Análise Porto campeão
Porque é que o FC Porto foi campeão sem espinhas? Eu explico
03 mai, 2026 - 10:05 • Francisco Guimarães*
O comentador Bola Branca Francisco Guimarães analisa o triunfo do FC Porto na Liga pela 31ª vez, avalia os papéis de Villas-Boas e Francesco Farioli e define os protagonistas maiores da temporada. E deixa uma nota final, pois a ética ainda conta no desporto.
“Podemos estar perante o maior mercado de sempre do FC Porto”
Depois de uma época desportivamente falhada com Vítor Bruno e Anselmi, que serviu apenas para apanhar os cacos financeiros do clube e fazer cimento (“falhar, falhar de novo, falhar melhor”), André Villas-Boas elevou a fasquia num ‘drop the mic’ executado na perfeição.
Mas o que é isto do melhor mercado?, perguntou o povo. Confrontados com tamanha autoconfiança, muita gente – da comunicação social à população mais cética – duvidou, questionou e pôs em causa estas declarações, em perguntas que mais tarde se dissiparam pela evidência da profecia. O melhor mercado é o melhor mercado. Ponto final. E assim foi.
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Contudo, aquele dia não anunciara jogadores novos. Ainda não havia equipa, o Porto ainda não era uma equipa, por muito que o semblante de André Villas-Boas augurasse um futuro auspicioso no recomeço do seu projeto.
Escusado será dizer que a margem de erro era mínima. Villas-Boas sabia que falhar era a morte. E para não falhar tinha mesmo de contratar um treinador que reerguesse, seja lá o que isso for, o espírito Porto, restabelecendo a competitividade do clube e o sentimento de união entre os adeptos, a cidade, os jogadores e a estrutura, numa espécie de osmose febril do tudo contra todos.
O treinador é hoje o protagonista principal dos projetos desportivos, e a confiança galharda que emanava do presidente não se vislumbrava nos cabecilhas escolhidos para orientar a equipa na época anterior. Vítor Bruno era Vítor Bruno, não sei dizer melhor. Talvez durma hoje sereno no aplauso da sua consciência. Anselmi, que prometera muito, cometeu depois um pecado capital: abandonou as suas próprias ideias e convicções ao primeiro sobressalto. E Jesus, como se sabe, nunca largou a cruz, nem ao terceiro tombo.
Por isso, dadas as circunstâncias, o Porto precisava urgentemente de um líder que ousasse não abandonar-se a si próprio. E foi nesse mesmo dia em que escolheu Francesco Farioli que André Villas-Boas começou a ganhar este título de campeão nacional. Se a 6 de julho o presidente era um homem solteiro, à procura de quem estendesse o anelar para a aliança, no dia 7 ajoelhou-se diante do seu prometido. Só se ganha no fim, é certo, mas a vitória tem hora de início, mesmo quando paira o nevoeiro.
Farioli foi o inverso de Anselmi. Anselmi arrancara a sua própria espinha dorsal, separando-a do corpo. Farioli, um filósofo convicto, filho futebolístico de De Zerbi, percebera desde muito cedo que isso não poderia acontecer. Leu a bíblia portista, e foi com as escrituras na ponta da língua que montou uma equipa cujo espírito competitivo se tornou inimitável, composta por personalidades que, antes de serem talentosos – e são –, eram gigantes na arte exigente de não querer perder.
Chamou para a equipa jogadores-rebarbadoras (Froholdt, Gabri, Bednarek, Pepê, Pablo Rosário), jovens cheios de fome (a média de idades do Porto é abaixo da média), e assim nasceu e morreu (ressuscitando sempre) com as suas ideias orgulhosamente empunhadas.
O maior exemplo do que falo é o mercado de janeiro, em que o Porto contratou Pietuszewski, Thiago Silva, Fofana e Moffi (este com menor importância. Aliás, o Porto sobrevive sem ter, no fim da temporada, um avançado de referência).
Numa quebra de forma digna de assustar os mais trémulos, o Porto abriu o peito e mostrou o coração. Ganhava sem brilho, ao contrário do início da temporada, mas não perdia, não sofria, lutava como só as equipas de Conceição souberam fazer em anos difíceis. Farioli e Villas-Boas ressuscitaram esse ADN.
Há clubes que procuram planos B e C. O Porto, por ter Farioli ao volante, decidiu reforçar apenas o plano A. E a equipa reencontrou-se, mesmo diante de um calendário sufocado por três competições e jogos uns em cima dos outros. O Sporting, neste mês, claudicou, e já caminhava coxo por falta de soluções. E o Benfica andou a navegar demasiado tempo à vista para ser considerado, de facto, candidato ao título.
Há mais três aspetos fundamentais neste título. O primeiro deriva do que escrevi acima. O Porto conseguiu fazer quase duas equipas, Farioli chegou a desenhar onzes quase totalmente distintos de um jogo para o outro (havia o da Liga e o da Liga Europa), e com isso não perdia identidade e calava aqueles que acusavam Farioli (por causa da sua experiência no Ajax) de não saber gerir a equipa. Esses críticos, e Varandas, ainda espumaram de esperança no mês de dezembro, mas sem efeito.
O segundo aspeto é a linha defensiva, principalmente os defesas centrais. Há muito que o Porto perdera as referências do centro do terreno. Bednarek e Kiwior (além da entrada de Thiago Silva) fizeram lembrar Pepe e Militão, por exemplo. E foram muitos os jogos em que essas estátuas mantiveram a equipa inamovível no primeiro lugar.
O terceiro é Froholdt. Os melhores momentos da temporada coincidiram com os melhores momentos de forma do dinamarquês e os piores momentos da temporada coincidiram também com os momentos em que não esteve ao seu nível. Se Farioli é Villas-Boas no banco, Froholdt é Farioli em campo. E, por isso, o plantel é para mim a figura da temporada.
Fica apenas o sabor amargo de ter perdido outras competições em que era favorito, como a Taça de Portugal e a Liga Europa. Ainda assim, o Porto, para renascer das cinzas, precisava mesmo de ganhar este campeonato. Assim sendo, tudo o que pudesse servir de entrave à vitória final, era posto de parte. Resta saber que efeitos terá tão desejado regresso aos títulos da equipa que mais ganhou em Portugal desde que vivemos em democracia.
Ps: sendo o desporto em geral, e o futebol em particular, a atividade contemporânea onde o ser humano melhor pode expressar a sua inteireza, não sou capaz de ignorar, neste meu texto, as atitudes indignas, a má conduta e os passos errantes de alguns elementos do Futebol Clube do Porto, encabeçados pelo seu presidente, André Villas-Boas, que orgulhosamente caminhou sobre essas águas turbulentas.
É-me manifestamente impossível separar o sucesso desportivo da moral humana. Sou da escola de Camus, e acredito que na vitória habita a ética. Não deixo, por isso, de manifestar a minha indignação diante destes comportamentos que, a meu ver, mancharam uma conquista que, desportivamente, foi justíssima e meritória. Diria até sem espinhas. Não foram certamente esses comportamentos constantes que fizeram do Porto uma equipa vencedora. O Porto ganha apesar disso e não por causa disso.
*Francisco Guimarães é comentador de futebol na Renascença












