FC Porto
Jorge Costa. O muro que inspirava a cidade e que em miúdo achou que não podia jogar no FC Porto
05 ago, 2025 - 17:40 • Hugo Tavares da Silva
Histórico capitão do FC Porto, apaixonado por voleibol e filho de uma infância feliz com a bicicleta e a bola de futebol debaixo do braço, morreu aos 53 anos.
Foi Fernando Couto quem lhe começou a chamar “bicho”. Era assim que quase todos os antigos companheiros e amigos de Jorge Costa o tratavam. Não era gentil a jogar, nunca perdeu tempo com burocracias macias com os avançados, homens que tentava distrair com perguntas pessoais durante o jogo e assim levá-los ao anonimato. Era um muro que inspirava uma cidade inteira, apesar da timidez dissimulada pelo jogo. Era um daqueles de quem se gosta de dizer “é um jogador à Porto”. E ganhou tudo.
Filho de costureira e vendedor de material de construção, Jorge Costa teve no voleibol a primeira paixão. Foi um atropelamento que o impediu de se estrear pelo Fluvial, quando tinha 13, 14 anos. Em entrevista à “Tribuna Expresso”, definiu esse momento como a sua “sorte”.
É que a perda de mobilidade na clavícula esquerda obrigou-o a deixar o voleibol. Depois, piscou o olho ao futebol, modalidade a que se entregou em exclusividade. Foi selecionado para jogar no Boavista, ideia que abandonou quando os amigos não ficaram nas captações. Ir sozinho para os treinos não era sedutor. Seguiu-se o FC Foz, onde semeou charme (ou segurança) como central com o 10 nas costas. O FC Porto nunca esteve no radar, pois era longe e… era o FC Porto, ou seja, seria sempre difícil convencer aquela gente.
Bastou um ano para convencer os cartolas e os olheiros azuis e brancos. O clube das Antas ganhou a corrida a Leixões e Boavista. Afinal, um portista só quer jogar no seu FC Porto. E assim foi, embelezando ainda mais a sua feliz infância no Bairro da Previdência, na Pasteleira, onde andava sempre com a sua bicicleta e a bola debaixo do braço.
Aquele seu jeito implacável de defender deu-lhe o direito a jogar 383 vezes no clube do coração. Não é difícil imaginar como se sentiu um miúdo de 15 anos ao ver os seus a superar os gigantes de Munique e a triunfar na Taça dos Campeões Europeus.
Os livros de história do FC Porto coram quando pensam nele. Foi o capitão do penta e da mão esticada com cinco dedos empertigados, algo único no futebol português. Venceu oito ligas portuguesas, mais cinco Taças de Portugal e outras tantas Supertaças.
O céu foi olhado nos olhos em 2004, quando levantou o troféu da Liga dos Campeões ao lado de Vítor Baía e, poucos meses depois, empurrou para as nuvens também a de campeão do mundo, na dramática final da Intercontinental contra o Once Caldas. A braçadeira de capitão assentou-lhe tão bem como areia descansa na praia, apesar de se confessar envergonhado.
Em 2019, José Mourinho fez talvez o maior elogio que Jorge Costa ouviu. “Tive capitães que não eram líderes. Tive um no FC Porto, o Jorge Costa, que, num jogo com o Belenenses, que perdíamos 0-2 ao intervalo, me disse 'espera dois minutos fora do balneário, por favor'.”
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Mourinho estava furioso, fumegava como fumegam os delirantes vencedores que querem mais e recusam a mediocridade. “O Jorge Costa entrou no balneário, fechou a porta e fez o trabalho sujo por mim. Depois, abriu a porta e disse 'dê-nos instruções'. Ele fez tudo o que eu faria. Ganhámos 3-2.” Jorge Costa, quem sabe inspirado no miúdo que vestia a 10 no FC Foz, fez dois golos.
E Mourinho acrescentou: “Há os capitães e há os líderes e os líderes não se compram nem se formam. Quando os tens, a tua equipa está um passo à frente”, assim elogiou Jorge Costa, também vencedor da Taça UEFA em 2003.
Na tal entrevista à “Tribuna Expresso”, Jorge Costa refletiu sobre essa virtude tão singular. “A liderança é algo natural, ou és líder ou não és líder. Hoje até há cursos e há seguramente técnicas de liderança, mas na altura não havia nada disso. Mas, mesmo com esses cursos, podes melhorar mas não és um líder nato. Ou és ou não és. Acho que as coisas comigo foram naturais.”
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E continuou: “Quando o João [Pinto] abandona a sua carreira desportiva, eu passo para capitão, havendo jogadores com mais anos de casa do que eu. O Aloísio, por exemplo, ou o Domingos. E por algum motivo decidiram que eu é que devia ser o capitão. Claro que foi um orgulho, mas nunca me senti naquele Porto o capitão, porque sempre tive o apoio de vários jogadores. Não era um líder isolado, tive um apoio sempre de todos, do Vítor Baía, do Paulinho [Santos], do Rui Jorge, de tantos, que era fácil a minha tarefa”.
Os novatos que chegavam àquele balneário que bufava por vitórias sentiram o peso do olhar perfurante do “bicho” quando os mais ilustres e batidos, como os que mencionou em cima, lhes indicavam para se sentarem no lugar do capitão no autocarro. São coisas de balneário que definem a saúde de um grupo, e que ajudam a definir hierarquias e respeitinhos.
"Não queria sair do FC Porto"
Nem tudo foram rosas no percurso do lendário central do FC Porto, um edifício com 188 centímetros e com vontades que pareciam de betão no lugar dos músculos. Houve a tal cabeçada que levou de George Weah, em 1996, depois de o defesa partir o dedo ao avançado da Libéria, após pisadela que disse ter sido acidental.
No segundo jogo desta fase de grupos da Champions, nas Antas e já depois de uma vitória em San Siro, nos festejos da passagem à fase seguinte, Weah atacou o jogador português no túnel com uma cabeçada e partiu-lhe o nariz, acabando por cair desamparado. Jorge Costa falou, muitos anos depois, numa cobardia que nunca esqueceria.
Certa vez, em 2001/02, os dragões empatavam em casa com o Vitória de Setúbal e Octávio Machado decidiu retirá-lo em cima do intervalo. Jorge Costa não gostou e também ele ficou a fumegar. E a braçadeira voou…
“Olho e vejo a placa 2, penso que são dois minutos de compensação”, recordou numa entrevista ao Porto Canal. “Acho que era caso para esperar, tirar-me ao intervalo, ter alguma conversa, se entendesse que devia dar uma explicação. Se houvesse reação da minha parte, seria no balneário. Não poderia sair contente. Estávamos empatados em casa, não estávamos a jogar nada, a um minuto do intervalo…”
O antigo internacional português revelou que passou a braçadeira para Capucho mas que esta caiu. “Não queria sair, estava revoltado com a substituição”, desabafou, confessando que foi provocado. Octávio Machado exigiu um pedido de desculpas, ele não acatou a indicação. “O meu orgulho falou mais alto.” E assim foi decretada a sua saída do clube.
Seguiu-se um empréstimo ao modesto Charlton (só podemos imaginar o desgosto de jogar de vermelho...). Um ano depois, os ingleses quiseram comprar o passe em definitivo, mas José Mourinho, acabadinho de chegar às Antas, não permitiu. O desenlace da história foi o que vimos alguns parágrafos acima.
“Não queria sair do FC Porto”, revelou ainda nessa entrevista ao Porto Canal. “Nunca quis. Não era o dinheiro que me movia, não tinha espírito de emigrante. Só voltei porque era o FC Porto e porque tive uma conversa muito séria com o Mourinho. Não houve promessas de que vinha para jogar, mas tivemos uma conversa muito séria.”
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As sociedades, os números e a vida de mister
Só numa temporada da sua vida não esteve ligado contratualmente ao FC Porto. Foi na derradeira da carreira, em 2005/06, quando representou o Standard Liège, ao lado de Sérgio Conceição. Foi aí que pendurou as botas. Antes, sempre emprestado pelos dragões, jogou no Penafiel, no Marítimo e no Charlton, no tal castigo institucional que quase lhe roubou a glória eterna.
Para o imaginário portista ficarão sempre aquelas sociedades na defesa com Aloísio, Fernando Couto e Ricardo Carvalho. É engraçado que um rapazinho que tinha como ídolos Fernando Gomes e Rabat Madjer se tenha convertido num dos defesas mais respeitados e temidos no futebol português, pelo carisma, mas também pelas entradas que roçavam o limite da legalidade, como reconheceria mais tarde, embora algumas tenham realmente galgado essa fronteira. Também a forma intempestiva como reclamava com os árbitros fica na lembrança.
Este senhor, nascido na Foz em outubro de 1971, foi também protagonista na seleção nacional. Primeiro, nas camadas jovens, onde atuou em 42 ocasiões. Foi campeão do mundo em sub-20 em 1991, no Estádio da Luz, contra o Brasil. Depois, na seleção A, na qual disputou 50 jogos, alguns deles no Euro 2000 e no Mundial 2002.
A carreira de treinador foi mais inusitada e com destinos improváveis, nunca chegando ao que se imaginava ser a sua cadeira de sonho. Começou após pendurar as botas, como adjunto do Sp. Braga, ao lado de Rogério Gonçalves. Assumiu o cargo de treinador principal pouco depois. E daí viveu experiências em clubes como Olhanense, Académica, Paços de Ferreira, Arouca, Farense, Académico Viseu e, mais recentemente, em 2023/24, no AFS.
O mítico defesa do FC Porto também andou lá por fora como mister. Cluj e Gaz Metan, na Roménia, AEL Limassol e Anorthosis, em Chipre, Tours, em França, Mumbai City, na Índia, e no Gabão, como selecionador nacional.
Inesperadamente, até pela ligação a Pinto da Costa e às entranhas do FC Porto de Pinto da Costa, Jorge Costa juntou-se a André Villas-Boas na candidatura para a presidência do clube. Com a vitória retumbante de AVB nas urnas, em abril de 2024, Jorge Costa regressou finalmente ao seu FC Porto, onde nunca acreditou que um rapazito da Foz poderia chegar na infância.
Chegou para diretor de futebol das equipas profissionais e manteve-se afastado dos holofotes. Esta terça-feira, depois de um direto para um canal de desporto, sentiu-se mal, o coração tropeçou nos batimentos e interrompeu assim o seu contributo na reconstrução do FC Porto. O que vem aí será, certamente, em sua honra.













