Mundial 2026

Portugal-Espanha, a crónica: acabou o Mundial do travão de mão, o futebolista português pede mais

06 jul, 2026 - 23:35 • Hugo Tavares da Silva

Um golo aos 90+1' de Mikel Merino empurrou para fora do Mundial a seleção portuguesa, nos oitavos de final, e cancelou o sonho de uma geração especial que vive abaixo das suas possibilidades. Seis Campeonatos do Mundo depois, Ronaldo disse adeus em lágrimas.

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O futebol moderno, como se diz, inaugurou algumas tragédias. A música alta nos estádios, os clientes em vez dos adeptos apaixonados pelos jogadores e pelo jogo, os influencers que se aproveitam do negócio, as cinco substituições, os preços exorbitantes, as pausas para hidratação ou publicidade ou lá o que é e até a degradante e torpe influência do poder político. Mas também trouxe uma espécie de sortilégio: a aversão ao caos, à tentativa que saliva, ao cruzamento, à luta por uma segunda bola, ao remate. À transferência do sentimento do adepto para o campo. O cérebro como ditador, ditando a dor lancinante das impotentes e inúteis testemunhas.

OK, OK, já sabemos, o futebol é outra coisa, há um plano, há que tentar ir por ali e depois por ali, nós não entramos no ‘cruzaball’ porque isso está mal visto nas redes sociais, por isso jamais teremos extremos a jogar com o pé certo e não com o pé trocado. Mas Portugal acabou o jogo com a Espanha a trocar a bola em vez de tentar chegar à baliza de Unai Simón, que ainda não sofreu qualquer golo neste Campeonato do Mundo, uma competição que agora acaba precocemente para os portugueses, nos oitavos de final. Não nos enganemos: ninguém quer mais ganhar o jogo do que os que andam lá dentro.

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Mikel Merino fez o golo depois dos 90, assinando o adeus lavado em lágrimas de Cristiano Ronaldo ao torneio dos torneios (um golo de penálti em 10 jogos a eliminar e colocando os espanhóis nos quartos de final do Mundial pela primeira vez desde 2010, quando ganharam o título (e também eliminaram Portugal nos oitavos; David Villa). Este dado nega a tese de bicho papão sempre associada à rapaziada da terra de Cervantes.

O que o futebol, velhinho ou moderno, conhece há muito e é mui obediente é perante a lei do estatuto. Cristiano Ronaldo tocou 19 vezes na bola, conduziu-a seis vezes num total de 31,5 metros. Rematou três vezes sem perigo. Completou sete dos nove passes tentados no meio-campo rival. Se não morde e defende como fazem os que não contribuem com jogo e ideias, porque não pode ser substituído o capitão da seleção? Às tantas soou à teimosia de Ancelotti com Neymar ou a outra coisa pior...

Aqui a questão não é beliscar o profissionalismo ou o aparente ego desmedido do jogador, mas sim procurar entender porque não há a intenção de dar algo diferente à equipa. Se um treinador ou uma equipa estão reféns de alguém, estão a competir realmente? Se Gonçalo Ramos, Éder, Paulinho, Edinho, Postiga, Hugo Almeida e Liedson se tivessem exibido a um nível vulgar, sem oferecerem bolas aos colegas ou corridas utéis, seriam substituídos ou não? Ser exigente com Cristiano Ronaldo é respeitar a lenda, toda a reverência cega castiga a lenda.

Em Dallas, a Espanha foi Espanha, como sempre tentou ser apesar do desconforto gerado pela teia portuguesa. Fabián Ruiz encontrou Rodri (dono do jogo, que tocou para Ferran Torres à entrada da área. Com dois toques, tac-tac, isolou Merino. A canhota do futebolista do Arsenal superou a mancha de Diogo Costa, provavelmente o melhor jogador de Portugal no Mundial, o que diz coisas sobre a prestação da seleção nacional nos Estados Unidos e no Canadá.

Com João Félix por Rafael Leão no 11, Portugal entrou com a mentalidade certa. Tentou discutir a bola, mostrou os dentes, mordeu, não dançou demasiado perante a troca de bola alheia, apesar de alguns arrastamentos que anunciavam catástrofes. A Espanha teve sempre mais veneno e encolhia os ombros perante fundamentalismos, era vertical quando o mapa pedia. Oyarzabal surgiu isolado, logo aos 8’, e a bota desafinada deu mais uma vida a Portugal. Dani Olmo, um vagabundo ameaçador, descobriu o avançado da Real Sociedad.

Lamine também tentou, bloqueado por Renato Veiga. Diogo Costa parou duas bolas na mesma jogada, primeiro Yamal e depois Baena. E outra vez quando Pedri meteu na área e Cubarsí ameaçou chegar lá, valeu Diogo Costa. Na recarga, Olmo atirou ao lado.

O jogo de espelhos foi interessante, as vigilâncias e os arrastamentos, a forma de defender este jogo que foi bloqueando as intenções feiticeiras de Pedri, substituído aos 85’. As travessuras mais esperadas viviam nas botas de Lamine Yamal. E o rapaz viveu outra vez uma película de terror perante Nuno Mendes, que foi secando o criativo do Barça e também Pedro Porro. Convém dizer que João Félix foi muitíssimo generoso e comprometido a defender e com a bola foi excelso (infelizmente, longe da baliza). Especial. Ter saído, a não ser que estivesse esgotado fisicamente, é incompreensível.

Nuno Mendes ia-se assumindo como o MVP do lado português. Encontrava linhas de passe por dentro, ganhava duelos, corria com a bola, resolvia problemas, secou o corredor direito espanhol (que não levou amarelos molhando a sopa várias vezes) e, aos 41’, disparou uma bala à trave, beneficiando de um desvio em Porro. O lateral do PSG, que seria substituído aos 56’ tocado (e superado apenas uma vez por Lamine Yamal), marcou na final da Liga das Nações contra a Espanha, que ia sofrendo em certos momentos sem bola nesta noite em Dallas.

Vitinha e João Neves revelavam mais dinâmica e fluidez do que vinham apresentando até aqui. Bruno Fernandes continuou, estranhamente, a parecer um corpo apagado na equipa (e cumpriu os 90'...). Roberto Martínez falaria, no final, “no jogo mais completo” da seleção no torneio, certamente pouco impressionado pelo Mundial que não contava na fase de grupos – RD Congo, Uzbequistão e Colômbia – e depois, menos mal, com a Croácia, nos 16 avos de final, com quem Diogo Costa encheu a baliza.

O problema é que não havia corridas para ameaçar as costas dos espanhóis, nem através do monocórdico e inconsequente Pedro Neto, nem de Cristiano Ronaldo, que já não tem capacidade física. Nem os laterais se soltaram como delinquentes olvidados das regras no manual.

Javier Bardem estava na bancada, apreensivo, e tilintava na mente o filme “Biutiful”, um adjetivo que assenta muito bem no futebol de Dani Olmo. É um vagabundo à procura da bola certa, do timing, anda ali de pantufas. É um 10 silencioso à espera da luz do dia para esticar os tentáculos gloriosos. Parecia que a resposta, o clique, para o jogo da equipa de Luis de la Fuente, um “admirador do futebol português”, estava ali.

O jogo nunca esteve muito amarrado. Houve muita troca de bola mas também muita precipitação, muita mudança nas posses de bolas, nas vontades da bola. A pressão de Portugal obrigou Unai a bater uma e outra vez, valendo depois a agressividade de Veiga e Rúben Dias. Pepe, Deco e Nuno Gomes, herói no Euro 2004 contra esta mesma gente, estavam na bancada, quem sabe orgulhosos, quem sabe preocupados.

Apesar dos bons momentos de Portugal, como o remate de Bruno Fernandes à malha lateral, havia outra sintonia e consistência no jogo dos espanhóis. Como se jogassem sempre na mesma cadência, como que sabendo ao que jogavam sempre, fosse possível ou não.

Quando já toda a gente imaginava o prolongamento, já com Bernardo Silva (perto do empate nos descontos, de cabeça) e Francisco Conceição em campo (por Vitinha – outra vez!? – e Pedro Neto), Ferran Torres descobriu Merino e aquela canhota reservou um voo de regresso para Portugal a uma geração que prometeu o céu e não esteve sequer perto de morder a prata em grandes competições

Que depois do jogo contra a Croácia, com um golo maravilhoso de cabeça, Gonçalo Ramos não tenha minutos neste jogo é perturbante. O reforço do AC Milan, um homem com quatro golos em mata-mata neste torneio, fez 35 minutos no Mundial. Também Francisco Trincão e Gonçalo Guedes ficaram a ver do lado errado do cal enquanto Portugal caía em agonia.

Em agonia caminha também para o fim ou para o cruzamento do quase fim com o fim esta fantástica geração de futebolistas. Roberto Martínez foi escolhido talvez pelo trabalho na seleção belga, que alcançou o pódio mundialista em 2018 e acabou nas profundezas do inferno ardente da turbulência que pode viver um grupo. Portugal ainda não sabe qual é a sua identidade, sabe apenas donde vem e que tem um futebolista de alto gabarito. Talvez o próximo casting para selecionador nacional seja surpreendente. Talvez o batimento cardíaco, no futuro, toque outra melodia para o que vem aí.

Até aqui, tivemos protocolos, burocracia e regras. Vale a pena ouvir Bruno Fernandes, mais vítima do que vilão certamente: "Temos de jogar ao nosso modo e fazer com que as equipas nos respeitem mais".

Mais futebol, menos travão de mão.

Certo?

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