfo por 3-2 sobre o Gana. Portugal selou o apuramento frente ao Uruguai (2-0), com bis de Bruno Fernandes. À terceira jornada, chegou a polémica.
Ricardo Horta adiantou Portugal perante a Coreia do Sul, contudo, os asiáticos empataram. Com o jogo igualado, Fernando Santos decidiu substituir Cristiano Ronaldo e o capitão levou a mal. Pelos movimentos labiais, foi percetível que disse "estás com muita pressa para me tirar", juntamente com dois palavrões.
Mais tarde, Cristiano desmentiu, argumentando que as palavras eram para um jogador sul-coreano, mas cedo se percebeu que não era verdade. O selecionador nacional também percebeu: "Já vi as imagens e não gostei nada, mesmo nada."
No jogo seguinte, nos oitavos de final, com a Suíça, Cristiano Ronaldo foi suplente. O seu substituto, Gonçalo Ramos, correspondeu e foi decisivo com um "hat-trick".
O ponta de lança, agora, do AC Milan (então no Benfica), voltou a ser titular com Marrocos, mas já não conseguiu fazer a diferença. Nem conseguiu Ronaldo, que entrou aos 51 minutos, e os marroquinos venceram por 1-0 e eliminaram Portugal.
Mundial 2026
A última dança de Cristiano Ronaldo em Campeonatos do Mundo.
Se no Qatar já se discutia a sua titularidade, nas Américas a discussão sobre o estatuto de indiscutível do capitão tornou-se ensurdecedora. As explicações de Roberto Martínez, tantas vezes vago nas suas ideias, e as exibições de Ronaldo, um corpo estranho nas movimentações da equipa, não ajudaram a acalmar o debate.
Começou com o empate a um golo (João Neves) com a República Democrática do Congo, em que CR7 foi uma pedra no sapato da seleção portuguesa, que por si só rubricou uma prestação infeliz. A goleada (5-0) ao Uzbequistão, a equipa mais fraca do grupo, com bis do capitão, aliviou as críticas, porém, o nulo com a Colômbia voltou a expor as debilidades da equipa das quinas e, em especial, do "9" Cristiano.
Veio então a Croácia, nos 16 avos de final, e Ronaldo, que já vira um grande golo invalidado por fora de jogo, anulou de penálti o golo inaugural do adversário. Até que entrou Gonçalo Ramos, esse nome que nos últimos quatro anos ensombrou o do capitão nas fichas de jogo, e cabeceou para o golo da vitória portuguesa.
Por fim, a Espanha. Na antevisão do jogo dos oitavos de final, numa resposta em espanhol, Cristiano Ronaldo confirmou que este seria o seu último Mundial.
"Oxalá amanhã não seja o meu último jogo", comentou o capitão, que disparou contra a imprensa e ainda revelou que tinha um "feeling" de que Portugal venceria.
"Não estou assim tão mal", referiu também o avançado, nessa conferência de imprensa, com um sorriso. Frente à Espanha, não apareceu.
As três observações caíram por terra. Portugal perdeu por 1-0, com um golo já nos descontos, o que fez deste o último jogo de Ronaldo em Campeonatos do Mundo.












